Vingança
7 Lembranças dolorosas
Notas iniciais
“Quando rever é reviver.
Preciso reviver, eu bem sei,
mesmo que só na lembrança,
voltar à minha antiga casa,
rever a minha infância
e todos os momentos felizes que lá passei”.
[Clarice Pacheco]
...
— O que está fazendo aqui? E por que Rukia está com você?
Ichigo desatou a perguntar para Shihouin que sorria com ternura para o ruivo. Já estava vestida e sentada no sofá da sala. Rukia estava atrás dela, esperando com o vestido nas mãos. Apertava-o para não correr dali. Sabia que o rapaz não faria nenhum mal a si, mas seu corpo não queria concordar. Lembranças de seu abuso deixavam-na nervosa e trêmula.
— Acalme-se, menino! Já contarei tudo... Mas primeiro, Kia, meu bem, por que não toma um banho? Já pegou a roupa que te falei, certo? Então pode ir. Vou cuidar desse aqui!
Rukia olhou-o mais uma vez. Os castanhos-mel lhe infiltravam a alma. Percebeu um leve sorriso do rapaz que mantinha a testa franzida. Sentiu-se boba por ter o corpo tenso com alguém aparentemente tão doce e gentil. Assentiu com um sorriso triste e foi para o banheiro. Estava segura com aquela mulher que conhecia há pouco mais de dois dias.
Após a jovem entrar, o casal se encarou como para se certificar das mudanças que o tempo causou em cada um. Mais uma vez a morena sorriu terna. Ainda amava aquele rapaz como se fosse seu próprio filho, e sentia que esse sentimento era mútuo.
— Como conheceu a Kuchiki?
— Estava na mesma cela que ela – respondeu seca.
— Presa? Por quê? Vai me dizer que fez bagunça no esquadrão novamente? – o sorriso do ruivo inundou o rosto cansado.
— Nop! Matei o Ministro de Segurança! Aquele infeliz teve a ousadia de estuprar a Soi Fon.
Yoruichi viu o sorriso do ruivo desaparecer e uma pequena veia ao lado do olho esquerdo estremecer. Sabia bem o que viria.
— AQUELE CANALHA FEZ O QUÊ? FILHO DA PUTA... COMO OUSA? EU VOU MATAR AQUELE CAFAJESTE!
Ichigo pulou do sofá onde estava sentado e começou a andar de um lado para outro esfregando os cabelos laranja com força. Estava furioso. Jamais imaginaria que sua antiga paixão havia sido estuprada por alguém que deveria cuidar dos cidadãos, e não machucá-los.
Soi Fon e Ichigo tinham a mesma idade, e quando adolescentes viveram uma inocente história de amor. Aquela paixão esfriou quando o ruivo arrumou amigos irresponsáveis, que o fizeram experimentar pela primeira vez o mundo sujo das drogas. Na época usou maconha. Yoruichi como boa amiga da família e madrinha do rapaz, ajudou o menino a voltar para casa. Soube por Ishin que ele havia fugido de casa e se metido em problemas com um bordel, onde passou a semana.
Ajudou o pai de Kurosaki a encontrar o rapaz, e passou um mês com ele em sua casa. Ela e Soi Fon, passaram o tempo todo conversando, animando-o a sair daquilo. Nem queria imaginar o que teria acontecido se não tivesse intervindo. Graças a essa desintoxicação que conseguiu na clínica de seu ex-marido, Yoruichi convenceu o rapaz a estudar direito. Depois que ele entrou na faculdade perdeu o contato, já que Shihouin foi enviada para a África treinar novos aspirantes. Mal sabia ela de toda a trajetória que o rapaz passou assim que pisou os pés na famosa Todai.
— Ichigo? Acho que não entendeu minha frase, certo? Eu o matei!
Falou um pouco triste, mas sinceramente aliviada. Não que já não tenha matado outras pessoas. Já havia perdido a conta de quantos tirou a vida na guerra. Mas isso era diferente. Ela teve que agir de forma fria e desleal. O homem gordo e altivo não teve a mínima capacidade de se defender. Faria quatro dias desde que ele faleceu, e duvidava que a mídia tivesse repassado isso. Quando o fizesse, diriam que foi um enfarte o qualquer coisa do gênero, mas nunca que um comandante de elite como ela teria sucumbido ao próprio desejo de justiça.
