Vingança
8 Efeitos da tristeza
Notas iniciais
"A alma resiste muito mais facilmente às mais vivas dores do que à tristeza prolongada". [Jean Jacques Rousseau]
...
O silêncio imperou naquele apartamento fora de qualquer suspeita naqueles dois dias após a fuga. Em seu interior, três pessoas tentavam fugir de suas próprias divagações e preocupações: Rukia ainda dormia placidamente naquele quarto escuro. Yoruichi estava fazendo um pouco de café, já que seus nervos estavam abalados desde o momento que soube do péssimo comportamento de seu afilhado e amigo. Já Ichigo, jogado no sofá, tentava refazer tudo o que aconteceu nesses dias, mas que já o deixou completamente esgotado com todas as informações que recebeu.
Olhou detidamente a porta do quarto onde a pequena fugitiva repousava, e mais uma vez sentiu um aperto na garganta. Esfregou os cabelos com irritação e um pouco de violência para com o próprio corpo. Sentia-se um verdadeiro inválido diante disso tudo, com as mãos atadas para ajudar a jovem e sair de seu próprio inferno particular. O desejo de se drogar estava fugindo de seu controle novamente; isso ainda era sua melhor forma de escapar da realidade.
— Não vai pra casa, Ichigo? – Yoruichi perguntou sem vontade, entregando uma xícara fumegante com um aroma delicioso de café recém passado.
— Na verdade, antes vinha para dormir por aqui! Passo uns dias para esfriar a cabeça! E nesses dias não pude...
E completando a frase mentalmente, Ichigo pensou em que não se drogava há dias também. Era por isso que mais pousava no apartamento do que na própria casa. Yoruichi bebericou o café quente e olhou de soslaio para o rapaz no sofá à frente. Agora que sabia que ele estava novamente no mundo das drogas, deduziu facilmente o verdadeiro motivo de ele estar ali.
— Pretende se drogar na frente de uma garota que já não tem motivos nenhum para viver? Por que não oferece a ela, Ichigo? Assim quem sabe ela consiga dormir sem ter pesadelos com a prisão!
Ichigo contraiu triste a fronte. Yoruichi sempre foi muito direta e às vezes até cínica em alguns comentários. Foram palavras mordazes, mas que ele sabia ser merecedor.
A noite avançava do lado de fora, e o silêncio constrangedor envolvia o casal naquela sala. Um rangido baixo os fez sair daqueles olhares irritados e perniciosos, a garota da qual falavam não conseguiu sequer alcançar o primeiro sono. Não dormia direito desde que se instalou na prisão. Qualquer barulho ou conversa era suficiente para tirá-la do transe do sono.
— Quer que eu prepare alguma comida pra você, querida? – a ternura nas palavras daquela mulher bonita a desconsertavam.
Não queria mais sentir-se protegida por ninguém. Se fizesse isso, abriria novamente sua confiança e coração para ser destroçado novamente. Sentia que todos eram traidores e só aguardavam o momento certo para apunhalá-la. Não conseguia desfazer esse sentimento torpe e irracional. Mas era exatamente assim que ficava quando alguém lhe oferecia algo ou lhe passava alguma gentileza.
— Obrigada. Não estou com fome! – soltou cortante e ríspida.
Cada instante que passava, morria mais e mais aquela menininha sorridente e carismática. Estava se tornando muito mais fria que o próprio Byakuya.
Ichigo ficou irritado com o comportamento da garota. Shihouin não era dada as sutilezas ou afetividade expressiva, mas estava tentando ajudar a pequena intransigente a se sentir melhor, e o que recebia em troca? Frieza e desrespeito.
— Mas você não comeu quase nada desde que chagamos! Vai ficar doente, Tsuki! Vamos, posso fazer o prato que quiser! Só precisa escolher!
O desespero de Yoruichi era mais que perceptível. Tudo naquela menina a fazia lembrar-se do comportamento estranho que Soi Fon vinha apresentando nos últimos meses. Quando soube sobre o estupro perdeu a cabeça. A sobrinha não tinha mais vida nos olhos, não se alimentava direito e sequer se preocupava com o mundo ao redor. Estava morta, como Rukia agora.
