Victoire's Song
1 Sobre estrelas e vagalumes
She said
"I was seven, and you were nine
I looked at you like the stars that shined
In the sky, the pretty lights."
Em intermináveis noites de verão, aos sete e nove anos respectivamente, Victoire Weasley e Teddy Lupin ainda gostavam – e muito – de caçar vagalumes pelo terreno d’A Toca. Afinal, certa vez, Luna contara às crianças que os diminutos seres alados eram estrelas cadentes que, atraídas pela vida na Terra, desprendiam-se do céu noturno a fim de passear noite adentro e conhecer mais os estranhos seres que avistavam lá do alto. Na época, a mera ideia de possuir constelações – para depois deixá-las ir novamente – agradava a pequena Weasley. Já o metamorfo, por sua vez, contentava-se apenas com a aventura daquela caçada, deixando-se contagiar pela alegria que transbordava dos olhos muito azuis da amiga. E, para aqueles que os observavam de foram, nada se comparava àquele inocente recorte de diversão infantil: a felicidade reluzindo em dois pares de sorrisos enormes – e com alguns dentes de leite a menos – enquanto Victoire e Teddy perambulavam por entre as árvores.
Ao final da noite, James Sirius estaria repleto de energia correndo atrás dos feitiços coloridos, seguido de perto por uma Ginny Potter muito grávida e muito furiosa. Ron estaria com o pequeno Fred nos braços, ajudando-o a se aproximar das luzes e sendo observado com carinho por Hermione que, como a cunhada, sustentava um notável inchaço em seu estômago. Audrey e Fleur encantariam um par de instrumentos para que uma alegre melodia ressoasse pelo jardim, fazendo com que as alegres Dominique, Lucy e Roxanne se juntassem à Luna e Neville em uma dança tão animada quanto excêntrica. Assim, para encerrar aqueles encontros, Angelina e George se disporiam a entreter a todos com os Fogos Instantâneos Weasley, criando um verdadeiro espetáculo que encantava por completo o clã Weasley e seus agregados. E, da varanda, Arthur e Molly Weasley assistiriam orgulhosos as extraordinárias ramificações de um amor que nascera anos antes com os dois.
Ainda assim, por mais barulhentos e alegres que seus familiares se tornassem, a primogênita Delacour-Weasley e o único Tonks-Lupin permaneceriam inabaláveis pelos eventos ao seu redor, envoltos em uma atmosfera própria que admitia apenas estrelas, vagalumes e, acima de tudo, a companhia um do outro. O garoto, após libertar a última “estrela cadente” de um pote de vidro, estenderia sobre a grama qualquer que fosse o casaco que usava, pois sabia que a melhor amiga – assim como a mãe dela – apreciava um bom cavalheirismo. E ela, por sua vez, revelaria de dentro dos bolsos de seu vestido dois bolos de caldeirão que pegara de uma das formas da avó. Assim, com expressões cúmplices, Teddy e Victoire sentariam lado-a-lado, apreciando tanto o show de luzes quanto os doces roubados: a cabeça de fios loiros – beijados pelos constantes raios solares do Chalé das Conchas – repousando contra o ombro do melhor amigo e os olhos – tanto o oceânico dela quanto o cor-de-avelã original dele – grudados ao céu noturno em um momento, dentre tantos outros, que era unicamente deles.
And our daddies used to joke about the two of us
Growing up and fallin' in love
And our mamas smiled, and rolled their eyes
And said, "Oh, my, my, my"
— Hey, Potter... Eu preciso me preocupar com as reais intenções do seu afilhado em relação à minha filha? — Bill brincou, certa vez, sentando-se ao lado do eterno menino-que-sobreviveu na enorme mesa de piquenique disposta no jardim d’A Toca.
— Teddy e Victoire? — em surpresa, Harry piscou repetidas vezes os olhos muito verdes, antes direcionados à esposa, completamente alheio às crianças apontadas pelo cunhado.
