Vidas Perdidas

7 CAPÍTULO 7: O 15°


Quando acordei no dia seguinte, me preparei para ir ao departamento para conferir como andava a investigação e organizar as coisas com Robert, Júlia viajou para o interior para visitar os avós, ela e a mãe, não o pai. Eu achava até estranho como nessas situações o pai se demonstrava uma pessoa meio que desgarrada das duas, mas cada família tem seu hábito, e eu não tinha nada a fazer a não ser guardar a minha opinião para mim.

Por coincidência, quando eu estava de saída, o Dr. Silas também estava, parecia mais feliz e mais jovial, como uma criança que abre presente de natal, vou confessar a vocês que eu nunca tinha visto ele tão feliz, achei até estranho, mas levei numa boa. Será que o homem estava indo bem nos negócios? Será que havia sido promovido? Ou só estaria contente por não estar na presença da esposa e da filha. Eu sempre tive as minhas dúvidas sobre o “sogrão”, e a agora ainda mais.

Dirigi-me até a floricultura e falei com Bob que precisava organizar as coisas para facilitar as investigações, ele foi bastante compreensível e disse que estava orgulhoso de mim, e queria me ver ir para frente com isso tudo. Bob era um quarentão com pinta de galã de cinema, mas sempre teve o espírito muito jovem, muito jovem, eu admiro as pessoas que preservam a jovialidade de espírito, isso ajuda a tornar-se menos preocupado além de ajudar a preservar também a jovialidade do corpo. Pessoas assim são em suma extremamente agradáveis.

Quando parei defronte ao portão da floricultura me lembrei de súbito do homem que havia comprado às rosas brancas e senti um arrepio, lembrei-me também do símbolo que estava em seu anel e fiquei imaginando o significado. Já descrevi a vocês? Não? Acho que esqueci. Era um grande círculo que mais pareci um labirinto, eram fendas minúsculas, e por cima de tudo isso uma enorme coruja com os olhos em espiral, era magnífico.

Distraí-me tanto pensando no anel que cheguei rapidamente ao departamento. Robert, como sempre, estava a minha espera:

- Bom dia velho amigo.

- Bom dia Robert.

- Olha aqui essas imagens que a equipe me enviou sobre aquele dente de ouro, tem um... Um desenho... Sei lá... Acho que é uma corujinha.

- UMA CORUJA?

- Por que o espanto?

Meu sangue ferveu, será que uma coisa estava ligada à outra? Ou seria mero acaso?

Não é possível, virei a tela do computador para enxergar melhor e para meu espanto era exatamente o mesmo símbolo do anel do homem. Fiquei espantado, tentando entender o que uma coisa tinha a ver com a outra. Contei tudo o que se passar nos últimos dias a Robert e ele também se deparou com o espanto, ele perseverou na mesma ideia de Júlia de que esta poderia ser uma facção criminosa, pelo jeito, de altíssima periculosidade, atentamos ao fato de que, se aquele fosse o símbolo deles, já teríamos metade do caminho andado. Passamos toda aquela manhã tentando achar algo sobre aquela coruja, porém, sem sucesso. Fomos até o restaurante mais próximo para almoçar, o mesmo que Robert frequentava todos os dias, e noites. Adentramos o local e era extremamente singelo, como nenhum outro, mas de uma culinária extremamente excepcional.

Quando saímos, andamos um pouco a pé, ainda tínhamos cerca de 40 minutos antes do início do turno da tarde, quando de repente o celular de Robert tocou, era o detetive superior:

- Robert? Sinto lhe informar que o seu turno da tarde vai começar mais cedo.

- Mas eu nem cheguei a digerir o almoço por completo.

- Eu também não, na polícia você não se preocupa com digerir, apenas e tão apenas com engolir.

- O que houve tenente.

- O 15° assassinato filho, precisamos de você e de Carlos aqui na Principal, aquela joalheria que os famosos e os “filhinhos de papai” sempre fazem compras.

- Ok! Estarei aí em cinco minutos.

A caminho da viatura Robert me explicou tudo e eu fiquei abismado, já era o 15°! Se já se foram 15 vítimas, se estamos tratando de uma facção, se estes estão matando em série, ainda teríamos muito mais, “o buraco era mais embaixo”.

É certo que, a ordem cronológica dos assassinatos não tinha um padrão, mas estes se tornaram mais constantes nas últimas semanas.

O meu amigo corria como o vento, suava como um louco, a sirene estava ligada e a janela estava aberta, era uma poluição sonora terrível. Tive que gritar para que ele me ouvisse:

- Pensei que era só eu que dirigia mal assim!

Ele gargalhou energicamente e respondeu:

- Quando se está na polícia você não deve se preocupar com dirigir bem, somente e tão somente se preocupe em chegar.

