Vidas Perdidas

4 CAPÍTULO 4: EU E ELA


De beijo em beijo eu fui descobrindo que a pequena ruiva sabia muito mais do que solos, notas e letras. Ela me abraçava forte e eu sentia os arrepios de seus lábios tocando os meus, os suspiros eram altos, ela me jogou no sofá e eu não sabia o que fazer, mas no fundo sabia: me entregar. E me entreguei. Passamos toda a noite no calor dos braços um do outro, e eu mergulhava em cada parte do seu corpo delicadamente, como um marinheiro profissional analisa seu mapa. Eu pensava e não pensava, sem entender o porquê, eu queria saber mas não queria, só deixava rolar. E aquela coisinha pequena, princesa serena, me deixou nas nuvens, com os pés no chão.

Na manhã seguinte acordei em meu quarto e as roupas estavam todas espalhadas. Ela não estava na cama, rolei procurando o nada e acendi o abajur, meu corpo estava essencialmente suado. Havia perdido a noção do tempo mas estava feliz.

Procurei escutar a voz doce, e pude ouvir algo bem como a lira dos anjos. Levantei e cheguei a frente do banheiro, a porta estava entreaberta e empurrei com calma. A luz da pequena janela de ventilação exibia a silhueta perfeita, que cantava com a melodia da água que caía, era quase sublime observar o quão lindo era.

Não sei se foi intuição, ou se ela era muito esperta (e era, de fato), mas de costas ainda, parou de cantar e falou:

- Pare de ficar babando e me dá logo esta toalha.

- Pra quê? Você fica melhor sem ela.

- Engraçadinho...

Para não abusar da sorte, joguei a toalha por cima do “box”.

Desci e fiquei na sala esperando, o violão estava no mesmo lugar da noite passada, bem como as peças de roupa, a bagunça era tremenda (que noite!). Liguei para Bob para avisar que não poderia abrir a floricultura e que iria me atrasar, ele nem perguntou o motivo, confiava de mais em mim.

Quando ela apareceu na sala estava com os cabelos molhados, era ainda mais linda, ela se jogou no sofá e me puxou, eu me deitei no seu colo e ela acariciou meus cabelos:

- O que você fez comigo?

- O que VOCÊ fez comigo?

- A pergunta é minha mocinho.

- Mas nada me impede de copiar, também quero uma resposta sua.

- Ok. Você simplesmente se tornou o cara da minha vida.

- Por que?

- Eu nem sei te explicar, é tanta coisa. Eu sinto por ti o que eu nunca senti por ninguém.

E antes que eu pudesse fazer outra pergunta tola ela me beijou, e eu me entreguei novamente, tudo nela me acalmava, os olhos, o cheiro, o beijo.

Resolvi que deveria subir para tomar um banho, vesti a melhor roupa e deixei o quarto bagunçado mesmo. Quando voltei para a cozinha já tinha café na xícara e bolachas com geleia, mas faltava alguma coisa, fui até o jardim e recolhi uma das flores com cuidado, enchi um vaso com agua e pousei-o sobre a mesa – para combinar com a cor dos teus cabelos – ela deu aquele sorriso frouxo.

Conversamos de tudo que tivemos vontade, e como eu sentia falta de conversar com alguém que conseguisse me entender, passamos a maior parte do tempo falando besteiras e discutindo coisas que ninguém liga, brincamos, desenhamos, bagunçamos e eu até esqueci da floricultura. Mas a melhor parte foi vê-la cantar, coisas que eu não sabia dizer, ela cantava; tanto nas composições alheias quanto nas próprias.

Era a princesa que eu pedi a Deus.

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Naquela mesma tarde fomos ao parque para olhar os patos, sentar na grama, deitar e olhar o céu. Até arrisquei um desenho que não saiu tão bom, mas ela adorou. Quem passava ficava espantado em ver, nada de mais, mas nada além de um casal feliz sendo criança de novo.

Ao final do dia fomos até a casa dela para aquele clássico momento tenso de conhecer os pais. A mãe logo aprovou, mas quem não concordou muito foi o pai, Dr. Silas me olhava com um ar de desconfiança, eu perseverava que ele iria mudar mas era como se alimentasse algo estranho em mim, como se previsse algo, talvez fosse isso mesmo.

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