Notas iniciais
Fun fact: Älvkarleby existe de verdade! Fiz umas pesquisas pra achar o lugar perfeito pra essa fic e parei aqui (ufa!) Eu prometi novo cap no final da semana e entreguei por um triz! Mas as coisas devem melhorar mais pra frente. Por enquanto, a emoção não chegou de fato.

Älvkarleby é uma cidade bem pequena na Suécia. Na verdade, esse também é o nome de todo o “município” dentro de Uppsala, uma península mais ao centro do país. Os suecos chamam esses municípios de Tätort, querendo se referir a um local com até 1700 habitantes. Seria melhor ser ficado em um Centralort, como Estocolmo, que é a capital, mas ao mesmo tempo fico feliz de não termos parado em um Smàort, que é basicamente uma área rural com míseros 200 habitantes. Não é uma fazenda, é tipo, um jardim zen com meia dúzia de suecos e umas vacas.

Frio mortífero e nomes complicados em sueco não são boas maneiras de se começar uma vida nova, e eu basicamente pensei em arrebentar minha cabeça em uma das colunas de madeira da barca antes que a coisa piorasse.

−Vejam lá, tem umas pessoas esperando a barca – apontou meu pai, indicando que algum deles poderia estar nos esperando. Havia meia dúzia de pessoas ali em pé; nenhuma delas parecia exatamente jovem, mas eu tentei não me demorar nisso por muito tempo. As pessoas jovens devem estar em casa, assistindo televisão.

Descemos da barca e procuramos o nosso possível guia. De fato, algumas pessoas se aproximaram do píer, entre elas um senhor magro e enérgico. Ele era exatamente do jeito que eu imaginava: um idoso de noventa anos super animado, usando um boné super legal com um salmão desenhado. Ah, pai, eu te amo tanto.

−Belgas! Vocês são os Belgas!! – gesticulou ele animado falando inglês carregado de sotaque – Bem vindos à Suécia! Meu nome é Bert Storstrand.

Bert e meu pai deram um forte aperto de mão, e logo em seguida ele acenou educadamente para nós. Tinha um sorriso permanente. Não conseguia parar de encarar seus dentes da frente, retos e bem demarcados.

−Eu sou George, e essa é minha mulher, Sophie. Nossos filhos se chamam Jean e Madeline – disse meu pai, apontando para nós.

−Bem vindos! – ele examinou cada um de nós com olhos ultra-azuis, do tipo que parecem os de uma pessoa cega. Me percebeu enrolada em um cobertor, com medo de perder o queixo que não parava de tremer com o clima.

−Que tempo, hein! Hahaha! Sua filha parece estar tendo uns probleminhas com a adaptação...

−Ela faz birra o tempo todo – interrompe minha mãe.

−Bem, ela vai se acostumar. Ou pelo menos eu espero, por que o inverno está chegando – ele fez uma expressão séria – costuma fazer por volta de dez graus negativos durante junho.

Achei que ia desmaiar.

O guia e meu pai conversavam animadamente enquanto fomos buscar nossas malas. Peguei minha mega-mala de carrinho cheia de adesivos do Mickey e me preparei pra arrastá-la pelo chão pedregoso. Bert contou-nos que era pescador a mais de vinte anos; tinha uma mulher chamada Anna e os dois viviam do dinheiro da pesca.

−Älvkarleby é uma das cidades referência em pesca nos país. O que dá mais dinheiro é o salmão, que é o produto principal da seção A. Lá vocês encontram salmão e truta. Na seção B ficam as categorias menores – Bert conversava conosco de costas para o caminho enquanto nos olhava nos olhos. – Já está tudo arranjado para a mudança?

− Falta pouco. Precisamos regularizar a situação na embaixada e os móveis chegam terça que vem – bufou meu pai, um pouco alto por causa do barulho do vento.

− Vocês podem ver isso no prédio municipal aqui perto. Também tem muitos lugares bons por aqui: um restaurante maravilhoso a vinte minutos do centro, a igreja logo ali e até uns campos de golfe...

− Entendi, mas e os peixes? – disse meu pai, com um brilho empolgado no olhar. Ele realmente estava ansioso por aquilo. Bert deu uma risada sonora.

−Assim que você tiver o equipamento, nós caímos na água, Belga.

−Ah, não me subestime – respondeu ele com um sorriso malicioso – já comprei o barco. Comprei também uma casa perto do lago, pra facilitar o armazenamento da carga. Só me dê o dia e a hora.

−Bem, com esse tempo não temos muito salmão. Vocês chegaram no final de maio, então ainda estamos na temporada do Lúcio.

Jean e eu fizemos uma cara de espanto.

−Existe um peixe chamado Lúcio? Meu Deus – resmunguei.

−Um dos melhores da região – rebateu Bert. Então ele me olhou mais a fundo com seus olhos – Quantos anos a moça tem?

Tenho dezesseis, respondi um pouco desconfiada.

−Isso é perfeito! Meu filho fez dezessete mês passado. Äslog é um garoto incrível. Excelente na pescaria – disse, dando um tapinha no ombro de meu pai.

Começou então um joguinho de olhares, com meu pai iniciando com um olhar esperançoso, enquanto eu rebati com um de “mal-cheguei-e-você-já-está-me-empurrando-garotos” e ele devolveu com um assustado “mas-quem-disse-que-eu-estou-te-empurrando-alguém” e eu fiz um olhar de desprezo e encarei minha mãe com olhar manhoso, meu irmão olhou como se não tivesse ideia do que estava acontecendo e meu pai esboçou um micro-sorriso com a minha piração juvenil.

−Que tal vocês jantarem lá em casa hoje a noite?− sugeriu Bert – minha esposa faz uma caçarola incrível.

−Estaremos lá – respondeu minha mãe.

Mas uma coisa eu tinha de admitir: era um belo lugar. Podia estar chovendo alucinadamente; trovões podiam estar rasgando o céu como artérias elétricas, mas os pinheiros e a ponte cor de sangue com brasões dourados eram imaculados. Aparentemente ela havia sido erguida por um cara chamado Carl XIII, que aparentemente era um rei. A barca tinha nos levado até o outro lado, uma espécie de ilhota recheada de pedras, areia e plantas quase artificiais de tão verdes. Várias casinhas em estilo nórdico salpicavam a terra. Eu ainda estava enrolada no cobertor e sofrendo.

Fomos no carro de Bert até nossa casa. Confesso que fiquei alguns segundos parada dentro do carro, observando; era uma daquelas casas típicas, com um quintal enorme: mas não tinham roseiras nem nada assim, só grama. Estava pintada de azul marinho com detalhes brancos, de costas para o mar e de frente para uma imensidão de pinheiros. Era solitária e singela, discreta, um pouco triste. Tinha o seu charme. Mas era dolorosamente diferente.

Entramos na casa, e Jean saiu correndo para explorar os lugares. Ele gritou animado quando descobriu que tínhamos não apenas um, mas dois banheiros. Tinha também uma varanda adaptada para o inverno nos três quartos. O meu e de Jean ficavam no andar de cima.

Caminhei pelo piso de madeira escura, que quase não rangia. Íamos ter que dormir em colchões por uma semana, antes das nossas coisas chegarem. Fiquei com meus fones de ouvido admirando a minha varanda, que ficava voltada para os fundos, para o mar. Ele não tinha nenhuma onda, e estava cinzento como todas as águas no outono.

−Meninos, se arrumem para o jantar!

Notas finais
obrigada pelo apoio e atenção :)