Victim of Love
5 This time I won't end up another victim of love
Notas iniciais
No dia seguinte, ainda determinado a convencer Camus de que era o melhor partido possível no mundo, Milo apareceu em Aquário, cheirando a algum perfume masculino amadeirado caro, com uma camisa de linho branco meio aberta e os cachos dourados definidos soltos ao vento.
Neste dia particularmente úmido foi bem difícil domar o cabelo. Milo diria que o tempo que ele levou para fazê-lo é a prova cabal de que ama Camus.
De qualquer forma, para o francês a cena – Milo sexy batendo na sua porta logo após o almoço – estava ficando recorrente e cansativa. Ao menos isso o permitira cumprir o planejado hoje: esperava realmente que Milo fosse vir e seus planos não funcionariam de outro jeito. Não poderia ir procurar o amigo na oitava casa.
Então, já que Camus estava particularmente receptivo neste dia, Milo não teve muitos problemas em seduzir o aquariano.
— Olá, Camus. – Milo sorriu de lado, entrando na casa sem cerimônias. Estava irritado com Camus, mas não iria desistir dele tão fácil. Digo, não é porque Camus era um devasso traidor destruidor de casamentos que desistiria de aproximados dez anos de crush, não é mesmo?
Camus não tinha muito saco para enrolações, então não entrou no joguinho de sedução do outro e já começou rasgando o verbo – Vem cá, Milo – disse, se afastando do grego – É sexo que você quer?
Milo ficou boquiaberto e sem reação por alguns minutos. Certo, ele queria sexo. E algo mais, se desse. Mas também, hoje, queria tirar satisfações com Camus e fazê-lo entender que o bacanal em Capricórnio foi sumariamente errado e considerado uma traição aos seus sentimentos. No entanto, essa raiva e verborragia sumiram no ar quando Camus tocou no assunto tão abertamente, quando até então só tinha dito “nãos” expressos.
— Bem, é.
— Tudo bem.
Sem conseguir se conter de emoção, Milo logo ficou duro ante a possibilidade (que ainda lhe parecia remota) de subir um degrau no seu relacionamento com Camus, que por sua vez adorou ver a reação do outro. Apesar de ser contra seus princípios transar com o Milo e o que faria depois, chegava a ser ridículo como era fácil e como pensar em Milo lhe dava prazer.
De qualquer forma, aquela transa foi a melhor da vida de Milo. No quarto principal, cheio de brinquedos exóticos, cremes, géis e toda a sorte de truques que o escorpiano nem sabia existirem, foi encarando como um sonho que tudo ocorreu.
Camus estava curtindo, de verdade. E se esforçou bastante, porque desde pequeno tinha um baita tesão no Milo, antes mesmo de saber o quê isso significava.
Então, já de noitinha, quando viu Milo exausto, querendo dormir, ao seu lado, suspirou e colocou seu plano em prática, mesmo que isso lhe desse um pouco de dor no coração.
Verdade seja dita, Camus ficou em dúvida se cumpria o seu objetivo inicial ou não. Apegado aos seus ideais como todo aquariano, ignorou os gritos do seu coração e cumpriu mesmo assim.
— Então, já pode ir.
Milo piscou os olhos. – Hein?
— Já transamos. Pode ir para a sua casa.
Do céu ao inferno, o grego se sentiu uma prostituta. Ou pior, já que prostitutas recebiam para isso. – Você quer que eu vá para casa?
— É. – Camus respondeu, se sentando na cama com certa dificuldade – Você queria transar. Transamos. Agora você pode voltar pra casa. Não tem necessidade de ficar fazendo doce aqui, não sou seu namorado nem nada do gênero, só transamos para ver se você para de me importunar.
O orgulho de Milo estava muito ferido. Ele estava sendo tratado como um chiclete, que se masca e joga fora, pelo cara que crusheou e desejou sua vida inteira. E agora, depois da primeira transa dos dois (fenomenal, vale frisar), ele estava sendo descartado, com indicações óbvias de que não teriam nada mais que aquela transa. E que, se Milo quisesse, Camus pagaria para transarem. Ou pior, Camus pagaria para não transarem e Milo manter distância.
Doía? Doía. Mas Camus não precisava saber disso.
