Vida de Vampira
3 Caçando
Enquanto passávamos por aquela casa grande e velha, muitos vampiros me olhavam com olhares julgadores. Tinham vampiros de todos os tipos, altos, baixos, loiros, morenos, mas todos eram jovens. Ou pelo menos era isso que seus corpos queriam dizer. Eu estava caminhando atrás de Julien, olhando apenas para ele e apenas algumas vezes me virando para ver os vampiros. Todos eram muito agitados e estavam por toda à parte. Aquele cômodo em que nós estávamos devia ser a sala. Era gigantesca, empoeirada e escura e assim como naquele quarto apenas lamparinas iluminavam aquele lugar, mas como tinha várias delas ali o quarto estava com bastante luz. Logo nos chegamos à porta da frente, a qual Julien abriu e pediu para que eu saísse primeiro. Quando saí tive uma surpresa, aquela rua não me era estranha.
- Que rua é essa? – Eu perguntei.
Ele me olhou de canto de olho, devia me achar uma completa imbecil.
- É a rua quatro. Por que?
Era esta mesmo, a rua quatro. A rua da minha antiga casa, a rua em que minha família morava, olhei para a direção da minha casa – se é que eu podia chamar de minha -, e vi a luz do meu quarto acesa. Pela silhueta marcada na cortina minha mãe estava segurando um papel e chorando. Corri. Não sei exatamente o que me deu na cabeça, mas sei que amava a minha mãe mesmo ela sendo o que era. Ouvi os gritos de Julien atrás de mim me dizendo para parar, mas não parei. Cheguei bem em baixo da janela do meu quarto, e fiquei parada olhando minha mãe e ouvindo suas súplicas para que eu voltasse. As lágrimas escorriam com tanta facilidade do meu rosto que minhas roupas já estavam molhadas com pequenas gotas salgadas.
- O que está fazendo?
Ignorei a pergunta de Julien. Como ele conseguiu chegar perto de mim tão rápido e sem que eu nem percebesse? Essa era uma pergunta para ser feita depois. Julien se aproximou de mim e viu o quanto eu estava chorando, apontou para a janela e perguntou quem era.
- É minha mãe. – Eu chorei um pouco mais forte desta vez.
- Venha. – Ele me pegou pelo pulso e começou a me arrastar em direção a casa deles, que agora era minha também. Tentei me libertar das mãos dele, mas era impossível. Era como nadar contra a correnteza, ele era realmente forte.
- O que você está fazendo? – Eu gritei ignorando todos os vizinhos, se é que existiam outras pessoas morando naquela rua. — Me deixe em paz, veja só o que você fez!
Ele parou, soltou minha mão e se virou para mim.
- Só estou te levando para Elizabeth. Ela vai cuidar da sua dor, digo, a dor da perda. E a da sua mãe também.
- Não! – Eu chorava rios naquele momento. – Por que vocês fizeram isso comigo? Por que eu tenho que ser esta criatura horrível e assassina?
- Eu só te salvei. – Ele disse gritando, com ódio nos olhos, parecia arrependido de ter me levado a Billie. – Você morreria se eu não fizesse aquilo.
- Dane-se! – Eu gritei. – Era mais fácil pra eu morrer. Sei que minha mãe ficaria magoada da mesma maneira, mas é muito difícil ver ela sofrendo e não fazer nada. Você não tem mãe? Ou será que você foi insensível o bastante para ver sua mãe chorar e morrer e você não dizer nada?
Ele me deu um tapa. Na cara. Sei, parece covardia, mas naquele momento eu sentia que a única covarde ali era eu.
- Não fale da minha mãe. – Ele gritou. — Você não sabe nem metade do que aconteceu.
Eu ainda estava virada para o lado com o cabelo grudado no rosto por causa das lágrimas que o molharam. Levei a mão à boca para ver se estava sangrando. Não estava, mas apenas por que ele queria, pois com um simples tapa de um cara tão forte quanto ele, eu poderia ter rolado no chão.
- Foi difícil pra mim também se você quer saber. Mas não vou te dar esta satisfação. – Ele se acalmou, mas ainda falava alto. – Que burrice a minha de te salvar. Você merecia ter morrido.
Ele começou a caminhar. Mas eu não o acompanhei.
- Vai ficar aí? Não vai querer sangue? – ele gritou.
Fui atrás dele.
