Vida Dupla
3 Capítulo 2
Gustavo observou as casas simples do bairro se tornarem grandes prédios. Raramente havia alguma excursão no orfanato, ele não costumava pegar metrô, trem ou visitar a cidade. Tudo era novo. As grandes construções e os edifícios pareciam gigantescos para ele.
Apesar de deslumbrado com tudo o que via, Gustavo se esforçou para não transparecer isso. De todas as crianças do orfanato, sempre fora o mais orgulhoso. Não queria parecer só um garoto ingênuo do subúrbio, mas mesmo com todo o esforço, foi surpreendido algumas vezes olhando para cima com a boca aberta pelo motorista do carro.
Os prédios deram lugar a grandes casarões e ruas tão retas e de asfalto tão macio e liso que o carro parecia flutuar. Gustavo pensou nas estradas esburacadas do seu bairro.
O carro parou em frente a um desses casarões. O portão era automático. A garagem ficava dentro de um grande jardim com piscina. Havia outros dois carros na garagem, um deles, conversível. Gustavo conseguiu ver alguns funcionários andando para lá e para cá e ficou nervoso, o coração batendo muito rápido.
Por que o dono de tudo aquilo simplesmente decidiu adotá-lo? Por que ele? Algo tinha que estar errado.
— Chegamos, senhor — avisou o motorista. Gustavo estranhou ser chamado dessa forma, afinal só tinha catorze anos.
Pegou a mochila, jogou-a nos ombros e desceu do carro.
— Senhor Gustavo. — Um homem estava parado na entrada da mansão. Era muito magro e tinha ralos cabelos brancos. Guto pensou que se estivesse chovendo e trovejando, ele seria bem assustador, por sorte fazia um calor tão forte que já estava se imaginando dentro da piscina do jardim. — Siga-me, por favor.
Gustavo olhou para trás, para o motorista que se apresentara como Pedro, um homem robusto de espessos cabelos brancos que parecia mais amigável. Ele assentiu para Guto que seguiu o homem magro para dentro da casa.
— Meu nome é Juliano e trabalho para os Almeida há anos. O senhor Almeida me pediu para recebê-lo e lhe explicar tudo — comentou o homem magro enquanto guiava Gustavo para o andar de cima. O garoto observou tudo, novamente tentando não parecer impressionado, enquanto passava pelos cômodos pensava: sala de gente rica, quartos de gente rica, escritório de gente rica. — Este será o seu quarto.
Gustavo entrou em um cômodo tão grande quanto os outros. Havia uma cama de casal, ar condicionado, uma escrivaninha com laptop, televisão, videogame e uma grande janela.
Ele suspirou. Nunca tivera um quarto só seu e agora tinha um com cama de casal. Qualquer outro adolescente estaria pulando de felicidade, se achando a pessoa mais sortuda do mundo, mas a desconfiança aguçada de Gustavo o alertava de que algo estava errado desde que entrara no carro. Todo o seu corpo estava tenso quando ele colocou sua mochila simples e surrada em cima da cama.
— Por favor, me dê... isso. — Juliano estendeu a mão e olhou para sua mochila com desgosto. O olhar se estendeu para Gustavo, olhando-o de cima a baixo.
Desconfiado, Gustavo lhe entregou seus pertences.
— O que vai fazer com minha mochila? — perguntou, se repreendendo por não ter perguntado antes de entregar.
— Jogá-la no lixo.
— O que? Tudo o que eu tenho está aí.
— Não mais. Abra seu guarda-roupa. O Sr. Almeida já comprou tudo o que você precisará. Neste exato momento, nossos empregados estão lhe preparando um banho, a roupa para o seu encontro com o Sr. Almeida já foi escolhida. O banheiro fica nesta porta de vidro. Assim que terminar deve se dirigir à sala no final do corredor, é o escritório do Sr. Almeida. Certifique-se de... dar um jeito nesse cabelo.
— Tudo bem, Alfred, eu entendi.
— Meu nome é Juliano.
Gustavo entrou na porta de vidro dentro de seu quarto e encontrou três pessoas uniformizadas ali dentro, jogando aromatizadores dentro de uma banheira enorme.