— Deixa, Yoruichi! Ela não quer, então não tem porque ficar implorando! Ela não é Soi Fon! Então deixe-a decidir por si mesma o que é melhor! Sinceramente, todas as garotinhas ricas são mimadas mesmo!
Irritado e nervoso pela falta do entorpecente diário, Ichigo mais uma vez transmutou-se naquele ser arrogante e belicoso. Parecia ter várias personalidades, e não poderia dizer que foi por conta das drogas, já que apresentava alguns sintomas similares anteriormente.
— Ichigo!
— Tudo bem! Ele tem razão! Vou voltar para o quarto. Não se preocupem comigo... Já fiquei muito mais tempo sem comer e parcamente hidratada e não morri. Não será agora que irei sucumbir!
A porta foi batida com força. Yoruichi não sabia quem estava pior: se Ichigo com seu comportamento alterado a cada momento, ou Rukia com sua rebeldia e tristeza. Ficou muito irritada pelo ruivo lembrar-lhe de que aquela menina não era sua sobrinha, e, mais ainda, por um curto instante isso realmente enganar sua mente. Todas aquelas cenas e tragédias humanas a estavam deixando contristada. Tinha pleno preparo para lidar com assuntos bélicos, tragédias e inumanidades afins, mas ter seus conhecidos envolvidos tornava mais difícil raciocinar com lógica, e o coração agia mais intensamente.
— Satisfeito? Achei que quisesse ajudá-la, Ichigo! Mas se prefere usar a ignorância por conta de sua abstinência, me faz um favor, volte pra casa! Rukia não precisa de mais ajuda para empurrá-la para a escuridão!
Um embate de olhares foi iniciado. Ichigo, mais do que nunca, se arrependeu do que acabara de falar, mas não estava raciocinando direito, e não aceitava o fato de Yoruichi estar certa. Estava abstinente há quase dois dias, e isso já era suficiente para tirá-lo de sua personalidade principal.
— Desculpe! Eu... Não sei o que deu em mim... Posso ficar aqui essa noite?
Parecia uma criança pedindo permissão para usar um brinquedo seu. Por mais que Shihouin brigasse com o rapaz, não conseguia manter indiferença por muito tempo. Afinal, ela o amava como a um filho. Ainda era adolescente quando o conheceu, mas foi amor à primeira vista. Aquele bebezinho ruivo de sorriso bobo a encantou como nenhum outro. Nunca esqueceria os momentos que passou junto dele.
— Muito bem, pode ficar! Mas... Terá que me ajudar a preparar algo para Rukia comer! Falei sério quando disse que ela não tocou em nada. Se bebeu algum líquido, já foi um grande esforço! Lembre-se que ela está muito fragilizada! Não pense que ficar em uma solitária com um estuprador sem vergonha é fácil de superar! Agora chega de conversa e vamos por a mão na massa!
Divertida, Shihouin voltou para a cozinha. Ichigo pensou nas últimas frases da madrinha e sentiu mais uma vez a ira crescer dentro de si. Descobriria quem foi o maldito que fez isso com a pequena, e não queria nem imaginar o que faria quando o encontrasse.
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O dia claro e sem nuvens acalentou o casal que já descia do avião no aeroporto de Tóquio. Renji transparecia nervosismo, enquanto Senna tentava inutilmente sorrir para esconder a noite mal dormida. Nenhum dos dois conseguia ficar calmos com a entrevista que teriam. Sabiam bem que o jornal não enviou previamente os nomes dos repórteres, para um caso de substituição emergencial. Portanto, nem Ishin, nem Ichigo sabiam que eles estavam na cidade. Caminhavam cansados e postergando ao máximo chegar ao lugar indicado. O suntuoso prédio onde estava alocado o escritório dos advogados, não era muito distante do aeroporto. Levariam menos de quinze minutos para chegar.
— Como acha que ele irá reagir? — Senna quebrou o silêncio e apertou o braço do marido que tentava recolher as malas da esteira.
Renji não queria nem pensar em como o rapaz agiria. Sabia que levaria socos e insultos, e o pior era não poder revidar, já que era o causador da dor do amigo.