Ichigo parou de repente e arregalou os olhos ao perceber a informação. Yoruichi não parou de sorrir, e estendeu a mão para que ele apertasse. Sabia o quanto doía aquilo, e foi exatamente por isso que sucumbiu a raiva.
— Mas... Ninguém anunciou a morte dele... Disseram que ele viajou ou algo do tipo... Sabe que não gosto de política! Por que não me avisou? Poderia ter te defendido e jamais permitiria que fosse presa. Meu Deus, quando pretendia me falar? Quantos anos eles te deram?
A aflição naqueles olhos ouro a fazia ficar nervosa. Ichigo agora ajoelhado e afagando com carinho a mão de sua segunda mãe, aguardava com anseio a resposta. Mas deveria dizer a ele? Como reagiria? Essas perguntas retumbavam em Yoruichi e ela não sabia se poderia contar. Urahara havia lhe dito que faria de tudo para convencer os responsáveis, que de nada valeria a morte de alguém tão essencial como ela. Mas duvidava que a família do ministro aceitasse. Por isso, não houve saída senão fugir.
— Eles me condenaram a morte!
— O quê? Isso é im-pos-sível... Não podem fazer isso... Ele foi o culpado, você só reagiu por impulso... Isso é normal pra qualquer ser humano, quanto mais alguém como você! Não pode ser! Precisamos fazer algo...
— Um amigo meu já está cuidando disso, Ichigo! Não precisa interferir. Não quero que eles te prejudiquem. Além do mais, você já tem uma cliente a cuidar. Não imaginava que os advogados que Kia me falou fossem você e seu pai. Parece que o destino resolveu nos unir mais uma vez através de um problema. Graças a Deus você largou aquelas malditas drogas e se tornou esse rapaz gato e excelente advogado. Não sabe o quanto me orgulho de você! Cuide dessa menina, Ichigo. Ela precisa de você!
O rosto de Ichigo ganhou uma expressão de dor que foi prontamente percebida pela morena. Aquelas palavras o estapearam a alma. Ela achava que ele tinha se livrado das drogas, mas na atual situação, eram elas que o mantinha lúcido. Se contasse que agora usava heroína, entristeceria aquela que considerava uma mãe. Não queria decepcioná-la, assim como enganava a mãe e as irmãs. O único que sabia de seu vício era seu pai. Tinha certeza que ele sabia. Apertou com mais força a mão de Yoruichi e sorriu um pouco consternado. Odiava mentir. Principalmente pra ela.
— Cla-ro Yoruichi! Mas... Eu ainda preciso ganhar minha própria fama. Ainda ando na sombra de meu pai... Ela está demorando, não?
Desconversou e sentiu os olhos da gatuna cravado em suas costas, enquanto seguia rumo à porta do banheiro e tentava ouvir o movimento de dentro. Aquilo não deixou Shihouin satisfeita. Sabia quando o rapaz escondia algo, e isso a deixava muito triste. Apesar dos seis anos separados, ainda sentia o mesmo carinho de quando o pegou no colo pela primeira vez, aos cinco meses.
Ichigo, ainda nervoso já pensava em bater na porta, mas não precisou, pois a menina já estava abrindo. Ela gritou mais uma vez de susto, e por instinto Ichigo se afastou para não assustá-la mais. Isso o estava deixando irritado. Por que aquela garota tinha tanto medo dele? Ele nunca lhe fez nada. Tudo bem que ele a acusou e descreditou quando ela contou sobre o caso, mas era normal pra ele duvidar até ter provas concretas a favor do réu. Podia trabalhar uma defesa sem nenhum problema, mesmo o cliente tendo a culpa, mas jamais aceitava mentiras do mesmo. Queria a verdade, pois assim sabia o que poderia fazer para ajudar.
— Não precisa se preocupar Tsuki! Ele não morde, apesar de parecer! – riu deliciada com a cara fechada que Ichigo fez. Aquele menino não havia mudado em nada.
Rukia passou largo por ele, e sentou-se ao lado da morena com os olhos cravados no chão. Não conseguia tirar o incômodo de ser observada por aquele rapaz bonito. Achava-o muito bonito. Ele tinha a aparência de Kaien, mas com um pouco mais de mistério e masculinidade. E gostava disso. Mas aqueles olhos mel percorrendo seu corpo a deixavam sem chão.
