Vingador Vol. II

6 5. Oceano e Tubarão, Anjo caído e Gazela capturada.


Notas iniciais
Yoooo! Eu ia vir só amanhã mas como terminei o cap hj e tenho muita coisa pra fazer, resolvi voltar logo Cap grande pro ceis ♥

— Estou com fome... – Sakura resmungou, enquanto apoiava o rosto sobre o queixo, o lápis entre a caneta e o caderno e o livro aberto sobre a mesinha. Plum mordiscava vorazmente as suas sementes de girassol, e ela sentiu inveja de sua sossegada vida dentro de sua gaiolinha. Lá tinha tudo o que ele precisava, afinal

Utakata observou suas costas e fechou o livro que segurava, olhando no relógio, o som fez Sakura se espantar, na cadeira, e olhar para trás.

Não sabia que ele já havia voltado para a discreta sala ligada à biblioteca da mansão. Era um pouco pequena em relação as outras do resto da casa, com uma mesa de estudos voltada para uma das janelas bastante estreitas e discretas. Ela tinha a visão de parte dos muros frontais da mansão e de seus portões escuros e intimidadores.

Se pega relaxando durante o horário de estudo era bastante constrangedor...

— Erm...

— Já são quase cinco horas, creio que já é o bastante, considerando que você ainda vai estudar mais tarde, certo? – Utakata declarou, lançando lhe um olhar por cima dos óculos. Sakura assentiu rapidamente com o queixo.

Ainda se sentia meio culpada por essas pequenas fugas desde que começou sua amizade com as meninas.

Mas bem, ouvia sempre falar de jovens de sua idade fazendo coisas piores, e não era como se fosse uma verdadeira fã de sair aprontando.

Na verdade, sentia que nutria apenas uma boa curiosidade mesmo. Além do mais, não conseguia apreciar completamente dos ambientes que a maioria dos jovens gostavam de ir, lugares atulhados de pessoas, barulhentos e muito abertos.

— Ótimo, paramos por hoje então.

Ela concordou, e fechou os materiais, deixando alguns sobre a mesa, e guardando o resto, então pegou a mini gaiola de Plum (ele tinha três) e seguiu com ele de volta ao quarto deixando Utakata na sala.

Sakura se sentou na mesa de estudos do quarto, era onde estudava sozinha, absolutamente ninguém além dela, Danica ou Veena-sama vinham aos seus aposentos.

Embora nunca houvesse sido um pedido seu, nenhum dos homens da casa pisou ali, ela sentira-se bem mais segura a dividir a casa com eles desde que chegara e percebera que Mikoto não seria uma companhia frequente.

As primeiras ocasiões em que estivera vivendo na casa com Itachi, Izuna ou Shisui, foram um pouco assustadoras. A casa a intimidava, os costumes e regras a enervavam, bem como os temperamentos e presenças sutis dos outros.

Então sempre os evitava ao máximo e só conseguira se acostumar aos poucos, tanto ao se inteirar mais e mais da cultura britânica, quanto com a ajuda de uma terapeuta. Veena a contratou pra ajuda-la em relação a qualquer trauma do acidente que sofrera, bem como para ajudá-la a viver da melhor maneira sem sua memória, e a encontrá-la.

Sakura ainda ia ver Mei Terumi vez ou outra.

Depois Utakata veio para ser tutor e ajudá-la a entrar na faculdade, e se manter lá adequadamente. Acabou sendo bem mais fácil tê-lo por perto, posto que ele não era tão diferente da sua família, apenas um pouco mais rigoroso, e profissional.

Sakura mudou Plum de sua gaiolinha para a maior que ocupava um bom espaço sobre a grande a mesa dela, tinha uma grande rodinha, e outros brinquedos, como casinhas de madeira, pequenas pontes, um verdadeiro playground.

Ela não conseguia resistir, estava sempre comprando essas coisas para ele, primeiro uma roda maior, depois uma gaiola maior, e então outra gaiola menor para leva-lo pela casa ou mesmo para o jardim, e obviamente uma bola de acrílico onde ele poderia sair rolando por todo o quarto se quisesse. Ah, e mais uma bolsa para carregar hamsters também, mas ela ainda não havia usado, admitia que tinha sido uma compra impulsiva, e levou uma pequena bronca sobre isso depois.

— Você não quer entrar? Não quer? Hum – Ela catou a bola de acrílico, e o colocou dentro, então o pôs no chão e se levantou, vendo-o ir explorar o quarto, seguiu até o armário e procurou o que vestiria para a festa, tinha que ser algo leve que não fizesse volume em sua bolsa, já bastariam os sapatos, perfume, loções.

Momento ou outro ouvia um estalo de Plum se chocando em algum móvel da casa ou na parede, ele era um péssimo motorista.

Não que ela fosse grande coisa diante de um volante.

Ah, agora estava indecisa sobre o vestido. Sabia o que vestir numa ocasião formal, mas se sentia completamente perdida sobre o que vestir para aquele tipo de festa.

Ainda estava desanimada para ir em muitos aspectos, mas havia muita curiosidade também.

Sakura abriu o guarda-roupa. E empurrou as roupas já descartadas para o lado e focou nas que poderiam servir.

Correu ao celular sobre a cama e se jogou sobre ela, quicando na macia elasticidade deste, e discando o número de Louise.

— Eu não sei o que vestir. – Disse, ouvindo em resposta, um chiado e vozes abafadas.

— Oi, que? Sou eu. O que disse?

— Que não sei o que vestir, o que se veste nessas festas? Tem algum tema? Ou será como no The Vinian?

— Como no The Vinian...

— Só que mais curto! — A voz de Robin veio mais ao fundo — Nada de vestido princesinha, okay? Vai ser uma noite de pura perdição!

