Vida, vida, vida

10 O lado vivo da ponte


— Onde estão suas crianças, Robin? – pergunta David entregando uma caneca com café para o companheiro.

— As deixei na escola e vim conversar com você. Não consegui dormir esta noite e a imagem de Regina histérica, furiosa e transloucada, não saiu de minha cabeça. Ela me expulsou da vida dela e disse que é muito amada por alguém. Sabe do quem ela está falando? Ela comentou com Mary sobre algum romance com aquele tal Martino “sei lá do quê”?

David nega com um movimento de cabeça.

— Regina estava descompensada e gritava sobre vencer a guerra, sobre nova estampa, nova vida. Fiquei confuso e temeroso pela sanidade dela. Regina afirmou que quer ter um filho!

Uma expressão de desentendimento emoldura o rosto infantil de David.

— Não sei o que dizer, Robin. Não acompanhei a doença dela com detalhes, mesmo porque ela manteve em segredo durante muito tempo e o tratamento foi iniciado noutra cidade...- o xerife para de falar ao ouvir o som do sino avisando que mais um cliente estava entrando na lanchonete da Vovó.

Era Martino quem havia acabado de chegar. Ele vasculha o ambiente com os olhos e quando foca a figura de Robin, acelera os passos na direção do homem. David se levanta e vai cumprimentar o recém-chegado, entretanto, é empurrado com violência para o lado e acaba por chocar-se contra uma das mesas.

Antes que pudesse entender o que havia acontecido, Robin sente um golpe contra seu queixo. Um golpe tão forte, que o desequilibra e o derruba no chão da lanchonete. Zonzo e confuso, Robin ergue os olhos e enxerga a figura embaçada de Martino se inclinando para encará-lo.

— Não ouse macular as conquistas de Regina! E nem tente obrigá-la a fazer escolhas para a nova vida dela! Regina quer viver e o que menos ela precisa é alguém a puxando para baixo! Não torne a aproximar-se dela, a menos que seja chamado para beijar as suas mãos! Exijo que não nos provoque ou ficaremos muito malcriados!

Os clientes da lanchonete não conseguem reagir fisicamente diante daquela cena de agressividade. Apenas olham e tecem comentários: uns contra e outros a favor sobre uma briga entre dois homens pelas afeições de uma mulher poderosa como Regina. Virando-se para sair da lanchonete, Martino se depara com Leroy e o encara como se perguntasse porque ele ainda estava obstruindo o caminho. O minerador sai da frente e permite que o agressor saísse do local.

Não demora muito para que o ocorrido na lanchonete virasse manchete de primeira página das conversas. A simples queda de Robin no chão da lanchonete, já havia virado salto ornamental, cambalhota sobre o balcão ou mesmo pulos acrobáticos de ginastas olímpicos. Um único soco havia se transformado em uma surra homérica, com direito a deslocamento de maxilar.

Henry estava divertindo-se com a situação e fazia questão de conversar com as pessoas, apenas para ouvir as mais diversas versões do dia de fúria de Martino.

— Isso é horrível, David! O homem não pode simplesmente bater nas pessoas! Ele é um selvagem!

— Mary, querida, eu penso que Robin extrapolou a covardia dele. Ele ficou ausente da vida de Regina, desde que ela revelou a doença. Como queria que ela se sentisse?

— Regina o expulsou de sua vida, foi rude e impulsiva. Isso já era o suficiente! Martino não pode invadir um comércio e agredir um dos clientes! Como xerife, você deveria ter prendido o cara!

— E levar um soco como aquele? – David acha graça. – Nem pensar! Viu o tamanho da mão de Martino? O bíceps dele é da largura da minha coxa! Eu preciso de um policial como aquele!

— Regina apenas reclamou a negligência de Robin! Não era motivo para que ele fosse agredido! E Martino nem é namorado ou marido de Regina! Por que ele se julgou no direito de tomar uma atitude bruta como esta? – Mary aponta para todos os lados. – Henry está se deliciando com tamanha violência! Quem esse Martino pensa que é?

— Ele está agindo como alguém movido pela paixão.

— Regina já conhece as virtudes e defeitos de Robin! Tudo será uma questão de conversa! Martino não pode agir como se fosse proprietário de Regina! Ele vai espancar todos os desafetos dela?

David segura os ombros da esposa e a obriga a encará-lo.

— Querida, você ainda não percebeu que Martino e Regina estão apaixonados? Não percebeu que ela decidiu lutar e vencer a guerra, apenas para construir a vida ao lado de quem pode oferecer um futuro sem amarras com o passado? Ela quer ter filhos e Martino foi o presenteado com a incumbência de dar vida a esse sonho!