— Sinceramente não sei!
Tomaram o taxi e quando deram por si já estavam de frente ao prédio espelhado. Entraram de mãos juntas, como se essa ação lhes desse força para conseguir realizar uma simples tarefa: entrevistar um advogado. Nanao os recebeu com discrição e normalidade, já que não fazia ideia de quem representava o casal para a família Kurosaki.
— Peço que aguardem um pouco, pois Kurosaki-san ainda não chegou!
A bela secretária ofereceu café e aperitivos, mas nenhum dos dois estava com ânimo para tomar sequer o desjejum. Senna tentava observar o lugar e tinha que concordar que tinham bom gosto por decorações. Quando estudante sonhava ter seu próprio ateliê, mas isso foi antes de conhecer o jornalismo e se apaixonar pela profissão.
— Bom dia Nanao-san! Tem algum recado ou correspondência pra mim? – Ishida entrou sem perceber que tinham visitas na sala de espera.
Mas como bom observador, percebeu o casal desconsertado no canto do grande sofá.
— Estão aguardando o senhor Kurosaki-san para uma entrevista! -Nanao tratou de apresentar rápido, já que Uruyu detestava ser o último a saber dos assuntos pendentes.
— Ishida Uruyu, prazer em conhecê-los! Sinto informar que Ishin-san irá se atrasar um pouco, pois ele foi visitar uma amiga convalescente! Se eu puder adiantar alguma coisa? – soltou com um sorriso discreto ajeitando os óculos com delicadeza. Não reconheceu de imediato o casal.
— Oh! Claro! Seria ótimo! Ah... Esta é Abarai Senna e eu sou Abarai Renji! O prazer é todo nosso!
Senna sorriu sem vontade, e Renji tentava não morrer de asfixia já que o ar parecia faltar. Ele, diferente de Ishida, lembrava-se muito bem de quem estava a sua frente.
— Abarai? Não acredito!... Como vocês têm a coragem de vir aqui depois de tudo que fizeram?
Ishida como velho colega de sala de Ichigo, estava a par de todos os eventos ocorridos naquele ano. A humilhação do amigo e a vergonha da família, ainda era algo complicado de se tratar com ele. Até mesmo tratou de esquecer a imagem de seus antigos companheiros.
Renji mudou a cor do cabelo para vermelho e possuía agora tatuagens no rosto, algo incomum para um repórter, no ponto de vista de Ishida, mas que passava sem problemas, já que o rapaz tratava mais de eventos esportivos.
Senna mudou bastante, estava mais magra e muito mais bonita que da última vez que a viu. Na época, Uruyu foi o único a ser contra o casamento do amigo turrão. Não achava que aquela garota gordinha fosse mesmo o par perfeito para o colega. Mas Ichigo nunca se importou com aparências e sim com o próprio coração.
Abarai ficou inerte assim que foi sondado por aquele rapaz altivo e de ar intelectual. Na época não se deu muito bem com ele, mas tratava com gentileza já que era um companheiro de Ichigo. Afinal era para ele ser considerado o melhor amigo do ruivo. Davam-se muito bem até que Senna entrou em cena.
— Bem... Nós estamos aqui para uma entrevista profissional e...
— Por favor, queiram se retirar! Não quero que Ishin-san tenha o desgosto de ver o rapaz que tanto estimava e destruiu a vida do filho aqui no seu escritório! Saiam, por gentileza! Nanao acompanhe-os até a saída! Tenham um bom dia!
— O quê? – Senna exclamou indignada.
Não estava preparada para tamanha prepotência e arrogância do rapaz. Por mais que fosse culpada, queria separar o pessoal do profissional.
— Acompanhem-me, por favor! – Ise chamou para quebrar aquele clima tenso que se formou.
— Não mesmo! Temos uma agenda com Kurosaki e não saio enquanto não falar com ele!
Taxativa, Senna sentou-se novamente no sofá, cruzou as pernas e pegou uma revista da mesinha para ler. Renji ficou incrédulo. A esposa era explosiva, mas jamais a imaginou inconveniente. Ficou com vergonha do comportamento infantil dela e buscava algo para dizer ao velho companheiro de faculdade para corrigir a cena inapropriada.