Milo se levantou, com mais que a bunda, alguns músculos e escoriações e o orgulho doendo, mas vestiu sua roupa como um lorde. Agora tinha certeza que Camus era um filho da puta que não prestava e se valia de bacanais aleatórios na casa de Capricórnio e Virgem e que provavelmente já tinha transado com metade do Santuário, portador de um coração frio como gelo e um pênis avantajado.
Sorrindo como se aquele final era exatamente o final que pretendia quando entrou em Aquário mais cedo, Milo desceu as escadas. Não para Escorpião, não queria ficar sozinho. Mas para Leão, com o objetivo de alugar o ouvido de Aiolia e chorar as pitangas.
O problema é que Aiolia não queria companhia nessa hora específica. Estava muito ocupado, conversando animadamente com Mu e ignorando levemente os avisos de que o ariano era compromissado. Assim, quando Milo chegou na sala de Leão, esbaforido e segurando o orgulho na garganta, encontrou Mu e Aiolia rindo de uma piada qualquer, mas a paranoia típica do grego mais novo o impediu de averiguar qual era a anedota em questão e já foi assumindo que era dele que falavam.
Na cabeça do Milo, mesmo que tenha se passado apenas alguns minutos desde a melhor e pior tarde de sua vida, Camus já havia espalhado o fato para todo o Santuário e era de sua idiotice que os dois riam.
Longe de rir ou culpar Milo por encontrá-lo estancado na porta de sua casa e choroso, Aiolia ficou sério, se aproximando do amigo. Mu, preocupado, tratou de empurrar um Milo em choque em direção ao sofá.
— Milo, aconteceu alguma coisa? – disse o tibetano, em um misto de preocupado e curioso. Nunca tinha visto Milo em um estado tão frágil – Você está bem?
Aiolia, por sua vez, imaginava parte do conteúdo da catatonice do escorpiano. Certeza que tinha a ver com o Camus – O que aquele picolé de chuchu te fez?
— Picolé de chuchu? – perguntou Mu, sentindo uma pontada de dor por não entender a referência. Jurava de pés juntos que sabia de tudo que se passava com os amigos, mesmo isso sendo um tanto hipócrita, já que ele mesmo escondia boa parte de sua vida pessoal.
— É, o Camus.
— O Camus te fez alguma coisa, Milo?
O escorpiano respirou fundo. Secou as lágrimas não caídas e aprumou o orgulho. Aiolia e Mu o conheciam por uma vida inteira e sabiam, mesmo antes de Milo abrir a boca e deixar sair a verborragia excessivamente orgulhosa, que ele estava fragilizado. Como só estivera antes pouquíssimas vezes, como quando Camus morreu na Batalha das 12 Casas.
Na ocasião, Milo chorou escondido por dias.
— Eu e o Camus transamos. Foi ótimo.
Longe de entender por que diabos isso o deixou tão fragilizado, o grego mais velho e o tibetano, sabedores da enorme paixonite do outro, o encararam confusos.
— Depois que terminamos o Camus me expulsou da casa dele. Igual uma prostituta.
— Ele te pagou? – inquiriu Aiolia – Sério que ele fez isso?
— Não, ele não pagou, o que deixou as coisas piores. – Milo respirou fundo novamente, segurando o nó que se formava na garganta – Nós transamos e ele disse que fez isso para eu parar de o importunar e que se pudesse pagaria para que nós não transássemos, o que, se parar para pensar, é um pouco pior que ser uma prostituta.
Mu controlou o ímpeto de dizer que não tinha nada de errado em ser uma prostituta, já que isso obviamente não ajudaria Milo no caso. Ser pago para não fazer sexo era um tanto dolorido, mesmo que isso não tivesse acontecido de fato. Camus era um tanto arredio e assertivo, então não duvidava que ele tivesse dito isso. Por outro lado, era de conhecimento geral que Milo torrava a paciência do francês em níveis alarmantes. – Caralho. – resumiu o pensamento.
Aiolia ficou com a mesma dúvida de Mu. Não duvidava que Camus havia dito isso ou algo do gênero, mas também não duvidava que Milo tinha concluído coisas sozinho, como no caso do aparente provável bacanal em Capricórnio de dias atrás. – Você tem certeza?
Milo olhou para Aiolia incisivo – Olha minha cara de inventar uma coisa dessas! Ele foi um filho da puta! Me usou como um chiclete, fez questão de frisar que só transamos para que eu parasse de o importunar e que se pudesse pagava para nós não transarmos e que precisou do uso de brinquedinhos para que a transa ficasse boa, já que parece que eu não sou bom de cama!
