Vida, vida, vida
8 As novas ondas chegam à praia

Novas sessões de quimioterapia e os primeiros efeitos surgem como novidade para os dias de Regina. Hospedada na casa de Martino, recebe as constantes visitas de Emma e Henry, que se revezavam para estar presentes naqueles momentos singulares da vida da forte mulher.
Os contatos com Robin eram por telefone ou pela webcam, quando conversavam e trocavam informações sobre suas vidas e assuntos diversos. Por mais que tentasse sem forte para a namorada, Robin permitia que a indecisão estivesse sempre presente em seus pensamentos. O seu conhecimento parco sobre o assunto, o amedrontava e não o preparava para o que estava por vir. Seu constante medo de presenciar as mudanças no corpo da namorada, o incomodava muito mais do que sua ausência. Às vezes, ele se sentia aliviado por não acompanhar de perto aquele suplício.
Afastada de suas tarefas na Prefeitura de sua cidade, Regina ocupava seu tempo com leitura, visitas a parques, bibliotecas e trabalhando como tradutora para alunos de uma universidade local. Trabalho conseguido por Martino.
Sentindo-se mais debilitada e mais afetada pelas drogas, ela evitava sair constantemente. Caminhava ao lado de Martino, nos finais de tarde ou no começo das manhãs. Tinham dias em que Martino permanecia dentro de casa, cuidando de todos os detalhes de seu bem estar. Entretanto, o homem trabalhava com produtos para salões de beleza e isso provocava a sua saída para compras e entregas de produtos. E naqueles momentos de solidão, Regina se entregava na busca de uma única resposta: tinha certeza de sua cura?
Após o banho naquela manhã, Regina percebe uma quantidade imensa de cabelos no ralo sob o chuveiro. O inevitável estava começando a acontecer: a queda de seus pelos. Observando seu rosto no espelho, passa a mão pelos cabelos molhados e encara dolorosamente a mecha de cabelos entre seus dedos. Silenciosa, começa a chorar.
Quando Emma chega à casa de Martino, encontra Regina sentada num sofá na sala principal, usando uma toalha de banho em torno da cabeça. As duas se abraçam e naquele momento, as lágrimas invadem novamente os olhos de uma Regina fragilizada. Chora sem constrangimento.
Mais tarde, quando Martino chega em casa, recebe os olhos atentos e curiosos das duas mulheres sobre ele. Eram os mais belos olhos em sua direção e isso inflava seu ego masculino.
— O que você fez aos seus cabelos? – Regina pergunta de supetão.
Ele passa a mão pela cabeça e sorri sem exibir os dentes.
— Fui inventar um corte e ficou parecendo que fui ruído por ratos.
Emma começa a rir. Sabia que era a mentira mais deslavada e descarada.
— Você ficou mais sexy e másculo. – a loira comenta sem medir as palavras.
— Martino é lindo demais! – Regina retira a toalha que estava enrolada em sua cabeça e exibe os cabelos ralos. – Não pensei que fosse acontecer tão rápido...eu li que em alguns organismos, isso não acontece.
O homem dá de ombros. Senta-se na cama e deposita ali, uma bolsa de tamanho médio. Sorri.
— Isso foi um problema nos anos 80 e 90. Hoje isso é motivo para incentivo à moda fashion. – ele abre o zíper da bolsa e despeja seu conteúdo sobre a cama. Eram vários lenços em seda e algumas próteses capilares de diversos comprimentos e cores. – Eu sei fazer laços incríveis em turbantes e aprendi quando estive em Nova Deli.
Abrindo e fechando a boca como se fosse um peixe respirando, Regina começa a examinar a quantidade de peças. Eram lindas e com estampas incríveis, encantadoras aos olhos de qualquer mulher. Que loucura!
— Quero aprender a fazer turbantes. – Emma fala sem pensar no que diz.
Os olhos de Martino se fixam no rosto de Regina e sem hesitar estende a mão e o toca.
— Mesmo sem maquiagem, você é incrivelmente linda, querida.
— Eu preciso arrumar-me um pouco...- instintivamente, Regina passa as mãos pelos cabelos e os prende no alto da cabeça, mas algo a incomoda. Quando ela retira rapidamente as mãos, traz muitos e muitos fios escuros. – M-Martino...eu não qu-quero continuar com i-isso...
— Não precisa chorar, minha querida. – ele coloca a mão dentro do bolso interno de sua jaqueta e retira um objeto escuro e retangular. Sorri e o entrega para as mãozinhas de Regina.
— Isso é uma máquina para cortar cabelos...quer cortar os que me restam?
— Não quero nada. Você é a dona deles e sabe como deve tratá-los.
Por segundos, Regina fica em silêncio. Depois reage:
— Vamos fazer o que é preciso. Não sou mulher de interpretar dramas. Tire o que resta dos meus cabelos. – ela devolve a maquina.
— E se o corte ficar parecido com um ataque de ratos famintos a uma plantação? – Martino desenha uma expressão cínica em seu rosto e aponta para a própria cabeça.