- Você parece o detetive superior falando!

- São meses e meses de convivência! Eu tinha que aprender algo não é?

Quando chegamos ao local as viaturas estavam todas de prontidão e havia uma multidão curiosa que os guardas tentavam conter, passamos pelo aglomerado e lá estava o detetive superior fazendo a análise das palavras do balconista, fez sinal para que nós fossemos até o banheiro e encontramos a mesma situação do shopping, alguém que entrou e saiu pela entrada de ventilação, um exímio acrobata, o corpo ainda não havia sido retirado, pois os paramédicos ainda não haviam chegado. Era um homem que aparentava ter os seus 50 e poucos anos, grisalho, mas robusto, estava com a mão mutilada e um rio de sangue no lado, um horror. Voltamos ao salão e o detetive veio ao nosso encontro:

- Olá rapazes. Prazer meu jovem, você deve ser o Carlos. Eu sou o detetive Antônio.

- Prazer Dr. Antônio.

- Robert me falou muito bem de você, e pelo que ele me contou é muito habilidoso no trato das informações.

- Obrigado Senhor.

- Muito bem, o balconista me informou que a vítima veio buscar um anel que deixou na restauração, enquanto esperava que a joia fosse apanhada ele foi ao banheiro e... Recebeu “aquele abraço”.

- Não ouviram nada?

- Nada, foi sutil.

- O banheiro nem tem câmeras?

- Infelizmente só temos a deste corredor principal, mas não tão perto do banheiro.

- Mas lembre-se Robert, o nosso companheiro veio de circo.

- Veio do circo? – assustou-se Antônio, e mexeu o bigode numa interrogação.

- Sim Senhor, o mesmo que aconteceu no shopping lembra? Entrou e saiu pelo duto de ventilação.

- Assim fica difícil.

- E o pior é que ele só deixa mesmo o cadáver, não deixa armas, não deixou digital.

- Provavelmente ele usa uma luva, é muito experiente.

- E quanto ao anel? Ele ainda está aí?

- Por sorte está. Venham olhar.

Aproximei-me do balcão com o coração na mão, se fosse o que eu estava suspeitando, estaríamos certos e seria um tiro a menos a sair pela culatra. O jovem balconista nos trouxe uma caixinha de porcelana enfeitada com fitas douradas, pegou uma pequena chave e abriu, retirou um paninho vermelho e colocou em cima do balcão, foi desdobrando até descobrir o anel. Eu estava certo, certíssimo. O mesmo formato, a mesma tonalidade do ouro, o mesmo tamanho, e antes de tudo, o mesmo símbolo. Olhei para Robert com um ar de felicidade:

- Veja meu caro, a nossa velha coruja.

- Ela mesma.

Voltamos ao departamento o mais rápido que pudemos para começarmos a juntar as peças do quebra-cabeça, apesar de poucas. Decidimos que iríamos aventurar a descobrir de onde vinha o grupo criminoso e de que ele se servia em matar tanta gente. E também quem era aquele homem que me apareceu na floricultura. Tratamos de imprimir uma foto ampliada do símbolo para termos um apoio, e saímos em busca de pistas. Saímos da zona leste da cidade e fomos para a zona norte, era um dos lugares mais temidos, lá se escondiam todos os tipos de marginais e seres sem escrúpulos que conhecíamos e que não conhecíamos. Essas pessoas até hoje não foram presas, pois, a polícia não tinha suporte e nem coragem (digo falta de coragem, eram covardes) para iniciar um confronto armado com todas as gangues e grupos que ali haviam se instalado. Entramos pelas ruas estreitas, não com uma viatura, se não seria tiroteio na certa, passamos pela frente de uma casa onde belas mulheres exibiam os corpos a quem passava, como se não estivessem em uma rua, prostitutas evidentes e poço de todo tipo de infecção o doenças. Mas não estávamos ali para aventuras sexuais, estas nos levariam mais tarde a ter uma aventura com atestados médicos. De repente Robert parou o carro e apontou para o lugar, era velho e sujo, um galpão no final da rua com as vidraças quebradas, onde enormes gatos nos olhavam. Eu ia descendo do carro, quando dois se materializaram na frente de uma das portas. Entrei novamente e chequei se arma estava carregada, nunca se sabe. Caminhamos na direção dos dois homens, Robert parecia conhecê-los, passamos direto sem nenhuma interrupção e subimos uma escadaria enorme que revelava uma luz no seu último andar, quando entramos no local, um velho estava sentado em uma cadeira rodeado de outros tantos homens, Robert virou-se para mim e cochichou no meu ouvido – não se assuste, apenas fique calado que depois eu te explico tudo – e fomos até o velho que logo reconheceu meu amigo.