Victoire's Song
2 Sobre amizades e desafios
Take me back to the house in the backyard tree
Said you'd beat me up, you were bigger than me
You never did, you never did
Quando o verão de 2009 se aproximava do fim, Victoire Weasley e Teddy Lupin tinham nove e onze anos respectivamente. Os dois ainda eram melhores amigos e, para o desespero de James Sirius e Dominique, ainda eram inseparáveis. Contudo, com a chegada do outono, a dinâmica daquela relação, antes tão simples e tão certa, começou a mudar. A primeira rachadura ocorrera, ainda, no aniversário de Teddy. Afinal, assim que o primogênito de Nymphadora e Remus Lupin soprou as velas do seu bolo de aniversário, ele recebeu a tão sonhada carta de Hogwarts. E, como sempre, a primeira pessoa a quem mostrou o envelope fora, é claro, Victoire que tratou de comemorar com ele como se a correspondência tivesse sido endereçada a ela própria. Contudo, com o passar dos dias, a garota passou a se afastar do metamorfo e, com afinco, evitava trazer o assunto da iminente partida dele à tona. Tanto que, quando um orgulhoso Harry Potter levou o afilhado às compras no Beco Diagonal, o único acompanhante além de Ginny, havia sido James Sirius.
Além disso, para piorar a situação, naquele verão a família Delacour-Weasley também contava com a visita da madrinha de Victoire, Gabrielle Delacour, e, como de praxe, ela fora incluída em todas as confraternizações em família n’A Toca. Mas Teddy Lupin não gostava, em nada, dela. Afinal, a irmã de Fleur vivia repreendendo os modos pouco femininos que Victoire e Dominique exibiam quando reunidas com seus primos e primas do clã Weasley. Domi pouco parecia se importar com a opinião da tia, mas Toire se esforçava ao máximo para agradar a madrinha. E a gota d’água para Teddy fora a sua recusa em participar da grande caçada de vagalumes. Victoire realmente estava mudando e ele não gostava, em nada, daquilo.
Assim, as discussões, antes escassas, tornaram-se recorrentes e nenhum dos dois parecia querer ceder e retornar à boa e velha amizade de sempre. Isso, claro, até o episódio do sapo de chocolate. Naquele dia, Angelina e George haviam trazido um caldeirão repleto de doces do Beco Diagonal para os sobrinhos. Mas, dentre a infinidade de guloseimas que logo foram espalhadas entre as crianças, havia apenas um sapo de chocolate — culpa de George, que já havia surrupiado os demais para si longe do olhar atento da esposa. E, claro, tanto Teddy quanto Victoire queriam aquele único doce. A briga acabou por evoluir para tal ponto que, quando Fleur e Ginny interviram, a garota jogou o sapo de chocolate no, agora, ex-amigo e saiu em disparada pelo jardim d’A Toca.
Gabrielle, que havia observado toda a discussão com as sobrancelhas loiras muito franzidas, logo tratou de expressar a preocupação de que Teddy poderia bater em Victoire. “Non aprrovo isso! Ele é maiorr que ela! E se resolverr baterr em ma petite princesse?”, ela argumentou para a irmã, atraindo, no entanto, a atenção de Ginny Potter que passou a defender furiosamente o seu afilhado. “Nosso Teddy bater em Victoire? Você está louca, sua francesa metida à besta?”, a madrinha berrava enquanto o metamorfo, que também havia escutado o comentário infeliz de Gabrielle, colocava-se a correr em disparada dali.
— Bater em Victoire… Essa irmã da tia Fleur tem zonzóbulos na cabeça… — Teddy resmungava consigo mesmo, chutando a grama, os cabelos antes castanhos agora adquirindo um vibrante tom de vermelho.
Depois de se afastar o suficiente, ele reduziu o passo e continuou andando até encontrar Victoire emburrada à sombra da grande aveleira que abrigava a casa da árvore — construída, igualmente por magia e trabalho braçal, por Bill, George, Harry e Ron. Quando ele parou em frente à amiga, o bico que se projetava nos lábios dela pareceu dobrar de tamanho e ela se recusou a encará-lo, despedaçando um dos dentes de leão que brotavam entre as raízes da árvore.