Emma não contém o riso e em pouco tempo, os três estão rindo. Regina estava aprendendo com Martino, a rir do que poderia ser considerado ruim.
Para aliviar a tensão daquele momento horrível para qualquer mulher, Martino usava suas habilidades para contar e interpretar piadas sobre os mais diversos assuntos, enquanto usava a máquina para tirar os cabelos de Regina. Histórias absurdas com pessoas desconhecidas e com sua participação. Quando o serviço é terminado, Emma cobre o rosto da amiga com uma camada de maquiagem e acentua seus belos traços, não permitindo que ela perdesse sua feminilidade.
— Quer experimentar algum modelo de turbante? – Martino começa a recolher os cabelos que estavam no chão, para evitar que Regina ficasse olhando para eles. Mas sabia que era inevitável.
— Quero ver como fico sem minha vasta cabeleira. – ela se levanta da cadeira e fica em pé diante de um espelho. Neste momento, observa imagem marcante de Martino se posicionar atrás dela e segurar sua cintura slim. Ambos sorriem e naquele exato instante, confessam seus sentimentos.
— Pergunte ao espelho se há no mundo uma mulher mais bela que você. – ele segura seus ombros.
— Espelho, espelho meu! Existe no mundo alguma mulher mais bela do que eu? Mesmo sem meus cabelos?
— Para meus olhos, bela senhora, nenhuma mulher consegue ser mais bela. Mesmo em todas as minhas viagens, meus olhos nunca se deitaram sobre uma mulher mais encantadora que a senhora. – Martino fala sussurrante e consegue provocar arrepios na pele de Regina. – Nem mesmo os lindos olhos das indianas conseguem superar a beleza e profundidade da escuridão dos seus olhos. São safiras negras!
Rapidamente, Regina se desvencilha daquela deliciosa prisão e praticamente corre buscando salvação em Emma. As duas se entreolham e fazem uma rápida careta ao mesmo tempo.
Momentos depois, Emma ajuda Regina e organizar os lenços em uma gaveta. Haviam sido deixadas a sós no quarto.
— O que foi aquilo?
— Ele se declarou para você, amiga. Pensa que é fácil para os homens, ficarem incólumes à sua presença?
— Emma, eu tenho um compromisso com Robin e é notório.
— Mas não mandamos em nosso coração, querida. Martino está convivendo muito perto de você e em algum momento ele iria sentir-se atraído. Eu sugiro que você se hospede num hotel, ou alugue uma casa por temporada e contrate uma enfermeira. Conviver sob o mesmo teto com um homem lindo como aquele é perigoso.
— Como diz o ditado: o homem é pólvora e a mulher é fogo. Vem o diabo e assopra.
— Não diria que isso dependa do diabo. Pode ser um presente dos céus.
Regina para o que está fazendo e encara a amiga.
— Vai começar a falar de Deus, também?
— Sou tão ignorante nesse assunto quanto você. Mas caso eu tenha uma boa palavra sobre ELE, falarei sim. Acredita que foi o acaso quem colocou o carro de Martino diante do seu e provocou a batida?
Regina se sente envergonhada. Não queria assumir sua atração pelo homem, estando envolvida com Robin. Por respeito ao namorado, não queria nutrir sentimentos e emoções pelo belo moreno de olhos cor de mel. Não queria reconhecer que a química entre eles, era visível e agradável.
— Martino viajou por diversas partes do mundo e deve ter conhecido mulheres deslumbrantes...por que se interessaria por uma mulher cancerosa e careca?
— Porque essa mulher cancerosa e careca se chama Regina Mills. – Emma segura os ombros da amiga. – Porque essa mulher é a criatura mais impetuosa e atraente que as pessoas já conheceram. Porque vocês são jovens, solteiros e estão muito próximos. E porque posso apostar que vocês irão ficar juntos, casar e ter filhos.
Uma gargalhada é a resposta de Regina.
— Quando sua barriguinha estiver carregando um bebezinho, quero ouvir esse riso de deboche outra vez! – Emma pisca um dos olhos. — Você quer ter um filho biológico e somente poderá fazê-lo, caso tenha certeza de sua cura. Assim como você teve certeza de sua força para intimidação de pessoas, deverá ter certeza de sua força na luta contra este mal. Curada, você poderá ver seu maior desejo realizado: o de produzir uma nova vida.
Regina tranca o rosto e vira-se para encarar Emma. A encontra com o mais sereno dos semblantes, como se não tivesse noção do que havia acabado de dizer. Eram as mesmas palavras do visitante.
— Você ouviu o que me disse?
— Que você é linda? Quer que eu diga de novo?
Mais semanas são devoradas pela boca faminta do tempo. As sessões de quimioterapia continuam e seus efeitos se tornam mais constantes no organismo de Regina. Mesmo convivendo com eles, adota um estilo de vida mais saudável e começa a fazer atividades que não fazia antes. Em companhia de Martino, participa de aulas noturnas de natação e hidroginástica, além de leves momentos de caminhada numa esteira providenciada por ele. Visitas matutinas ao parque também fazem parte de sua rotina, assim como a mudança nos hábitos alimentares.
