Vigilantes
1 Os Primeiros Vigilantes
Notas iniciais
Aqui estou eu retornando dos mortos para postar essa fic. Esse é um projeto antigo meu, que só agora pude realmente colocar em prática.
Bom, esse é um capítulo introdutório, servindo para que se entenda um pouco mais sobre os personagens que aqui são apresentados, e que possa dar uma ideia geral de como será a história.
Espero que gostem.
Boa leitura!
— Por que me chamou até aqui? Faz quanto tempo? Oito...?
— Exatamente dez anos. – Complementou.
Fazia muito tempo desde a última vez em que ficavam frente a frente. Exatos dez anos. Naquela noite, coincidentemente também chovia, mas o cenário era muito mais escabroso. O Revolucionário havia escapado de suas mãos, ou melhor, havia tido a permissão de escapar de suas mãos. O deque 13 do Porto de Starlight Town estava vazio, e o relógio marcava três horas da madrugada. Fazia frio, e toda a água que caía do céu escorria pelas roupas grossas que os dois utilizavam. As roupas ainda eram as mesmas. Mas a situação totalmente diferente.
Charles Pace tirou do armário o grosso macacão amarelado, comprado há muito em uma loja de EPI’s especializados. Outrora utilizada para proteção química em laboratórios de pesquisa, lhe serviu como uma luva para cobrir todo o corpo, complementado com botas e luvas de couro. Para o rosto, já que de forma alguma suas feições poderiam ser capturadas por uma câmera, ou vistas pelos inúmeros inimigos, Pace escolhera uma máscara de gás soviética, que lhe proporcionava uma respiração moderada e controlada enquanto lhe cobria a verdadeira identidade. O topo da cabeça era então recoberto pelo capuz do próprio macacão. Assim mantinha sua identidade em segurança.
Munido disso decidiu lutar por sua cidade, proteger as pessoas de Starlight Town de um sistema injusto e opressor. Mas essa benfeitoria altruísta não veio da noite para o dia. Charlie foi atingido por um raio há quinze anos, quando tinha apenas vinte e oito de idade. A estranha tempestade que cortou os céus trouxe consigo dons inimagináveis. Pace passou a passear livremente entre os espaços, teletransportando-se em blinks que duravam pouco mais que um segundo. Puft. De uma hora para a outra ele já estava em outro lugar. Foi magnânimo no começo, assustador, claro, porém foi impossível não visualizar as milhares de possibilidades que aquilo poderia lhe gerar.
O chamado pela justiça então acabou sendo maior do que qualquer tentação. Pace era um jovem professor de Literatura na universidade local, e a pouco havia terminado sua especialização em Literatura de gênero e conflitos sociais. Viu de perto que o que era exposto nos livros não estava tão distante de sua própria realidade. Com uma administração fraca e corrupta, viu sua cidade sucumbir ante a criminalidade. Aquilo foi a gota d’água.
Voltou então sua vida ao combate ao crime, treinando seus músculos e suas habilidades, praticando o seu dom, e se munindo de coragem para agir. E agiu. E salvou muitas vidas. Criou o próprio protocolo e o seguia a risca. Atacava, salvava, detinha os bandidos, os imobilizava e então chamava as forças policiais. Junto à cena do crime deixava apenas um pequeno bilhete com a palavra “hope” escrito. Não criou um pseudônimo para si, mas assim acabou sendo conhecido, Hope. O primeiro vigilante.
Mas Pace não havia sido o único atingido por um raio. Doze caíram em toda a cidade. Alguns meses depois de iniciada sua ação de proteção, um blog surgiu, elencando toda a podridão que envolvia a política local. Intitulava-se “O Revolucionário”, e prometia trazer a verdadeira segurança a Starlight, e não um falso sentimento de esperança que jamais seria perene. Prometia simplesmente consertar tudo, de forma definitiva.
Começaram então as ações prometidas, com dois grandes atentados a bomba contra autoridades, vitimando o secretário de segurança e da educação, mas ceifando consigo mais duas dezenas de vidas inocentes. Segundo postado no blog, um sacrifício necessário para um bem maior. O Revolucionário também escolheu uma máscara para esconder o rosto, uma verdadeira antítese de Hope. Todo de negro, com uma máscara plástica acinzentada, emulando um rosto humano, porém sem emoções, um homem alto e atlético movia-se pela cidade com grande agilidade, além de possuir habilidades auditivas e visuais acima de qualquer ser humano normal. Era incapaz de errar um único disparo.
Os dois então lutaram, se digladiaram muitas vezes, em uma batalha sem vencedor. Revolucionário achava as ações de Hope inúteis e apenas paliativas, sem focar no mal maior, enquanto que Hope o considerava um lunático extremista, pois não conseguia enxergar que todas as vidas importavam no processo. No fundo, os dois queriam a mesma coisa. O bem de sua cidade.