Não era necessário ser um gênio para saber que Milo estava exagerando, mas nem Mu e muito menos Aiolia sabiam exatamente qual parte era verdade ou não. Não fazia muita diferença se era assim que Milo se sentia. Fazia?
Por sua vez, Camus enchia a cara na biblioteca de sua casa. Corado não só pelo álcool (afinal, não deu tempo para que embebedasse), se dividia entre se sentir um cafetão, daqueles que batia na esposa e nos filhos e gastava a grana em bebida e jogo, e um adolescente apaixonado.
Afinal, tinha tido a melhor transa da sua vida com sua paixonite de infância, que o correspondia.
Mas tinha enxotado o coitado da sua casa feito um cão com leishmaniose.
A sorte de Camus é que Shura era um amigo excessivamente solícito e observador, então quando Milo subiu as escadarias, demorou lá a tarde toda e depois desceu obviamente afetado emocionalmente, mesmo que tentasse esconder, Shura esperou alguns minutos antes de subir, tempo suficiente para Camus se aprumar, ou ao menos vestir uma roupa.
Qual não foi sua surpresa ao encontrar o amante ocasional bebendo vodca, sentado do divã da biblioteca e ouvindo Edith Piaf. Rindo de lado, Shura se aproximou – Eu já te vi em estados melhores, meu amigo.
— Hoje é o pior e o melhor dia da minha vida. Não sei o que sentir. – Camus disse enquanto tomava outra dose – Na dúvida, vou beber.
Shura tirou o copo da mão do outro, calmamente. Camus ainda resmungou em resposta, mas não resistiu; sabia que estava sendo ridículo e que tudo que estava acontecendo era sua culpa. Não importava o quanto Milo o incomodava e o quanto (não) o queria: ele não tinha o direito de usar e humilhar o escorpiano desse jeito.
— Você sabe o que eu vou lhe dizer, não sabe?
— Sei, – respondeu, se recostando no divã – Mas pode dizer, preciso ouvir.
— Você não tinha o direito de fazer isso com ele. Eu sei que ele te incomoda, mas não é motivo para você se comportar feito um porco chauvinista.
— Porco chauvinista? – Camus consultou mentalmente a definição de “chauvinista”, não encontrando uma atitude sua com relação à Milo que pudesse se encaixar no fato. – Como assim?
Chauvinista
/cho/
adjetivo de dois gêneros
1. Relativo a chauvinismo; chauvinístico.
2. Adjetivo e substantivo de dois gêneros que ou aquele que demonstra cego entusiasmo pelas glórias militares; patriota exaltado.
Shura consultou num dicionário de bolso. – Ok, eu disse por que sempre quis chamar alguém disso e é um xingamento com certeza, mas você entendeu. Você agiu mal com o Milo.
Camus sorriu. Shura era sensacional. – Eu sei. Mas eu tinha que fazer isso.
O espanhol se sentou no divã, colocando as pernas de Camus no seu colo – Você não tinha que fazer nada. Tem formas melhores de afastar um grude que nem ele sem humilhar. Você sabe disso. Entendo que você perdeu a paciência, mas... – suspirou – Ok, não sou a pessoa adequada para te dar um sermão sobre Como Ser Um Ser Humano Decente. Sou campeão em Agir Mal Com Seu Melhor Amigo. – Shura pegou o copo com meia dose de vodca e bebeu. Não gostava de lembrar-se de Aiolos, só ver as fuças do sagitariano o enchia de culpa – Me esclareça. Por que você se afasta do Milo, mesmo gostando dele.
— Por que ele me sufoca. – respondeu, pegando uma dose dupla e virando de uma vez – Ele é grudento, intenso demais, quente demais, se entrega demais. Ele é um mar revolto, se entrega de corpo e alma. E eu... – se aprumou no divã, cruzando as pernas e bebendo novamente – Eu sou ar, sou ventania, sou livre. Mesmo gostando de alguém... Eu sou meu, de mais ninguém. Não sou objeto, um pedaço de carne ou posse. Eu gosto dele, mas ficar com ele seria como prender um pássaro numa gaiola. Sendo eu o pássaro e o Milo a pessoa que prendeu.
É, Shura entendia um pouco. Também se sentiria assim, mas... – Ainda não é motivo.
— Eu sei. E é por isso que eu estou bebendo.
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