— O que você querr, Teddy? Já non disse que pode ficar com essa porcarria? — a garota resmungou, o sotaque francês subitamente acentuado em meio à raiva.
— Toire… Eu vim me desculpar — ele cedeu tímido, encarando os próprios sapatos enquanto tirava o doce do bolso e o estendia em direção à ela — Me desculpe.
— O que você fez com o chocolate? — Victoire perguntou desconfiada, prostrando as duas mãos na cintura em uma réplica perfeita de sua mãe.
O garoto se limitou a girar os olhos, abrindo a embalagem e colocando o pequeno sapo na palma da mão dela. Alheio à confusão, o sapinho executou uma cambalhota animada antes de voltar a ser um mero pedaço de chocolate inanimado.
— Não fiz nada, Toire, é sério! Eu só queria o cartão mesmo… Mas pode ficar com ele — ele garantiu, coçando a nuca desconfortável. — É que eu achei que, dessa vez, eu poderia tirar meu padrinho.
E Victoire sorriu, o primeiro sorriso sincero que dava em todo o verão após a chegada da carta de Hogwarts. Assim, partindo o sapo em dois, entregou uma metade a Teddy, sorrindo cúmplice antes de dar uma mordida na parte que sobrara. Assim, com o rosto sujo de chocolate, os dois desembrulharam a embalagem restante e, para a surpresa de ambos, o rosto do eterno menino-que-sobreviveu os encarava do cartão metalizado entre os dedos da garota.
— Ei, é o tio Harry! — ela exclamou feliz, entregando-lhe a figurinha com o padrinho do amigo que acenou animado antes de desaparecer através da pequena moldura dourada. — Pode ficar, Teddy. E me desculpe também… Por ter sido um pouco chata — e foi a vez dela de olhar para o chão.
— Eu também não fui muito legal — ele disse com um dar de ombros, os cabelos voltando ao seu tom original enquanto guardava o cartão no bolso da calça e estendia um dedo mindinho para Victoire. — Amigos?
— Amigos — ela concordou, enlaçando o próprio dedo ao dele e apertando.
— Ei, Toire… Verdade ou desafio? — Teddy perguntou, então, a briga esquecida ao vento como as sementes de dente de leão que agora giravam ao redor dos dois.
— Verdade.
— Você vai continuar sendo minha amiga quando eu for para Hogwarts? — ele falou, desabafando a insegurança que havia se instalado entre eles.
Os olhos muito azuis de Victoire se voltaram para o chão e ela torceu uma mecha de seus cabelos loiros entre os dedos.
— Você promete me mandar cartas toda semana? — ela devolveu, por fim.
— É claro! Harry me deu uma coruja, sabia? Vou te escrever sempre que puder — ele prometeu e ela assentiu, aliviada.
— Eu sempre vou ser sua amiga, Teddy — ela declarou.
— E eu sempre vou proteger você, Toire — ele afirmou, lembrando-se repentinamente das palavras de Gabrielle às quais a garota ainda estava alheia.
Assim, os dois permaneceram alguns instantes em silêncio, sentados lado-a-lado à sombra da casa da árvore com a cabeça de Victoire apoiada no ombro de Teddy. As bochechas dela de um suave cor-de-rosa após a afirmação dele.
— Ei, Teddy… Verdade ou desafio? — foi a vez dela quebrar o silêncio.
— Desafio.
— Eu desafio você a… — ela começou, desencostando-se dele e o encarando com um par de olhos azulados e risonhos — Eu desafio você a me beijar!
— Victoire! — ele exclamou indignado, o cabelo agora tão vermelho quanto a bandeira da Grifinória.
— Você conhece as regras, Teddy — ela exclamou triunfante, embora suas maçãs do rosto exibissem o mesmo tom dos fios dele — Ou você cumpre o desafio ou vai ajudar a vovó Molly na cozinha.
Ao que o metamorfo prontamente respondeu com uma careta: toda a nova geração Weasley tinha uma aversão profunda à Celestina Warbeck, a cantora preferida da matriarca, que embalava o preparo de todas as refeições n’A Toca.
