Vidas Perdidas

3 CAPÍTULO 3: SURPRESAS DO DESTINO


Conclusão do ano letivo é sempre assim, gente correndo pelas salas, gente entrando e saindo, gente com papéis, gente estressada, gente chorando, comemorando, rindo, era esse o espírito que nutria os corredores da vasta Universidade Estadual de Dekville. Dei bom dia ao velho e cansado porteiro de sempre, sentado em sua cadeira com o chapéu desajeitado sempre cochilava e acordava novamente a cada bom dia que recebia.

Subi a escadaria principal que estava apinhada de gente em busca de professores e me dirigi à cantina que estava mais vazia do que nunca, a galera não estava mais ligando para as conversas da segunda-feira de manha, acaba o ano e acabam os assuntos e fofocas. Somente a minha turma que sempre tinha algo de novo para compartilhar. Avistei logo de cara no fundo cheio de mesas Alexandro, que acenava freneticamente; Lisandra, que ainda lia seus livros de ficção científica e Loreley com seus longos cabelos loiros, tocava violão com as canções de lembranças e fazia batucada.

Quando me aproximei já fui intimado:

– Quero que você me passe as respostas daquela atividade de 50 folhas de filosofia. – disse Alex.

– Poxa cara, bom dia pra você também. Como estou? Estou ótimo. Meu fim de semana? Não poderia ter sido melhor.

– Você sabe que eu costumo dispensar essas gentilezas.

– Ainda vai se ferrar por causa disso.

– Viu o passarinho verde?

– Vi milhões dele. Ou até um pássaro pequeno de penas vermelhas.

– Como é que é?

– Tem mulher na parada. – Loreley foi curta e grossa.

– A gente nem pode mais falar de pássaros em paz.

Lisandra não tirava os olhos do livro para falar:

– Aonde vão passar as férias?

– Eu vou ficar em casa. – Loreley parecia não se preocupar com o fato de não viajar nas férias como a maioria das loiras patricinhas, ela não fazia esse tipo.

– Eu também. – Alex parecia frustrado, pois nutria desde pequeno em si um desejo imenso de visitar os parques temáticos de Disney.

– Ficarei cuidando das minhas flores.

– Blé, você e suas flores.

O sinal nos avisou que era a hora de pegarmos o rumo das salas. A única que ficava em uma turma diferente da nossa era Lisandra. Alex estava aflito e me puxava pelo braço para revirar minha sacola à procura do gabarito da atividade de 50 folhas, ele era realmente um atleta para essas coisas.

Ao entrarmos na sala, John deu uma de suas cantadas costumeiras à pobre Loreley:

– E aí gata?!

– Não diga uma palavra seu patife se não eu arranco o que você mais preza.

Eu e Alex seguramos o riso, costumávamos rir das situações em que Loreley colocava os garotos do colégio.

Corremos para sentar quando o professor de filosofia entrou batendo a porta, ele era o professor mais carismático de todos, porém passava trabalhos enormes e atividades complicadas, o que fazia com que ele fosse também o mais odiado de todos. Ele dava a lição no quadro enquanto Alex se esbaforia para terminar de copiar todo o gabarito da atividade sem ser percebido, mas o barulho que ele fazia com as folhas era tão irritante que se tornou impossível ninguém olhar para ele. As questões abertas eram as mais complicadas, e eu ouvia o coitado suspirar cada vez que virava a folha, eu olhava para ele e o via cochichar:

– Eu nunca mais copio uma atividade sua!!!

Eu ria, pois sabia que ele sempre iria pedir.

A aula de geografia era a mais insuportável, além da matéria ser enjoativa, o professor era egocêntrico, estúpido e ridículo. Não dava e nem tirava. Era um ser de outro planeta. Além domais corriam os boatos de que ele traía sua mulher sempre que ela ia trabalhar, o cara era um canalha de primeira.

A semana que se sucedeu foi tranquila, as provas acabaram e meus resultados foram ótimos. Agora era só esperar para começar a batalha no ano que vem. Combinei que no último dia de aula à tarde nos juntaríamos em minha casa para tocar, cantar e comer, o que a gente fazia de melhor. Nesse meio tempo consegui firmar uma amizade verdadeira e confiável com Júlia, eu sentia que ela confiava em mim e eu também confiava nela, me fazia de amigo para todas as horas sempre disfarçando a pequena queda, pequena não, enorme queda que tinha por ela. Eu não sabia se era ator ou mentiroso para disfarçar tão bem. Conversávamos sobre música e cinema, livros e culinária, e falávamos de coisas de infância, coisas tais como micos e épocas que marcaram nossas vidas. Eu me sentia leve em estar com ela, mas não suportava o incômodo que sentia e a ânsia de dizer que era apaixonado por ela desde o dia em que ela colocou as pequenas botas as calçada da singela rua do bairro de Burtington. Mas sentia o enorme medo de ela rejeitar em favor do pouco tempo que nos conhecíamos.

Estava na sala, ela no sofá dedilhando algo que parecia ser uma composição dela mesma. Quando fui surpreendido por uma pergunta:

– Já namorou quantas vezes?

Hesitei um bom momento com o copo d’água na mão, imaginando tudo que aconteceria se eu respondesse a pergunta ou se eu não respondesse, imaginando o que iria responder, até que meio sem jeito soltei o verbo:

– Umas três ou quatro.

– Nossa, de onde eu venho, os garotos de sua idade namoram por semana.

– Nunca gostei disso.

– Gosto de caras assim.

– Sério.

– Claro, nunca me permiti a me envolver com uma pessoa que possa me abandonar na semana seguinte. Percebi pelo seu jeito de ser que você não é mesmo dessas coisas.

Fiquei calado por um instante, quando ela voltou a falar:

– E você? Que tipo de mulher você gosta?

– Não tenho um tipo preferido.

Eu ouvi o baque do violão em cima da mesa. Eu estava colocando a jarra na geladeira, quando senti os pequenos braços me envolverem. Eu não achei estranho, ela costumava fazer isso. Virei-me e retribuí o abraço. Quando ela me olhou, me olhava diferente das outras vezes. Vi naqueles olhos verdes algo que nunca tinha visto: o infinito. Minha única reação diante de tal beleza foi ajeitar seus cabelos e beijá-la, e tudo ficou leve...

Eu sentia seus lábios colados, e que lábios. O calor do seu corpo se unia ao do meu, e uns abraços apertados e aconchegantes entre um beijo e outro. Era o céu em minha Terra. Quando ela cedeu, me disse baixinho:

– Fica comigo.

– Com todo prazer.