Vicios
14 Décimo Quarto
Notas iniciais
Soluçava agoniada sentindo um pânico tão grande quanto no dia em que recebeu a noticia que sua mãe fora internada. Ela já havia perdido uma parte de si, não poderia perder o seu homem. Sim, Ricardo Cobraleoa tem o coração dela por inteiro e sempre o teria. Um simples pensamento de que ele estivesse em perigo já deixava Jade apavorada.
Havia chegado no QG, decidida a conversar com o seu “vagabundo” e tudo que encontrou foi um Thawik bem desnorteado arrumando a local que estava basicamente em caos. As coisas reviradas, papéis no chão, computadores quebrados, tudo ali sinalizava perigo.
– Onde tá o Cobra? – cutucou o homem totalmente nervosa sentindo seu coração se acelerar cada vez mais nervoso como se pressentisse algo ruim.
– Ele sumiu, não é óbvio? E ainda me deixou com essa bagunça pra resolver. – bufou ignorando o estado de Jade cerrou os punhos irada com a falta de emoção.
– COMO ASSIM ELE SUMIU? Me explica direito porra! – sentiu suas bochechas se avermelharem com o uso do palavrão que saiu de sua boca antes que pudesse reprimir.
Thawik revirou os olhos.
– Pelo o que se dá para ver aqui, é claramente esquema com bandido e não deu certo. Quer um conselho? Esquece ele, já deve estar morto há essa hora, foca nos vivos, tipo eu. – ele aproximou-se insinuante enquanto ela torceu a cara o empurrando com força logo saindo do QG.
Tremeu com a possibilidade de que Cobra estivesse morto, não poderia, ele jamais a deixaria. Sentindo os olhos lacrimejarem, decidiu sair do meio da calçada e chamou um táxi onde mal conseguiu pronunciar o endereço devido á voz fraca. Reprimia o choro tentando arejar as ideias e notou sua caixa cheia de mensagens desesperadas.
Respondeu apenas a de João antes de entrar no apartamento de Edgard onde desandou completamente.
– Por favor Deus me dê um sinal, me diz que ele não morreu, ele não pode ter morrido. – fez algo que não fazia desde criança e se ajoelhou unindo as mãos numa prece desesperada.
Os minutos se passaram de modo torturante e nada daquele sinal fazendo que Jade sentasse exausta sentindo-se mais vazia que nunca. Seus dedos de imediato foram para os fios do couro cabeludo que foram enrolados e puxados com força. Nada mais doía tanto quanto perder Cobra.
Ao longe dali, mais especificamente na escola de artes Ribalta, iniciava-se uma peça de Shakespeare sendo João e Bianca respectivamente, Romeu e Julieta. O ato já havia começado e a plateia observava ansiosa para o encontro dos amantes, que na vida real estavam mais para namorados não resolvidos.
Bianca olhou-se no espelho da camarim, segurou a respiração e a soltou lentamente sem acreditar no que via, ela era a Julieta assim como sua mãe fora, anos atrás. A emoção que existia dentro de seu peito não poderia ser definida jamais e ao mesmo tempo havia a certa pressão, temia não conseguir ser tão boa quanto sua mãe, Ana.
Ao ver que entraria logo em cena novamente, apressou-se com o coração acelerado.
– Se minha mão profana o relicário em remissão, aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demostrará, com sobra, reverência. – mal conseguiu piscar e já estava em frente de João, ou melhor Romeu, no caso.
– Ofendei vossa mão bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos do santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente. – recitou as falas que já sabia de cor.
Bianca não pode deixar de pensar o quão parecido aquele momento era como nos seu sonho. Seu coração acelerou ainda mais ao notar o que aconteceria em seguida. João tentava se manter são, mas como se daqui a poucos minutos estaria beijando a garota que estava apaixonado?
– Os santos e devotos não têm boca? – aproximou-se sabendo que ela não recuaria pelo menos.
– Sim peregrino, só para orações. – o sorriso dela embora mínimo, desnorteou-o por uns instantes.
– Deixai então, ó santa!
E assim que se encerrou, por adiante chegou a famosa cena da sacada onde ela se encontrava com o cotovelo apoiado encarando o teto fazendo o papel de apaixonada, algo que nem fora necessário muito esforço e recitou as falas que pareciam grudadas em sua cabeça.
As cenas pareciam se passar tão rapidamente de tão natural que lhe pareciam.
– Senhora, juro pela santa lua que acairela de prata as belas frondes de todas estas árvores frutíferas. – aqueles olhos verdes a fitaram cada vez mais intensos.
– Não jures pela lua, essa inconstante, que no seu contorno circular altera todos meses, porque não pareça que teu amor também, é assim mudável.
– Por que devo jurar?
– Não jure nada, ou jura, se o quiseres, por ti mesmo, por tua nobre pessoa, que é o objeto de minha idolatria. Assim te creio. – seus olhos estavam em uma profunda conexão bem além daquela peça, havia um sentido naquelas palavras que ela esperava internamente que ele entendesse o recado.
Sem hesitar, João aproximou o rosto colocando a mão na bochecha dela não conseguindo evitar seus pensamentos de o quão fenomenal era a beleza daquela garota. Roçou seus lábios sentindo a respiração quente dela se mesclar com a sua e rompeu a breve barreira iniciando mais um beijo tão maravilhoso quanto os primeiros da peça.
Ela retribuía tão entregue quanto ele.
Bianca só conseguia pensar o quão bom era beijar João, o mundo poderia explodir que ela estaria bem desde que estivesse com ele, era tão louco aquele sentimento, tão forte que chegava a ser assustador, estava enlouquecida e somente naqueles braços encontrou sua paz.
