Vida, vida, vida

2 De volta ao cotidiano


Colocando os documentos assinados em uma pasta, Regina faz uma pausa e mais uma vez se perde em pensamentos sobre o diagnóstico de seu estado de saúde. Muitas perguntas flutuavam em sua mente e em sua alma. Havia duas semanas que aqueles envelopes tinham sido abertos, condenado a sua existência e tolhido todos os seus sonhos futuros.

O telefone soa e causa um pequeno sobressalto no coração da prefeita. Ela olha o aparelho, como se pudesse ver o som.

— Alô?

“Olá, Regina Mills! Eu sou Martino Lutero e enviei para seu email o orçamento do reparo de meu carro. Fiz isso há cinco dias e até o momento não recebi resposta. Caso a senhora não queira pagar, gostaria que desse um parecer.”

— Eu lhe peço desculpas, mas não tenho conseguido me concentrar e nem abri meus emails pessoais. Vou fazer o depósito sim e...pensando melhor, por que não almoçamos e conversamos mais?

“Convite aceito. Quando e onde?”

— Bom, são duas horas de viagem entre nossas cidades. Poderia me esperar? Eu preciso sair daqui para desopilar a minha alma e você surgiu no momento certo. Quando eu chegar, ligarei para você.

Os grãos de areia do tempo escorrem na gigante ampulheta invisível e avisam que mais de duas horas haviam sido deixadas para trás. Num restaurante qualquer, Regina é recebida por um Martino simples em suas vestimentas, mas não menos belo por isso. Ambos sorriem e cumprimentam-se, sentando-se logo em seguida.

— O que está tomando? – ela pergunta sorrindo e acomodando-se na cadeira.

— Iogurte com sementes de chia. Pedi o prato do dia para nós dois.

Regina sorri e não demonstra mais nada.

— Sr. Lutero, eu tenho vivido um momento de muita tensão e deixei escapar muitos detalhes. Não foi displicência minha ao não responder seu email.

— Martino! Sr. Lutero é meu pai. Uso o carro para trabalhar e fui multado por usá-lo sem o para-choque traseiro.

— Sinto muito, Martino. Vou repor tudo o que perdeu.

Ele sorri quando a garçonete traz o almoço solicitado.

— Posso oferecer um novo carro para você? Seria muito mais prático para nós dois.

— Dê a Cesar o que é de Cesar. – ele mantém o sorriso e abaixa os olhos para escolher sua comida. – O que fez com que você ficasse tão atrapalhada naquele dia? E o que está tirando a sua tranquilidade?

— Fiz vários exames em diversos consultórios e todos foram unânimes no diagnóstico...

— Você está com câncer?

Regina se espanta. Não havia nominado a doença e nem havia falado com outra pessoa que não fosse médico, sobre o diagnóstico. Falar com um desconhecido sobre um segredo tão íntimo! Como poderia?

— Sim. Câncer em um dos ovários e tenho medo de não poder ter filhos.

— Você precisa apenas de um ovário para ter filhos. Ou adote uma criança.

Desta vez, o sorriso que surge nos lábios de Regina é o mesmo surgido quando recebera Henry pela primeira vez em seus braços. Como estava conseguindo falar de algo tão íntimo com um desconhecido?

— Já adotei um menino há quinze anos. Depois, quase adotei os filhos do meu namorado. Mas eu gostaria de ter um filho saído de mim.

— Pura vaidade. – Martino ergue os olhos e não sorri desta vez.

Belos olhos! Regina imediatamente se encanta por eles e descobre a mesma beleza que via nos olhos das raposas, quando caminhava a esmo pela floresta, em sua infância.

— Vaidade?

— Olhe em volta e veja a quantidade de crianças perdidas. Em casos de adoção, quem ganha é o adotante. E eu sempre me questionei sobre quem adota quem. É vaidade pura violentar o organismo, apenas para conseguir ver seus traços no rosto de uma criança. Seu corpo vai receber uma carga de violência muito grande, quando começar a quimioterapia.

