Vinter över dig
2 Pombos
Não gosto de fazer rodeios ao me apresentar.
Meu nome é Madeline LeClarc Pigeon.
Atualmente tenho 16 anos.
Nasci em Bruxelas, na Bélgica, onde se fala francês, holandês e alemão. “Pigeon” em francês é pombo, e eu devo ter sido zoada um pouco por causa disso, tipo, umas mil vezes.
Madeline é uma pomba. Há há.
Meu pai tinha um emprego legal e sustentava todo mundo dentro de casa, até sofrer o seu primeiro infarto. Eu tinha acabado de ganhar meu primeiro prêmio de Matemática do colégio quando minha mãe me ligou, chorando como uma condenada.
Você já teve algum daqueles momentos de felicidade fugaz, tão pessoais e secretos que parecem ser uma infração ao Destino? E então o universo vem e causa algum problema na sua vida, como que para compensar o fato de você ter cruzado a fronteira de trabalho-recompensa, ter conseguido alguma coisa legal de forma totalmente egoísta e fora de hora. Foi assim que eu me senti naquele dia. Eu nem queria ganhar o prêmio de Matemática. Eu fiz metade da prova da maneira mais porca possível.
Por esse motivo e outros que me fazem acreditar que sou uma péssima filha, me senti culpada pela condição de meu pai, o que significa que não reclamei quando ele anunciou, já fora do hospital, que iríamos nos mudar para uma cidade minúscula na Suécia, já que ele estava ficando velho e queria realizar seu sonho de passar o resto da vida pescando em um daqueles fins de mundo.
Quando eu me toquei da situação, era tarde demais. Já estávamos na estrada quando eu comecei a protestar desesperadamente, dizendo que eu não sabia uma palavra de sueco, que na cidade só iriam ter velhos doidos e chatos gritando sobre o preço do salmão e que minha juventude ia ser enterrada naquele lugar. Eu elevei a voz, e não conseguia mais parar, porque, meu Deus, acho não tinha nem escola naquele lugar e eu teria que ir até uma cidade vizinha todo dia pra estudar. Minha mãe começou a discutir comigo, e logo nós três estávamos em uma gritaria tão absurda que quase não desviamos de um cervo no meio da pista.
Essa sou eu, Madeline. Uma adolescente ensandecida que quase matou a própria família.
Talvez você não goste de mim. Talvez me odeie para sempre. Talvez encontre em mim uma beleza refletida secretamente, pondo em ordem minhas palavras sujas e aleatoriamente jogadas para construir um mosaico de sentido na minha existência. Porque nós, pessoas, nunca somos capazes de enxergar a beleza de nossa própria vida na íntegra. Apenas uma terceira pessoa observadora é capaz de fazer isso. O que é bom, considerando que precisamos melhorar sempre. Mas eu vivi tentando sair da tinta do papel para me tornar a pessoa que lia meu próprio livro, e isso trouxe consequências que determinaram tudo o que aconteceu em minha vida quando chegamos naquela cidade.
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