Vigilantes
2 De Sol para Mi menor
Notas iniciais
— Como foi a sua viagem? Correu tudo como esperado?
A garota deu um belo gole no isotônico que segurava com a mão esquerda, deixando o líquido descer lentamente por sua garganta. Os cabelos negros compridos, ondulados, estavam desarrumados, jogados para detrás da orelha após desfazerem o coque que os prendia. O rosto alvo emanando cansaço, brilhava pelo suor enquanto que os músculos estafados retesavam-se à parede, dando-lhe um mínimo de conforto.
O rosto era miúdo, e os olhos pequenos, semicerrando-se ainda mais pela miopia que a obrigava a usar óculos. Não gostava muito da peça, e acabava refutando-o na maior parte das vezes. Descobriu o problema no breve período em que viveu em Detroit, após ser examinada por um médico simpatizante da causa de seu pai. Não podia reclamar dessa fase da vida, afinal de contas, tiveram o suporte necessário para reconstruir tudo quando as coisas desmoronaram sobre eles.
Vestia um quimono azul e havia acabado de finalizar o seu treinamento diário. Praticava jiu-jitsu uma vez por semana com o melhor faixa-preta que pode conhecer em seus dezessete anos de vida. Jessica Pace vivia uma rotina regrada, onde cumpria cada parte dela com extrema disciplina. Frequentava a Royal School of Starlight Town, uma tradicional instituição de ensino local, todos os dias. Fazia aula de piano as terças e sextas, e todo sábado pela manhã, treinava jiu-jitsu e realizava exercícios anaeróbicos em casa, longe dos olhares de terceiros.
Seguia essa mesma rotina desde que completou os seus treze anos. Estava habituada a essa vida e por isso nunca reclamava. Não se via no direito de protestar depois que tantas coisas boas aconteceram após o maior baque de sua existência. Sabia que sua reconstrução poderia ter sido muito mais difícil se uma pessoa em especial não tivesse tomado uma decisão tão complicada.
Era bastante esperta e observadora para a sua idade. Tinha aprendido a olhar muito bem e buscar sempre entender o ambiente ao seu redor. Precisava estar sempre um passo a frente, para não ser surpreendida jamais. Não era por menos, havia tido um excelente professor.
— Cansativa, porém produtiva.
A voz um tanto rouca que lhe respondeu ao questionamento vinha de um homem que estava parado de pé a sua frente, também com um isotônico em posse. De pele negra como ônix, o homem de porte atlético também vestia um quimono, por sua vez branco, com uma faixa preta amarrada a cintura. Tinha a cabeça raspada reluzente, que brilhava pelo suor que lhe tomava conta; o rosto rústico apresentava uma sobrancelha retesada, que lhe desenhava os olhos grandes. O nariz lhe cabia muito bem ao formato circular de sua face, enquanto que os lábios grossos eram circundados por um cavanhaque grisalho.
Estava um tanto ofegante. Fazia tempo que não pegava tão pesado assim em um treinamento. Jessica estava ficando tão boa quanto imaginava e logo a aprendiz superaria o mestre, isso era um fato. Deu mais um gole na garrafa que segurava, tomando fôlego antes de prosseguir.
— Minha pista tinha fundamento. Acionei um conhecido na Cidade do México e ele me confirmou toda a história. – Meneou a cabeça em negativa – Não entendo como isso ficou em segredo durante tanto tempo.
Charles Pace havia decido agir. Os dias estavam cada vez mais difíceis para todos e, após a conversa frustrada tida com o Revolucionário, entendeu que precisaria ser rápido. Um conhecido em Tijuana lhe falou sobre uma história contada a respeito de uma criança mexicana atingida por um raio em Starlight. O que soava como uma lenda urbana acabou ganhando um fundo de verdade quando Pace resolveu investigar profundamente.
Aparentemente as autoridades não haviam sido avisadas a época, e nem mesmo a suposta família da suposta criança havia procurado um hospital, mas de alguma maneira, familiares no México tinham recebido essa notícia. Era uma coincidência muito grande para se ignorar. No fim das contas, ele estava certo.