Mas o destino de certa forma lhes dera uma ajuda.
Por conta dessa crise institucional sem precedentes, o governo central decidiu por intervir, realizando eleições gerais. Bons homens, vindos do povo e inspirados pelos dois vigilantes alçaram-se ao poder, tendo o apoio dos cidadãos. Porém, a justiça feita com as mãos pelos vigilantes acabou tendo o seu preço cobrado. Os justos homens que agora governavam a cidade precisavam mostrar que ninguém estava acima da lei, e resolveram fazer um julgamento para os dois, mesmo sem a presença de ambos. Hope foi condenado há dez anos por agressão física, enquanto que o Revolucionário recebeu a pena capital por terrorismo e múltiplos assassinatos. A decisão selou definitivamente o fim dos vigilantes. Havia chegado a hora de guardar as máscaras e se esconder.
Tomaram então decisões distintas. Pace escolheu se esconder a vista de todos, seguindo a vida apenas como professor de Literatura, enquanto que o Revolucionário tomou um barco, há dez anos, partindo do porto sem destino, no até então último encontro dos dois. Naquela noite chuvosa, Hope poderia tê-lo prendido, talvez conseguisse levá-lo as autoridades para cumprir sua pena. Mas não seria o correto a se fazer, e ele sabia disso. Assistiu o homem partir sem agir, retirou sua máscara e a guardou, com a esperança de nunca mais precisar colocá-la de novo. Porém, muita coisa ocorreu nos últimos dez anos.
— Você reativou o blog. – Disse-lhe Hope. – Sua postagem mexeu em memórias antigas da cidade. Memórias já esquecidas.
Um clarão cortou o céu. Os dois estavam no terraço de uma construção abandonada, um velho depósito de contêineres, próximo ao porto. As luzes da cidade ao fundo iluminavam parcialmente as duas figuras, que mantinham uma respeitosa distância de um para o outro.
— Seus crimes ainda não prescreveram. – Voltou a falar o que trajava amarelo. – Por que retornou? Pensei que tivesse iniciado uma nova vida. Esse era o trato.
— Nunca houve um trato, Pace. – O Revolucionário sabia que citar o nome verdadeiro de Hope o irritava. Aquela havia sido sua grande derrota, ter sua identidade secreta descoberta por aquele que em outros tempos foi seu inimigo. – A cidade estava em boas mãos e por isso, e só por isso, nos aposentamos. Mas pelo que vejo não fui o único a voltar à ativa. Afinal de contas, você está aqui. A roupa ainda lhe cai bem. – Troçou.
A voz do homem era rascante e soava como um dos trovões que insistia em cair no meio da tempestade.
— Um passarinho me contou que você andou fazendo perguntas, socando uns camaradas para obter informações. – Voltou a dizer o Revolucionário. – O que aconteceu com você, senhor esperança, crise da meia idade? – Soltou uma breve gargalhada. – Você não era disso. Sempre foi tão metódico, tão bonzinho com os assaltantes que capturava. O que mudou?
Hope deu um passo à frente, ampliando o tom de voz.
— Você sabe muito bem. Aliás, o manifesto que escreveu no blog deixou tudo muito claro. – Sua voz saía abafada pela máscara, o que o obrigava a ampliar ainda mais para que pudesse ser entendido. – Starlight saiu do controle. A cidade cresceu, progrediu, implementou os planos necessários, mas... Se perdeu com o tempo. Os governos que se seguiram se tornaram mais e mais autoritários, permitindo a ação cada vez maior de corporações. As riquezas acumuladas ficaram nas mãos de poucos, e esses poucos vem cada vez mais oprimindo a grande maioria da população.
— Os professores estão sendo calados. – Prosseguiu. – Qualquer um que fale algo contra o governo vem sendo calado. A criminalidade voltou a imperar, e ainda mais violenta e perigosa do que antes. Estou falando de cartéis internacionais, milícias inteiras caminhando pelas ruas com o aval do governo. – Suspirou, engolindo a seco as próprias palavras. – Está pior do que antes. Penso se realmente o que aconteceu há dez anos foi a coisa certa.
O outro o ouviu com atenção. Era nítido o respeito que existia entre o dois.
— Então você sabe que algo tem que ser feito. Algo grande. Temos que começar tudo do zero mais uma vez.
— Não! – Refutou com veemência. – Você matou dezenas de inocentes da última vez. Se agir de novo, matará ainda mais. Não é esse o caminho, você não entende? Precisamos nos unir, precisamos encontrar uma forma de...
Dessa vez foi o Revolucionário que tomou de assalto a palavra.
— Não há outra forma, Pace. Só há um caminho para mudar o status quo. Você acha que eu não me martirizo todas as noites por aqueles que morreram nas explosões? Acha que eu não sinto isso? – Sua voz pareceu hesitar por dois segundos. – Eu sei o nome de cada um que estava ali, e os repito em minha mente todo dia antes de colocar a cabeça no travesseiro. Mas aquelas foram perdas necessárias. O bem de uma maioria exige sacrifícios.
