Victim of Love
1 I don't wanna look like some kind of fool
Notas iniciais
Há exatos quarenta e três minutos Camus tentava se distrair com o café forte na xícara, bebericando aos poucos para que o líquido não acabasse, resultando em um café frio e muito sem graça. Estava entediado e levemente irritadiço se concentrando na xícara para que não concentrasse em outra pessoa. O motivo de tal descontento, ainda que seu exterior não o revelasse, permanecendo Camus impassível diante dos olhos do mundo, é que Milo estava lá.
Não que não gostasse de Milo. Longe disso. Milo era seu amigo, quem sabe seu melhor amigo, mas ultimamente (mais precisamente, desde que foram revividos), ele anda excessivamente... Grudento.
Ok, certo, talvez essa não fosse a palavra correta.
Mas o fato é que Milo estava dando sinais claros de que queria se aproximar mais, sendo:
1- Ele vinha em Aquário todos os dias;
2- Ele fazia piadas de cunho sexual, muitas vezes se valendo de trocadilhos sem graça;
3- Ele passou a puxar assuntos de interesse pessoal, como relacionamentos e orientação sexual;
4- O mais importante, ele chegou a faltar em treinos por conta de ressaca por ter lhe acompanhado na bebedeira.
Qualquer um que conhecesse minimamente o Milo sabia que ele estava estranho. Milo não fazia muitas piadas e apesar de ser sexualmente uma metralhadora, não falava sobre sexo em um âmbito geral e muito menos sobre relacionamentos ou chegava a ficar bêbado quando sabia que teria compromissos no dia posterior.
Se isso já não eram atitudes de se estranhar se partidas de Milo, com certeza o que ele estava fazendo agora já traria toda uma aura de dúvida permanente para Camus.
Por que, neste exato momento, enquanto o francês tomava o café forte e frio a goles ridiculamente pequenos, Milo ajudava Camus a organizar os livros da biblioteca de Aquário. Coisa que em situações normais não seria de se estranhar, mas um Milo sem camisa, subindo escadas portáteis com cuidado, carregando caixas de livros, com o cabelo loiro e volumoso preso e o corpo suado e obviamente exibindo os músculos era de se estranhar. Com ênfase em “muito”.
Camus estava se esforçando para não olhar para Milo. Não entenda errado, Camus curtia caras tanto quanto curtia garotas. E Milo era gostoso pra caralho. Mas é que não queria entrar no joguinho dele. Levando em conta que já havia passado horas pensando no caso e que conhecia o escorpiano como a palma de sua mão, sabia que se caísse no conto do vigário e fosse com Milo para a cama, ia acabar se envolvendo amorosamente com o mesmo, ainda que não soubesse se o objetivo do outro era apenas uma noite ou algo mais eterno e piegas, no nível de dar para Camus o café coado na cueca.
Pensando nisso, Camus largou a xícara de lado. Era irracional e preferia que Milo não se aproveitasse de modos escusos e estúpidos para “fisgar” a pretensão amorosa, mas uma parte aquariana de sua alma preferia não arriscar a ficar amarrado a alguém eternamente na base da mandinga.
Camus desviou o olhar de Milo, tentando não ficar excitado. Milo percebeu e riu de lado, descendo da escada e se sentando na poltrona ao lado.
— Vai ficar aí sentado? – começou, rígido como sempre, porém risonho – Ainda tem alguns livros para levar para as prateleiras mais altas.
— Acho que já chega de trabalho por hoje – volveu, se levantando e pegando a xícara para levar à cozinha, parando na porta – Não está fazendo tanto calor para precisar tirar a camisa.
Milo arqueou a sobrancelha, decepcionado. Para ele, Camus não estava correspondendo suas investidas sexuais discretas. O que era uma pena, se parasse para pensar. O ruivo era bonito e uma ótima pessoa, mesmo que um tanto frio (com o perdão do trocadilho) e avesso a relacionamentos.
Ao menos era o que parecia, já que ele nunca tinha aparecido com ninguém. Não duvidava Camus ainda não ter beijado na boca.
— Estou indo – longe de ficar sem graça pelo fora recebido, Milo vestiu a camiseta e seguiu o outro até a cozinha. – Nesse ritmo não vai terminar a arrumação da biblioteca nunca. – disse ao chegar ao cômodo, se sentando em uma das cadeiras de madeira.