Estava serena e já havia se acostumado aos olhares alheios à sua nova forma de vestimenta e à presença de assessórios elegantes para a cabeça. Já possuía uma coleção de chapéus e lenços, além de ter sido presenteada com um novo kit de maquiagem, duma marca famosa e desejada por muitas mulheres. Martino era um homem que incentivava a feminilidade.
Mesmo com seus afazeres, Martino continuava dedicando seu tempo, sua atenção e saúde para os cuidados daquela mulher. Não sabia o porquê, mas ela havia se apossado de um espaço muito grande em seu coração e amaria mantê-la protegida a qualquer custo, ali dentro.
Naquela tarde, Martino recebe um telefonema de Regina, avisando que estava sentindo-se muito mal e que precisava de sua companhia com urgência. Finalizando a entrega de seus produtos, ele retorna para casa e encontra a sua preciosidade deitada sobre sua cama, encolhida e chorosa.
O mal não era físico, mas espiritual. Ela precisava muito de companhia e de acalento. Decidido, ele a banha, a veste e a apruma, obrigando-a a sair da clausura daquela casa velha e seguir com ele para algum lugar mais movimentado.
O lugar escolhido era um bar rústico, com decoração em madeira e com frequentadores animados. Era frequentado por roqueiros e motoqueiros. Todos se conheciam e recebem Martino com sorrisos, abraços e beijos. Ali, Regina se sente mais acolhida e permite que a tristeza seja dissipada de sua alma.
Enquanto Martino se afasta para buscar algum petisco e bebidas, um homem grande e careca, com longas barbas ruivas e vestindo a indumentária de motoqueiros, vem sentar-se à mesa e deposita uma rosa sobre o móvel. Ele sorri e tranquiliza Regina com seu sorriso.
— Amiga de Martino é nossa amiga, também.
— Obrigada pela recepção. Estou me sentindo bem melhor.
— Não permita que a depressão invada sua alma. Depressão não combina com quimioterapia. Ouça quem entende do assunto.
— Você teve câncer? – ela pergunta com medo de ouvir a resposta.
— Dois. Saí vitorioso da luta e estou aqui para orientar as pessoas que iniciam essa batalha. – ele estende a mão e segura a dela. – Você precisa vencer essa guerra. Vai vencer?
Os olhos de Regina são desviados sem motivos aparente, e mais uma vez, ela se depara com a figura gigante do visitante, misturado aos frequentadores do lugar. Por segundos, somente aqueles olhos grandes e escuros são visualizados e tudo se resume a eles. Ao som de um hino de louvor cantado pelo vocalista da banda, Regina desliza pelo espaço e pelo tempo, conseguindo encontrar a paz tão desejada em sua alma, naquela noite.
Ela sorri e percebe que seu amigo desconhecido sorri também. Em meio às pessoas que entoavam o belo hino, o visitante se deixa ver nitidamente e o rosto de um homem comum é totalmente identificado por Regina. Ela se levanta e vai na direção dele, percebendo que ele a espera aproximar-se.
— Que lugar é esse?
— Lugar usado por pessoas que querem encontrar seus iguais. Aqui se costuma elevar louvores e quem é de direito. São hinos de exaltação ao Criador do universo, de toda a forma de vida e de tudo o que há em volta. Por que não ouve a letra da música?
— Há anjos aqui também?
— Há anjos em diversas partes, onde são clamados por meio de orações. Não estão em qualquer lugar ou em toda a parte. Não é assim que funciona. – ele gesticula e aponta em volta. – Já decidiu qual resposta irá oferecer? Ou terei de perguntar de novo?
Regina leva a mão à barriga e desperta sentada na mesa outra vez. Percebe o sorriso do homem barbudo à sua frente.
— Você é conhecido por Deus? – ela pergunta de supetão.
— Você ainda não se apresentou a ELE? Por que está demorando? – ele se levanta e sai dali, no mesmo momento em que Martino se senta. Trocam mais um sorriso.
— Martino, eu vi o anjo outra vez!
— O que ele lhe disse?
— Quer a minha resposta. O que eu digo a ele?
Martino começa a rir. Era a pergunta mais estúpida que ele havia ouvido.
— Qual é a pergunta feita? Para quem a pergunta foi feita?
Indignada com a frase do homem, Regina não consegue encontrar uma frase que a satisfizesse aquele momento. Acaricia a barriga e mais uma vez se perde em pensamentos suaves. Seu desejo em sentir a vida crescendo dentro de seu corpo, cria uma súbita vontade de continuar sobre aquele chão. Queria fazer parte de algo maior do que seu reino e seu domínio. Queria deixar seu legado e somente poderia fazer, caso continuasse viva.
— Eu quero viver.
— Então, grite para que o mundo ouça.
— Eu quero viver! Eu quero viver! Eu quero viver!
No final daquela mesma semana, Regina é levada às pressas para o hospital. Uma infecção havia acometido seu organismo e iria precisar de acompanhamento médico e cuidados especiais. Era o momento de decidir se ia ou se ficava pelo caminho.
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