— Essa garota... Enfim, não precisa ser exagerado, escolha alguns e traga pra gente, se quiser.

— Traga os mais curtos que tiver!

— Eu não acho que fará grande diferença...

— Então os mais apertados!

— Eu não tenho algo assim.

— Então vai usar um dos meus!

— Deus me livre! Que-quer dizer...

— Estou ofendida.

— Ela tem toda razão— Louise resmungou — Agora devolve meu telefone! Enfim, escolha alguns e veremos aqui em casa, e não demore!

— Claro – Sakura desligou e procurou alguns vestidos, os deixou separados num canto do guarda-roupa, e seguiu para o canto do quarto onde Plum parecia muito convencido de que poderia empurrar um vaso com sua força. Pegou a bola e tirou-o dela, devolvendo-o a sua rodinha. — Quem sabe na próxima? Precisa praticar mais. Comporte-se.

Após um bom banho, ela já estava mais empolgada para ir. Sentou na beirada da cama e se pôs a olhar os vestidos que já havia pré-selecionado.

Provavelmente, não haveria como vestir algo que Robin aprovasse totalmente, não apreciava nada muito justo em si, ou curto.

A mochila já estava pronta, apenas esperando os três vestidos a decidir quando chegasse na casa de Louise.

— Milady? – Danica indagou, batendo do outro lado, e pânico subiu pela espinha de Sakura.

— Que-quê?!

— O carro já a está esperando, precisa de ajuda? – Ela tropeçou rumo ao armário levando os vestidos e catando as outras peças que ficaram pelo caminho e espalhadas pela cama.

— Não! Já vou! Já estou pronta! Quase pronta!

Sakura enfiou um vestido apenas na mochila, andou de um lado para o outro sem saber se enfiava outros, mas agora com medo de estranhassem tudo. Sacudiu a cabeça e os enfiou no armário. Ainda tinha planos de arrumar tudo para que a empregada não notasse, então torceria para ter tempo de fazê-lo antes de ela vir na manhã seguinte.

Fechou a mochila, pegou alguns livros na estante e seguiu para a porta, ajeitando o cabelo para parecer menos esbaforida.

Abriu a porta e forçou um sorriso normal, enquanto seguia pelo corredor abraçada ao material.

Chegando à sala, uma nova onda de temor a tomou. Estava todo mundo lá, algo raro, e que outrora ela adoraria desfrutar, mas hoje não.

Parecia que todo mundo já sabia, ou que não teria dificuldades de descobrir.

— Ora ora, já está pronta para ir? – Veena-sama lhe indagou, os olhos glaciais pousados sobre um livro, enquanto ocupava uma poltrona estofada e de madeira.

— Si-sim.

— Vai pra casa daquela tal de Robin? Aquela garota não é de confiança – Izuna comentou, embora absorvido no celular.

— Vou pra casa da Louise, e Robin é uma ótima garota! – Ela defendeu.

— Aham.

— Ele está sendo implicante porque não sabe lidar com esse tipo de menina – Shisui disse, tão polidamente, que quase nem soara uma provocação, mas Izuna captou, mandando-lhe um olhar atravessado.

— Está insinuando o quê? Hã? – Shisui ergueu os olhos para ele, tão afiados quanto.

— Que garotas como Robin Price, intimidam franguinhos como você facilmente.

— Whoah – Itachi ecoou, sendo que nem parecia prestar a atenção em qualquer um deles, o que só aumentou a revolta de Izuna.

— É o que? Filho da...

— Mas garotinhas como Louise Bennett, o deixam eriçado. – Shisui observou, desta vez não escondendo o desafio.

Izuna ficou levemente avermelhado, os olhos escuros brilhando de ira. E Sakura sentiu os olhos crescerem de espanto.

— Oh, sim...? – Indagou, muito intrigada.

Seria possível?

Izuna mudou os olhos para ela, e foi como ser atingida por dardos. Se encolheu no lugar.

— E você? Não estava indo?

Ela não questionaria.

— E-estou!

— Vá logo, gazela— Sakura não reclamou desta vez, apenas disparou atravessando a sala rumo ao corredor da saída.

O carro já esperava e ela mergulhou para dentro ainda temendo que descobrissem sua arte ainda sequer começada.

֍

— Finalmenteeee! – As duas garotas cantarolaram, Sakura atravessou o suntuoso salão da entrada da casa de Louise. Era uma mansão tão grande quanto a que Sakura se acostumou a viver, mas totalmente oposta em cores, estilo e ar. Era bem clara, com objetos chamativos e quase um tanto excêntricos. A mãe de Louise era aficionada por objetos de arte.

Todo o tipo de arte.

— Onde estão seus pais? – Ciciou, ao chegar até elas. As duas riram, muito empolgadas e a puxaram para subir os degraus em formato de caracol. Era como uma escada de um castelo de princesa.

— Noite de pôquer. – Louise declarou — A casa é toda nossaaa.

— Não que nós queiramos usar hoje! – Robin acentuou. — Agora vamos, ou vamos nos atrasar!

— Okay, okay. Sakura, o que você trouxe?

— Não deu pra trazer opções, quase fui pega!

— Você não trouxe nada?

— Apenas um,

— Se não servir, os meus estão disponíveeeeis.

— Vai servir – Louise e Sakura afirmaram, veemente.

Adentraram o aposento de Louise, tão espaçoso quanto o de Sakura, mais abarrotado de moveis e estantes com livros, ainda assim, o ar de princesa era bem acentuado no rosa suave das cortinas e no papel de parede.

Havia dois bolos de roupas espalhadas na cama de Louise, pela predominância de tons, ela sabia diferenciar quais as dela e as de Robin.

Sakura pousou a bolsa ali, e deixou os livros de lado.