— O Revolucionário sabia de tudo quando conversamos. Sabia dos outros raios e sabia da minha intenção de juntar todos. – Disse Pace com pesar. – Não podemos assustar ninguém, precisamos da melhor abordagem possível. Temos que ganhar a confiança dessas pessoas.
Jessica parecia preocupada. Baixou levemente a cabeça.
— Até hoje vocês foram os únicos vigilantes dessa cidade. Ninguém mais apareceu, mesmo com todos os raios que caíram naquele dia. – Disse a menina. – Talvez eles não queiram, talvez tenham decidido virar as costas pra cidade. Não temos muitas garantias, pai.
— Eu só preciso abrir os olhos deles. Da forma certa eles vão entender. – Pace respondeu de forma suave, notando a hesitação da menina. – Não foi fácil tomar essa decisão lá no início, eu tive que abrir mão de muita coisa. Eu perdi muito, Jessica... – Ele cerrou os olhos brevemente, reformulando o que havia dito após pensar bem. – Nós perdemos muita coisa, Jessica. Mas têm uma hora que precisamos agir, fazer algo pelos outros. Fazer algo pelo bem. Assim estaremos nos salvando também.
A garota ainda parecia preocupada, não conseguia relaxar suas expressões.
— Ontem o senhor Middleton foi demitido. Ninguém falou nada, mas as notícias acabaram correndo pelos corredores. Como ele não estava na escola, acabamos confirmando tudo com um conhecido. Uma pena, eu gostava das aulas dele. – Lamentou.
Hector Middleton lecionava História há duas décadas na escola. Sempre se posicionou contra a forma de governo vigente, e obviamente tocava nessas questões em sala de aula. Aparentemente, o governo havia achado uma forma de calá-lo. Ele jamais conseguiria outro emprego na cidade, sendo obrigado a deixá-la. Pouco a pouco, de maneira sutil, as forças governamentais iam suprimindo todas as formas de oposição.
Essa notícia só deixava Charles ainda mais alerta e preocupado. Não podia cometer um único deslize. Havia muito em jogo.
— Mais um motivo pra sermos rápidos. Não dá pra ficar de braços cruzados vendo tudo isso, não é? – Questionou Pace, sabendo ser retórica sua pergunta. – Quando descobrimos suas habilidades, passamos a tentar controlá-la, a treinar da maneira que fosse possível. Fiz isso por saber que um dia os vigilantes precisariam retornar. E caso eu não conseguisse, queria que estivesse pronta.
Charles estendeu a mão, que foi imediatamente segura pela menina. Jéssica foi erguida em único movimento, ficando de pé ante seu tutor. A garota era baixa, alcançando a altura do peito de Pace.
— Você está pronta, Jessica. Eu confio em você.
Jessica Pace engoliu a seco, sentindo uma leve palpitação no peito. Durante os últimos anos foi preparada para esse momento, mas até então parecia algo distante, que talvez nem precisasse ocorrer. Pensar que iria para as ruas, que agiria assim como Charles agiu há dez anos, ainda era muito surreal. Mas receber esse voto de confiança já era por demais reconfortante.
Os dois se abraçaram, um profundo abraço forte, cheio de significado.
— Tyler me chamou pro aniversário da Amanda essa noite, mas... – Jessica deixou escapar um breve muxoxo. – Depois de tudo o que aconteceu, não estou com muito clima. Acho que vou recusar.
O tutor arqueara brevemente a sobrancelha.
— Pois eu acho que você deveria ir. Não se sinta obrigada, claro, mas acho que não deveria recusar o convite. – Ele tocara os ombros da menina. – Nunca se esqueça de tudo o que já conversamos, Jessica. Nós não podemos chamar a atenção para nós mesmos, ou estaremos em perigo. Você deve...
— Ser o que a sociedade quer que eu seja. – Complementou Jessica. – Aos olhos deles eu devo ser a adolescente branca normal, com hobbies e atividades normais, que eles julgam ser pertinentes a uma garota. Assim eu não chamo a atenção para mim. – Completou, olhando-o nos olhos.