— Mas...e Henry? Conviver com aquele ogro!

— Henry é filho de Emma e Neil! Agora, Regina quer um filho saído do ventre dela e foi por isso que decidiu sair-se vitoriosa! Ela finalmente encontrou alguém totalmente livre e disposto a construir uma vida plena, recebendo todos os defeitos e virtudes de Regina! Bom, mais defeitos do que virtudes...

Mary tenta argumentar e mostrar que a atitude de Martino não tinha sido positiva.

— Querida, muitos pensaram que a Rainha estava decrépita! Mesmo que ela esteja frágil, possui um cavaleiro feroz e valente que impedirá que alguém se aproxime e tente magoá-la enquanto ela viver este momento delicado! Nós não poderemos estar todos os dias ao lado de Regina! Mas Martino está disposto a isso!

— Está justificando o comportamento agressivo dele?

— Caso alguém tentasse magoar ou ofender você, em seus momentos de fragilidade, eu faria o mesmo que Martino fez. Lamento dizer, mas Robin mereceu!

Era começo da noite, quando Regina coloca um pequeno vaso com uma única rosa, no centro da mesa. Observa os detalhes da arrumação e orgulha-se de seu trabalho. Experimenta a temperatura da bebida dentro do balde e decide confirmar sua vestimenta, olhando-se no espelho. Pela primeira vez desde o recebimento do diagnóstico, ela se sente bonita e confiante. Passa a mão pelo chapéu elegante em sua cabeça e consegue sorrir, iluminando seu rosto com o brilho de sua alma feliz.

Regina se afasta do espelho no móvel e olha para o céu noturno, exibido pela janela.

— Não sei se me conhece, Deus, mas eu gostaria de me apresentar. Eu me chamo Regina Mills e acabei de descobrir que consegui cair do lado vivo da ponte. Lutei uma batalha que muitos acabam perdendo e devo reconhecer que recebi um grande presente ao estar viva. – ela sorri ainda mais. – Quando sentia que estava deitada em Suas mãos, naquele hospital, posso garantir que foi a sensação mais sublime que um ser humano pode ter. Percebi que Seus olhos foram voltados na minha direção e que Me permitiu reconstruir o que eu havia destruído: minha própria alma. Quero que saiba que agradeço a oportunidade por Martino ter cruzado o meu caminho e agora percebo que nada acontece por acaso. Humildemente, gostaria que recebesse os meus mais profundos agradecimentos e peço perdão por ainda não saber orar. Mas um dia, apresentarei algo melhor.

Sentindo que a felicidade começava a transbordar dentro de seu coração, Regina vai até a varanda e decide esperar por Martino, sob a luz protetora da noite e da lua. Seus olhos vasculham o movimento das pessoas lá na rua, encantam-se com o som do vento suave contra as folhas da macieira e é naquele instante que reconhece a figura grande do homem que vira por diversas vezes. Ele estava tão sereno que se parecia com um humano normal.

— Como sabia o meu nome, se eu nunca me apresentei a Deus?

— Ouvi as pessoas clamando por você. Não pense que isso a faz especial, Regina.

Ela sorri com o mau humor dele.

— Pois eu me sinto especial por ter chamado a sua atenção e por você ter se deslocado até mim, para fazer com que eu saltasse do lado certo da ponte. Fiz o que me pediu.

Um som estrondoso e assustador é a risada do desconhecido.

— Em qual momento de nossas conversas, eu lhe pedi algo?

— Em momento algum...você não me pediu, apenas me ensinou a fazer a escolha certa?

— Não me recordo de ter feito isso, Regina. Não lhe indiquei caminho algum, apenas fiz questionamentos. A escolha foi sua pelo seu livre arbítrio. É isso que torna o homem superior aos animais, desde o momento da Criação. Os animais agem por instinto e obedecem as leis das estações, às mudanças climáticas, o ritmo das marés, enquanto que o ser humano foi criado para pensar livremente e ter opiniões.

— Devo agradecer a você, anjo?

— Você já agradeceu a Quem deveria agradecer, Regina. – ele se vira e caminha para dentro da escuridão.

Regina se sobressalta ao sentir a proximidade de Martino, tocando seu ombro com carinho. Ela se vira e permite que ele a envolva com o mais caloroso dos abraços. Como era bom sentir-se viva! Como era maravilhoso saber que teria a chance de acordar ao nascer do sol! E como era deslumbrante a sensação de saber que era irrestritamente amada! Amada na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na noite e no dia!