— Seu banho já está pronto, senhor Gustavo. A roupa e o roupão ficam bem ao lado. Com licença — disse uma mulher e todos saíram.
Toda aquela formalidade, os olhares superiores do mordomo, os móveis absurdamente limpos e chiques estavam deixando Gustavo irritado. Ele preferia mil vezes ainda estar comendo bolo na casa da Elena.
Assim que entrou na banheira e a água quente se espalhou por seu corpo, ele relaxou um pouco. Fechou os olhos e tentou pensar positivo. Não era difícil. Podia imaginar uma vida toda ali. Pensou na cara de Elena ao ver tudo aquilo e sorriu. Mal podia esperar para usar o computador, o videogame, certamente os lençóis daquela cama gigantesca não pinicavam como os do orfanato.
Gustavo decidiu não ficar tão desconfiado. Era uma nova vida e decidiu dar uma chance a ela, aproveitar da melhor forma.
Saiu da banheira, se secou e colocou a roupa escolhida para ele. Uma roupa social. Ele nunca tinha vestido roupas como aquelas. Não teve problemas em se vestir até chegar na gravata. Deixou-a pendurada no pescoço e passou o pente no cabelo.
Ao se olhar no espelho, se sentiu completamente deslocado, como se estivesse vendo outra pessoa e não seu próprio reflexo. Era meio perturbador.
Saiu de sua suíte seguindo as instruções de Alfred e seguiu para a sala no final do corredor. Bateu na porta e após consentimento, entrou.
— Olá, Gustavo. Como vai? — O homem atrás da mesa tinha um jornal na frente do rosto, as duas pernas estavam apoiadas na mesa e exibiam um par de sapatos pretos lustrosos.
— Bem — disse. Sua voz saiu estranha. O jeito desconfiado retornou, os olhos espertos vasculharam tudo, desde a estante cheia de quadros, medalhas, troféus e diplomas, até a mesa com um laptop, uma maleta e documentos.
O homem retirou o jornal da frente do rosto. Era robusto, cabelo grisalho, sorriso largo sem mostrar os dentes. Ele fumava um charuto, tragou e enquanto expelia a fumaça, olhou de cima abaixo para Gustavo com seus olhinhos pequenos.
— O que achou, uhm? Bem melhor do que a espelunca que você morava, não é? Seja bem-vindo, garoto. Esse é seu lar agora.
— Por quê? Por que me adotou?
— Não seja mal educado, devia estar me agradecendo. Aliás, meu nome é Saulo, Saulo Almeida. Sou dono de uma das maiores empresas bancárias do país. Tenho um presente de boas vindas para você.
Ele retirou as pernas da mesa, se levantou e pegou uma mochila no chão, preta, nova e cheia de divisórias. Ele jogou a mochila para Gustavo que a pegou no ar.
— Abra. Vamos.
Gustavo abriu a mochila e encontrou todos os tipos de jogos de guerra, estratégia, tiro. Havia um ou dois livros clássicos e um celular de última geração. Mesmo que lá no fundo, algo ainda parecesse errado, os olhos dele brilharam.
— Obrigado, mas...
— Sem “mas”, isso tudo é seu. O restante do ano, você terá aulas em casa. Ano que vem, te matricularei em um colégio a altura de um filho meu. — Saulo caminhou até o garoto e lhe deu algumas batidinhas nas costas ao mesmo tempo em que alguém batia na porta. — Entre.
Diversos funcionários entraram na sala do patrão.
— Gustavo, essa é a cozinheira, você pode pedir a ela o que quiser para as refeições. Essas duas cuidam da limpeza. Juliano nosso mordomo...
— Ah o Alfred — comentou Gustavo. Saulo riu, uma risada forte e estrondosa, levando a mão até a barriga avantajada que a escrivaninha escondia.
— Esse garoto. E, por fim, Tatiana, sua segurança. Ela só te acompanhará quando sair de casa.
— É um prazer — Gustavo cumprimentou a todos que lhe pareceram muito simpáticos com exceção de Alfred.
— Agora, garoto, vá se divertir.
Fale com o autor