— Exato. – Concordou Charles com um movimento de cabeça. – Mas você não deve nunca esquecer quem é. Quem você é, meu anjo?
— Eu sou Jessica Pace. Sou filha dos Parker, renascida no raio, e também filha de Charles Pace... – Esses dizeres, repetidos há anos, sempre mexiam com o seu emocional. – Sou herdeira do Hope.
Charles sorriu, enxugando uma nesga de lágrima que parecia querer escorrer dos próprios olhos.
— Meus pais adotivos me trouxeram de Uganda pra cá quando eu tinha seis anos. Lembro pouca coisa da minha terra, mas não me esqueço nunca do sorriso no rosto da minha mãe. – Jessica ouvia com muita atenção as palavras de Charles, afinal de contas, era muito difícil vê-lo falando do passado. – Mesmo com todas as dificuldades ela não deixava de sorrir. Eu corria pelo chão batido de terra, brincando com as outras crianças, e ela me assistia sentada em um banquinho, sorrindo enquanto fazia os seus cestos trançados. O sorriso só a deixou quando ela me entregou ao senhor e senhora Pace, que me trouxeram para a América quando toda a papelada da adoção saiu.
Seus olhos brilhavam pelas recordações.
— Eu vivi entre os dois mundos, Jessica. Fui a criança que a sociedade quis que eu fosse, e mesmo assim enfrentei todo tipo de injustiça e humilhação que ninguém jamais deveria passar. Mas nunca esqueci quem eu sou de verdade, por mais que muitas vezes tenha tido de fingir ser outra pessoa. – Ele ergueu o queixo, inflando o peito antes de prosseguir. Parecia ainda mais alto e imponente. – Nascido Onyango, trazido a América e registrado como Charles Pace, renascido no raio... Eu sou o Hope, o primeiro vigilante.
Era nítido o orgulho presente em suas palavras e em seus olhos. Jessica o observava com extrema admiração.
— É assim que nos mantemos sãos e em segurança. – Continuou. – Muita gente já olha torto pra você por ser uma garota branca adotada por um homem negro solteiro. Todo e qualquer holofote que pudermos desviar já será de grande valia.
Jessica sorriu. Sentia orgulho de Pace, que nos momentos mais difíceis sempre foi sua âncora. Sabia trazê-la de volta para a realidade quando a própria garota achava que iria se perder.
— Tudo bem, pai. Vou pensar com carinho sobre a festa. – Deu de ombros. – Talvez seja até bom pra desanuviar um pouco a cabeça.
— Empresto até o meu carro. – Troçou Charles. Suas feições estavam acesas, mas foram levemente ganhando tons de maior seriedade. – Quanto aos nossos primeiros passos, eu já sei de algo que possa fazer, e que tem ligação com a investigação que fiz no México. – Pace fez uma breve pausa antes de concluir. – Preciso que se aproxime de uma garota na sua escola. Seu nome é Julia Martín.
[...]
Não precisou de mais do que uma hora para terminar a encomenda. Não era comum aceitar esse tipo de pedido, mas as cifras tinham sido altas, e a proposta veio recheada de uma papelada de marketing, o que pareceu fazer bastante sentido. Costumava escrever com muito mais profundidade, trazendo a sua concepção de sentimentos, por mais que muitas vezes lhe houvesse ausência dentro de si, mas achou que valeria a pena voltar-se, pelo menos dessa vez, para o mercado capitalista engessado.
Uma empresa do ramo alimentício lhe encomendou um jingle para o lançamento da sua nova linha de suco de laranja, o que a princípio gerou bastante estranheza. Sendo pragmática como sempre, não entendeu as razões de uma empresa de porte mediano procurar alguém fora das agências de publicidade para esse trabalho. Afinal de contas, era apenas uma musicista independente, que se formou cedo e foi o grande destaque da turma, mas que sempre fugiu dos grandes estúdios. Não parecia fazer muito sentido.