— Pra que tudo isso? – Robin resmungou.

— Para parecer convincente?

— Parabéns, 007.

— Hahaha, o que vou trouxe aí? – Louise disse, Sakura tirou o vestido que havia jogado dentro da mochila com cuidado, embora já estivesse meio amassado.

Ele era xadrez, um padrão de branco com linhas em tom preto puxado ao terroso, balonê e com alças finas cruzando-se no colo.

— Oh, adorável! – Louise exclamou.

— Bleeer! Poderia ser mais curto, pelo menos – Robin reclamou.

— Eu disse que não tinha algo assim.

— Não sei se é algo adequado para a festa, hum?

— Não é como se tivesse uma temática. – Louise contrapôs. — Vamos nos trocar!

Após sucessivas idas e vindas ao banheiro, retoque de maquiagem e trocas de roupa. Sakura finalmente se encarou por inteiro no espelho. Não era muito fácil ter um tempo diante dele, com Robin por perto.

Seu cabelo estava num suave amontoado preso para trás com grampos, parecia até uma nuvem, volumoso e macio.

Robin apareceu atrás dela, usava uma calça de couro, botas e uma blusa cavada vinho.

— Acho que precisa de algo mais forte.

— Eh? Como assim?

—Na sua maquiagem, que tal?

— Ah...

— Deixe ela, está perfeita! – Louise reclamou, deixando o closet já segurando uma bolsa de alça longa. Seu vestido era mais longo e mais ajustado em seu tronco, o tecido de um azul profundo destacado por pedrarias prateadas, nas alças e colo. — Vamos?

— Okay!

As três desceram as escadas apressadamente, como se mesmo agora, ainda corressem risco de serem descobertas, embora a sensação nunca houvesse deixado Sakura realmente.

O carro que pegaram era um modelo mais discreto e menos caro. Seguir pela cidade à noite, era sempre um tanto assustador para ela. Não se acostumara a sair assim, e quando o fazia estava acompanhada da família. Era uma sensação de mais segurança, quando saia com eles, comparado a sair com outras duas garotas.

O casarão Grant ficava numa das áreas residenciais mais antigas, mas onde os terrenos era menos apertados, com amplos jardins e vizinhança quase inóspita. As casas antigas, o clima úmido e frio, e as colinas dos terrenos davam um ar um tanto sinistro. Quase como um cemitério.

A casa ficava numa esquina a qual estava tomada de carros.

Pelas janelas grandes e acabadas, escapavam flashs de luzes neon, vermelhas, azuis, brancas. Louise parou o carro um pouco mais longe, e as três deixaram o veículo quase coladas, o lugar era intimidante, e as caras pelas quais passaram tampouco ajudaram. Haviam rapazes e garotas bebendo entre os carros, fumando e até dançando algo mais lento e decadente.

Seguiram pelo jardim decrépito. Quando Robin bateu na grande porta de madeira maciça e avariada por cupins, ela pareceu pender pra cima dela, e as três recuaram temendo que caísse sobre elas.

Um cara abriu-a e passado o susto, pelo menos para Robin, ela sorriu, e o cumprimentou.

— Carter! Como vai? – Carter era grande, cabelo cumprido e liso, mas muito desalinhado, tinha um cigarro num canto da boca e tatuagens pelo rosto, ofereceu um sorriso curto e apreciador para ela.

— Bem, milady – Respondeu, obviamente simulando o cavalheirismo. — Pensei que não viria.

— Mas nem morta! Que perderíamos, vamos! – Louise e Sakura se entreolharam, e deram de ombros, não deveriam estar surpresas de Robin conhecer aquele tipo de pessoa. E pareciam se conhecer bem pela bem-humorada e maliciosa troca de olhares.

As duas o cumprimentaram polidamente ao entrarem, o cheiro de mofo era mais que presente, misturado ao de cigarro, bebidas e alguns perfumes muito fortes. O corredor era longo e pelos portais que davam à outras dependências já haviam pessoas.

Ao chegarem a sala, ficou mais aparente que gente de todo tipo estava ali. E não só o tipo sombrio e mau encarando que encontraram desde lá fora até a entrada. Parecia mais com uma festa normal na boate The Vinian, aliás.

Luzes foram instaladas nos cantos da parede, o DJ estava diante da lareira grande e fria, e haviam pessoas pela grande escadaria rumo ao segundo andar.

Sakura encarou o mar de gente entre elas e aquela escada, e o segundo andar, que apesar de mais mal iluminado, parecia quase vazio. Ela recuou com desânimo. Robin no entanto, não se fez de rogada. Puxou Louise, que por seguinte, puxou Sakura seguindo pelas extremidades da sala, ainda empurraram muita gente, mas logo estavam subindo os degraus. Sakura sentiu a pele umedecer suavemente, apenas com aquela pequena prova de calor humano excessivo.

— Me vestido vai ficar fedendo à cigarro – Louise resmungou. — Prontinhos, estamos segura, eu espero.

— E as bebidas ficam ali! – Robin exclamou, seguindo para uma mesa com grandes bacias e baldes lotados de gelo e bebidas.

— Vai querer algo? – Louise indagou, já querendo ir pegar algo também. Sakura negou, não era muito adepta de álcool, embora Itachi sempre a incentivasse a tomar um bom vinho, ele era quase um especialista, o tipo que sabia tudo sobre a garrafa com apenas um gole pequeno.

Fora isso, só havia provado cerveja preta, champanhe, tequila (que a deixava tonta muito rápido), e energéticos, que aliás, gostava apenas dos com gosto de frutas.

— Ainda não.

— Okay! – Sakura sorriu, observando-a apressar o passo para alcançar Robin, as duas chegaram a mesa, começando a olhar as latinhas, como a iluminação estava precária e era basicamente o jogo de luzes que acima da sala do térreo, elas perderam tempo discutindo e iluminando as bacias com os próprios celulares.