Lembrava-se de quando os olhos cinza a seguiam nos corredores ou no pátio. Diversas vezes ele achegara-se a ela e sussurrara palavras indecorosas em seu ouvido. Não tinha nem dois meses naquela prisão quando foi violada por ele e dois amigos.
Tencionou o corpo novamente e apertou a mão com raiva. Aquelas imagens, seus próprios gritos de dor e os urros de prazer daqueles homens estavam gravados em seu cérebro como fogo. Mais uma vez sentiu repulsa de si mesma.
Yoruichi percebeu a transformação da garota e se condoeu. Abraçou-a com ternura e acariciou seus cabelos mal cortados. Aquilo fez as lágrimas de Rukia se libertarem em cascatas. Ichigo desconsertado, achando ser o causador daquela reação, sentou-se ao lado das duas e tocou de leve nos ombros que balançavam com os soluços da morena.
— Desculpe-me se duvidei de você antes! Eu sei que fui grosseiro, e te peço desculpas por isso! Mas não precisa ficar nervosa, vou ajudar você a sair dessa. Mesmo sendo fugitiva, ainda poderemos livrá-la, já que temos provas cabais de que é inocente. Confie em mim, prometo que não deixarei ninguém tocar em você ou te fazer mal...
— Tocar-me? Tarde demais...
Os soluços ficaram mais altos, e Ichigo se surpreendeu. Aquela voz forte e levemente grave fez seu íntimo abalar-se. O que ela queria dizer com aquelas palavras? Parecia mais do que ter sido torturada ou apanhar daquelas guardas. Olhou para Yoruichi e esta só lhe pediu silêncio.
Shihouin se levantou e praticamente arrastou a menina para o quarto. Deitou-a numa das camas e a cobriu. Falou algumas palavras em seu ouvido e fechou a porta atrás de si.
— O que aconteceu? Falei algo de errado? Podemos processar o Estado e ela poderá voltar à família com dignidade. Certo? Sei que deve ter sofrido muito. Passado fome e até apanhado... Mas por que me olhou com aquela ira?
— O que ela perdeu nunca mais irá voltar, Ichigo! Ela não perdeu somente a liberdade e a confiança nesses dois anos, também perdeu seus pais e sequer teve auxílio ou um ombro amigo, além de...
— De? De quê Yoruichi?
— De ter sido violentada por todos esses anos. A cadeia é pior do que imaginamos, Ichigo. Ninguém se importa com ninguém por lá. A única coisa que querem é sobreviver àquele inferno. Pelo que Saya me disse, ela ainda era virgem quando foi estuprada por três crápulas. Entendeu que isso nunca irá ser apagado ou esquecido por ela? Então se puder... Não fique muito perto dela ou a assustará. Ela precisa de carinho e compreensão para se levantar. Compreende?
Ichigo ficou mudo. Aquela garota que mais parecia uma menina colegial, ou até menor, fora violentada na cadeia? Não acreditava nas propagandas de governo que diziam que seus cárceres eram bem tratados, mas aquilo já era demais. E o pior de tudo, era Rukia ser inocente. Como aquilo doeu dentro de seu peito. Como queria estar ao seu lado para protegê-la daqueles monstros.
Não culpava Yoruichi por ter matado o ministro. Teria feito o mesmo, e agora queria seriamente matar os desgraçados que feriram àquela pequena alma, pequeno anjo. Apertou sua Tsuki pendida no pescoço. Queria abraçar aquela mulher e dizer que o mundo podia renascer.
Mas travou em seus pensamentos. Ele era um péssimo exemplo pra isso. Lembrou-se de sua própria dor e vergonha. Nem chegava aos pés do sofrimento daquela garota, e ele já estava derrubado, em frangalhos. Como ajudaria? Como a salvaria? Tantas perguntas que o deixavam inerte. Mas a mais importante: Por que sentia aquele desejo protetor por ela? Mal a conhecia e já sentia um carinho inestimável dentro de si. Queria vê-la sorrir. Queria-a feliz... Queria-a para si.
— O que faz aqui Ichigo? Grimm me disse que vinham alguns colegas para se divertir por essas bandas. Você veio para o mesmo? Não voltou para aquilo, certo?