Até que uma mulher, Alice Wagner, de sotaque carregado, lhe enviou a papelada explicando o pedido e também a telefonou, após primordialmente contatá-la por email. Explicou que não queriam chamar a atenção e que temiam que o lançamento do novo produto, aparentemente com uma fórmula até então desconhecida pelo mercado, acabasse vazando pelas agências. Por isso decidiram procurar um artista independente e discreto. Nesse sentido, não havia opção melhor do que Irene Bae.
Os olhos castanho-escuros repuxados, fruto de suas raízes sul-coreanas, fixaram-se na composição agora completa. Tinha poucas linhas, um refrão que se repetia algumas vezes, e uma melodia alegre. Até mesmo para uma canção puramente artificial, Bae atentava-se aos mínimos detalhes, não queria que fosse apenas satisfatória, queria que fosse a melhor. As sobrancelhas retas e sem imperfeições davam a seu rosto arredondado e pequeno ainda maior seriedade. Quando queria, sabia focar-se como ninguém.
Ergueu-se de sua mesa, guardando os papéis em um envelope e preparando a bolsa para sair. A empresa havia pedido que ela fosse até o escritório deles, levando a canção para que pudesse dirigir a gravação no estúdio que lá tinham. Também era um tanto incomum, já que acreditou que mandaria a música pronta a eles, o que não lhe daria muito trabalho. Mas novamente com a justificativa de espionagem industrial, Irene acabou sendo convencida a seguir tais passos. Teria um bônus muito bom em sua conta, já que o adiantamento, depositado um dia antes, já demonstrava que jogavam alto nesse tipo de negociata.
A jovem de vinte e três anos desceu a escada espiral, caminhando elegantemente até a garagem. Vestia-se de forma sóbria, como sempre; os cabelos castanhos como os olhos, os sombreavam com sua franja lisa e perfeitamente desenhada. Olhando de relance, era difícil ler suas expressões, com mais atenção, porém, essa dificuldade só se ampliava. E todo esse magnetismo singular, em meio à confusão de olhares que gerava, nunca lhe causou estranheza. Sentia que já tinha vivido uma vida inteira, apesar de sua latente juventude. Tinha cicatrizes incrustadas, profundas e ainda dolorosas.
Saiu em seu carro, seguindo o endereço indicado pela senhorita Wagner. O local ficava no centro comercial de Starlight Town, em um prédio repleto de escritórios e consultórios médicos. Lembrou que já havia assistido a uma gravação ali, em um estúdio localizado no quinto andar. Não era suntuoso, sendo apenas mais uma das caixas de concreto a ser levantadas após o plano de expansão da cidade ter sido votado e aprovado com ampla maioria. Lembrou-se de que aquele lugar já havia sido um parque. Lamentou internamente por ver que sua cidade ia a cada dia mais perdendo a cor e perdendo a alma.
O dia estava laranja, um tanto fosco e triste, naquele período de transição entre a luz e as trevas. Era melancólico olhar para os céus, mas melancolia também era um sentimento agradável para Irene, inerente, no mínimo, a condição humana. Não possuía muito trato social, mas era uma ótima observadora desse aspecto. Analisava e julgava as relações interpessoais como ninguém, e sempre apresentava uma tese racional para qualquer problemática. Parecia estar sempre em expansão, como uma estrela.
Falou brevemente com o segurança do lugar e, após estacionar o veículo, adentrou o prédio, passando pela recepção, na qual recebeu a indicação de que deveria subir até o décimo terceiro andar. O lugar havia sido pintado de um verde musgo que embrulhava o estômago. As paredes descascavam por conta de alguma infiltração não resolvida, enquanto que o ambiente de luz bruxuleante parecia por demais opressor. Não era confortável caminhar por ali, e apesar de toda a segurança interna que sentia, mesmo que sem perceber, começou a acelerar os passos, como se dissesse ao corpo que não pretendia ficar muito tempo naquele lugar.
