Vida, vida, vida
7 O desconhecido dá medo

No final da primeira sessão, Regina se sente ainda mais fragilizada. Chora compulsivamente nos braços de Martino, que pacientemente acaricia suas costas e beija o alto de sua cabeça. Ali, naquele espaço, Regina se sentia pequenina e aconchegada, roubando vida para continuar. Recomposta e um tanto envergonhada, Regina ajeita seus cabelos e retoca a maquiagem, sempre observada pelos olhos atentos e inexpressivos de Martino.
— Está se sentindo bem? Deveria sorrir.
— Sorrir? Comecei a usar drogas e você quer que eu sorria?
— Em invés de pensar nos efeitos colaterais das drogas, deveria concentra-se em seu potencial de exterminar os tumores que assolaram seu “corpito”.
Olhando o homem de soslaio, Regina sabe que precisaria concordar.
— Não quero estar sozinha. Preciso de sua companhia, porque quando está comigo, não recebo visitas inexplicáveis.
— Tenho produtos para entregar aos meus clientes. Não poderei fazer-lhe companhia.
Virando-se bruscamente para Martino, ela segura suas mãos fortes e as aperta firmemente.
— Não posso ficar sozinha.
— Pode sim. E quando perceber que está sendo visitada, enfrente-a e pergunte quem é. Pergunte o que querem e porque você os vê. Você me disse que já fez coisas horrendas e provocou dor, medo e tristeza. Por que está com medo de enfrentar essas visitas?
Observando o homem com mais atenção, Regina consegue perceber toda a beleza daquele rosto. O homem era um sonho com seu rosto másculo e paradoxalmente delicado. Ele inspirava proteção, mas ao mesmo tempo oferecia guarita a quem lhe pedisse.
— Fique em paz, querida. Vou deixá-la em casa e gostaria que dormisse.
Sozinha naquela casa velha e que cheirava a rosas, Regina começa a vasculhar o local, em busca de mais informações sobre aquele homem misterioso que o destino tinha colocado em seu caminho. Entra em todos os cômodos, observa a decoração e percebe que não havia nada dentro das gavetas nos móveis daqueles espaços visitados. Apenas no quarto de Martino, as informações sobre ele, estavam mais presentes. Eram álbuns com fotografias de diversas pessoas e lugares.
Numa caixa encontrada no guarda roupas, mais álbuns com fotografias de diversos países. Martino era um homem bastante viajado e seu apreço era por países pouco divulgados, como Bali, Vietnã, Belize ou Sudão. Em todas as fotos, seu sorriso largo em seus lábios grossos estava presente e convidativo para ser acompanhado. O homem sorrindo era um espetáculo!
Um caderno com capa de couro é encontrado e lido sem pudores. Eram relatos de viagens e descrição de lugares e pessoas, com datas e detalhes incríveis. Tão bem descritos que poderiam ser visualizados caso o leitor fechasse os olhos.
Em meio às anotações, uma folha em papel de cor diferente chama a atenção de Regina. Nele havia uma lista com um título sugestivo: “Dez coisas que eu gostaria de fazer antes de morrer.” E alguns itens já estavam riscados.
Regina acha aquilo lindo demais e começa a ler com carinho.
— Oh! Primeiro: conhecer o Egito; segundo: nadar nas águas do Mar Morto; terceiro: escalar o Monte Everest e algum ponto das Cordilheiras dos Andes; quarto: escrever um livro sobre as viagens; quinto: trilhar os quilômetros da Muralha da China. – ela observa os cinco itens já ticados. Desce os olhos e encanta-se com dois itens em particular. – Ele quer encontrar o amor e ter um filho.
Depois de ter organizado tudo, mexido em tudo o que pudesse ter encontrado, lido anotações, vasculhado gavetas, livros e tudo o que pudesse trazer informações sobre Martino, ela decide que era momento de descansar. Estava um pouco ofegante e tinha de reconhecer que havia desobedecido as recomendações médicas.
Tendo adormecido na cama de Martino e sentido o perfume dele nas fronhas, Regina se esquece do mundo ao seu redor e sente-se livre para receber os sonhos que viessem à sua mente. Desta vez, iria questionar seus misteriosos visitantes.
Quando desperta, a luz havia diminuído com a aproximação da noite. O quarto estava aconchegante em sua penumbra azulada. Piscando várias vezes para espantar o sono, Regina se espreguiça e geme ao sentir uma leve pontada no local da cirurgia. Senta-se na cama e imediatamente percebe que não está sozinha naquele lugar.
— O que é você?
O homem corpulento continua sentado como um humano normal, com as pernas afastadas e com os cotovelos apoiados sobre os joelhos. Estava com a cabeça baixa e seu rosto encoberto pela penumbra do quarto. Ele levanta a cabeça e seu rosto fica parcialmente exposto. Não era bonito.