— Nanao? Chame os seguranças, por favor!
— Com sua licença!
Nanao correu para o interfone, enquanto Ishida fechava a porta de seu escritório na cara do casal. Senna se levantou revoltada e tomou o interfone da secretária para que não continuasse.
— Não sou nenhuma ladra para ser expulsa dessa maneira! Não adianta chamar ninguém! Não saio daqui enquanto não falar com Ishin-san!
— Senna, pare com isso!
— Calado Renji! Temos uma entrevista, e o próprio Ishin confirmou, não vou sair expulsa como uma cadela! Não vou mesmo!
— Perdoe minha esposa, ela está um pouco alterada por conta da viagem... Poderíamos conversar e convencer Ishida-san a nos deixar esperar Kurosaki-san?
Tentou de forma gentil e encabulada pedir ajuda para a secretária. Nanao não sabia como reagir à bizarrice daquela manhã. Detestava as quartas-feiras, mas essa superou todas as outras.
— Claro! Acompanhe-me, vou tentar falar com Ishida-san!
— Não vou sair daqui, Renji! Que isso fique bem claro para aquele grosso!
— Meu Deus o que fiz pra merecer isso?
Desolado, Abarai acompanhou a jovem para dentro da sala do advogado. Teriam uma longa espera até Ishin retornar e apaziguar o ambiente.
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A manhã não pareceu tão agradável na mansão dos Kuchiki. Uma reunião extraordinária foi acionada pelo líder mais velho. Byakuya tentava manter sua atenção ao que o mais velho falava, mas estava difícil já que não dormiu um instante sequer nas noites anteriores.
— Ginrei-sama, precisamos fazer alguma coisa, ou essa infante irá destruir nossa imagem!
Um dos líderes da família secundária esbravejava com irritação. Ginrei somente analisava cada feição de seus subordinados, enquanto bebericava o chá que tanto apreciava. Deteve o olhar no neto que estava completamente ausente da reunião. Sabia bem o motivo desse desligamento temporário, mas já havia tomado o cuidado para que isso não ocorresse mais. A morte de Rukia seria um grande alívio para a família Kuchiki, e logo Byakuya a esqueceria como fez com Hisana e voltaria a seus deveres patriarcais.
— Ainda acho que devíamos fechar aqueles jornais miseráveis que colocam nosso nome junto de “uma qualquer” como aquela garota!
Mais uma interrupção de um líder menor, fazendo todos concordar e irritando profundamente Byakuya. O nível da conversa já estava chegando ao mais baixo, e escutar aquelas palavras citando sua adorada irmã, foi demais para suportar.
— Peço discrição a todos! Não devem esquecer que Kuchiki Rukia é inocente nesse caso e essa família deve sim uma explicação para ela! Não irei aceitar que a desrespeitem na minha presença!
Todos, inclusive Ginrei, ficaram impactados com as frases do rapaz que até o momento não tinha entrado na conversa. Ouvir o sobrenome novamente naquela garota fez o patriarca Kuchiki franzir a testa. Seu neto jamais o desobedeceu ou se intrometeu nos assuntos delicados da família, mas por um amor infantil estava se comportando como um infante sem entendimento.
— Kuchiki Rukia? Está de brincadeira Byakuya-san? Ela pode ser inocente, mas ainda assim, não passa de uma criança de rua que deveria ter continuado lá! – Kuchiki Kouga, líder de uma das famílias secundárias se pronunciou tremendamente irritado.
— Pois se acostume, Kouga! Rukia já recebeu meu aval para retornar a família principal! Correto, Ginrei-sama?
Observou o avô recolocar a kobati na mesinha individual a sua frente. Aquilo estava saindo do controle, mas precisava manter as aparências entre seus aliados e deixar Byakuya fazer o que quisesse para não perder o respeito entre todos e sobressair aqueles que tencionavam tomar seu lugar de líder.