— Arrumar a biblioteca não é tão importante assim. Quer suco? De limão. – Camus respondeu enquanto abria a geladeira. Milo estava muito enganado se achava que ia o levar para a cama.
— Quero sim.
Meio roboticamente, Camus serviu o tal suco para os dois e se sentando na cadeira que ficava em frente. Olhou Milo nos olhos, pensando onde o juízo do amigo foi parar. Não era possível que a vontade dele de ter algo a mais era tão grande assim.
— O quê foi? – sorriu, também fitando os olhos de cor estranha de Camus – Perdeu alguma coisa?
Ficaram longos minutos na mesma posição, a ponto de Milo acreditar que suas investidas deram certo e ter começado a investir em um beijo, no que Camus se afastou, sério. Milo bufou em um misto de irritado e frustrado, voltando a sorver o suco.
— Você sabe que eu não quero fazer sexo com você, não é?
Milo quase cuspiu o suco para fora, mas engoliu como se nada tivesse acontecido – Como assim? – desconversou.
— Eu não sou idiota, Milo. Você está dando em cima de mim.
Levando em conta que Milo acreditava piamente que a Camus careciam as células responsáveis por flerte e relacionamentos, o susto que Milo levou era justificável. A última coisa que ele esperava era que Camus percebesse e não correspondesse às investidas sexuais.
Por que, para Milo, era mais do que óbvio que qualquer um o corresponderia.
— Você está louco, Camus – riu, bebendo suco para disfarçar as bochechas vermelhas – Não confunda gentileza com dar em cima de alguém.
Camus o olhou entediado. Milo era um péssimo mentiroso, mas se não queria assumir não era ele quem forçaria. Deu de ombros. Não se importava, contanto que as investidas de Milo não entrassem em uma área mais física ou com cantadas chulas.
— Tudo bem então.
Não demorou muito para que o escorpiano voltasse para casa. Respirou fundo, indo se banhar e controlando com todas as suas forças o ímpeto de tentar algo mais extremo para conquistar o amigo. Apenas duas coisas o refrearam: saber que, caso fizesse isso, Camus se irritaria em níveis estratosféricos e o fato de que não é lá muito legal fazer investidas sexuais e românticas extremas em uma pessoa que não te corresponde.
No geral, Milo havia decidido por ir com calma. Até porque não queria só levar Camus para a cama. Obviamente queria transar com ele, seja lá qual era a posição preferida dele, mas queria algo a mais.
Depois que foram revividos esse desejo de sossegar um pouco foi crescendo no interior do grego e a melhor pessoa que conhecia para isso é Camus, homem que crusheia desde que descobriu que rapazes o atraíam, nos idos dos seus onze anos de idade observando os colegas se exercitarem.
Isso já tinha uns dez anos e dez anos é tempo pra caralho para permanecer em um crush platônico por alguém então, depois de ver Camus morrer e chorar as pitangas, morrer, daí morrer de novo enquanto morto ao virar purpurina, ser revivido e ser traído por Camus com o tal de Surtrtrtrtrtr, daí morrer outra vez e ser revivido novamente e em paz, Milo decidiu fazer algo com relação a isso, já que nem três mortes foram capazes de acabar com os sentimentos que tinha pelo aquariano.
Milo tinha lá o sentimento de que estava sendo trouxa, ainda mais recebendo negativas constantes (e, hoje, verbais e indubitáveis), mas ele não desistiria. Seguindo o estereótipo do signo e constelação que defendia, ele era água, sentimento, e fixo. Não iria desistir do Camus nunca.
Foi pensando em novas estratégias de batalha que Milo se levantou da banheira, nu em pelo, secando os cabelos fartos com uma toalha de algodão e maldizendo a genética que havia lhe dado cabelo de poodle.
Deu de ombros. Não é como se as pessoas resistissem por muito tempo.
Por outro lado, Camus ficaria aterrorizado e irritado se soubesse que, mesmo com negativas claras e óbvias, Milo não desistiria e continuaria o espezinhando enquanto não desistisse.
Isso era errado em muitos níveis e camadas e só de pensar sua cabeça doía. Não devia ser tão difícil respeitar o “não” de uma pessoa. Afinal de contas, que graça tinha ficar com alguém que não queria ficar com você?
Parte de Camus sempre gostou de Milo. Aquela parte que ainda tinha sentimentos. A outra parte, a maior, suprimia essa com facilidade, significando que, mesmo que Camus gostasse do Milo em alguns níveis, estava longe de estar disposto a se relacionar sexual ou intimamente com o mesmo.
