Vida, vida, vida
9 Detalhes diante dos olhos

Naquela tarde, Regina recebe autorização para caminhar pelo jardim do imenso prédio do hospital. O lugar era tranquilizante e muitos pacientes podiam fazer suas caminhadas naquele espaço, desde que estivessem acompanhados. Bem mais forte, ela é levada por Martino e Henry para receber ar puro e tocar nas plantas, que segundo os médicos, poderiam provocar melhora.
Linda em um vestido florido, levemente maquiada e sem uso de lenço algum, Regina atrai os olhares de pacientes e acompanhantes, tamanha sua beleza e formosura. Aquele ambiente produzia um bem estar incrível em sua alma e o toque na textura das pétalas conseguia encher sua alma de tranquilidade e dar a certeza de que precisava reagir e ser a velha Regina de sempre.
Não muito distante dela, Martino a admirava em suas formas e sua graciosidade, além de sua inconsciente harmonia com a natureza. Mesmo belas, as flores não conseguiam ser tão incrivelmente agradável aos sentidos dele, como aquela mulher. Ele suspira e permanece encantado com a imagem que brilhava diante de seus olhos apaixonados.
— Por que Robin não vem visitar-me? – ela pergunta ao filho e rouba a concentração de Martino.
— Ele está atarefado com as duas crianças e com o trabalho, mãe.
— As crianças podem ficar com uma babá! São apenas duas horas de distância entre nossas cidades. O que o impede de visitar uma mulher careca e cancerosa?
— Vai começar com a autocomiseração, outra vez? Está ficando repetitiva, Regina.
— Estou ficando repetitiva? Então saia de perto de mim e vá conviver com suas amigas saudáveis dos salões de beleza!
Martino arqueia rapidamente as sobrancelhas grossas, tranca o rosto e afasta-se da mulher e de Henry. O garoto não aprova a atitude da mãe.
— O que é isso, mãe? Por que fez isso?
— Robin está me repudiando porque estou doente! Como quer que eu reaja?
— Você nem gosta dele! Por que está indignada? Robin era apenas um passatempo para os seus dias! Vocês nem falavam em noivado!
Inspirando profundamente, Regina entende o recado. Queria ouvir que estava com a razão, mas a suavidade do filho, havia lhe dito o que não queria ouvir.
— Está maltratando a única pessoa que tem se dedicado a você. Qual é o elo que une Martino a você? Nenhum! – Henry brinca com uma flor. – Nem eu tenho sido tão frequente em sua vida, como ele. Então, sugiro que “abaixe a bola” quando for falar com ele.
— Torcida organizada para Martino? Onde estão os pompons?
— Ele é o único que consegue lidar com o seu mau humor, mãe. Nem mesmo com boa vontade é possível tolerar suas respostas afiadas, depois que descobriu sua função nesta guerra.
— Minha função nesta guerra? De que guerra está falando?
— Todos nós temos uma função em sua guerra. Porém, a sua função é a mais importante de todas: comandar a derrota deste inimigo. Não poderemos fazer por você, o que é somente a sua função. Já decidiu de que lado da ponte quer cair?
Outra vez aquele tipo de frase? Será que somente ela não estava disposta a enfrentar a realidade?
— Eu não posso lutar por você, mãe. Emma não pode assumir o seu papel. Martino tem a própria guerra para vencer...então, deduzo que é hora de expulsar esse espírito do lodo e avançar contra as tropas inimigas. Vá à luta, brilhe e mostre ao mundo quem é você! É hora de fazer-se conhecida e apresentar-se ao mundo! Seja a luz!
Regina tenta balbuciar alguma coisa, porém, não é exitosa em sua tentativa. Sempre que ouvia frases com aquele conteúdo, o seu anjo surgia em algum lugar. Ela vasculha o jardim e sua procura é em vão. Ele não estava visível ali.
Um tempo depois, Regina encontra Martino sentado em um dos bancos do jardim do hospital, conversando com um homem velho. Os dois falavam baixo e não se olhavam, mantendo sua atenção focada em algum ponto daquele espaço verde. Quando ela se aproxima, o homem apoia-se em sua bengala e despede-se de Martino, afastando-se dali.
— Quem é ele?