— Sim! E agora o que preciso de vocês é que tragam a Kuchiki de volta para o seio de sua família! Não quero mais comentários desnecessários e ferinos nessa reunião. Lembro-lhes o fato de metade dos aqui presentes ser anexa à família principal! Adotada ou não, ela pertence à linhagem Kuchiki! Fui claro?
Byakuya sentiu-se aliviado por ter o apoio do avô. Ele fora seu mestre mais atencioso, claro depois daquela mulher de gostos estranhos, Shihouin Yoruichi. Viu o olhar mordaz de Kouga e lembrou-se do dia em que ele entrou a família. Ele ainda era um infante quando sua prima de segundo grau lhe apresentou o futuro marido. O casamento durou menos de seis meses, já que a jovem morreu de uma doença desconhecida para ele na época.
Kouga tentou bravamente compreender todas as regras e tradições daquela família. Queria conseguir credibilidade para participar ativamente na administração das riquezas que achava ser merecedor. Mas teve seus planos minguados quando Ginrei colocou Byakuya como sucessor direto a liderança principal.
— Claro como água, Ginrei-sama! Perdoem minha indiscrição! Isso não irá mais ocorrer!
E voltou a sentar-se em seu lugar, segurando todos os impropérios que desejava expressar ao jovem Kuchiki. Byakuya olhou para cada rosto e imediatamente todos baixaram as vistas como sinal de respeito. Dessa vez ele não permitiria que sua indiferença prejudicasse a mulher que amava. Jamais se perdoaria se algo ruim ocorresse novamente com Rukia. Usaria seu poder e apoio do avô para proteger a garota.
— Como a encontraremos, Ginrei-sama? Talvez seja necessário acionar algum detetive para encontrá-la! – Ichimaru Gin interveio após a calmaria reinar no amplo salão oriental.
O sorriso que nunca deixava seus lábios era motivo de desconfiança por alguns membros, mas nada falavam devido este ser um dos braços direito do patriarca.
— Tenho certeza que com seus conhecimentos seremos capazes de encontrar minha neta! Pode chamar quem for capacitado para tal! Tem minha permissão! Os outros podem cuidar adequadamente da mídia para que saibam que Rukia é bem vinda em nossa casa! Byakuya, você virá comigo a capital para conversarmos com Yamamoto-san e organizar um processo contra os responsáveis por todo esse equívoco inexplicável. Ou acham que permitirei que acusem essa família de ter comprado a prisão de minha neta?
Ninguém respondeu. Sabiam que aquelas palavras eram vazias, já que ninguém levantou um único dedo para apoiar a garota. O bom nome da família era o único ponto a ser preservado em toda aquela situação.
— Então se me permitem, eu mesmo farei esse papel! Encontrarei nossa pequena pródiga para que ela retorne de onde jamais deveria ter saído! – Gin respondeu debochado.
Quem os ouvisse, estranhariam a conversa, já que parecia que foi Rukia quem saiu daquela casa. A verdade estava mais maculada que a própria corrupção daqueles corações avarentos. Byakuya ia replicar, mas o olhar gélido do avô o fez voltar a trás. Não podia desagradar aquele que traria sua Rukia de volta. Já planejava as formas de conquistar novamente a confiança dela, e em como pediria sua mão em casamento para o líder Kuchiki. Não perderia mais tempo, e principalmente, não deixaria mais ninguém ou tradição nenhuma tirar sua felicidade ao lado da morena.
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— Onde minha menina está Ishin-san? Preciso saber se ela está bem ou se está machucada! Por que esses médicos não me deixam sair daqui? Quero ver minha Rukia agora!
Unohana já não suportava mais ficar internada naquele hospital. Queria rever sua pequena protegida, e contar a ela o porquê de não ter ido visitá-la naquela semana. Sabia bem que a menina estava tão fragilizada psicologicamente, que considerava qualquer pessoa sua inimiga natural. E já imaginava os sentimentos de abandono que a garota apresentaria sem sua presença. Nunca ficou uma semana sem ir vê-la, justo agora tinha que ficar convalescente.
— Acalme-se Retsu-san! Rukia-chan está bem! Não deveriam ter permitido você ficar assistindo essas bobagens na televisão!