– Se o amor sincero deste coração...
– Eu.. – murmurou ofegante assim que se afastaram sentindo uma inexplicável vontade de jogar tudo nos ares e finalmente colocar voz naquele sentimento, algo que teria feito se não estivesse no meio da peça do seus sonhos com um olheiro observando todos os passos.
Tudo passou em um piscar de olhos e todos os alunos se encontravam na frente do palco segurando as mãos uns dos outros sorrindo orgulhosos de si mesmos. A atriz não conseguiu evitar de olhar para seu parceiro que já a olhava, segurando-se para não a agarrar ali naquele momento.
– Meu santo! Que peça magnífica! Estou encantado Edgard! – mal entraram nos bastidores e Bianca fora arrastada pelo professor em frente de um homem que batia as palmas fervorosamente.
– Este é o Fábio Zambroni, Fábio essa é a Bianca Duarte, a nossa estrela da peça. – o professor apresentou-os que apertaram as mãos.
Ela sorriu ansiosa mas seus olhos procuravam pelo garoto de olhos verdes.
– Você, Bianca Duarte, brilhou ali, nunca vi tanta emoção carregada, inclusive na hora da declaração, para ser sincero, que química a sua com o... João Spinelli! Quem não soubesse que era apenas uma peça, poderia jurar que são um casal perdidamentes apaixonados! – o homem elogiou fazendo que Edgard abrisse um sorriso gigantesco apertando os ombros de Bianca que assentiu corada.
– Muito obrigada, de coração. – agradeceu solene sorrindo de leve.
– Por falar no parceiro, cadê esse garoto para receber meus elogios? – indagou Fábio fazendo que a garota de imediato pensasse numa desculpar para o procurar porém Edgard fora mais rápido trazendo João bem desnorteado.
– João Spinelli! O grande astro e a grande estrela! Vocês definitivamente são os melhores da peça, preciso te dizer garoto, o modo como se envolveu sendo Romeu foi incrível. Aliás você tem algum parentesco com René Spinelli?
– Ele é o meu pai. – respondeu João orgulhoso fazendo que a garota sorrisse sem evitar de notar que ele havia chamado “pai” ao invés do costumeiro “paistel”.
A breve conversa fora interrompida pelo barulho de celular do garoto que atendeu depressa chamando o nome da Jade fazendo que o coração de Bianca se apertasse. Aquilo era tudo uma peça, João namorava Jade e ela nunca teria chance com aquele idiota.
E ela só pode agradecer aos céus por não ter se declarado em público.
Agradeceu mentalmente assim que Pedro e Karina a encontraram e foi apertada em um grande abraço de urso seguido por montanha de elogios, a loira havia filmado tudo e já se preparava para mandar ao primo de Pedro que segundo ele, era profissa.
– Caraca vocês arrasaram mesmo! Primeira vez que não durmo em uma peça. – Pedro tinha a mão no ombro de sua esquentadinha enquanto caminhavam em direção ao apartamento.
– Você tava na peça otário. – retorquiu João fazendo que o amigo fizesse uma careta.
– Ah, vocês são babacas. Ei, poderíamos comemorar né? Comprar uma pizza deliciosa, tomar uma cerv.. Refrigerante. – corrigiu Karina ao ver o olhar fuzilante da irmã mais velha. – Como é chato ser a única menor de idade desse lugar.
– Acho.. Maravilhoso, minha barriga tá roncando. – o cabeludo beijava o pescoço da loira que corou envergonhada sob os olhares de João e Bianca que reprimiam risadas.
Todos concordaram e aceleraram os passos até o apartamento que naquelas semanas estavam sendo totalmente de João, Bianca e Karina. E como não havia restado nada além de miojo, pizza era não só uma boa ideia como maravilhosa.
– Gente, vai demorar muito vindo de tele-entrega, então eu e o Pê vamos ali no Perfeitão solicitar pedido especial, feito? – murmurou a lutadora despreocupadamente segurando a mão do namorado tentando não chamar atenção enquanto Bianca arrumava a mesa, João lavava a louça.
Eles só não poderiam imaginar que tudo era um plano. Assim que o casal saiu, trancaram a porta e K guardou as três únicas chaves que possuíam do apartamento, tudo indo conforme aos planos. João e Bianca ficariam sozinhos, poderiam gritar, espernear, e quem sabe, se acertar?
Porém, os minutos se passaram e tudo que havia era apenas um climão instalado na sala enquanto Bianca estava sentada na poltrona e João no sofá, ambos olhando para televisão de modo fixo tentando de qualquer forma não puxar o assunto, ou melhor, ela tentava.
– Hum, eles estão demorando né? – pigarreou o gamer ao checar nervosamente no celular.
Ela assentiu em concordância sem falar nada.
– Vou ir atrás deles, fica aqui acho que a K levou a chave. – levantou-se indo até á porta onde girou a maçaneta sem parar sentindo um pânico crescer dentro de si.
– Esqueceu como se abre uma porta Bianquinha? – João encarou tentando reprimir o riso ao ver a cara frustrada da garota que ficava cada vez mais vermelha.
Grunhiu irritada e se virou com os olhos fuzilantes.
– Bem engraçadinho né? Por que não abre você mesmo essa porcaria?
– Claro, com prazer, vou te ensinar aqui como a madame pode abrir uma porta. – ignorou o cetismo estampado na cara dela e colocou a mão na maçaneta girando com força logo tentando puxar.
– Então gênio? – cutucou Bianca sorrindo desdenhosamente cruzando os braços.
– Só posso concluir uma coisa. – ele deu os ombros como se fosse algo bem normal.
– Ah jura, o que?
– Nós estamos presos.
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