Vidas Perdidas

6 CAPÍTULO 6: O PROTETOR


No dia seguinte, às 10 da manhã, recebi um telefonema, mas não cheguei a atender, talvez fosse algo referente ao caso dos mutilados, quando deduzi resolvi desligar o telefone. O dia só estava começando e eu não queria motivos para me preocupar, as folhas com as evidencias anotadas ainda estava no chão, e Júlia ainda estava dormindo. Como aparentemente não tinha nada de interessante para fazer sentei no sofá, fiquei pensando o que eu iria fazer, se daria as caras na floricultura ou se passaria o dia com a minha pequena. Finalmente decidi ir até a floricultura, mas antes teria que arrumar toda aquela bagunça. Comecei arrumando os papeis em um classificador separado, o único com a capa colorida, todos os meus classificadores eram monocromáticos por uma questão de organização; depois arrumei o sofá para dar uma cara mais apresentável à sala; arrumei a cozinha, lavei os pratos, pus em ordem todas as porcelanas antigas, fiz café; como Júlia ainda estava no quarto eu subi até o porão para conferir o que lá havia, há muito tempo que eu não arrumava aquele lugar e eu imaginava que estaria um caos, abri a porta devagar com medo de qualquer surpresa, pois nunca se sabe se alguém alojou os montantes atrás dela. Nada estava tão bagunçado, mas por falta de visitas havia uma vasta e densa camada de poeira e teias de aranha, todos os quadros estavam irreconhecíveis, os papeis espalhados, os moveis cinzas de tanto pó, só de ver senti o habitual incômodo no nariz.

Fui mexendo para descobrir qualquer coisa, até que achei uns antigos livros e enciclopédias, papéis com escrituras e umas fotos antigas, abri um envelope e vi fotos em preto e branco deterioradas pela ação do tempo, continham imagens de homens altos e sempre bem vestidos, quase todos aparentavam ter boa condição econômica, mas apesar disso apresentavam um semblante de medo e tristeza, fiquei imaginando de quê. Guardei as fotos sentindo que precisaria delas mais tarde.

Desci de novo para verificar se a princesa já estava de pé, e de fato estava acordada, mas não de pé, estava deitada pensando e cantando, era o que ela mais fazia, às vezes eu queria quebrar a privacidade das mentes só para poder descobrir o que se passava dentro daquela mente preciosa, as ideias e os pensamentos que ali pairavam além das músicas que ela gostava. Mas nem sempre seria bom, como entrar nas mentes alheias para entendê-las se nem mesmo consigo entender a minha própria mente?

Sentei-me na cama, ela estava séria, mas ao me olhar um sorriso alegre lhe cobriu o rosto e eu retribuí o sorriso, era simplesmente encantador. Ficamos calados analisando um ao outro, e era bom, olhar aquele rostinho sempre mais, cada vez mais. Até que enfim decidi quebrar o silencio:

- Bom dia...

- Bom dia moço...

- Dormiu bem?

- Claro! Sua cama, seu cheiro...

- Quer ir até a floricultura comigo? Posso lhe ensinar a cuidar das rosas.

- Adoraria.

- Vem, vamos tomar um café.

- Não.

- NÃO?

- Não sem antes ganhar um beijinho.

- Chantagista.

- Você gosta...

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Estávamos saindo, eu já estava trancando a porta quando ouvi o celular tocar, eu havia desligado o telefone, mas não o celular. Entrei de novo e para atender e para a minha frustração era Andrew:

- Sr. Carlos?

- O próprio.

- É sobre o dente de ouro encontrado com uma das vítimas, Dr. Robert me mandou analisar e ligar para lhe dar o aviso. Terminei a análise.

- Ótimo Andrew, mas não posso estar aí hoje, preciso até a floricultura. Por hora me mantenha informado sobre qualquer coisa que surgir.

- Sim Senhor.

Bati a porta e saí. Júlia estava no jardim cuidando de um pequeno grilo. Chamei-a e pusemo-nos a caminhar pela pequena avenida, o dia estava quente e agradável para um passeio.

Quando chegamos à floricultura, Bob já estava à minha espera, teria que levar a filha ao médico para os exames de rotina e precisaria de alguém para tomar conta das coisas, a pequena ruiva ficaria para me ajudar também. Passei a manhã ensinando-a como se corta, como colocar os fertilizantes e preparar a terra, mostrei-lhe a estufa e todo o resto. Ela olhava tudo curiosa:

- Qual flor você mais gosta Júlia?

- Nem sei. Nunca me liguei muito nelas, não entendo de nomes nem de tipos. E você?

- Tinha um gosto especial por rosas vermelhas, agora ainda mais depois que conheci você. Gosto delas porque são, em minha opinião, as flores mais vaidosas, são majestosas.

- Realmente.

Discutimos sobre todo o tipo de flores e a história de cada uma delas.

Por volta das 2 da tarde, depois de almoçarmos no restaurante oriental do velho Xing Tao, a sineta tocou anunciando que alguém abrira a porta, eu estava na estufa, voltei até a ala central para fazer as honras costumeiras:

- Bom dia senhor, posso ajudá-lo?

- Bom dia, você teria aí rosas brancas?

- Mas é claro!