— Um paciente com tumor no cérebro. Um coágulo que pode estourar a qualquer momento.
— Ele fez a lista de desejos?
Martino acha graça e ri.
— Ele já está de viagem marcada para um cruzeiro marítimo com a esposa.
Sentando-se ao lado dele no banco de concreto, Regina passa a mão pela sua superfície fria.
— Poderia me perdoar pelas grosserias?
— Por que você não retorna para sua cidade e enfrenta seu namorado? Você está mais linda a cada dia e não pode esconder essa beleza dos olhos alheios. Não tenho o direito de usufruir sozinho dessa graciosidade que você exala.
— Tenho medo do que vou ouvir e ver...
— Robin está com medo e não teve forças para oferecer forças a você. Ver o que? Os olhares diante de sua altivez, elegância e beleza? Além disso, a doença não afetou a violência e a velocidade de sua língua. O corte da lâmina aumentou e sua língua está mais afiada a cada um dos amanheceres.
Um sorriso sem graça surge nos lábios de Regina. Suave em seus movimentos, Martino se vira para ela, segura seu queixo e a presenteia com um beijo apaixonado. Quando se afasta, percebe que ela havia apreciado.
— Ontem, uma amiga me apresentou um mostruário de semijoias e eu comprei um par de brincos para você se enfeitar. Aliás, nem sei se há mais espaço para tantos enfeites.
— Estou apaixonada por você, Martino.
— Você tem uma aliança com Robin, amor. Finalize sua aliança e poderemos conversar sobre a possibilidade iniciarmos uma entre nós.
— Sou correspondida por você?
— Desde que seu carro bateu na traseira do meu. Aquele olhar e a forma com se jogou em meus braços, encheu-me de sonhos e de esperança. Vi a vida brilhar de novo para mim. Tenho cuidado de você com o objetivo de nascer uma aproximação entre nós, mesmo que não iniciássemos um romance.
— Teria coragem de romancear com uma mulher cancerosa?
— Teria coragem de romancear com um homem lúpico?
Os dois começam a rir. Riam das próprias desgraçadas.
— Eu o acho maravilhoso, Martino.
— Apenas precisa aprender a iniciar suas frases com outros pronomes pessoais. Você é muito ensimesmada, Regina. Existem outros pronomes além do primeiro do caso reto.
Uma semana nova começa e Regina retorna para sua cidade. Revê sua casa e seus pertences, mas se encontra sozinha de novo, naquele espaço amplo e claro. Queria modificar aquele ambiente e ouvir mais barulhos, além dos que ela produzia. Contrata uma enfermeira para acompanhá-la em todas as horas do dia, além de alguém que organizasse sua casa. Enche o vazio claro com as cores de flores diversas, espalhadas em vasos pelos cômodos.
Para atrair pássaros, espalha frutas em pequenas bandejas criadas por um marceneiro. O perfume das frutas enche seu jardim com os mais diversos tipos de pássaros e até de borboletas, raras por aquelas redondezas. Tinha sido um efeito imediato.
Já fazia duas semanas que estava de volta e ainda não havia procurado Robin para uma conversa definitiva. Mas naquela manhã, ele se apresenta tímido e consternado.
— Pensei que não viria fazer-me uma visita.
— Eu tive medo de sua reação.
— Medo? Por que eu teria alguma reação negativa com sua visita? Você ainda é meu namorado.
— Tive receio de que estivesse furiosa comigo ou mesmo que me viesse dizer que está apaixonada por Martino.
— Furiosa com você? Por que eu estaria? – ela se aproxima dele e estende os braços para abraça-lo, mas o vê afastar-se sutilmente. Sorri ao ler a linguagem do corpo dele. – Teve receio de desfilar com uma mulher careca?
— Regina... não seja tola.
Lenta, ela retira o turbante e exibe-se exuberante com os primeiros sinais de que os cabelos estavam retornando com força total. Bem maquiada e elegantemente vestida, era a mesma mulher forte e dominadora.
— Tem medo de não ser forte o suficiente, caso eu tenha uma recaída? Tem medo de ser coberto pelos meus vômitos ou pelas diarreias súbitas?
— O que é isso, Regina? O que pensa que sou? Insensível?
