Vida, vida, vida
11 Mais vida e mais flores desabrocham

As chaves do carro são jogadas sobre o móvel ao lado da porta de entrada. Mais um dia chegando ao fim e mais uma chance de curtir sua família, seus filhos e seu marido.
Regina emite um som alto e os saltos de seus sapatos batendo contra o soalho produzem um ruído incômodo, ecoando pela imensa sala. Neste momento, Henry surge correndo de um dos cantos da sala principal e vinha gesticulando, com uma expressão de zanga no rosto.
— Shhhhh! – ele continua gesticulando e ordenando que Regina fosse mais cuidadosa em sua chegada. – Tire os sapatos, mãe!
— O que houve?
— Demorou tanto e agora você quer estragar nosso trabalho? – ele chama a atenção da mulher e aponta na direção de um canto mais escuro da sala, num sofá, onde Martino estava adormecido, tendo um menino pequeno em seus braços, também ronronando como se fosse um gatinho.
Regina cobre os lábios com ambas as mãos e depois entreolha-se com o filho mais velho.
— Que lindos!
Henry se sente orgulhoso pelo resultado de seu trabalho. Havia conseguido fazer o irmão caçula adormecer, sem a necessidade do uso de chás calmantes ou de horas seguidas de correrias.
— Martino estava cansado e acabou dormindo com ele.
— Não conseguiu tirar aquele cobertor dali?
— Não, mãe! Ângelo é o Linus do desenho do Snoopy! Não larga aquele cobertor por nada nesse mundo! Só falta ficar filosofando sobre a vida! – Henry sorri abobalhado quando fala sobre o irmão. – Caso eu tentasse tirar, começaria outra novela para que ele pegasse no sono.
Ângelo. Um nome sugestivo escolhido por Regina para sempre se lembrar daquele amigo mal humorado que nunca mais a visitara outra vez, mas que certamente estaria por perto quando fosse incumbido disso. Sentia falta daquelas visitas rápidas e assustadoras de seu anjo, de seu Ângelo.
Regina se aproxima do sofá e inclina-se suavemente, beijando o alto da cabeça do marido. Ele desperta suavemente e pisca várias vezes, espantando o sono. Sorri e faz uma expressão de vitória, olhando para baixo e admirando o menino adormecido junto ao seu peito.
Era uma linda visão, apreciar a confiança que Ângelo tinha em permanecer nos braços do pai e saber que nada de ruim iria lhe acontecer, enquanto descansasse. Era um espaço muito disputado pelo menino e por ela mesma, um espaço que emanava segurança e calor, um espaço onde poucos seriam privilegiados e aninhar-se. Ali dentro, daquele peito forte, um coração imenso havia permitido a entrada e a habitação de Regina, Henry e agora do pequeno Ângelo, fruto do amor verdadeiro e prova viva da vitória de uma guerra contra a morte.
Martino tinha realizado mais dois itens de sua lista e sua felicidade era exibida no aumento da beleza de seu corpo, de seu rosto e de seu sorriso.
Regina abraça Henry e o traz para junto do corpo. Sua vida era somente gratidão e em todas as vezes que o manto escuro da noite descia sobre aquela cidade, ou quando ele era recolhido para a chegada de um novo dia, ela sabia o que deveria dizer:
“Obrigada, Deus!”
FIM.
Fale com o autor