Vida Dupla

2 Parte 1 - Capítulo 1


PARTE 1

Capítulo 1

Catorze anos antes

— Caramba, Elena, não é tão difícil — reclamou o garoto, parado no meio da pista segurando as mãos de uma garota que tentava se equilibrar em cima do skate.

— Não fala assim comigo — ela brigou. — Eu só ‘tô nervosa.

— Tá bom, desculpa, Batata. — Ele revirou os olhos. A garota estalou um tapa no braço dele que recuou rindo.

— Vamos tentar de novo. Lembra o que fazer? Dá o impulso e dobra os joelhos quando tiver subindo. — Ela assentiu. Voltou a segurar as mãos dele com força.

— Você não vai me soltar, não é? Promete?

— Prometo.

Durante as primeiras tentativas, ele correu com ela de um lado para o outro na pista de skate sem soltar sua mão, até que ela se sentisse mais segura. Soltou primeiro uma mão e depois outra. Ela caiu algumas vezes. Em cada queda, o coração de Gustavo saltava e ele corria até ela. Os grandes olhos castanhos ficavam marejados, ela soltava vários xingamentos que ninguém imaginava ser proferidos por uma garota tão franzina e que fazia Gustavo rir e logo ela se levantava para tentar de novo.

— Ei! Batata, você não vai me deixar dar uma volta?

— Tá, mas vai logo.

Ela desceu do skate de um jeito desengonçado e entregou para ele. Se sentou na beirada da pista e observou. Gostava de vê-lo fazendo manobras e percorrendo cada canto da pista com uma agilidade incrível. O vento bagunçando o cabelo espesso e escuro. Algo se agitava em seu estomago toda vez que o assistia. Suas bochechas começavam a esquentar forçando-a a desviar o olhar ou se distrair de alguma forma.

— Anda logo, Guto! — ela gritou. — É a minha vez.

O céu já tinha passado pelas tonalidades: azul clara, alaranjada, rose e agora se pintava de um azul escuro cheio de nuvens cinzentas, mas eles só saíram quando o guarda chegou avisando que iam fechar o parque.

Começaram a andar lado a lado rumo a suas casas.

— Sabe que... um homem apareceu lá no orfanato ontem — ele comentou. — Parece que está querendo me adotar?

— Adotar você? — Ela ergueu os olhos para ele e arfou. O cabelo preso em um rabo de cavalo alto tinha vários fios espetados.

— É, me adotar, por que não?

— Não! Não é isso. Você é ótimo...

— Claro que eu sou ótimo, Eleninha. Lindo, inteligente, engraçado. Até você iria me querer, só que como seu namorado, não me adotar é claro — ele brincou, fazendo cócegas em sua barriga. Elena gritou e o empurrou.

— Para de ser idiota. Você é feio, não tem nem canela, olha pra esses cambitos.

— Falou a nariz de batata.

— Eu estava falando que você é ótimo, adotável, mas vou retirar o que eu disse. Você é bagunceiro.

— É o que você acha? — Ele a segurou pelos ombros e fingiu que ia jogá-la na frente de um carro para assustá-la.

— Ha ha ha muito engraçado — ela disse quando o susto passou.

— Você se assusta a toa e eu não sou bagunceiro, sou um anjo.

Eles ficaram em silêncio por um instante, mas Elena queria saber mais sobre o homem que queria adotar seu melhor amigo.

— Fiquei surpresa, porque você tinha me dito que meninos mais velhos raramente são adotados.

— É, isso é verdade. Por isso que achei estranho também.

— Como ele é? Acha que vai ser um bom pai? Tem esposa? Você vai ter irmãos?

— Calma, Batata. Eu não sei. Ele é um velho cheio da grana. Não sei se tem esposa ou filhos, ele ‘tava sozinho.

— Talvez ele seja sozinho e queira uma companhia.

— É, pode ser.

Gustavo não estava animado com a ideia de ser adotado, não esperava mais por isso, já estava acostumado à sua rotina: acordar no orfanato, ir para a escola e passar a tarde no parque com a Elena. Quase nem sentia falta de uma família, já que a família dela praticamente tinha o adotado. Separar ele de Elena seria como tirar-lhe uma irmã.

— Espero que ele deixe você vir me visitar e que deixe passar as tardes na pista de skate comigo.

— Se ele não deixar, eu fujo.

— Não vai se meter em encrenca. Quer ver se sobrou bolo na padaria hoje?

— Já te falei que adoro ser melhor amigo da filha do padeiro?

Os dois sorriram e saíram correndo.

***

Poucos dias mais tarde, por volta das treze horas, depois das aulas do dia, o sol estalava e Elena usava um boné, short jeans e camiseta larga. Sentada na guia da calçada, ela esperava por Gustavo.

Um carro preto luxuoso parecido com uma limusine parou em frente a sua casa e Gustavo saltou do banco traseiro. Todos os vidros eram filmados, Elena não conseguia enxergar nada através deles.

— Carro irado, não é? — perguntou Gustavo com as mãos nos bolsos da bermuda.

— Cadê ele? Seu pai adotivo?

— Não veio, mandou o motorista.

— Pra onde você vai se mudar?

— Também não sei. Ele passou o endereço para as donas do orfanato, preencheu uma penca de papéis e mandou por e-mail. As monitoras me disseram que tive sorte. Acho que vou poder ter todo o videogame que eu quiser.

Elena riu brevemente, aquele carro a deixava nervosa.

— Vou te chamar para jogar videogame comigo.

— É bom mesmo. Não some, Guto.

— Até parece que eu vou ficar sem os bolos da mãe. — Eles riram. Gustavo abriu os braços e os dois se abraçaram como faziam tantas vezes, mas dessa vez, mesmo com as promessas de reencontro, havia um ar de despedida e eles se demoraram mais no abraço do que de costume.

— Tchau, Guto. Boa sorte com a nova família — gritou uma mulher parecida com Elena da janela no segundo andar da casa, em cima da padaria.

— Tchau, mãe. Obrigado. — Ele acenou para a mãe de Elena, carinhosamente apelidada por ele de “mãe”.

— Não fique metido — gritou Elena.

— Fique atenta, Batata, vou te mandar minha limusine. — Ele sorriu convencido e entrou no carro.

Elena revirou os olhos e entrou em casa rindo.

— Pai, precisa de ajuda na padaria? — perguntou antes de subir as escadas.

— Não, filha — gritou o Sr. Santos.

Elena entrou no cômodo de cima. Tirou o boné que usava para proteger do sol. Foi para seu quarto, fechou a porta e encostou-se à madeira.

Primeiro, Elena inspirou profundamente, apertou o boné no peito e as lágrimas vieram. Algo, bem lá no fundo, lhe dizia que ela não veria mais Gustavo e a amizade dos dois nunca mais seria a mesma.