Ishin tentava desconversar, já que a amiga ficava cada vez mais desesperada por saber da fuga da menina. Unohana teve que ser sedada para não fugir do tratamento no hospital. Como não sabiam a relação dela com a garota fugitiva, deixaram a TV ligada e como era de se esperar, as notícias se concentravam na fuga cinematográfica de Sereitei.
— Onde ela pode estar? Como acha que posso me manter calma sabendo que minha menina está correndo perigo por aí? Não pude fazer nada por ela, e olha o que aconteceu? Já odiava o fato de minha pequena estar presa naquela cadeia horrível, agora sem saber onde ela está vou ficar louca! Onde está minha Rukia? Onde, Ishin-san?
E a bela governanta desabou em lágrimas e soluços. Kurosaki não sabia o que fazer para alegrar a amiga. Também estava preocupado com todos os acontecimentos. Não havia sido informado pelo filho da localização da morena. Nem passava isso pela mente do patriarca. Se soubesse já estaria no apartamento procurando saber como a garota estava, tudo para amenizar o desespero da estimada amiga.
Olhou para o relógio de pulso e suspirou. Já estava atrasado em uma hora para a tal entrevista. Só a aceitou para tentar alcançar a garota de alguma forma. Já não havia mais dúvidas no tribunal que ela era inocente, mas ainda precisava rever a punição que lhe foi imposta. Somado a isso, tinha o fato de Ichigo passar o dia inteiro fora de casa, sem dizer para onde ia ou se voltaria no mesmo dia.
O rapaz estava agindo taciturno desde a fuga da Kuchiki, e sequer estava se alimentando direito. Sua adorada esposa não sabia mais o que fazer para melhorar o ânimo do rapaz. Entendia o motivo de ele estar revoltado com a fuga da garota. Isso só complicou mais ainda o caso. Pensavam em agir sem as vistas da mídia, libertar a menina e somente depois dela estar em local seguro e com algum tratamento psicológico, processar o Estado e a família Kuchiki pela omissão de ajuda a garota.
— Minha querida amiga, estamos procurando a sua menina. Logo a encontraremos. Hoje terei uma entrevista a uma filiada da CNN e pedirei para eles informarem pela mídia que você está doente e precisa vê-la o quanto antes! Tenho certeza que Rukia-chan não deixará de contatá-la. Prometo que farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-la! Pode confiar em minha palavra! Quanto a sua internação, amanhã Masaki virá buscá-la para que fique conosco em nossa casa. Cuidaremos para que não venha adoecer novamente e assim poderá ficar mais perto das notícias sobre a menina. O que acha? – terminou com um longo suspiro e um sorriso cálido.
— Promete?
— Com toda certeza, minha querida! Pode contar comigo!
— Obrigada, Ishin-san! Por favor, traga minha menina de volta!
E abraçaram-se fervorosamente como se com aquele gesto toda a dor e saudade esvaíssem de suas almas. Cada um tinha suas próprias preocupações, e o comum entre eles era que foram causadas por seus amados filhos, já que para Unohana, Rukia era como a filha que nunca gerou.
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— Sim só vou abastecer a dispensa do apartamento e já retorno! Podemos tomar um saquê naquele quiosque do parque, o que acha, Toushiro-san?
Hirako subia as escadas do prédio para alcançar logo o andar para deixar as sacolas enormes de alimentos que trazia semanalmente ao apartamento. Seus companheiros nunca se lembravam de fazer as compras, e para que eles não morressem de inanição enquanto estivessem hospedados, ele se encarregava a essa parte delicada.
— Então vou te esperar Hirako, mas vê se não demora dessa vez! – falou do outro lado da linha a voz cansada do rapaz.
As responsabilidades do grupo não eram tão simples de levar; sobrecargas eram muito comuns aos colegas e residentes daquele apartamento. Apesar de saberem ser prejudicial, foi nas drogas que encontraram um pouco de alívio da pressão que cada um tinha imposto sobre si mesmo.