Sakura riu da imagem, e então as luzes, iluminaram as sombras de um pilar distante, muito adiante da mesa, a parte acima da sala era um corredor que fazia uma volta acima desta. De modo que aquele pilar ficava praticamente numa das curvas do corredor.

Havia um homem de terno, o que foi completamente estranho para o momento e lugar e ela chegou a achar que fosse algum segurança, mesmo não tendo visto nenhum que não fosse tatuado e mal encarado até então.

No entanto, o terno era na verdade um blazer, e ela era péssima em diferencia-los. Provavelmente preto, uma camisa escura, talvez cinzenta, o rosto barbado sem exageros. Mãos nos bolsos, olhos nela.

Sakura desfez o sorriso aos poucos, cada vez mais ciente de que era alvo de seus olhos. Tomada aos poucos uma sensação estranha de reconhecimento, não que o conhecesse, mas conhecia a sensação de ser encarada assim.

Por algo quase invisível, tão sutil era.

Robin e Louise gargalharam, e ela se espantou, ao percebê-las agora tão perto. Havia passado tanto tempo...?

— O que foi, Sakura?

— Hum, nada...- Balbuciou, olhando novamente para o pilar e não vendo nada além dele.

Louise continuava rindo de seja lá o que fosse, enquanto levava uma pequena garrafa de vidro vermelho a boca. E Robin empurrou uma para Sakura, de cor verde enquanto já tinha uma azul escura na outra mão.

— Aqui.

— Mas eu não queria agora...

— Se não for agora, não vai ser hoje! Ande logo, menina! – Sakura suspirou, e percebeu que a tampa ainda estava lá. — Oh, esqueci de tirar, mas lá na mesa tem abridores.

— Okay.

Sakura seguiu até a mesa, tateando-a em busca de um abridor de tampas, achou uma bacia menor entre as de gelo com alguns destes. Mas sua habilidade com o objeto, era vergonhosa.

— Hey, gracinha, deixe-me fazer isso antes que quebra a unha. – Disse um cara, aproximando-se e se afastando do pequeno grupo de caras com o qual estava. Sakura apenas recuou, o fitando, enquanto ele se ocupou de abrir a garrafa com êxito e oferece-la com um sorriso satisfeito. Ainda um pouco intimidada, e ela a pegou e trouxe para perto, enquanto ele enfiava as mãos nos bolsos do calção, embora a camisa fosse social e amassada. — Nova por aqui? Ou vem poucas vezes?

— A-acho que um pouco dos dois...

— Ah, entendi, vou Vinnie – Disse, estendendo-lhe a mão, Sakura a pegou, sentindo o aperto firme, mas macio.

— Sakura.

— Sakura?

Sakura. – Ela repetiu, ele assentiu, apurando a atenção para pronunciar corretamente.

Sakura.

— Sim, sim – Ela riu, um pouco, era engraçado ver os ingleses falarem seu nome.

— Descendente? – Ele indagou, curioso.

— Japonesa, minha mãe era americana.

— Ah, que maneiro, primeira vez na Inglaterra?

— Sim, mas estou aqui há dois anos.

— Você é a menina que sempre está com Robin e Louise?

— Aham.

— Ah! Okay! Agora sim, o cabelo rosa não me era meio estranho, sou do sétimo de Contábeis, já nos cruzamos em algumas festas.

— Entendo, elas estão ali – Sakura apontou as duas.

— Whoah, Robin pegando pesado como sempre – Ele disse, passando os olhos pela garota, eles pareciam verdes e seu cabelo castanho, mas a iluminação não ajudava. — Quer saber, vamos lá?

Sakura assentiu, acompanhando-o até as duas amigas.

— Vinnie! Achei que estava viajando! – Robin exclamou, abraçando-o rapidamente.

— Quem me dera, como vão? Festa mofenta, não?

— E sinistra, mas está legal!

— Verdade.

Sakura observou e participou da conversa, bebericando da garrafa sem grande ânimo, recostou-se no corrimão e ficou observando a mistura de cores, cheiros e corpos na sala ao som de músicas de batidas pesadas, ou decadentes, alternando-se com as eletrônicas e agitadas.

Ela levou a garrafa ainda pela metade e quente de volta a mesa, Louise veio até ela e a puxou pelo braço.

— Vamos!

— Pra onde?

— Dar uma voltinha, ora.

­— E onde está Robin? Foi dançar com o Vinnie, vamos!

— Ah...- Louise a puxou pelos corredores do segundo andar, cada vez mais que se afastavam, o som ia ficando mais abafado, e iam iluminando o caminho com os próprios celulares. Exceto por um cômodo ou outro, havia luz elétrica, ou lamparinas à bateria haviam sido deixadas pelos cantos, para ampliar o tema sombrio da festa.

— Cuidado onde pisa, sim? – A jovem avisou, muito empolgada com o passeio, Sakura concordou um pouco ou muito escabreada. — Não é maneiro? Parece que a qualquer hora um serial killer ou um demônio vai saltar sobre a gente!

— O-o que pode ser divertido nisso?!

— Ah, apenas sinta a vibe, é legal!

As duas entraram num cômodo que outrora parecia ter sido um escritório. Ainda havia uma grande mesa em frente duas enormes janelas, uma poltrona recoberta por plástico empoeirado. E alguns quadros deixados aos pés das paredes descascadas.

— É uma casa tão grande, e incrível, não entendo porque deixar que se desfaça assim...- Sakura refletiu.

— Tem gente que adora desperdiçar. Oh, veja! – Louise exclamou, apontando um quadro num canto, a pintura era à óleo de uma mulher, em vestes vitorianas, ela parecia um vampira, branca como porcelana e longos cabelos loiros, olhar estoico e altivo.