Yoruichi o viu abaixar a cabeça. Agora seu próprio corpo tremia. Não podia acreditar no que via. Não quis ouvir seu subconsciente e quis acreditar nas palavras dele. Mas estava claro que não era bem assim. Aproximou-se nervosa e agarrou com força os ombros do rapaz, praticamente o machucando. Tinha muita força nas mãos e no momento não podia se controlar.
— ME DIGA QUE NÃO VOLTOU A USÁ-LAS ICHIGO! Pelo amor de Deus, você não pode... Você prometeu... Prometeu a Soi, a sua mãe e suas irmãs... Não pode... Não pode fazer isso comigo!
Ichigo não sabia como reagir. Jamais imaginaria que a poderosa Yoruichi desabaria em lágrimas mais uma vez por sua culpa. Aquilo doía à alma e não sabia como reagir. Abraçou-a com força e a apertou mais ao corpo quando ela tentou sair. Chorou junto com a morena. Toda aquela informação estava sendo cravada em sua memória e queria tanto não ter sucumbido naquele maldito dia. O dia que deveria ser o mais feliz de sua vida. Seu casamento.
—--------------------------------------------------------------------------------
—--------------------------------------------------------------------------------
— Kuchiki-sama? Perdoe-me interferir, mas o senhor tem uma ligação urgente de Tóquio.
Tessai surgiu com receio na sala de reuniões da mansão Kuchiki. Byakuya olhou-o de forma gélida, não gostava de ser interrompido em uma negociação importante. Só levava para sua residência os clientes de suma importância para seus negócios. No caso, tentava conseguir um contrato vantajoso com um dos mais importantes escritórios de seguros patrimoniais do mundo.
Os homens olharam de forma imponente o mordomo, e após pedir licença, Byakuya seguiu para Tsukabishi que aguardava com o aparelho sem fio na mão. Saíram para a sala de recepção e o jovem líder atendeu ao chamado.
— Kuchiki Byakuya, estou ouvindo! – falou sem rodeios.
Jamais pedia favores ou se rebaixava a ninguém. Nesses anos de seguidas tragédias, nada mais entrava em seu coração além do almejo em alcançar os melhores negócios.
— Sou eu Byakuya, Yamamoto! Tenho terríveis notícias para você! – ouviu-se uma longa pausa do outro lado.
Só existia uma razão para o velho juiz contatá-lo: a fuga de Rukia. Ouviu os nomes sendo pronunciados pela mídia. Pagou caríssimo para que omitissem o sobrenome da família e já engendrava um processo contra os que seguiram pronunciando o nome Kuchiki. Não queria saber se aquele monstro havia fugido. Pouco importava agora. Não sentiria mais nada por ela. Queria-a morta como seu coração estava agora.
Relutava em odiá-la e esquecer seu sorriso caloroso. Amava-a tanto que se odiava por isso. Amar uma assassina fria, capaz de lhe tirar seu bem mais precioso. Nunca a perdoaria. Ainda não entendia o porquê não permitiu a condenação à morte. Deixou suas fraquezas o dominarem naquele dia, mas não permitiria mais.
— Não me interessa nada o que diga respeito àquela garota! Se for só isso, peço-lhe que desligue, pois tenho uma reunião importante para presidir! – Falou frio e sem rodeios como lhe era costumeiro. Sempre agia dessa maneira, e esses sofrimentos só acentuaram mais esse caráter rígido e distante.
— Serei direto então, Byakuya! Rukia é completamente inocente do crime de assassinato de seus pais. Urahara Kisuke acabou de me enviar o relatório de perícia e me solicitou a exumação dos corpos. Não existe possibilidade de ela ser a assassina. Fomos enganados Byakuya. Sua irmã é inocente. Venha ao meu escritório em Tóquio. Já movi todo o departamento de justiça para que investiguem quem foi o culpado desse equívoco. Estarei aguardando. Meus sentimentos. — e desligou.
O corpo de Byakuya ficou estático. As mãos que seguravam o telefone perderam seu porte de controle; tremiam. Tessai o observava em silêncio. Conseguiu ouvir o que o juiz falara, e também estava chocado. A pequena princesinha daquela casa era inocente.
Lembranças de momentos vagos e felizes passaram pela mente do velho mordomo. Não suportou a dor da traição com a pequena e uma lágrima vazia escorregou pelo rosto austero. Não era o único a chorar naquele momento. Byakuya podia não derramar lágrimas, mas estava quebrado por dentro com aquela informação.