O ruivo acreditava piamente que era muito inteligente para cair nessa armadilha que se chamava amor, que usava o sexo como isca.
Quem o ouvia falar assim (ou pensar, no caso) poderia acreditar que fosse virgem. O que não era o caso. Mesmo.
Só que, de todas as pessoas, homens e mulheres, que Camus estava disposto e/ou queria transar, fazer isso com alguém que gostava e estimava estava fora de cogitação.
E a lista de “não” só continha Milo.
Foi por isso que, para descontar toda a frustração sexual por ter Milo seminu e suado bem à sua frente e não poder transar com ele é que Camus ligou para seu amigo colorido, o vizinho da casa de baixo.
— Então você quer transar comigo por que o Milo queria transar com você e você não pode aceitar? – Shura disse, quase rindo.
— Isso.
Shura arqueou a sobrancelha. Até onde sabia, Camus gostava de Milo e a recíproca era verdadeira. Mas não entendia o motivo do vizinho não aceitar as óbvias investidas do escorpiano. Também não queria saber. Até porque, caso os dois namorassem, seria praticamente impossível poder ter certos encontros com o traseiro ruivo.
— Contanto que você não gema o nome do Milo...
Camus girou os olhos, levemente irritado – Não sou desse tipo, Shura.
— Aham. Sei. – Ignorando o ímpeto de elencar as vezes que Camus gemera o nome de Milo enquanto estava embaixo (ou em cima) de si, exatamente três humilhantes momentos e esfregá-los nas fuças sardentas, Shura passou a mão pelos cabelos, nervosamente. Gostava de transar com Camus, mas né, não queria ser só o substituto do Milo – Você podia me chamar em outros momentos além de tensão-sexual-pós-Milo, Camus. Te faria bem.
Camus estava ligeiramente traumatizado com pessoas dando investidas romântico-sexuais para cima de si, então não viu a frase de Shura com bons olhos – Shura, você é meu amigo, mas nós dois só transamos.
Shura revirou os olhos. Camus era um idiota – E eu tô te dizendo que eu não gosto de ser chamado só quando você se recusou a transar com o Milo, idiota. Pode me chamar a qualquer momento. Não é como se eu quisesse namorar com você, de qualquer forma.
De todas as pessoas do mundo, Camus era a última que Shura cogitaria namorar.
Curiosamente o topo da lista era encabeçado por certo italiano gostoso, morador da quarta casa, aparentemente heterossexual e que meio mundo cria estar em luto pela morte da tal Helena.
— Ah. Então, quer transar ou não? – deu de ombros.
— Pode ser.
Tornaram a fazer certos movimentos repetitivos e não tão aleatórios, conforme já faziam juntos há um tempo. Longe da vontade de descrever a dança erótico-sexual e nada romântica que os moradores dos Décimo e Décimo Primeiro Templo faziam, a narrativa volta-se para Milo que, entediado e extremamente desejado da mesma dança que Camus fazia com Shura (não que o grego saiba do fato), desceu até Leão, tentando buscar em Aiolia o que lhe faltou com Camus.
O que Milo não esperava é que Aiolia não fosse receptivo à ideia.
Quer dizer, quem é que não queria transar com o Milo?
— Cê tá louco, Milo? Claro que não! Como é que você vem aqui de repente e chama pra transar? Assim, sem mais nem menos? E o Mu?
Aiolia era um romântico incorrigível e se recusava a transar com alguém que não correspondesse seus sentimentos que, no momento, estavam voltados ao ariano.
— Mas que cacete tem o Mu a ver com a história? – Milo se irritou facilmente, movido pela frustração – Se quiser chama ele junto, oras.
O leonino arregalou os olhos. Ciumento, mas é nunca que toparia um treesome que envolvesse o Mu. – Eu nem tenho nada com o Mu pra chamar ele para um bacanal, cara!
— Então o quê tem ele a ver?
— Eu gosto dele, caralho! –Aiolia tinha mercúrio em leão, o que lhe trazia certa impetuosidade no pacote. Depois de perceber que tinha falado o que não queria, tampou a boca com as mãos, numa tentativa inútil de fazer Milo ignorar o que tinha acabado de dizer.
Ao invés de zombar do amigo, coisa que normalmente faria, Milo suspirou, solidário. – Aiolia, temos grandes problemas em mãos.
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