— Ela é assustadora.

— Não é? Será que conta como roubo se eu o levar? Está abandonado aqui! E pode valer algo. Quem será o artista? – Louise se pôs a revirar o quadro em busca de alguma assinatura, pouco importando-se com o pó acumulado.

— Não acho uma boa ideia...- Sakura viu uma mancha passar pela porta aberta, algo que identificou como uma pessoa. Se espantou de início, mas lembrou-se que o lugar estava cheio de gente.

Seguiu até a porta e olhou o corredor, vazio numa direção e um homem parado diante da janela ao fim da outra.

Era uma noite de lua, então esta jogava sua luz através da janela embaçada de poeira e com rachaduras no vidro.

Ele tinha as mãos nos bolsos, e fitou-a de lado, a luz iluminando parte de seu rosto, de cabelo escuro e aparado, barba e olhos negros.

Sakura seguiu pelo corredor indo em sua direção, ele se virou e quando sorriu ela teve certeza que já havia este sorriso bonito, torto, mas bastante pretencioso.

— Nos conhecemos...? – Ele parecia velho demais para estar na faculdade, ele era distinto.

— Esqueceu-me tão rápido, amor? Estou ofendido.

Oh, ele era mesmo distinto, de uma presunção tão grande, que era singular.

— Oh! É você, o pretencioso do museu! – Um vinco se formou entre as sobrancelhas espessas dele, e ela soube que falara alto, e para ele. Imediatamente levou a mão aos lábios. — Pe-perdão, eu não quis dizer tão alto.

— Mas quis dizer...- Ele devolveu, os olhos escuros e afiados a fizeram se encolher um pouco.

— Erm... Perdão? Mas veja, você não soou exatamente humilde, e muito menos, hum, cordial?

— Eu não fui cordial? Até mesmo a ofereci um almoço.

— Oferecer, é uma palavra muito... gentil, na verdade soou como se eu devesse ir apenas por você ser... quem é...?

— Exatamente. – Ele soltou, novamente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo — Veja...

— Olhar pra você, eu já estou, veja, eu fico muito...

— Honrada?

— Não.

— Empolgada?

— Hum, não.

Ele se inclinou suavemente em sua direção, os olhos aprofundando-se nos dela e o sorriso entortando de uma maneira...

— Excitada? – Sakura piscou, chocada, e sentiu-se corar da cabeça aos pés, recuou um passo.

— Cla-claro que não!

— Agora sim, estou muito ofendido.

— Sinto muito! Mas eu não acho que possa ficar... assim, por um estranho...

— Não?

— Claro que não!

— Hm – Ele jogou o olhar para a janela, com uma expressão quase fechada, e Sakura se perguntou se soara realmente muito estranha.

Envolvimentos íntimos, e casuais, eram comuns entre as pessoas de sua idade, estava acostumada a ouvir as aventuras de Robin e Louise com um rapaz ou outro, mas simplesmente nunca se vira assim.

Não era só por que havia um anel em seu dedo, ela sequer poderia enxergar-se sendo assim antes dele, ou sem ele, ou antes de perder a memória...

Ele suspirou, quase bufando, e meneou a cabeça com se negasse algo, pensativo.

Então voltou-se para ela.

— Que seja então.

— Hum?

— Você olha para mim, eu olho para você, beijo você contra esta parede, e veja só, não seremos mais estranhos.

Ela recuou contra a parede, o vendo apoiar a mão nela acima de sua cabeça.

— Q-q-q-que?! Como assim? Não é assim!

— Claro que é, que intimidade maior poderia haver em... misturar nossas bocas... – Ciciou, aproximando-se, ela se encolheu mais ainda, buscando fundir-se à parede úmida — E quem sabe... Nossos corpos?

— Nã-não existe intimidade nisto, não se não houver sentimentos, isso não é certo.

— O errado é sempre mais atraente, de toda forma. Sabe como eu sei?

— Você não sabe...

— Porque em algum lugar dentro destes olhos estupidamente verdes, você sabe que é verdade, o bom e o certo não te atraem, não é?

— Está só... Só... Jogando...

— Amor...- Ele ciciou — Eu não jogaria com você. – Sakura arquejou, sentindo o toque áspero e quente de seus dedos, passeando pela linha de seu maxilar, eles não impeliam qualquer força em fazê-la erguer o queixo. Mas a cálida carícia era como um feitiço traiçoeiro, tentando-a fazê-lo, a encarar seus olhos de azeviche, ou seus lábios finos e suavemente corados. — Já aprendeu a nadar, Sakura?

Sakura piscou lentamente, lembrando aos poucos da primeira conversa que tiveram. Limpou a garganta, almejando que isso fornecesse uma saída para fora daquele feitiço, para longe daquele mago.

— Ma-mais ou menos...

— Quer se afogar?

As pupilas dela dilataram e tremularam, o ar escapou aos poucos, batendo contra o rosto dele.

— Eu não posso...

— Porquê?

— Porquê... Porquê...? – Ela indagou-se, ele se aproximou aspirando o perfume que vinha de seu cabelo, o nariz roçou sua bochecha — Por que...

— Porquê?

— Por que...- Estremeceu, sentindo-o respirar o perfume em seu pescoço, a barba roçando seu maxilar a fez sentir um arrepio completamente diferente, agressivo e atordoante. Que a deixou mole contra a parede.

— Porquê, amor? – Ele ronronou, roucamente, seus lábios tocaram o maxilar delicado, sentindo o peito vibrar de excitação com a sensação da pele macia, quente e extremamente perfumada.

Queria ouvir sua resposta sem valor, queria ouvir sua desistência.

Queria sua pequena ruína, ruindo para si, uma vez, agora, depois de tanto tempo destroçado para ela.