Tudo o que mais desejava se tornou realidade, e o que ele havia feito por ela? Nada. Virou o rosto quando ela mais precisava dele. Mais uma vez havia traído o amor de sua vida. Sim, pois a amava com toda a alma. Sua querida irmã sofreu dois longos anos em uma prisão imunda por conta de sua falta de coragem em protegê-la. Era a única pessoa que ela tinha e a abandonou a própria sorte, da mesma forma que fez com Hisana quando sua família não a aceitou em seu seio.
— Devo preparar seu helicóptero, Kuchiki-sama? – Tessai o livrou daquela torrente de lembranças e sentimentos.
Não sabia o que fazer. Pela primeira vez em sua vida, o grande Kuchiki Byakuya não sabia como reagir diante daquele pesadelo.
— Ela nunca irá me perdoar, Tessai. Nunca. – soltou aflito.
O mordomo o observou com ternura. Não entendia por que ninguém percebia que ele era somente um rapaz de vinte e cinco anos, e não um líder sem coração, um prodígio nos negócios, um Kuchiki. Sentia a dor do rapaz e sabia que apesar de amadurecer rápido, ainda tinha um coração de menino perdido dentro daquela muralha. Como queria ter o poder de mudar o passado e transformar a vida de seu garoto em felicidade.
Sabia desse amor que ultrapassava o fraterno, desde o dia em que aquela linda garotinha de cabelos negros chegou àquela casa. O sorriso dela não havia cativado somente o casal, também havia prendido o jovem Byakuya. Se se casou com Hisana, foi pela incrível semelhança com a pequena. Não podia nutrir aquele amor proibido. Afinal, adotada ou não, ela era sua irmã mais nova. Jamais a família permitiria esse relacionamento impossível. Aprendeu a amar Hisana, mas jamais esqueceu seu verdadeiro amor, seu coração só pertencia às duas mulheres que entraram sem permissão em sua vida.
Se ajudava Shiba agora, era meramente para tê-lo por perto. Não permitiria que ele fosse feliz, enquanto o amor de sua vida murchava naquela inóspita prisão.
— Creio que ainda temos chance de tê-la de volta, senhor! Traga-a de volta de onde ela nunca deveria ter saído... Seu lar e seu amor!
Tessai sabia que estava ultrapassando o limite entre empregado e patrão, mas pouco estava se importando com isso naquele momento. O que queria era que a paz voltasse àquele conturbado lar. E sabia que somente uma pessoa poderia devolvê-lo. Somente Kuchiki Rukia e ninguém mais.
—--------------------------------------------------------------------------------------------
—--------------------------------------------------------------------------------------------
Não demorou para que a notícia da fuga na temível prisão de Sereitei explodisse pela mídia. Por mais que Byakuya pagasse os repórteres e redatores, aqueles dois dias após o fato foram extraordinários para eles. Todas as capas de jornais estampavam a fuga cinematográfica da garota. O mais interessante era que só citavam os nomes de cinco fugitivas.
Apenas uma pequena nota ao lado dela, informava que lamentavelmente o Ministro de Segurança sofreu um enfarte quando viajava pela Suíça. Renji segurava com firmeza aquele jornal com sua redação estampada. Não gostou do resultado, era muito exigente com o próprio trabalho e extremamente detalhista.
— O que está olhando tanto, amor? Não ficou satisfeito com a tiragem? Essa foi nossa maior, superando até mesmo a do nascimento da princesa! Deveria estar orgulhoso! – Senna abraçou o rapaz, mas não teve o gesto devolvido.
Estavam casados há dois anos, mas ainda não conseguiam expressar os sentimentos na frente de outras pessoas. Pelo menos, não da parte de Renji.
— Você viu quem serão os responsáveis pela defesa dela? – Renji perguntou seco.
Lembrar-se do rosto de seu velho colega de faculdade o deixava triste. Havia sido desleal com ele por um amor que, sinceramente, não era tão grande assim.
— Não... Quem?
— Kurosaki!
A palidez que se formou no rosto moreno fez com que o rapaz a puxasse para frente para observá-la. Teriam uma entrevista com o escritório dos advogados da fugitiva para verificar a veracidade de sua inocência. Era o que mais abalava o país naquele momento. Rukia havia sido acusada injustamente de um crime que não cometeu. Aquilo estava um verdadeiro inferno, e centenas de escritórios de advocacia queriam entrar no caso. A polícia já não procurava mais a fugitiva, já que agora eles eram os caçados pela mídia e a sociedade.
