Vida, vida, vida
1 Diagnóstico

MARAVIDA
Autor: Gonzaguinha
Era uma vez eu no meio da vida
Essa vida assim, tanto mar, tanto mar
Coisa de doce e de sal
Essa vida assim, tanto mar, tanto mar
Sempre o mar, cores indo
De verde mais verde ao anil mais anil
Cores do sol e da chuva
Do sol e do vento, do sol e o luar
Era o tempo na rua e eu nua
Usando e abusando do verbo provar
Um beija-flor, flor em flor, bar em bar
Bem ou mal margulhar
Sempre menina franzina, traquina
De tudo querendo provar e provar
Sempre garota, marota, tão louca
À boca de tudo querendo levar
Vida, vida, vida
Que seja do jeito que for
Mar, amar, amor
Se a dor quer o mar dessa dor, ah!
Quero o meu peito repleto
De tudo o que eu possa abraçar
Quero a sede e a fome eternas
De amar e amar e amar e amar...
Vida, vida, vida
— E há previsão de vida?
— Não sou Deus, por isso não posso afirmar quanto tempo você ainda tem de vida. – o médico mantém o tom de voz suave.
— Não pode fazer um prognóstico?
— Todos irão morrer um dia, Regina. A menos que você fosse um doente terminal e estivesse muito debilitada, eu poderia arriscar uma opinião. Mas milagres acontecem e são mais comuns dos que nossos olhos conseguem presenciar.
— Quer que eu acredite em milagre?
— As pessoas querem ver mares sendo abertos, novamente; querem que uma jumentinha converse com seu dono ou que água seja transformada em vinho. Mas podemos presenciar pessoas que escapam de acidentes de carro, sem arranhão algum; vemos crianças que caem de alturas e sobrevivem; pessoas que sofrem paradas respiratórias por vários minutos e retornam...então, milagres ocorrem todos os dias. Caso converse com pessoas em reabilitação, ouvirá dezenas ou milhares de relatos sobre milagres.
Regina sorri incrédula. Sua vontade era acertar um soco no queixo no médico, mas esperaria outra ocasião.
— Certo, vou sair por aquela porta e procurar por um milagre.
— Faça isso, querida. Procure por definição de fé e encontre um pilar ao qual deva apegar-se. – o médico levanta as sobrancelhas e espreme os lábios. – Além disso, use os medicamentos conforme as indicações.
Regina se levanta e caminha para a saída do consultório. Olha por cima do ombro.
— Obrigada, doutor!
— Disponha, querida.
Durante seu trajeto de volta à casa, Regina se perde em seus pensamentos. Como digerir aquela informação? Como dizer para Henry sobre aquela doença? Como lidar com uma interrupção em seus dias? Por que aquilo deveria acontecer com ela? Vários médicos e o mesmo diagnósticos? Será que algum deles não estaria errado? E seu relacionamento com Robin, como poderia ser abandonado? E os filhos de Robin? Quem os conseguiria criar?
Perdida em suas dúvidas, alheia ao que estava em sua volta, Regina não percebe que havia um carro parado e esperando a sinalização para que o tráfego continuasse. A pancada na traseira do veículo é inevitável. Ela grita e o airbag de seu carro é acionado, irritando-a ainda mais. Lutando contra o tecido e gritando, Regina é socorrida por mãos fortes que a libertam do cinto de segurança e a retiram do carro. Sem hesitar ou saber o que estava havendo, joga-se contra o peito de um homem e sente braços serem fechados em suas costas. Ela chora.
Por algum momento, ela fica envolvida daquela prisão e permite-se gostar. A superfície onde seu rosto estava encostado era firme e cheirava muito bem. Sente-se ainda menor com aqueles braços em volta de seu corpo e aquela mão acariciando seus cabelos. Nem dentro dos braços de Robin, ela se sentia tão bem!
De repente, tudo parece retornar à realidade. Ela se livra daqueles braços e enxuga o rosto violentamente, afastando-se do homem. Olha-o com indignação e com súbito prazer ao ver o quanto o desconhecido era bonito.
— O que pensa que está fazendo? – ela rosna, passando as mãos pelos braços.
— Eu? Você bate em meu carro parado, fica histérica, quase se afoga no airbag e pergunta o que “eu” estou fazendo?
— Não preciso ser acalentada! Portanto, não toque em mim!
— Ora, pare de gritar comigo, sua louca! Já que não sabe controlar um carro de verdade, por que não fica brincando com os carrinhos do Hot Weels? E foi você quem me atacou! Eu poderia processá-la por assédio sexual!
Regina olha-o e mostra-se indignada.
— Cuidado com o que diz, machista nojento! Posso processá-lo por sexismo, sabia?
— Machista? Em qual momento eu fui machista, sua descontrolada? Já que está fora de si, use o transporte coletivo. – ele aponta para a traseira do carro, totalmente amassada. O para-choque havia caído. Suaviza a expressão de seu rosto. – O que houve? Mal súbito?
Regina cruza os braços diante do peito e olha o estrago que fez. Mantém a altivez e a arrogância, tentando mostrar-se indiferente ao que havia acontecido. Sua alma estava igual aquele veículo batido, mas seus instintos femininos alertavam para apreciar aquela beleza masculina.
— Eu vou pagar pelo estrago, moço.
— Disso eu não tenho dúvida, moça! Vamos tirar nossos carros da rua. Consegue dirigir o seu?
Momentos depois, carros estacionados fora do fluxo, o casal decide conversar sem agressões ou cinismo.
— Eu me chamo Regina Mills. Estou na cidade apenas de passagem e fiquei envolvida com pensamentos distantes... – ela aponta para os carros. – Então, aconteceu isso.
— Eu sou Martino Lutero.
— Isso é brincadeira? – Regina começa a gargalhar. – Seus pais deviam ser processados!
— Eu pensei nisso, mas eles têm menos dinheiro que eu. Então, fiquei sem indenização e com este nome. Mas poderia ser pior. E se eu me chamasse Nelson Mandela? Ou Fidel Castro? Ou mesmo Napoleão Bonaparte? Além do mais, o nome do cara era Martinho Lutero.
Regina enxuga os olhos e sorri concordando com o desconhecido.
— Não digo que estou ao seu dispor, senão, você amassaria a dianteira do meu carro novo. – ele fala suavemente.
— Não é um carro novo! – Regina fala de impulso sorrindo.
O homem olha para seu carro e estreita as sobrancelhas grossas. Inclina a cabeça para o lado e depois se volta sorrindo para a mulher.
— Mas é novo para mim. – esconde as mãos nos bolsos da calça. – E então, como ficaremos?
— Eu arcarei com as despesas do conserto de seu carro. Mas enquanto ele fica na funilaria, gostaria que usasse um de meus carros. Posso oferecer um carro realmente novo.
Martino coça a cabeça e faz uma careta, discordando da proposta.
— Faça o seguinte: a senhora me passa seu email, que eu lhe enviarei o orçamento do conserto, com o número de minha conta bancária. Depois, a senhora poderá fazer o depósito do valor.
— Confiaria tanto assim numa desconhecida? – ela desafia.
— Não serei eu quem responderá por uma mentira. Isso será problema seu, para resolver com Deus no futuro!
Notas finais
Johnathon Schaech como Martino.
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