— Porquê?

Sakura estremeceu ao seu toque, apertando os olhos, como na primeira vez que a tocou.

Ela ergueu a mão vacilante, tocando seu peito através do blazer aberto, e respirou, quase pronta a desfalecer.

— Porquê... Porquê...- O cheiro de poeira e mofo chegou ao seu olfato, a música abafada alcançou seus ouvidos, e ela sentiu-se despertar aos poucos, ainda que já houvesse uma parte sua, pronta a permanecer.

Isso a assustou um pouco mais.

Abriu os olhos repentinamente, e encarou os dele.

— Porquê... Por que estou noiva.

֍

— Onde você estava? – Louise indagou, Sakura quase saltou longe dela, tamanho o susto, e encarou-a com os olhos esbugalhados.

Como se Louise soubesse exatamente o que havia acontecido, o que era extremamente assustador. Sakura não fazia ideia, afinal.

— E-e-e-eu...?

— O que oi? Está branca, calma, onde você estava? Te procurei e você sumiu!

— E-eu acho que me perdi...

— Credo, você é que nem criancinha num parque, querida? Vamos ao banheiro, você está gelada, o que viu? Um fantasma? – Louise brincou, puxando-a.

Um demônio, talvez? Provável que isso explicasse o que aconteceu.

Tolice, aquilo foi completamente humano, até demais, e errado. Ela não sabia o que teria acontecido se não tivesse fugido. Mas esperava que não precisasse mais lidar com isso, afinal, ela havia dito o que realmente importava... Certo?

O banheiro disponível era assustador, empoeirado, e tinha gente dormindo nos boxes. Um barulho suspeito vinha de um deles, e as duas saíram de lá o mais rápido possível com as faces rubras.

— As pessoas poderiam ser pervertidas sem serem tão deselegantes? – Louise bufou, indignada.

Sakura preferiu não dizer nada, sobre o assunto.

— Onde está Robin?

— Vai saber? Capaz de ser ela naquele banheiro.

— Céus.

֍

— Senhora Uchiha? – Danica indagou, após bater na porta e entrar, Mikoto encarou a mulher por cima das lentes dos óculos.

— Sim?

— Falei com a governanta da casa dos Bennet. – Mikoto e encarou com olhar afiado, e leu sua expressão.

Suspirou, tirando o computador do colo e deixando sobre a mesinha ao lado. Puxou os óculos da face e começou a se levantar.

— Ora quem diria... – Comentou.

— Devo chamar...?

— Mande Izuna.

— Sim, senhora. – Danica saiu com uma reverência ágil. Mikoto vestiu um robe e cruzou o grande quarto.

— Parece que a Gazela pulou a cerca, de novo.



֍

— Oi genteeee! – Robin exclamou, cambaleando até elas, abraçada a Vinnie que não parecia muito melhor.

— Oh, meu deus, você...- Louise suspirou. — Não tem vergonha, Vinnie?!

— Oh, calma lá, porque o mau humor, estamos aqui pra nos divertirrr

— Ugh, eu não vou te carregar bêbada, sua vaca!

— Então fique bebada comigoooo!

Louise resmungou, e Sakura não conseguiu deixar de rir.

— Não dê apoio a eles!

— Desculpe.

— Não seja chata, Lou! Venha aqui, Sakura! – Vinnie disse, puxando-a com o braço — Prova essa aqui, tá ótima, vai te deixar empolgada, e vamos dançar!

— Erm, melhor não...

— Vamos, Sakuraaaaaa – Robin fez manha. — Você também, Lou-Lou!

— Você nem começar!

Sakura suspirou, sentindo que as coisas ainda não tinham saído do controle o bastante.

֍

Avançou pela penumbra dos corredores decadentes, entrou numa dispensa e pegou a bolsa largada lá, mordendo a bochecha internamente de raiva. Arrancou o blazer do corpo e largou no chão, tirou a camisa, e então se abaixou, pegando um colete a prova de balas, e o ajustando no tronco.

— Mas é um caralho, um caralho... – Rosnou, se abaixando e pegando os coldres axilares, e de cocha.

Ouviu o bipe do comunicador e o pôs no ouvido.

— Que é?

— Credo, que mau humor? Sua incursão deu em outro pé na bunda, Sasuke?

Sasuke pegou a desert eagle, e enfiou um cartucho causando um ruído alto.

— O que é?

— Movimentação na casa da família Adams.

— Quantos?

— Um deles está saindo com dois carros cheios...

— Quanto tempo faz?

— Dois minutos agora.

— Não tem trânsito a essa hora, vinte minutos, no mínimo. A deusa saiu?

— Nop! E nem o Corvo.

— Hm.

— O que vai fazer?

Ele chutou a bolsa agora seca, apenas com sacos plásticos vazios que antes portavam balas.

— Pegar aquela rata.

— Ih...

— Nem que seja pela cauda.

Posto que não conseguiu pela boca.

Por fim, tirou uma pequena caixa do bolso, dentro dela estavam as lentes vermelhas. E então, pegou o casaco escuro e pesado pendurado no cabideiro e, introduzindo os braços além das mangas, e jogando-o por sobre os ombros.

Puxou a gola rolê da camisa de algodão que usava por baixo até que cobrisse boca e nariz.

Saiu do pequeno cômodo fedido à mofo. Assustando os festeiros bêbados, que desviaram de sua silhueta sombria.

Um estrondo fez a casa inteira tremer além da ligação voltar a soar.

Ouviu gritos lá embaixo ao mesmo tempo que atendia.

— Que porra é essa?

— A polícia foi acionada, parceiro, vão estar aí em cinco minutos, fim da festa.

— Quem explodiu o quê?

— Eu não sei.