Tomou o elevador sozinha e apertou no botão que a levaria ao andar indicado. Começou a sentir frio, o que a fez fechar um pouco mais o casaco que vestia. O bip indicou sua chegada, e após um barulho estranho, semelhante a algo enferrujado sendo arrastado pelo chão, as portas do elevador se abriram. Se no hall ainda podia-se ver uma meia dúzia de pessoas, ali, no décimo terceiro andar, nem sequer uma respiração podia ser captada. O local era tão triste quanto toda a ideia do edifício, e os primeiros passos de Bae foram dados com certo receio.
Passou por duas portas, um consultório de odontologia aparentemente desativado, e um de advocacia, com uma placa dourada com o nome Smith&Smith gravado. Nenhuma das salas parecia movimentada. Estacionou então de fronte a terceira, que possuía uma plaquinha discreta com os dizeres Richard Porter Association. Porter, segundo Wagner, a mulher que entrou em contado com Irene, era o representante comercial da empresa de sucos, que trataria diretamente com a moça. Bateu na porta três vezes com leveza, até receber uma resposta.
A porta se abriu e uma mulher de longos cabelos loiros, com seus aparentes quarenta e poucos anos a recepcionou de forma amistosa. Vestia um blazer azul de marca, e possuía chamativas pintinhas nas bochechas, que faziam com que os olhos a focassem ao primeiro encontro. Ainda assim sua face era rija, um tanto cansada, e seu sorriso dava pistas de ser muito mais mecânico do que sinceramente simpático. Irene fez anotações mentais sobre esse fato. Deu-lhe então as boas vindas e pediu que entrasse.
Bae assim o fez.
O escritório era de fato um escritório, com todos os clichês necessários, desde as mesas quadradas às pilhas de papel que se amontoavam. Era um perfeito ambiente de trabalho, talvez três ou quatro dessem expediente ali, mas, no momento, só havia a mulher e suas pintinhas chamativas.
— Então finalmente nos conhecemos, senhorita Bae. – O sotaque da loira, que seguia insistindo na simpatia visivelmente forçada, remetia a Europa, talvez ao leste europeu, muito provavelmente. Irene lembrou de fazer mais uma nota mental. – Eu sou Alice Wagner, já havíamos nos falado anteriormente por telefone.
Estendeu a mão e a cumprimentou. Não era delicada, muito pelo contrário, parecia extremamente calejada.
— Sim, reconheci sua voz. – Respondeu com um sorriso discreto, tentando mediar a sociabilidade. – Trouxe a canção como foi pedido. Devo entregá-la a você?
Aquele sorriso fixo no rosto da outra já começava a incomodar.
— Não, senhorita Bae. Você mostrará diretamente ao senhor Porter. Ele precisou sair para resolver alguns detalhes da nova campanha, mas já deve estar retornando. Depois de aprovada nós levaremos ao estúdio para que você dirija a gravação. – A mulher ergueu brevemente o pescoço, olhando por detrás dos ombros de Irene, que havia se sentado de costas para a porta principal, a frente da mesa de Alice Wagner. – Por falar no senhor Porter...
Por mais que tivesse todas as pistas, por mais que tenha notado toda a estranheza desde o momento em que recebeu a proposta de trabalho, e por mais que parte de sua racionalidade tenha a mandado deixar o lugar após todas as notas mentais feitas, Irene Bae se permitiu experimentar, tentar entender empiricamente o que estava acontecendo e o que iria acontecer. Era de sua natureza, não tinha como evitar.
Olhou para trás por instinto, após ouvir o barulho da porta principal sendo aberta, perdendo contato visual por meros segundos com a secretária das pintinhas. Foi mais do que o suficiente. Ao voltar os olhos de encontro à loira, percebeu que a mesma estava de pé, e apenas sentiu algo que ela trazia em mãos cortar o ar com enorme velocidade, indo de encontro ao seu parietal esquerdo. O impacto do porrete contra sua cabeça foi violento o bastante para deixá-la completamente zonza.
Sua cabeça girou, sua visão perdeu completamente o foco, e um zumbido intermitente lhe tomou conta dos ouvidos. Tocou a mesa com os dedos e até mesmo o tato lhe faltava. Sentiu algo escorrendo pelo seu rosto, talvez fosse sangue, mas não havia dor. Estava confusa e com pensamentos desconexos. Seus olhos se encontravam envoltos por uma névoa e tudo parecia passar em câmera lenta. Irene sentia que iria desmaiar a qualquer momento.