— Por que é tão difícil para você acreditar no sobrenatural, se convive com ele desde o útero de sua mãe? Sobrenatural para você é sinônimo de mal?
— Você é um...anjo? Mas anjos não são belos e áureos?
Um som grave ecoa pelo quarto. Era sua risada estrondosa e assustadora.
— Não tenha medo e olhe para mim. Sou o que você vê, filha.
— Você é Deus?
— Claro que não! – ele altera a voz. — Por que se julga merecedora para ver a face DELE?
— N-não é isso...é que me assusta manifestações que não consigo dominar...
— Isso não nos importa agora, Regina. Tudo o que precisa saber é que você deverá ficar bem.
Regina esboça movimento para descer da cama, mas para de súbito ao ver o movimento que o visitante faz com a mão, ordenando que pare.
— Houve um clamor muito forte e eu fui mandado para ficar ao seu lado, em seus momentos de aflição. Não pense que eu aprecio isso.
— Em meu quarto depois da cirurgia e nos diversos momentos em que eu o vi... por que você somente vem em meus sonhos?
Ele levanta uma das sobrancelhas, impaciente e desdenhoso.
— Regina, você não está em um sonho agora. Está dentro do seu mais terrível pesadelo: sua luta contra a morte. Mas não tenha medo, porque não sou a morte. O que você mais deseja?
Por segundos, Regina divaga em seus pensamentos. Percebe que o rosto do homem está em sua direção, mas não consegue ver os detalhes e nem aqueles olhos flamejantes.
— Eu gostaria de gerar um filho. Sei que dei amor para crianças não geradas de mim...eu gostaria de ver minha barriga crescer por carregar um bebê dentro dela. Por isso, eu quero viver.
— Você se apega demais aos pequenos truques que aprendeu. Por que não os usa para tirar o mal que afligiu seu corpo?
Sem responder de imediato, Regina apenas tenta formular uma resposta que não magoasse ela mesma. Entretanto, a resposta tinha de ser dada.
— Porque sou fraca demais...e porque sou uma transgressora.
— Foi feliz quando impingiu a dor e o medo aos outros?
— Fui. Mas quando me dei conta de minha solidão, tenho lutado para ser alguém melhor.
— E você tem sido uma pessoa melhor, Regina? – a voz grave e baixa do homem, causava uma sensação incômoda semelhante a medo.
— Minha luta é constante e por amor ao meu filho Henry, sei que conseguirei.
— Tem certeza disso, Regina?
— A mais absoluta certeza de que vou ser uma pessoa melhor!
— E tem a mesma certeza que sua perseverança irá curar-lhe deste mal que a aflige?
Desta vez, a força não eclode em forma de palavras. Ela abaixa os olhos e permite que a tristeza invada seu coração. Com os olhos baixos, ela permanece por muito tempo, até perceber que estava dormindo sentada. Desperta com os toques suaves de Martino em seus cabelos.
— Dormir na cama dos outros é sempre mais gostoso.
Envergonhada, ela olha na direção da poltrona onde o visitante estivera sentado. Estivera mesmo?
— Martino, anjos pode falar aos seres humanos?
— Claro que sim!
— Eu tenho sido visitada por um deles e não consigo sentir medo algum. Conversei com ele.
— Anjos sempre acalmam aqueles para quem aparecem. Pedem para que não haja medo.
Regina estende a mão e toca o rosto bonito de seu protetor.
— Eu disse a ele que quero ser uma pessoa melhor e que desejo ter um bebê. Porém, não fui convicta ao responder se creio que serei curada. Minha vontade irá curar-me?
Martino nega com a cabeça.
— Eu daria o nome de fé. Use a força que sempre usou para comandar, amedrontar e punir, para ordenar que seu corpo retorne ao que era no passado. Una tudo isso aos esforços da equipe médica e consiga um resultado positivo. Tenha fé.
— Fé? O que é fé? – ela dá de ombros.
— Fé é crer naquilo que não se vê.
Regina emite um som risonho. Aquilo era muito subjetivo e abstrato até para ela, que sempre lidou com o improvável.
— Preciso fazer uma lista como a sua. Sobre as dez coisas que quero fazer antes de morrer.
Martino tranca o rosto, um vinco surge entre suas sobrancelhas e seus lábios tornam-se maiores quando amua. Ele se senta na cama.
— Eu revirei sua casa inteira, exceto o sótão por estar trancado. Sei que é errado, mas eu fiz.
— Curar-se do câncer e depois ter um filho, pode fazer parte de sua lista.
— Encontrar o amor, também. – Regina sorri suavemente. Desce os olhos para os lábios do homem e sente o ímpeto de beijá-los. Mas um sinal de alerta surge em sua cabeça e o nome de Robin lateja imediatamente. Não poderia criar outra aliança com alguém, sem antes finalizar a anterior.
— Então, já tem três itens para sua lista.
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