Charles Pace deu um passo para trás. Não imaginou que depois de tanto tempo, as convicções daquele homem teriam permanecido imutáveis.
— Não posso permitir que saia por aí plantando bombas em prédios públicos. Mas também não quero começar uma nova guerra com você. Achei que tivesse mudado. – Confessou.
— Eu, você... – Respondeu. – Há muito deixamos de ser pessoas. Quando estamos com as máscaras nós somos ideias, somos sentimentos. E ideias e sentimentos são imutáveis, camarada. – A frase pareceu acertar Pace em cheio, como um golpe preciso. – Eu também descobri que há quinze anos caíram doze raios como os que nos atingiram. Imagino que sua menina também tenha recebido essa dádiva. Restam então mais nove.
— Não toque no nome dela! Nem sequer pense nisso, entendeu? – Bradou Hope de forma efusiva.
O Revolucionário sabia muito sobre Charles Pace. Sabia o seu nome verdadeiro, e também acabou descobrindo sobre sua filha adotiva. Charlie a conheceu em uma de suas últimas missões, há dez anos. A família da criança havia sido sequestrada; ela, sua mãe, e seu pai foram mantidos por trinta horas em cativeiro por um bando que exigia um resgate milionário. Assim que conseguiu descobrir o lugar, Hope o invadiu, com o objetivo, como sempre, de salvar a todos. Mas sua missão acabou fracassando.
Não foi rápido o bastante para impedir que os homens armados usassem o casal como escudo, atirando nos dois e os executando a sangue frio. A pequena Amber, a época com sete anos, em meio ao choro e tristeza profunda que sentiu ao assistir tão horrenda cena, acabou por manifestar habilidades até então ocultas. Conseguiu jogar dois dos homens para fora da casa, apenas com a mente, sem sequer tocar em um deles.
Desnorteado, Hope deixou o lugar levando a menina, que não tinha mais nenhum parente próximo vivo, e estaria fadada a um lar para menores após a perda dos pais. Isso ocorreu no último mês de ação do vigilante. Depois do famoso julgamento, deixou a cidade por cinco anos, retornando apenas quando a poeira havia baixado, deu a Amber um novo nome e uma nova história. Amber Parker se tornou Jessica Pace, e foi registrada oficialmente como sua filha. Nos últimos cinco anos viram de perto a decadência da cidade de Starlight, e por isso, Pace decidiu prepará-la para caso precisasse agir.
Parece que o momento havia chegado.
— Não se preocupe, capitão esperança, isso não está nos meus planos. Jamais faria mal a sua menina, apesar, é claro, de estar bastante curioso para saber quais são as habilidades dela. – Fez uma breve pausa antes de prosseguir. – Não conseguiremos chegar a um acordo, não fomos feitos para agir juntos. Temos e sempre teremos ideologias muito diferentes. Então por que não testamos nossas teses? Sei que está atrás daqueles que também foram atingidos pelo raio. Sei que está formando a sua Confraria. – Um novo riso, dessa vez um tanto desdenhoso. – Estou formando minha Aliança também, e irei atrás deles. Acho que podemos jogar um jogo. Qual de nós dois tem melhor poder de convencimento? Acha que com tudo o que está acontecendo eles vão mesmo se juntar a um salvador de gatos nas árvores? Ou será que vão entender que precisamos destruir as engrenagens desse governo?
Hope respirou fundo.
— Somos mesmo muito diferentes. Todas as vidas importam, cada uma delas, e sei que me farei entender. Ninguém entrará de peito aberto em uma missão ao seu lado, sabendo que poderá matar centenas. Ninguém tem tanto sangue frio assim. Sua revolução não vai acontecer. Não aconteceu antes e não acontecerá agora. As coisas serão resolvidas de outra forma.
— Isso é o que veremos Pace. Você é rápido, pode ir de um lugar ao outro em menos de segundos com essa sua habilidade invejável. Mas você é muito diplomático, e te falta o conhecimento das ruas. Dessa vez eu serei mais rápido que você. E como sempre, mais esperto.
Hope sorriu sob a máscara.
— Que o jogo então comece, camarada. – Debochou.
Notas finais
Para quem quiser ler o blog do Revolucionário, aqui está o link. Coloquei lá a postagem da carta aberta (manifesto) citado na fala de Hope:
https://orevolucionario776160256.wordpress.com/
E para os que quiserem participar mais ativamente, aqui está o link para a criação da ficha do personagem. Por favor, leiam tudo e preencham com muita atenção. Qualquer dúvida podem me acionar por MP:
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSeqPr4My3UBNbKET6rLUa0fytXwV_7dZU9vxFhJ5kcF21UnoA/viewform
Sem mais, nos vemos nos comentários.
Abraços!
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