Tudo o que conseguia perceber era um vozerio. Via Alice Wagner e um homem, provavelmente o suposto senhor Porter que havia causado a distração em Irene após abrir a porta. Não conseguia entender o que eles falavam, mas via suas bocas se mexendo. Sentiu os braços sendo puxados e amarrados na cadeira, assim como as pernas, rapidamente imobilizadas. Bae possuía um trunfo, sabia que poderia deixar o lugar rapidamente e de forma imperceptível, mas não o podia fazer naquelas condições.
Sua cabeça bambeou, pendendo para a esquerda.
Sentiu seu rosto ser tocado, com se estivessem verificando algo. O zumbido em seu ouvido ia levemente diminuindo, mas sua mente estava confusa demais pra conseguir organizar pensamento. Os dedos passaram a lhe tocar o braço, afastando o casaco para lhe expor a pele. Viu que agora a loira trazia nas mãos uma seringa. Iriam lhe aplicar algo. Fechou os olhos e tentou se concentrar, juntando o pouco de forças que ainda continha, que ainda a faziam manter-se acordada.
Mas tudo foi interrompido por uma brusquidão repentina. Sentiu o impacto da porta às suas costas ser arrombada, como se alguém a invadisse. O que se seguiu pode ser percebido com precisão pelos olhos de Bae. Viu a mulher Alice largar a seringa e puxar algo da cintura, que parecia com uma arma de fogo; viu também o homem fazer o mesmo. Viu os dois tentando reagir, mas sendo refutados com precisão por aqueles que haviam adentrado o lugar. Viu a testa e o rosto da mulher loira serem perfurados por dois disparos perfeitos. Viu o sangue e massa encefálica ser espirrada enquanto o corpo dela tombava ao solo.
Viu as pintinhas perdendo a cor. Agora era apenas um cadáver, e o sorriso mecanizado havia sido substituído por uma fixa e rija expressão assustada.
O homem pareceu ter conseguido atirar algumas vezes, mas não foi páreo para os invasores. Acuado, tentou se esconder por detrás de uma das mesas, mas acabou sendo massacrado. Três, quatro disparos acertaram em cheio o seu torso, pintando o chão de rubro com o sangue que escorria pelos buracos feitos em sua camisa de linho branco.
E o zumbido só se ampliou nos ouvidos de Bae, após a troca de tiros naquele ambiente fechado. Ainda estava muito tonta, o seu campo de visão começava a fechar, como uma tv com defeito. Sentiu a pressão de passos se aproximando, e se viu ser cercada por quatro pessoas, que carregavam armas de fogo em suas mãos. Os homens, ou mulheres, não havia como saber, vestiam-se todos da mesma maneira.
A roupa era negra, os pés estavam cobertos por botas de couro, enquanto que as mãos protegidas por luvas. E todos, sem exceção, escondiam os rostos com máscaras acinzentadas, que lhes envolviam toda a cabeça. As máscaras representavam um rosto humano sem expressões, e seus olhos grandes, foram as últimas coisas que Bae viu antes de desmaiar.
[...]
Noites quentes não eram incomuns naquela época do ano, mas até mesmo para Starlight Town o calor que fazia fugia do convencional. Nem mesmo uma brisa podia ser sentida, e com a umidade elevada, a sensação térmica só subia com o avançar das horas. Era preciso se hidratar bastante para não sofrer com os efeitos das repentinas lufadas escaldantes. Por isso mesmo era que Ava Hudson sempre era acompanhada por sua garrafa d’água a tiracolo.
Gostava de correr para desanuviar a cabeça, sempre cheia com a pressão da rotina diária de trabalho. Dava de três a cinco voltas pelo Martian Park, o que também acabava servindo para manter a boa forma no auge de seus quarenta e quatro anos de idade. Vestia-se de forma apropriada para o exercício, o que permitia que seus movimentos ocorressem confortavelmente.