֍

Uma massa humana desordenada e histérica se moveu em sua direção, Sakura sentiu o ar fugir completamente de si, a necessidade e se encolher e gritar, foi atrapalhada quando Louise a puxou pelo braço em direção aos degraus da escada, elas subiram alguns, e ficaram agarradas ao corrimão, assistindo o pânico fazer todos se moverem como loucos, se atropelando em direção a saída.

A música continuava tocando, mesmo o DJ, tendo fugido também, não fora o bastante para abafar o estou que veio de algum lugar e fez todos temerem algo como bombas ou vazamentos de gás.

— Fique calma, calma! – Louise pediu — Robin?! Robin?! – Gritava, Robin já havia se separado delas antes, e não conseguiam vê-la entre toda aquela gente.

— O que está acontecendo?!

Sirenes vieram de fora, mais gritos, e outro estrondo, embora mais baixo, mas que fez o teto tremer e soltar poeira.

Louise olhou para o portal que dava acesso ao interior da casa, e puxou Sakura, as duas desceram as escadas, desviando das últimas pessoas que tentavam sair, e vinham na direção contrária.

Elas chegaram ao portal, vendo um corredor vazio que dava acesso a uma grande cozinha.

— Vamos pelos fundos.

— O-okay...

— Lou! Sakura! – Robin gritou, e elas a viram vir, balançando por causa do álcool e do medo. As duas voltaram, e começaram a puxá-la em direção à rota de fuga que planejaram.

Tinha gente fugindo pelas portas do fundo também, deixando-a escancarada.

— Ai! Meu salto! Isso pode ficar pior?! – Louise esbravejou, ao sentir o estalo e perder parte do equilíbrio.

Robin que se apoiava abraçada aos pescoços das duas, baixo a cabeça e deixou uma torrente de bebida e jantar sair pela boca. Sakura afastou os pés e bateu suavemente em suas costas. Fitou Louise com compaixão enquanto esta suspirava olhando o outro salto sujo de vômito.

— Eu vou calar minha boca agora, pois...

Carros da polícia invadiram o gramado morto, dois deles pararam e policiais saíram apontando armas e mandando elas e quem mais fugia por ali, deitarem no chão.

— Não pode ficar pior... – Louise suspirou, mais uma vez.

Sakura se encolheu no lugar, e eles se aproximaram delas, mandando-as seguirem para as viaturas e ajudando Robin a ir até lá.

Seguiu para o veículo, e entrou, Robin foi posta na outra janela, e Louise, ficou entre as duas, cuidando para que vomitasse fora, ou talvez torcendo para ter a chance de arrancar a cabeça dela.

As luzes das viaturas iluminavam o quintal sombrio, o carro teve dificuldade de manobrar para fora do terreno por conta das outras viaturas e carros dos festeiros. Louise ficou discutindo com os policiais que queriam vistoriar seus pertences em busca de drogas, e Sakura permitiu, pois sabia que não havia como remediar muito da situação, neste ponto.

Então enquanto eles faziam suas indagações e testes, ela observou o trabalho dos outros através da janela, prendendo gente bêbada, revistando e os fazendo soprar num aparelho de bafômetro.

Nunca havia refletido, mas percebera que não tinha grande confiança na polícia. Seja lá porque fosse.

Simplesmente não lhe pareciam capazes o bastante.

Ainda não haviam desativado o som, e com as portas abertas ele vinha ainda mais alto.

“Você me procura

Dentro da escuridão

Eu sou o oceano

Você é o tubarão

Sakura observou a movimentação dos moradores das casas ao redor, se aproximando e perguntando, e também reclamando do da baderna em plena madrugada.

A lua estava cheia, e estas outras casas, eram bem menos assustadoras que o casarão Grant.

Ela observou as janelas escuras ou mal iluminadas do segundo andar, e então, seus olhos se levantaram para um dos vários telhados.

E se pregaram numa silhueta sombria, parada de pé sobre ele.

Você me caça como

Seu último adeus

Que não fosse o movimento do longo casaco negro sob a ação do vento, ela julgaria ser um tipo de estátua.

Oh anjo caído

Da noite

E se os olhos não fossem perceptíveis de longe, em um tom carmim, ela não teria certeza de que estavam cravados em si.

Apenas pegue meu coração

Apenas rasgue-o para fora

Esta pele sagrada

Está caindo

O ar fugiu de seus pulmões, um sentimento pavoroso de sufocamento e familiaridade a deixaram atordoada.

Sakura agarrou a beirada da janela, buscando alguma certeza de estar na realidade.

Desviou os olhos, sentindo-os arderem, a sensação angustiante, era como um sonho que já sabia ter tido, mas não lembrava. Pinicando sob sua pele, aguilhoando sua mente, fazendo sua cabeça latejar e o estomago revirar.

Eu coloco meu corpo

Em cima da cama

Ela puxou o ar para dentro de si, veio de uma forma quase dolorosa e pareceu que estava se afogando nele.

Sakura subiu os olhos para o telhado outra vez.

Ainda encontrando o espectro lá.

Viu uma de suas mãos se afastarem do corpo, e se erguer, o dedo indicado apontou diretamente para ela.

Então recuou, apontando o polegar apenas para si.

Como um esclarecimento, ou uma reivindicação.

Um dia algum dia

Você sabe que eu vou te ver de novo

A viatura finalmente arrancou, o puxão a fez balançar no banco e se segurar na janela e em Louise que falava ao telefone quase histericamente.

Sakura olhou para trás, para a casa, mas o telhado estava vazio, iluminado apenas pela luz dúbia da lua.

A música foi se tornando um eco distante a medida em que a casa se ficava para trás.

