- Rachel, você não vê que Julien precisa dormir? – Eu disse quando entramos no quarto.

- Agora não é hora para dormir. – Ela andava de um lado para o outro. – Billie está chamando para uma reunião.

- O que? – Julien se levantou da cama na rapidez de um raio. – Uma reunião, agora?

- É. – Rachel pareceu preocupada. – Parece que alguma coisa está acontecendo. E não acho que seja boa.

- Por favor, alguém me explique alguma coisa!

Rachel se sentou ao meu lado.

- Quando alguma coisa não funciona como o programado, devemos fazer uma reunião para saber o mais certo a fazer. Não é qualquer um que entra, apenas quem tem dons especiais e mais de um ano de vida vampira. Portanto acho que você ficará de fora, mas vou repassar as informações liberadas quando puder.

- Tudo bem. – Eu respondi abaixando a cabeça.

- Será que é algum outro clã? Ou será que são humanos? – Julien perguntou se sentando a nossa frente, na poltrona.

- Não tenho a mínima idéia. – Rachel respondeu.

O silêncio dominou. Estávamos todos preocupados, ansiosos e curiosos. E confesso que – pelo menos eu – com um pouco de medo. De repente o misterioso Julien cujo eu não tinha visto nenhuma parte do seu corpo além do rosto e corpo, levantou-se, virou de costas e retirou o moletom que o cobria o dia inteiro. Pude ver seus lindos cabelos negros e meio crescidos, o tamanho de seus ombros, sua boca rosada e carnuda, sua pele incrivelmente branca...

- Espera aí, pela conversa, acho que estou por fora. – Ele disse se virando e revelando seu lindo corpo que percebendo meu olhar para eles, jogou o moletom outra vez por cima de um ombro. – Você – ele olhou pra mim com aqueles olhos hipnotizadores -, tem um dom especial, também?

Eu desviei o olhar dele tentando não olhar pra todos aqueles músculos que pareciam emitir uma atração especial.

- Não quero falar disso.

- É melhor você dizer para ele, ele é seu guardador. – Rachel disse cobrindo minha mão com as suas. – É melhor assim. Mas espere eu sair do quarto, não sou nada sua, apenas amiga , sugiro. Não tenho nada a ver com isso, e só devo saber sobre seu poder da boca do meu senhor.

Julien olhou para Rachel como se dissesse para ela sair da sala e ela saiu dando um sorriso antes de fechar a porta. Depois disso Julien se sentou ao meu lado virado de frente pra mim, dobrando uma perna por cima da cama. Olhou em meus olhos mais uma vez.

- Eu leio pensamentos.

Ele se levantou, colocou a mão na boca e sorriu.

- Isso facilita muita coisa.

- É, facilitaria se eu tivesse controle deste dom.

- Ah, não se preocupe. – Ele voltou a ter seu ar sério de sempre. – Você ainda está no primeiro dia deste lado da vida. Billie vai te ajudar.

Billie Iria me ajudar? Eu ainda nem tinha o visto e já tinha desmaiado quando cheguei perto dele e então descubro que ele seria o homem que me ajudaria a controlar meu dom? Não disse nada a Julien.

- Só não acho que isso seria bom pra mim – ele disse olhando para o nada, parecendo pensar alto -, imagine ter você escutando minha mente sempre que quisesse?

Não tive tempo pra dizer uma palavra. Pois Rachel entrou apressadamente no quarto e disse para Julien se apresentar na sala de Billie. Julien pegou a lamparina e se aproximou de um armário onde pegou uma camiseta branca e vestiu rapidamente.

- Tchau. Nos falamos depois. – Julien disse com o ar muito sério.

Sorri.

Fiquei sentada por alguns instantes pensando em tudo o que tinha acontecido. Mas aquela posição me cansou e comecei a andar pelo quarto pequeno com a lamparina nas mãos. Havia uma pequena cômoda que eu não havia reparado. Abri a primeira gaveta para ver algumas bermudas jeans masculinas. Devia ser de Julien. Abri a segunda e vi diversas coisas, desde chaves até livros. Eu amava ler, e dentre aqueles livros estavam meus autores preferidos. Peguei um livro e comecei a folhear. De repente alguma coisa caiu no chão, quando me agachei para pegar vi que era uma foto antiga. Era Julien, há muitos anos atrás ele estava com uma mulher mais velha, pensei na hipótese de uma namorada, mas era impossível, ela era velha demais para um garoto de dezoito anos. Virei a foto e acabei com minha dúvida. Estava escrito “Saudades de minha mãe”. Uma lágrima caiu de meu rosto.

- O que está fazendo aí? – a voz de Rachel falou.

Peguei a fotos e o livro, enfiei na gaveta e fechei.

- Nada. E você? Por que está aqui e não na reunião?