Outrora movimentado, o parque agora recebia um número pequeno de visitantes, principalmente à noite. A cidade vivia um período de exceção, uma espécie de toque de recolher velado. Era arriscado passar das oito da noite na rua, já que o número de assaltos e assassinatos havia aumentado vertiginosamente. Até as árvores de troncos grossos pareciam ter perdido a cor com a torrente violenta que passara a tomar conta da cidade. E mais do que ninguém, Ava sabia dessa realidade detalhadamente.
Era repórter de campo quando os vigilantes surgiram pela primeira vez. Foi responsável por uma coluna diária que reportava todos os movimentos deles, primordialmente de Hope, e depois também do Revolucionário. Esteve na linha de frente cobrindo o histórico julgamento dos dois. Conhecia a figura e os ideais, mas nunca soube nada sobre suas reais identidades.
As ações bem sucedidas foram suficientes para elevá-la de status, chegando ao posto de editora chefa do The Starlight Times, o jornal mais popular da cidade. Todavia, a potente opressão do governo também alcançou a imprensa livre, que pouco a pouco ia sendo calada, enquanto que os grupos midiáticos estatais ganhavam cada vez mais espaço. Tudo isso capitaneado pela mão de ferro da senhora Goodson, prefeita de Starlight Town em seu segundo mandato. Para Ava, sua eleição foi o maior erro já cometido pela cidade em sua história bicentenária. Mas nem sequer podia mais publicar uma crítica, ou no outro dia estaria sem emprego e sem perspectiva alguma. Precisava pensar nas filhas e no marido. Precisava pensar em sua família.
Fugia da realidade cruel enquanto fazia a sua corrida, sempre ouvindo algo que pudesse elevar seu espírito. Ultimamente, por sugestão de uma amiga do trabalho, conheceu as músicas de Faith, uma artista independente que vinha ganhando notoriedade por suas composições profundas e repletas de significado. Adquiriu relevância na Coréia do Sul, por suas letras na língua local, mas mesmo que não conseguisse entender do que se tratava apenas de ouvido – tendo procurado a tradução para as músicas assim que as escutou pela primeira vez – Ava Hudson se viu seduzida pela melodia que muito a acalmava.
Vinha devorando fielmente todas as canções disponibilizadas.
Já estava na metade da segunda volta no parque, e ainda não havia topado com ninguém. O medo parecia ter afastado as pessoas do lugar que já havia sido tão cheio de vida. Mesmo sob os protestos do marido, Hudson não se permitia deixar de fazer o que gostava, já que para ela era uma forma de se manter reticente, sem se curvar as instituições que pareciam ter por objetivo doutrinar a população a uma vida totalmente encarcerada.
Os cabelos negros, lisos e curtos, balançavam ao sabor de seus movimentos corporais, enquanto que o cenho fechado direcionava os olhos castanhos para que se focassem na pista de corrida. A música soava em seus ouvidos, acompanhada pelos movimentos de seus delicados lábios, cantarolando o refrão já decorado. A pele branca reluzia a luz morna da lua que já se prostrava altiva ante a noite.
Não sentia o cansaço de seus exercícios. Era um dos poucos momentos de paz que conseguia ter durante a semana, sem que estivesse tendo de se preocupar com coisa alguma. Estava sozinha com seus pensamentos, e só queria focar nas coisas boas. Assim poderia voltar pra casa, colocar a cabeça no travesseiro e dormir minimamente tranquila para encarar o difícil novo dia que se seguiria. E assim seria ab aeterno, estava fadada àquilo.
Sentiu o celular vibrar algumas vezes, mas a princípio não ligou. Cerrou os olhos brevemente e cadenciou a passada, enquanto ultrapassava a velha fonte que continha uma estátua de James Morgan, patrono da cidade. Deu mais alguns passos até sentir a vibração novamente. Não queria ser interrompida, mas a insistência daquele que a contatava acabou fazendo com que diminuísse os passos até parar, apoiando-se brevemente nos joelhos, respirando fundo e retesando o corpo novamente. Pausou então a música antes de verificar as notificações na tela de seu telefone.