Ficamos andando por mais ou menos quinze minutos. Eu fiquei vendo como aquela cidade se transformava quanto mais agente andava mais a cidade ficava com jeito de centro, com mais carros e duas ou três pessoas passando.
- Olhe aqueles dali. Parecem ser vítimas ótimas. – Ele apontou para duas garotas do outro lado. Suas roupas eram minúsculas.
De repente eu li o pensamento deles. Até tinha me esquecido deste dom.
Aquele cliente foi o melhor de todos, nunca vi gente igual. – Me toquei do que se tratava.
- São duas prostitutas. – Eu disse.
- Qual é o problema?
- Nenhum. Qual é o plano, então?
Ele riu da minha pergunta. Logo antes de sair correndo em direção as duas prostitutas. Pegou uma e me chamou, eu também corri. Percebi que minha velocidade era maior que a dos seres humanos.
- Ei cara – a prostituta que ele tinha pegado começou -, vai ter que pagar.
Ele riu outra vez.
- Veja Judy, é assim que se faz.
Ele mordeu seu pescoço como se mordesse uma maçã, mas com muito, muito mais força. Estranhei por que a prostituta não gritou, e sim começou a abraçá-lo. Pela primeira vez prestei atenção no rosto dela. Ela era linda, dos cabelos negros e dos olhos verdes. Pena que agora estava morrendo. A outra prostituta tentou correr, mas eu a peguei. Agora eu era mais forte também, não que eu não fosse forte quando humana, já arrebentei muita gente. Ela gritou e Julien abriu os olhos e apontou para a prostituta que eu estava segurando como se estivesse me forçando a morder ela. E foi isso que eu fiz.
Demorou um segundo para o sangue escorrer, mas quando veio foi o melhor sabor da minha vida. O sabor explodia na boca. Era como pular de um precipício. Pra falar a verdade era melhor do que isso. Era a melhor sensação que eu já tinha sentido em toda a minha vida. Em fim, era indescritível. Mas passou, eu já tinha terminado com o sangue dela. Ela estava morta agora.
Abri meus olhos e Julien ainda estava sugando a outra prostituta, desta vez de forma diferente. E ela ainda estava viva. Ele a comprimia contra a parede e a abraçava. Eles estavam se agarrando! Ela estava até gemendo de prazer.
- Julien, o que está fazendo? – eu perguntei.
De repente ele abriu os olhos e pareceu sugar com todo o sangue dela de uma vez. E ela caiu, morta como a outra.
- Me alimentando.
- Mas vocês estavam se agarrando!
- Eu já te disse que tem muita coisa que você ainda não sabe. E só de pensar que como seu guardador vou ter que te contar tudo me dá preguiça.
Ele estava mais solto comigo. É, mas isso teve seu preço, um tapa. Fomos embora conversando e nesta conversa descobri muitas outras coisas de vampiros. Como que aquilo que aconteceu com a prostituta é normal. É o chamado abraço da morte. Quando se tem quase a mesma idade e o sexo oposto da presa, enquanto você se alimenta algo acontece com seu organismo o sentimento da paixão se desperta mesmo contra sua vontade. Me explicou que não fazia mal deixarmos os corpos das vítimas ali, por que vampiros não tem impressões digitais e que a policia irresponsável de Klingon já estava acostumada com esse tipo de morte, o ataque de animais ferozes. E que a prostituta que ele se alimentou não tinha mais sangue que a minha, é que ele aprendeu a controlar sua capacidade de sucção de sangue, pra durar mais tempo.
De repente dois homens passavam do outro lado da rua encapuzados. Eram as sobremesas. Julien correu na frente e eu atrás. Vi que eram dois garotos de uns vinte anos. Apesar deles serem fortes, eu e Julien éramos vampiros. Portanto mais fortes do que eles. Julien agarrou um deles enquanto eu já me alimentava do outro. A mesma sensação indescritível, o mesmo sabor incomparável. Tentei controlar o meu poder de sucção, como Julien ensinou. Deu certo, desta vez demorou mais. Mas logo minha sede estava saciada, e o garoto morto.
- Ah, que droga. – Julien disse.
- O que foi? – Eu perguntei.
- Este garoto ingeriu drogas em menos de 24 horas. Passou pra mim.
- Como assim. Você está drogado?
Ele chegou mais perto de mim.
- Isso mesmo, vamos pra casa logo.
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