Sem conseguir desviar seus olhos do rosto bonito do homem, Regina se esquece de ele tinha vida e não era uma fotografia inanimada.

— E já começou seu tratamento? Ou vai ficar perdendo tempo e a chance de prolongar sua vida?

— Você é um homem atrevido! – ela sorri. – Fiquei sabendo há duas semanas e em alguns dias, serei submetida a uma cirurgia para a retirada de um dos ovários. Não quero que minha família saiba.

— Besteira! Quanto mais pessoas da família souberem, mais possibilidade de seu tratamento dar certo. Não ficará sozinha e sempre terá alguém com quem conversar.

— E se for a minha escolha, carregar a doença sozinha?

Martino dá de ombros.

— A escolha é sua: ficar chorando diante de sua vitimização ou sorrir diante de sua vitória. Hoje em dia, o câncer é uma doença conhecida e com muitas possibilidades de cura. Depende do paciente.

— Por que eu estou confiando em você?

Ele se inclina para frente e aproxima-se dela. Franze o nariz ao responder:

— Porque tenho rosto de gato e gatos são fofos. Logo, eu sou fofo.

Pela segunda vez desde que descobrira sua condição, Regina liberta uma gargalhada. Ri sem pudores e acaba por ficar com os olhos molhados pelas lágrimas. E os risos aconteciam quando estava perto de Martino.

— Estou caminhando numa ponte que separa a vida da morte e você faz piadas?

— Todos estão em cima desta ponte, Regina. Para qualquer lado que você caia, antes precisa ter feito as escolhas certas para sua vida e seu espírito. Você fez as escolhas certas?

O sorriso de Regina se desfaz e sua vida passa como um filme diante de seus olhos. Quando jovem era uma pessoa suave e ingênua, que acreditava no amor verdadeiro, até perder Daniel por um ato de crueldade de sua mãe. A partir dali, todos os acontecimentos em sua vida a tinham empurrado para o lado negro da alma. Mesmo amando Henry e entregando a ele todos os sentimentos puros de seu coração, suas atitudes tinham sido perversas, como os atos que vira sua mãe cometer. Foram atrocidades que produziam prazer em seu corpo e em sua mente.

Por ser chamada de Rainha Má, agia como tal e sentia-se regozijada em produzir terror e dores nas pessoas. Envolvera-se com informações obscuras, maléficas e perigosas, provocando mortes de quem desconhecia e com quem não se importava. Suas escolhas sempre acabavam em dor, lágrimas ou mortes. As expressões de horror enchiam seu peito de orgulho e o poder a cegara ao ponto de não conseguir mais contemplar a beleza em sua volta. Tudo estava cinza e naquele instante, percebe que não conseguia mais ver as cores com nitidez e tudo estava desbotado.

— Minhas escolhas encheram meu espírito de prazer...

— Então, por que ter medo de morrer, não é?

Medo de morrer? Todo ser vivo tem medo da morte! Por que ela seria diferente? Mas e depois? Haveria redenção? Como ela seria tratada? Teria a mesma alma altiva naquele lado desconhecido? Teria pelo menos o mesmo nome? E se a aproximação da morte viesse com a mesma dor que ela havia produzido naqueles inocentes que cruzaram seu caminho? Ela conseguiria ter forças para suportar? Que pensamento louco?

— Morrer pelo câncer doerá?

— Certamente que o câncer produz dor. Por isso que Deus capacitou os homens para que produzissem drogas e tratamentos que amenizassem o sofrimento alheio. Esse é o ponto!

— E por que Deus permitiu que eu fosse atingida por isso?

— ELE não permitiu nada. O seu organismo fugiu da boa funcionalidade. Agora, cabe a você aproveitar a situação e conseguir a resposta para sua pergunta. Deus tem compromisso com quem tem compromisso com ELE. Quantas vezes em seu dia, você conversa com Deus?

Regina abre os lábios e inspira profundamente.