— Você é ridícula, sabia? E andou escutando muitas histórias da sua madrinha — ele reclamou, por fim, limpando as mãos subitamente suadas no tecido da calça.
Contudo, fechou os olhos e, desajeitadamente, segurou a garota com gentileza pelos ombros — porque, afinal de contas, não tinha ideia de como fazer aquilo. Victoire era a garota mais bonita que ele conhecia, era legal e tinha cheiro de baunilha. Isso era bom, ele pensava, tentando se acalmar enquanto seu estômago parecia dar cambalhotas e ele rezava a Merlin para que o trovejar de seu coração não fosse tão audível para ela quanto era para ele.
Mas, antes que os lábios de Teddy pudessem encostar por mais de dois segundos nos dela, Victoire saiu em disparada, deixando-o ali sem entender nada.
E ele sorriu, observando a silhueta de Victoire diminuir enquanto ela tomava distância, o vento lançando para trás seus cabelos que reluziam em tons de dourado e alaranjado, mimetizando o pôr-do-sol daquele final de tarde.
Mais tarde, os dois não voltariam a tocar no assunto e, por hora, a dinâmica entre eles permaneceria inalterada por aquela brincadeira.
Mas, tarde da noite, quando Harry foi deixar o afilhado na casa de Andrômeda, Teddy estava estranhamente quieto.
— Ainda não está acostumado com a aparatação? — o mais velho perguntou quando pararam sobre o capacho junto à porta, despenteando os cabelos do menor.
— Harry, posso te fazer uma pergunta? — Teddy, habituado a chamar o padrinho pelo nome, perguntou de repente.
E o estômago de Harry se retorceu, pois as perguntas do afilhado sempre vinham acompanhadas de repetidos “porquês” que ele nem sempre conseguia esgotar, mas acabou assentindo para que Teddy continuasse.
— A Ginny é a sua melhor amiga? — ele questionou, por fim, fazendo o cenho do padrinho se franzir.
— Ora, claro que sim!
— E você se casaram depois de virarem melhores amigos? — o garoto continuou, arrancando uma risada do outro.
— O que a sua madrinha andou te falando? — Harry perguntou, ligeiramente desconfiado daquele estranho questionário.
— E meus pais eram melhores amigos? — Teddy prosseguiu, a voz baixa em uma sombra de saudade que o atingia sempre que citava os dois.
Harry suspirou, apoiando-se sobre os joelhos até que seus olhos ficassem na altura do afilhado, seu olhar tão semelhante ao de Lily Potter encarando afetuosamente o jovem tão semelhante a Remus Lupin na aparência e com a personalidade tão próxima à de Nymphadora Tonks.
— Sim, Teddy, seus pais eram grandes amigos. Na verdade, a amizade de seu pai pela sua mãe era tão grande que ele fez de tudo para protegê-la. Até mesmo do amor — o mais velho explicou, um velho sorriso saudoso surgindo em seus lábios como sempre acontecia quando citava os ex-companheiros da Ordem da Fênix — Com a guerra batendo na porta, ele não queria machucá-la… Mas, com uma pequena ajuda, a amizade e o amor dos dois foi maior. Tão grande que trouxeram você ao mundo, garoto — Harry concluiu, voltando a bagunçar afetuosamente os cabelos do menor.
— Entendi — Teddy assentiu, parecendo muito mais velho do que seus meros onze anos de idade.
— Vai me contar o porquê dessas perguntas? — questionou o padrinho, colocando-se em pé e tocando a campainha do chalé de Andrômeda.
— Victoire é a minha melhor amiga — o afilhado respondeu com simplicidade, dando de ombros — E, um dia, nós vamos nos casar.
E sorriu, seus olhos brilhando tanto quanto as estrelas que os observavam lá do alto quando a avó abriu a porta.
E Harry riu em resposta porque, mais uma vez, Ginny estava certa.
Mas ele não deixaria a esposa saber daquilo — ao menos, não antes da hora.
Take me back when our world was one block wide
I dared you to kiss me and ran when you tried
Just to kids, you and I
Oh my, my, my, my
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