Hirako ainda era o único que relutava aceitar esse fato horrível e usava as drogas mais fracas além de ser raramente. Não queria se separar dos amigos que tanto estimava. Entrou com a chave que lhe pertencia e encontrou o apartamento mais limpo do que costumava estar. Afinal já fazia alguns dias que não entravam nele. Pensou que Ichigo deveria estar por ali, mas o rapaz nunca ajudava na organização e limpeza do lugar, por isso estranhou.
Colocou as sacolas na mesinha da copa e observou o ruivo deitado no sofá, dormindo quieto e sem resmungar durante o sono, coisa muito comum do rapaz. Caminhou até ele e estranhou vê-lo ali e não em seu quarto. Entrou mais um pouco, tomando cuidado para não despertar o colega, e já se preparava para encontrar resquícios de drogas nos quartos. O primeiro que abriu foi o da esquerda, onde normalmente Hinamori e Toushiro ficavam, e o que encontrou o deixou perplexo.
— Mas o que?
A frase sumiu em seus lábios. O que viu foi uma ninfa adormecida na cama de Hinamori. Tinha um edredom cobrindo somente até a cintura, os braços delicados e alvos postos em cima do peito, e os cabelos negros espalhados pelo travesseiro. A cena mais linda que já presenciou na vida. Uma princesa dormia placidamente em seu castelo.
Hirako tinha a terrível fama de ser clichê demais, mas amava em extremo o romantismo exacerbado. E não podia negar que se apaixonou de primeira.
Não fez nenhum barulho para não acordar aquela pequena bonequinha que parecia querer acordar a qualquer sinal de barulho. Chegou próximo da cabeceira e abaixou-se para contemplar aquele rosto delicado e aparentemente sofrido daquela garota. Observou os traços suaves, os lábios vermelhos e convidativos, a pele aparentemente acetinada e os cílios longos e cheios.
Ficou extremamente curioso em saber qual seria a cor da íris daquela beldade. Com sutileza estrema passou as costas da mão na bochecha da garota, e esta sentiu no mesmo momento já que abriu os lábios com um franzir de testa. Para Hirako foi o céu. A pele era mais macia que jamais imaginara, e aqueles lábios eram muito mais convidativos que o próprio ar.
Encorajado pela adrenalina descarregada em seu sangue, aproximou-se vagarosamente e depositou um selinho quase inaudível no lábio semicerrado da garota.
— O QUE DIABOS ESTÀ FAZENDO, HIRAKO?
Ichigo estava possesso de raiva ao ver seu velho amigo de infância beijar os lábios da garota que não saia mais de seus pensamentos. Rukia com o grito de Ichigo acordou em desespero e ao se ver rodeada por dois homens estranhos, já que ainda não estava acordada de todo, gritou desesperada com as lágrimas banhando seu rosto alvo.
— Por fa-vor, me dei-xem me recu-perar da última vez, por favor, por favor, tenham piedade...
E desabou em soluços e choro descontrolado. O corpo que mais parecia de uma menina, balançava com a intensidade dos soluços e gemidos. Seu corpo já ardia e inconscientemente sentia uma dor na virilha e na intimidade. Preparava-se para mais uma vez ser violada sem escrúpulos ou piedade.
Lembrou-se quando alguns meses atrás ficou trancada por três dias na solitária e em todos eles teve o corpo maculado de forma selvagem por aquele homem cruel e impiedoso. Passou semanas com dores e hemorragia, mas nem sequer a enfermeira se importou com o caso. Era só mais uma naquele inferno, quem seria ela para ser tratada de forma diferente?
Ichigo e Hirako ficaram horrorizados com a cena decadente da garota. Os gemidos e palavras entrecortadas da menina deixavam saber o sofrimento e desespero ao qual se encontrava.
— Droga, garotos! Saiam desse quarto antes que ela tenha outra síncope!
Yoruichi empurrou os garotos para fora do quarto, e abraçou a jovem que tentava se proteger de algo imaginário. Seus braços cobriam a cabeça, e as pernas ficaram a frente do peito, como se assim pudesse se proteger das investidas demoníacas que viriam. Todo o corpo tremia e um pouco de suor já podia ser notado na pele descoberta.