— Martino não teve medo de absolutamente nada.
— Eu me esqueci de que ele é o Super-homem! O que mais o senhor maravilha fez? – Robin cruza os braços.
Coçando a ponta do nariz, Regina sente a vontade de mandar Robin para o mais longe possível e sem sutileza. Esconde as mãos dentro do bolso e inclina a cabeça para o lado, como fazem os cachorrinhos quando querem entender.
— Martino me ensinou a ser humilde, porém forte, e obrigou-me a encontrar forças para minha guerra particular. Mostrou-me a beleza na simplicidade da vida e o gosto de apreciar a cores em minha volta. – ela se inclina para frente. – Ele esteve em todos os momentos ruins e nos momentos em que ríamos juntos. Foi uma fortaleza para minhas pernas fracas.
— É uma pessoa iluminada, então. Espero que toda essa prestimosidade não tenha servido para arrastar você para a cama dele! Pensa mesmo que ele esteve interessado em sua recuperação mera e simples? Ele queria sexo, como todos os homens com quem conviveu! Pensa que ele a leva a sério?
— Como você, por exemplo? Foi tudo o que quis comigo? Sexo? Ou queria alguém para cuidar de seus filhos órfãos?
Robin ergue as mãos em rendição.
— Não quero discutir com você por causa dele. Quero fazer as pazes.
— Então, beije-me. Mas me beije como se sua vida dependesse desse beijo. Pode fazer isso?
Robin ergue o queixo e aproxima-se de Regina. Tinha sido desafiado e não poderia permitir que nada o impedisse de provar que poderia ser o namorado apaixonado. Mas ao aproximar-se de Regina, sentir seu cheiro adorável, ele percebe que aquela situação seria muito penosa para seus ombros. Sempre acostumado ao imenso perfume exalado pela massa escura de cabelos de Regina, ele se sente chocado com a ausência deles. Poderia parecer infantilidade, entretanto, aquela situação estava testando seus verdadeiros sentimentos por Regina. Era o conjunto que agradava seus olhos e a ausência algum item trazia à tona a pouca profundidade do que ele chamava de amor.
— Não consegue me beijar, Robin? Está recusando-se a oferecer um pouco de prazer a mim? Quer que eu lhe implore atenção? Ou quer que eu seja compreensiva e o libere do compromisso, com a promessa de aceitá-lo de volta, quando meus cabelos estiverem maiores e meu corpo estiver mais forte?
— Sou frágil, Regina. Perdi minha esposa e a ideia de perder você, fez com que meus sentimentos ficassem confusos. Confesso que pensei apenas em meus filhos e eu, quando soube da existência dessa doença...
— Câncer, Robin! Chama-se tumor e acometeu um de meus ovários! Mas não deixei de ser mulher por estar mais magra e por ter perdido quase todos os cabelos de meu corpo! Sabia que ainda sinto desejo pelo corpo de um homem? Sabia que crio fantasias quando vejo um corpo masculino nu? Já lhe ocorreu que ainda pretendo ter um filho, nascido de mim?
— Regina, querida, eu conversei com um médico e soube que você precisa ser preservada. Não que eu não a ame mais, entretanto...
Regina gargalha diante da indecisão do homem.
— Eu preciso sentir-me viva, Robin! – ela altera o tom de voz. – Eu quero sentir-me bonita de novo! Tenho a necessidade de sentir que desperto o amor em alguém! Eu quero continuar minha existência!
— Amor...
— A vida lateja em mim, Robin! Vi a face de morte e ela estava sorrindo para mim! Não a quero dentro de meu corpo e nem dentro de minha alma, Robin! Eu quero viver! E se você não pode aceitar minha nova estampa, também não pode fazer parte de minha nova vida!
— Precisamos de tranquilidade para...
— Para nada, Robin! Eu sinto fome de vida! – Regina grita com muita força. — Quero continuar viva! Eu sou forte e nenhuma célula cancerosa irá roubar a minha vida! Sou uma vencedora! E vencedores não precisam implorar amor! Não preciso implorar pelos seus toques ou pelos seus sentimentos, porque eu já sou muito amada! Sou muito forte e esta guerra está ganha! Eu quero a vida! Eu escolho a vida!
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