- O senhor quer você na sala dele. Ele disse que você não precisa completar um ano de vida vampira para participar das reuniões.

Ah, que inferno. O que será que estava acontecendo?

- Venha logo! – Rachel bateu o pé no chão com força. – Quer deixar seu senhor esperando?

Eu fui. Passei por aquele corredor escuro e sombrio agarrada ao braço de Rachel. Na minha mente muitas perguntas se formavam. Mas a minha maior dúvida era de como seria aquele homem? Eu tinha sentido sua superioridade apenas de estar ao lado dele. Seu toque tinha me hipnotizado totalmente. Como seria a imagem de um homem tão perfeito?

De repente nós chegamos. A porta se abriu e um vampiro jovem e loiro abriu a porta.

- Seja bem vinda Judhyte Spektor.

Fiz uma cara estranha a Rachel de como-ele-sabe-meu-nome e ela mexeu os ombros misteriosamente. Havia mais luz naquela sala do que em outros cômodos da casa, pois no lustre ao invés de lâmpadas havia velas, assim como no resto da sala. Havia bastante gente ali, e então eu fiquei atrás de uma fileira de gente em volta de alguma coisa que impedia minha visão. Mas era melhor assim, apenas ouvindo a voz de Billie.

- ... e então eles virão nos caçar. Pois a garota escolhida em fim foi transformada. Mas o vampiro azul está em poder deles. – Eu não entendia nada, mas ouvia sua voz doce e grava me atingir – Ainda não sabemos qual é a virgem vampira escolhida, mas podemos saber qual é o vampiro azul, pois temos uma nova arma.

Todos começaram a cochichar. Mas Billie os mandou para, e então a sala ficou em completo silêncio. Tanto silêncio que se ouvia a respiração e o batimento cardíaco de quem estava ao seu lado.

- E esta arma se chama, Judhyte Spektor.

Eu fiquei paralisada, mas algum engraçadinho me empurrou, fazendo com que eu entrasse no meio do círculo. Olhei para os lados e vi todos olhando para mim, mas o que vi depois me impactou mais, Billie. Ele era simplesmente perfeito. Seus olhos da mesma cor que todos os outros pareciam brilhar mais, seu cabelo ao contrário do de Julien era tão bem cortado e ainda tinha um vestígio de barba muito bem feita naquele rosto, ele era um pouco mais forte que Julien e quando me viu, sorriu misteriosamente pra mim. Achei que fosse desmaiar outra vez, mas alguém gritou alguma coisa.

- Mas senhor o que esta garota tem de incomum?

Billie que estava sentado em uma linda cadeira de camurça vermelho se levantou e chegou mais perto de mim, não me mexi, mas senti minhas pernas fraquejarem. Ele se posicionou a minha frente e chegou tão perto do meu rosto que eu sentia o vapor de sua respiração quente em meu queixo.

- Ela lê pensamentos.

Todos fizeram “ahs” e “ohs” e eu me senti como uma aberração no circo de horrores.

- Portanto, vamos saber o que aquele maldito clã irá fazer antes que façam. E também, o grande segredo que eles guardam, o vampiro azul. Por hoje é só, vamos calcular o melhor dia para atacar e combinaremos uma nova reunião. Podem voltar aos seus quartos.

Eu estava quase saindo do lugar quando Billie agarrou meu braço com força e olhou profundamente em meus olhos. Tão profundamente que eu achei que ele pudesse ver minha alma.

- Você não.

Todos estavam quase do lado de fora, mas Julien estava me esperando.

- O que ainda faz aqui, Julien? – Billie perguntou.

- Senhor, sou o guardador de Judy, devo protegê-la, não?

- Garoto – Billie soltou meu braço -, você quer protegê-la do seu próprio senhor?

Julien saiu da sala. A adrenalina percorreu meu corpo — mais uma vez.

- Desculpe senhor – eu comecei, mas Billie me interrompeu.

- Pode me chamar de Billie.

- Bom, então Billie, eu não vejo o por que de estar sozinha nesta sala. O senhor... – me corrigi – Quero dizer, Billie, você quer conversar sobre meu dom?

- Não. — ele se aproximou tanto quanto da última vez. – Eu só quero sentir o sabor de seus lindos lábios, minha senhora.

Ele me beijou. Mas não foi um simples beijo, foi o melhor beijo que eu já havia sentido em toda a minha vida. O sabor daquela linda boca andou por todo meu corpo e fez voltas nele. Eu não estava dentro de mim, naquele momento era como se eu estivesse flutuando em algum lugar além deste planeta. Foi indescritível. Mas logo ele parou, para olhar mais profundamente ainda dentro de meus olhos.

- Desculpe, Billie – eu disse -, mas do que você me chamou?

Ele se virou ficando de costas para mim.

- Todo senhor tem sua senhora, e acredito que você seja a minha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.