A morena acalentava a menina com todo o carinho que possuía, alisando devagar os cabelos e sussurrando baixinho palavras de conforto, tentando trazê-la de volta ao apartamento, já que na mente de Rukia ela estava trancada naquela cela sem janelas. Uma verdadeira barbárie humana.
— Tudo bem, minha querida. Ninguém aqui irá te fazer mal! Pronto, já passou! Não estamos mais naquela prisão, minha menina! Não vou deixar ninguém mais te machucar... Já passou, pronto... Já passou...
Hirako sentiu-se o pior dos lixos, jamais imaginava que seria capaz de presenciar uma cena tão inusitada e sem precedentes como aquela. Como médico, sabia bem o provável motivo daquela reação. A bela ninfa que encontrou havia sido abusada sexualmente, e pela maneira que desabava em desespero, não foi uma única vez.
— Vem comigo, Hirako! Precisamos conversar!
Ichigo ainda em choque com as duas cenas que presenciou, o beijo e a reação de Rukia, puxou o companheiro pelo braço para deixar Yoruichi tentar acalmar a garota sem interferências. Esfregava os cabelos num tique nervoso e irritadiço. Havia tentado fazer a mesma coisa na madrugada, e só não o fez por sentir que a morena iria acordar a qualquer momento. Hirako não teve a mesma chance, e foi um gatilho para as péssimas lembranças da garota virem a tona daquela maneira.
— O que aconteceu com ela? A princesinha foi violentada? – Hirako questionou direto e sem rodeios.
— Sim...
— Espera... Aquele rosto me lembra alguém... Não pode ser!
— Sim. Ela é Kuchiki Rukia...
— A fugitiva de Sereitei? Meu Deus... Como ela?... Desde quando a conhece? Minha nossa Ichigo, o que diabos está acontecendo aqui e quem fez aquela crueldade com essa beldade? – soltou revoltado e sem esperar respostas.
O silêncio imperou novamente, e depois de longos quinze minutos, Shihouin saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Percebeu que teria de tirar aquela pequena dali se quisesse que ela se recuperasse. Havia muita interferência contra a menina, e achava que logo não poderia ter controle daquela situação.
— Sentem-se que eu explico tudo! Não quero nenhuma pergunta ou interferência, entenderam?
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— Por favor, acalmem-se! Vamos agir civilizadamente!
A beira do desespero Nanao tentava acalmar os ânimos criado pela briga de Ishida e Abarai. Renji estava de lado tentando não se intrometer na briga de sua esposa, já que não queria sair machucado dali. Senna tinha uma péssima fama quanto a armar confusão.
A porta de entrada se abriu e Ishin parou ante a cena mais incomum. Senna segurava com força o colarinho de Ishida, que para não se machucar a si mesmo ou a garota, segurava os pulsos com a maior delicadeza possível. Mas estava enfrentando dificuldades, já que ela não parecia querer ceder.
Ishin reconheceu Renji no mesmo momento. O cabelo podia estar diferente, mas o jeito confuso não mudara em nada. Estava ali o pesadelo de seu filho, a angústia de sua Masaki e sua própria dor de cabeça.
— Ishin-san? Graças a Deus! Estes são...
— Abarai Renji e Kobayashi Senna! Sim os conheço muito bem! Ishida pode voltar a sua sala, por favor! Pegue os documentos do caso Kuchiki e leve para Ukitake-san! Nanao-chan, prepare um chá para acalmar os ânimos de Kobayashi-san, por favor! Acompanhem-me, por gentileza!
O ato calculado e relaxado deixou todos inertes por alguns instantes. Ishida foi o primeiro a reagir e voltou para o escritório, mas não sem antes passar um olhar de reprovação para o casal. Nanao correu para a salinha atrás de sua mesa, ao que parecia ser uma copa, para preparar o chá não somente para Abrarai, quanto para si mesma.
O casal se entreolhou e suspirou de resignação. Teriam um longo fim de tarde, e sequer comeram nada mais substancial do que os aperitivos oferecidos pela secretária.
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Vocabulário
Kobati: xícara de chá japonesa com borda levemente curvada para melhor degustação da bebida.
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