Cinco mensagens de Christian, também editor do The Starlight Times. Em resumo, davam conta de uma explosão que havia acabado de ocorrer na Cosmos Avenue, no centro comercial da cidade. Aparentemente um andar inteiro de um dos prédios havia acabado de ser detonado. Ainda não se sabia muita coisa, por isso Christian sugeria que Ava enviasse seus melhores repórteres até o lugar para averiguar. Seu coração disparou no momento em que leu as mensagens. Algo grande assim não acontecia desde que...
Seus próprios pensamentos acabaram sendo interrompidos por um rompante de luz que avançava desgovernado sobre ela. O barulho motorizado só pode ser percebido quando já estava há poucos metros de distância. Precisou pensar muito rápido, mas acabou agindo puramente por instinto quando seus olhos, agora arregalados, se fixaram nos faróis que pareciam querer engoli-la.
Firmou os pés na pista e ergueu os braços, em um legítimo movimento de proteção ao rosto, deixando que o celular caísse ao solo, enquanto que acabou por girar um pouco o corpo, posicionando o ombro direito mais a frente. Mas o impacto foi inevitável. O estrondo que se seguiu teria acordado toda a cidade se não tivesse ocorrido em uma região mais afastada das residências. A fumaça do motor estourado subiu em cone, enquanto que diversos pedaços da lataria e do para-brisa, totalmente estilhaçado, foram lançados longe com o impacto.
Um furgão vinho-tinto havia saído de dentro do bosque e avançado em alta velocidade contra Hudson, a atingindo em cheio. O veículo atravessou a grade de proteção, deixando um rastro de terra e metal pelo caminho.
Ava Hudson abriu os olhos. Ainda estava na mesma posição em que se prostrara. Os pés firmados haviam se afundado alguns centímetros no solo de concreto, enquanto que os ombros e os braços acabaram por receber todo o impacto da violenta batida. Ela mal deu um passo para trás. Havia agora um V na lataria no veículo, que estava totalmente destroçado. E quanto a ela, apenas alguns arranhões em seus braços, mas nenhum ferimento grave ou fratura.
Já o carro, mais parecia um emaranhado de metal retorcido.
Retesou o corpo novamente. Seu coração ribombava tão forte que aparentava que saltaria do peito a qualquer momento. Sua respiração estava dispneica e ininterrupta. Com os lábios semiabertos, tentando puxar um pouco de ar aos pulmões, Ava olhou para as palmas das mãos, tomada pelo sangue dos cortes que havia ganhado após o impacto. Olhou então para o interior do veículo e notou a presença de uma silhueta.
Caminhou lentamente até lá, ainda trêmula. Os vidros das janelas também haviam se partido, e as portas encontravam-se totalmente empenadas. No banco do motorista então viu o que não esperava encontrar. Sentado ao banco estava um boneco, um manequim vestido todo de negro, com uma conhecida máscara em seu rosto. Seus pés estavam presos ao acelerador.
Seu coração disparou ainda mais. Conhecia cada detalhe daquela máscara, afinal de contas, ela própria havia sido responsável por tirar as melhores fotos dele na época em que ainda agia, há exatos dez anos. Escutou então passos se aproximando, e imediatamente seu rosto se voltou as suas costas. Caminhando lentamente estava um homem naturalmente grande, de porte firme e ereto. Estava todo de negro e sobre o rosto trajava uma máscara humana sem emoções.
Era ele. Era o Revolucionário.
— Ava Hudson. – A voz dele era grossa e firme. Sua postura impassível. – Está na hora de voltar a sua força, a sua verdadeira força, para o bem dessa cidade. Você pode fazer mais por eles do que imagina, e sei que isso a inquieta todos os dias.
Os olhos de Ava estavam arregalados. Ela ainda tentava se recuperar do impacto, e todo o nervosismo do momento a impediu de dizer palavra. O homem estendeu a mão direita em sua direção.
— Venha comigo. Nunca é tarde para uma revolução.
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