— Por Merlin, Ginny tem razão… Você consegue ser pior que o Ron — o ruivo comentou com uma risada contida, indicando o par de amigos com um aceno de cabeça.
— Teddy e Victoire?! — exclamou novamente o outro quando finalmente compreendeu o que o Weasley tentara insinuar — Será? Depois que superaram algumas dificuldades iniciais, eles se tornaram tão bons amigos...
E o Potter se referia às antigas discussões de ambos porque, para Teddy, a menininha loira lhe parecia uma muito perfeita e boba boneca de porcelana. Já para Victoire, o metamorfo lhe remetia à arrogância com suas habilidades de transformações e o estranho cabelo azul-elétrico que orgulhosamente ostentava. Porém, tudo foi resolvido quando, certa vez, o garoto encontrou a outra, sob o contorno de uma das aveleiras da propriedade dos Weasley, aos prantos junto de um livro de histórias trouxas – dado a ela por Hermione – no colo. O fato – até então, desconhecido – era que Victoire começava a manifestar os primeiros sinais de sua dislexia e, ao tentar ler os contos, as palavras haviam se misturado em uma confusa sopa de letrinhas diante de seu olhar marejado.
Mas, naquele dia e nos outros que se seguiram, Teddy não zombou dela.
E, naquela tarde, o Lupin passou a ler junto à garota para a ajudar a decifrar o emaranhado de frases que insistia em se formar em sua cabeça. Juntos, concluíram o livro e, ao virar da última página, o laço entre ambos estava formado. E, a partir daquele dia, ao se procurar Victoire, achava-se Teddy logo ao seu lado.
— Ah, Bill... Não adianta, o Harry só irá perceber no dia do casamento deles — Ginny (que escutara um pedaço da conversa) provocou, aproximando-se do marido e lhe depositando um beijo suave entre os rebeldes fios cor-de-noite que, para o desespero da sogra, ainda apontavam para todas as direções.
— Pois eu concorrdo com Arry — Fleur intrometeu-se, com seu sotaque francês ainda acentuado, observando os menores com um sorriso carinhoso no rosto de feições muito belas – herdadas por suas duas filhas e que, provavelmente, também seriam passadas ao pequeno ainda em formação em seu ventre. — Os dois são apenas bons amis.
— Mas, por outro lado, Teddy realmente faria parte da família! — Bill comentou, cutucando o cunhado entre as costelas a fim de indicar a brincadeira. Afinal, não havia sequer um membro daquele clã que não considerasse o filho de Nymphadora e Remus Lupin como um dos seus.
E os quatro riram juntos, girando os olhos diante do absurdo de se especular acerca do futuro distante de duas crianças.
Crianças que, no momento, apenas se importavam com estrelas cadentes, fogos de artifício e a companhia um do outro. Sem qualquer sombra de preocupação em seus olhares que cintilavam à réplica das constelações prateadas que compunham com maestria a paisagem noturna. E, porque eram Teddy Lupin e Victoire Weasley, aquela bolha particular permaneceria intacta por um bom tempo. Afinal, as coisas eram assim tão simples e tão certas enquanto tinham um ao outro.
— Teddy? Verdade ou desafio? — a garotinha loira cantarolou, de repente, a brincadeira recorrente deles, afastando-se do ombro do amigo e o encarando nos olhos que espelhavam a luz das estrelas.
— Hm… Verdade — ele sorriu cúmplice, aguardando a pergunta que ela tinha para ele.
— Quem é sua melhor amiga?
Teddy revirou os olhos, voltando a observar os fogos de artifício, como se não acreditasse que ela havia desperdiçado um bom “Verdade ou Desafio” com aquilo.
— Como se você não soubesse que é você — ele respondeu.
E seus olhos castanhos continuaram a brilhar, refletindo o céu noturno.
E Victoire sorriu.
Porque, naquela época, tudo era tão simples e tão certo assim— como a luz das estrelas.
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