Eu coloco minha mão contra seu coração de plástico

Não, o suicídio não é o plano, levante-se

Até mesmo as estrelas estão presas dentro, oh meu

Não há nada para esconder

Não há nada para morrer

Não há nada para morrer

(...)”

(Plastic Heart – Ciscandra Nostalghia feat. Tyler Bates)

֍

Desceu para a sacada do lado traseiro do casarão, agora quase em silêncio e totalmente escuro.

— E aí?— Lhe indagaram pela escuta.

— Escapou.

— Ensinou bem, hein?!

— Vai se danar.

— Não iria ser uma boa coisa, cara, não era uma boa hora.

— Foda-se. – Desligou, e moveu o pescoço, girando-o e alongando-o enquanto ouvia o quase imperceptível som de passos no assoalho apodrecido. — Pelo menos não vou terminar a noite sozinho.

Virou a cabeça, olhando o oponente de soslaio, usava um casaco de couro marrom queimado, o cabelo loiro perfeitamente penteado para trás, os traços definitivamente eram de um alemão.

Como ele detestava lidar com as casas alemãs, só não eram piores que os russos, mas com esses, ele tinha mais mão pra lidar. Os malditos alemães eram bem mais irritantes. Já sabia quem havia dado início ao fim da festa.

Mas isso significava uma coisa.

Estavam mais de olho nele do que suspeitava, e nem mesmo a casa inglesa parecia tão ciente.

O foco deles era outro, afinal. Ao menos por enquanto, se ele não se mantivesse sem rastros.

Mas a merda, era que mandaram um fodido alemão, e os malditos sabiam ferrar alguém quando queriam.

Viu-o tirar as mãos dos bolsos e lâminas escorregaram de suas mangas para as mãos, as juntas estralaram quando o apertou-as entre os dedos atuados. O padrão de letras ele reconheceu, e sorriu discretamente voltando-se completamente para o assassino que já o encarava feroz e glacial como um digno matador silencioso.

Sacou uma espada curta de dentro do sobretudo e girou entre os dedos.

Spinne em Londres, mas um 18 ou um 14? – Provocou.

O alemão rosnou vindo em sua direção, cortando o ar de forma mortal e silenciosa, o som que ecoou foi o das lâminas deles se chocando.

֍

— Izuna a perdeu? – Itachi indagou, embora não muito interessado.

— Izuna quer a cabeça dela, nada o tiraria de seu rastro – Shisui comentou. Os dois observaram Veena atravessar a sala e ouviram o som de carros adentrando a propriedade. Não eram os veículos que a casa dispunha, conheciam pelo som.

Levantaram-se e a seguiram.

— Policia? As festas de hoje em dia são sempre assim? – Shisui continuou, notando as luzes das sirenes através das cortinas.

— É um estardalhaço desnecessário, não é inteligente restringi-la tanto – Itachi ecoou, encarando as costas da mulher.

— Restringir? – Ela comentou, quase bem-humorada — Longe de mim restringir nossa pequena gazela de ir brincar por aí em campos desconhecidos, e, perigosos.

Os dois se entreolharam, e Danica abriu a porta em frente Mikoto.

Ela pousou as mãos nos quadris, e ergueu o queixo deparando-se com dois policiais e Sakura encolhida entre eles como um ratinho com a cauda presa numa ratoeira, e olhos enormes e suplicantes de um gatinho.

Ela se manteve abraçada a pequena bolsa que tinha, o cabelo soltando do penteado, o vestido fedendo à álcool, poeira e vômito de alguém, e um dos saltos estava aparentemente, quebrado.

O carma de Louise parecia ter pulado nela depois que saíra da viatura, seu salto também quebrou.

Agora o jeito era tentar não quebrar diante de três olhares tão afiados.

Mikoto sorriu, e Sakura tinha a impressão de que esse raro sorriso não era uma rara demonstração de afeto mais profundo.

Veena pôs a mão no bolso do robe e dele tirou seu costumeiro relógio de bolso, feito de prata.

Abriu a tampa e olhou os ponteiros.

— Que interessante, três horas da manhã? Não sabia que gazelas saltavam tão tarde por aí, Sakura.

Sakura encolheu os ombros, sorrindo fraquinho.

— Uma ocasião rara...? – Tentou.

— Rara? Porém, não impossível, e não sem consequências, pode entrar – A garota baixou a cabeça e adentrou rapidamente desviando dos dois homens. Mikoto observou suas costas com um olhar estreito, então, voltou-se aos dois policiais. — Obrigada por terem-na trago, e perdão pelos transtornos.

Os dois assentiram, e se retiraram.

Danica fechou a porta e Mikoto guardou o relógio.

— Traga-me um chá, Danica.

— Sem senhora.

— Qual sua grande ideia de castigo? Sabe que não está castigando um de nós? – Shisui indagou, curioso e cuidadoso.

— Oh, por favor. Não vou mandar tortura-la.

Sakura não era para torturar.

Sakura era a tortura.

Notas finais
Vestido da Sakura > http://imgur.com/mwey9kc E aí? Eu disse q a ação voltaria aos poucos, não tivemos cena de luta, mas o Vingador tá só aquecendo (pra porrada pq pra outras coisas ele tá em ponto de bala...) O que acharam da melhor aparição desse cap? Me refiro a ele! Sim! PLUM! REI DA PORRA TODA,O MAIOR GALÃ, ELE QUE MANDA NESSA FIC HAUSHAUSHAU Obrigado à Tayse-san por gostar tando as minhas bobageiras de notas finais ♥ Novidades, sigam a page > https://www.facebook.com/KinesterFanfictions/?ref=bookmarks AAAAH entrem nesse grupenho aqui, pra pegarem mais indicações de fics, viu? é terra legal, terra bacana, tia q manda lá, relax, eu sou só o diabo XD > https://www.facebook.com/groups/305135733220030/