— Ichi-go? Mas...
— Eu irei amanhã ao escritório fazer uma entrevista com eles. Já conversei com o chefe, mas ele quer que eu mesmo faça isso. Indiferente de meus problemas pessoais ou não! Quer vir comigo, Senna?
Não queria que a resposta fosse afirmativa, mas precisava perguntar. Desde o dia do casamento perdeu contato com o ruivo. Viajaram para Paris, mas voltaram a cerca de dois meses para sua promoção no jornal mais importante do Japão. Sempre que lia ou ouvia algo sobre o rapaz, seu coração apertava. Ainda lembrava as lágrimas de dor e desespero do noivo largado no altar daquela igreja. Traiu seu amigo, e sentia que a si mesmo. Senna não o amava tanto como ele pensava. E para piorar, ele também não a amava. Aquilo foi uma aventura desvairada da juventude, e teriam que arcar com as consequências. Não poderiam fugir para sempre de Ichigo.
— Sim... Eu quero ir! – terminou sem vontade e desânimo.
Abarai Senna teria que enfrentar seu obscuro passado. Aquele que um dia humilhou e abandonou no altar seria seu próximo entrevistado. Tinha que pedir-lhe perdão, mas não sabia como. Conhecia o jeito explosivo do rapaz. E principalmente sua paixão incondicional por ela. Havia quebrado seu orgulho e coração. Humilhado em frente a todos os seus familiares e amigos.
Ouviu de uma antiga colega que insistia em manter contato, de que o rapaz estava metido em drogas novamente, e isso a fazia ficar mais infeliz. Acabou perdendo o bebê que esperava no mês da fuga com Abarai, e não queria nem imaginar o quanto ele sofreu quando ela o avisou da França que não seria mais pai.
Devia muito, e não teria perdão. Mas queria revê-lo. Queria abraçá-lo e implorar seu perdão. Amava Renji com todo o coração, mas não podia mentir, ainda sentia algo profundo pelo ruivo que um dia transformou sua vida desregrada e sem graça naquela faculdade de prestígio e mentiras.
— Então faça as malas, iremos para Tóquio.
Renji não olhou para trás. Não queria ver aquele brilho de esperança e expectativas da esposa para com seu ex. Tinha medo de perdê-la. Tudo era tão contraditório dentro de si, que já não sabia se a amava mais ou se ainda lutaria por ela, caso ela lhe dissesse que queria voltar para o amigo. Talvez aquele fosse o castigo dos dois e teria que conviver com isso.
—---------------------------------------------------------------------------------
—---------------------------------------------------------------------------------
— Ichimaru? Preciso que termine um serviço... Quero que mate Kuchiki Rukia o mais rápido possível. Pode fazer isso?
Gin sorria diante daquele executivo que jamais poderia ser imputado por seus crimes. Conhecia-o há tanto tempo, que já sentia um carinho especial por ele.
— Claro... Mas onde ela está?
— Procure-a e mate!
O ambiente parecia calmo e o barulho da água caindo do bambu atrás do empresário fazia aquela cena improvisada. O sorriso de Gin aumentou e os pequenos olhos azuis ficaram expostos para o homem à frente. Sentado sob as pernas, vestido em um delicado kimono trabalhado, bebericava o chá enquanto aguardava a resposta de seu mais fiel lacaio.
— Quer que traga o corpo?
— Não precisa só se livre dela antes que Byakuya a encontre. Não quero esses dois juntos. Minha família já sofreu demais com esses relacionamentos estúpidos! Vá!
Ichimaru assentiu e saiu com cautela. Achava glamoroso poder participar dessas “festinhas” familiares. Os nobres sempre sabiam sair de seus problemas com classe e suntuosidade. Se não gostavam de algo, eliminavam o problema sem pestanejar.
— Você só me traz problemas Byakuya! Quando irá crescer?
Mais uma vez bebericou o chá com as lembranças daquele dia lhe vindo à mente. Tudo o que fez foi para livrar ambas as famílias do escândalo. Não se arrependia de nada do que fez. Tinha responsabilidades e cumpriria até seu fim, que em breve chegaria.
Fale com o autor