Vida, vida, vida
3 Falando de coisas estranhas

— Não tenho esse hábito.
— Você e milhares de pessoas no mundo. Pessoas que acreditam que são as produtoras de tudo o que possuem e que criam os seus próprios deuses.
Regina se inclina para frente.
— Imagens de barro?
— Não. – Martino sorri novamente. – Nós somos frágeis demais e permitimos que nossa total devoção fique focada em algum elemento eleito para aquele período de nossa vida: um carro, uma casa, um celular, um computador, joias, seu dinheiro ou mesmo uma pessoa. Nós costumamos criar ídolos para nossos dias e com isso, deixamos de assumir nossa posição de criatura de um único Ser.
Riqueza? Uma pessoa? Poder? Juventude? Regina decifra que havia elegido várias coisas para serem deuses em sua vida. Teria sido o correto para seus dias? Era uma mulher muito rica, adorava seu filho acima de tudo e de todos; possuía poder de decisão sobre a vida das pessoas e amava ser bela e jovem. Mesmo que usasse truques nada ortodoxos e sujos, para manter sua beleza.
— Por eu ter elencado prioridades em minha vida e não ficar dobrando meus joelhos para quem eu não via, fui punida? Deus me puniu por isso? Eu não o conheço!
Martino bebe um gole do suco.
— E nem ELE a você.
Um choque invade a alma de Regina. Ela abre e fecha a boca várias vezes em busca de uma resposta digna de uma rainha, porém, nada surge. Como? Isso era inadmissível! Desconhecida? Uma pontada de raiva surge quando seu ego é rasgado.
— Deus não me conhece? Não sabe quem sou? – ela altera a voz é atrai a atenção das pessoas à sua volta.
— Já se apresentou a Deus? Caso não tenha feito, você é apenas uma criatura em meio a tantas. Mas por que está preocupada com isso agora? Você já fez suas escolhas. Por que se preocupa em culpar alguém que nunca fez parte de sua vida, por seu estado atual?
Regina começa a comer, mas algo parecia ser mais importante do que alimentar seu corpo. Sente o ímpeto de alimentar sua alma.
— E você conhece Deus? ELE conhece você?
— Certamente que sim. Eu me entreguei aos cuidados DELE. Tomei atitudes que não ouso repetir, embora não me envergonhe de testemunhar. – Martino bebe um gole do suco. – Comento com quem quiser ouvir, para mostrar que aqueles dias não me acrescentaram nada e quem quiser seguir pelo mesmo caminho que segui, não ganhará nada!
Regina se inclina para frente, interessada no que poderia ouvir. Sorri ao ver o sorriso largo do homem. Bonita boca grande! Poderia dar um beijo naqueles lábios, qualquer dia depois. Gesticula para que ele continue.
— Eu me enveredei por um caminho sujo, quando me envolvi com uma garota de programas. Gastei muito dinheiro com ela e tudo o que consegui foi afastar-me de meus amigos e de quem gostava de mim. Fazíamos loucuras e vivíamos a mil por hora na estrada longa da vida.
Sem comentar, Regina quer apenas escutar.
— Foram apenas três meses e eu fui engolido por uma teia que me impedia os movimentos para libertar-me. Fiquei literalmente falido e desolado, quando ela percebeu que não teria mais vantagens em ficar comigo. Então, busquei em outras tantas, o que encontrava nela.
— Deveria ser um espetáculo, essa garota.
— Para os meus olhos cobertos pelo véu da cegueira, era sim. Num determinado momento, o sexo com garotas já não me satisfazia mais. Comecei a procurar alternativas como casas de swing e homens, mas não concretizei porque meu corpo passou a sentir as consequências de minhas loucuras.
— O que houve?
— Lúpus. Os anticorpos do Lúpus se manifestaram e sofri.
Apoiando o queixo com a mão, Regina estreita seus olhos escuros e aguça sua atenção.
— Fiquei sobre a cama de um hospital, com braços e pernas paralisados. Tive derrame pleural, pericardite, nefrite, pneumonia, emagrecimento súbito, parada respiratória...
— Traduzindo: o elefantinho Dumbo passou voando sobre sua cabeça.
Martino começa a rir. Ria da própria desgraça, agora mera lembrança. Ele ri muito e contagia Regina que o acompanha na gargalhada. Dois perdidos numa noite fria, poderia ser definida aquela cena.
— E não contente, o Dumbo decidiu me visitar também. – ela enxuga os olhos e decide alimentar-se.
— Enfim, enquanto estava fora de combate, tive todas as oportunidades de rever meus atos, minhas escolhas e analisar meu comportamento. Quais as vantagens que eu havia conseguido? O que aquele período de kamikaze fez de bom para meus dias? Quem havia se importado comigo a ponto de dar-me uma segunda chance? Ouvi palavras de pessoas desconhecidas e percebi que eu deveria amar-me mais, porque havia Alguém que me amava muito. É isso!
Regina consegue encontrar forças dentro daqueles olhos em cor de mel. Ele emanava algo tão suave e bom, como se a atraísse para ficar sempre ao seu lado. Ela se sentia cheia de vida e tudo parecia estar iluminado em torno daquela mesa, porque ele irradiava luz. Ele pertencia ao mundo dos anjos ou dos homens? Com sua razão conseguia ver uma figura humana, mas se usasse o seu coração, veria um corpo celeste.
Pisca várias vezes e retorna para a realidade. Observa-o comer e sente que gostava de olhar os detalhes daquele rosto com encantadoras pálpebras, enfeitadas pelos longos cílios escuros.
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