- Pois bem, me prepare um belo ramalhete.

Enquanto arrumava o ramalhete observei o homem, ele era cético, não demonstrava nada, mas parecia ser um homem de negócios, geralmente esse tipo de pessoa não se prostra a aparecer em floriculturas, parece até estereótipo, mas é verdade. Para quebrar o silencio resolvi fazer uma pergunta nem muito curiosa e nem muito sem graça:

- Para presente Senhor?

- Sim... Tenho que me despedir de uma pessoa.

- Aqui está Senhor.

Preparei muito belo como sempre, bem organizado, com as folhas e as pétalas bem chamativas e um laço na cor vermelha com o nome da floricultura em dourado. Informei o preço, ele resolveu que iria pagar no cartão, na hora que o entreguei o buquê, me chamou a atenção o anel que estava em seu dedo, era exuberante, dourado e com um símbolo discreto, procurei não observar de mais, mas pude gravar o símbolo. Ele pagou e saiu. Fiquei extremamente intrigado com aquilo, não gostei daquele homem.

Voltei para a estufa onde Júlia estava à minha espera. Depois que terminamos todo o trabalho, fechamos a floricultura e voltamos para casa. Júlia não iria dormir comigo aquela noite.

Entrei em casa e a primeira coisa que fiz foi correr para o chuveiro. Estava terminando de me vestir quando o telefone tocou:

- Carlos?

- Quem fala?

- Não precisa saber quem fala. Apenas saiba que se continuar metendo o nariz onde não deve vai acabar que nem os outros. Não estou contra você, nem sou um deles, só quero lhe alertar que tudo isso é bem maior do que você pensa.

- Mas como...? Eu não entendo! Alô? ALÔ?

E desligou. Aquilo me deixou assustado e sem sono. O sangue sumiu de meu rosto e todos os meus pensamentos se desvairaram no ar. Fiquei sem atos nem palavras. Sentei-me na cadeira mais próxima para retomar as forças. Parei para raciocinar com as mesmas perguntas que pairavam sobre o crime: quem? Por quê? Pra que?

Corri de novo para o telefone e hesitei em pegá-lo, mas peguei. Disquei o numero do departamento e mandei chamar o técnico em informática o mais rápido possível, o nome dele era Nobel, e era jovem e astuto:

- Nobel certo?

- Exatamente!

- Sei que toda a equipe está se empenhando no mesmo caso que eu, acabei de receber uma ligação anônima que eu acho que vai nos ajudar só que preciso que você rastreie o endereço de onde veio a tal ligação.
— Sim senhor.

Fiquei andando de um lado a outro da sala à espera de uma resposta. Até que a recebi:

- Senhor. Acabei de rastrear a última ligação que foi efetuada para seu número de acordo com os dados da sua linha.

- Sim. E aí?

- Por mais estranho que pareça, ela veio de um orelhão que está endereçado em sua rua.

- COMO? Obrigado.

Minha tensão aumentou mais ainda. O pânico me tomou por completo, porque se eu estivesse sendo observado, estava sendo observado bem de perto. E o pior, não poderia confiar nas palavras de sei lá quem, não sabia de onde era e onde estava não sabia se estava realmente do nosso lado ou se estava querendo me tirar do caminho. Era tanto pânico que me motivei a ir cada vez mais fundo naquilo. Sim, eu era maluco.

Até arrisquei olhar para o lado de fora da janela, na rua estavam apenas Seu Fernando e Dona Gertrudes, me veio a grande ideia de pergunta-lhes sobre algo estranho na rua. Vesti meu casaco e saí para a rua como quem não queria nada, me aproximei do casal e saudei-os calorosamente:

- Boa noite, como vão vocês?

- Ah, olá Carlos! Quanto tempo meu filho!

- Pois é a rotina estava me matando.

- Já está de férias?

- Sim, quer dizer, mais ou menos, estou ajudando em um caso no departamento de policia da cidade, fiz um curso com meu colega e aprendi muitas coisas e agora ele precisa de minha ajuda.

- Ah, mas que maravilhoso!

Olhei para as extremidades da rua e vi o movimento de pessoas e carros que transitavam por ali, as fascinantes vidas alheias:

- Por acaso os Senhores não viram ninguém novo pela rua? Às vezes aparecem-nos uns malucos não é?

- Está procurando novidade?

- Só curiosidade mesmo, há tempo que não vejo nada de novo aqui, aliás, temos os novos vizinhos, mas fora isso...

- Eu não vi nada – retrucou Gertrudes.

- Eu vi. – ressaltou Seu Fernando.

- Como? O que viu?

- Vi um cara naquele orelhão ali, ele passou por mim e perguntou onde poderia achar um e eu indiquei o daqui da rua – falou ele apontando para o velho orelhão – fez a ligação em voz baixa, e depois saiu.

- O Senhor lembra-se de alguma característica do individuo?

- Não, a luz do poste que batia no chapéu impedia-me de olhar as suas feições.

- Obrigado Seu Fernando. Boa noite Dona Gertrudes.

- Boa noite filho – responderam os dois quase que em uníssono.

Entrei em casa novamente tentando esquecer o que se passara. Tomei um chá e comi um pedaço da torta que Júlia me fez. Deitei-me e fui dormir.