Vicios
15 Décimo Quinto
Notas iniciais
A primeira coisa que ela conseguiu pensar foi que aquilo era uma piada, de mal gosto, muito mal gosto. E depois lembrou-se das expressões cúmplices da irmã com o namorado capiroto. Encarou o garoto em sua frente cheia de raiva, pois certamente ele deveria estar sabendo de tudo.
– Seu babaca, você armou isso com minha irmã e aquele capiroto da peste? – indagou prometendo a si mesma que não cairia mais naquela cara de anjo da dupla. Ela deveria ter desconfiado, apenas eles irem no Perfeitão, enquanto podiam ter ido todos juntos e jantar lá mesmo?
– Não olhe para mim, eu não sabia de nada. – defendeu-se agradecendo mentalmente aos amigos.
– Por que eu não acredito? – resmungou Bianca suspirando fundo. – Tudo acontece comigo!
Passou-se apenas alguns minutos de silêncio, até um dos dois falar algo.
– É tão ruim assim a ideia de ficar presa comigo? – ele perguntou sentindo um leve ressentimento ao ver o quão desconfortável ela aparentava como se quisesse sair logo para longe.
– É, principalmente dada as circunstâncias. – tipo o fato que eu quero beijar você mas não posso, pensou mentalmente querendo se bater.
– Nossa, como se você fosse a melhor das companhias também né? – fez careta enquanto ela ergueu as sobrancelhas descrente.
– Não pior que a sua. – retorquiu mal humorada fazendo que aqueles olhos verdes brilhantes lhe encararem numa espécie de desafio.
– Não sou azedo. – retrucou João enquanto ela se aproximava com vontade de enforcar a si mesma por entrar no joguinho ridículo.
– Não sou infantil.
– Não sou chata.
– Não sou bipolar.
– Ah meu deus, cala a boca. – ela socou-o levemente no peitoral fazendo que os dois rissem até notar o quão próximos estavam, tão próximos quanto horas antes na peça mas dessa vez era a mais pura realidade.
– Não posso fazer isso, você é a garota mais louca, mimada, bipolar, confusa de todas, cansei dessas brigas, cansei de correr atrás. – murmurou exasperado enquanto a garota mantinha a cara impassível.
Ele havia cansado dela?
Ergueu o queixo para o encarar sem conseguir evitar a mágoa refletida em seus olhos castanhos caros enquanto juntava os restos de dignidade que lhe restava.
– O que você tá fazendo aqui então?
– Eu estou aqui aqui... – João se aproxima fazendo que ela recuasse até sentir as paredes duras e geladas em suas costas que se enrijeceram. – Porque eu te... eu gosto muito de você, eu gosto muito de você Bianca. – soltou um suspiro profundo enquanto Bianca sentia seu coração falhar algumas batidas.
Nunca se imaginou ficar entorpecida de alegria só de ouvir aquelas palavras vindas dele.
– E também, estou tão preso aqui quanto você esqueceu? – não resistiu de implicar com a garota que lhe socou o peitoral sem conter uma leve risada.
E ele amava o som da risada dela.
– Cala a boca e me beija logo.
Antes que ela pudesse manifestar uma reação sobre o pedido, o barulho de um trovão ecoou forte e as luzes acesas se apagaram do nada fazendo que Bianca gritasse indo até a pessoa mais próxima, ou seja João que a envolveu em um abraço surpreso com a reação de pânico da garota que tremia chorando apertando-o com força como se fosse seu porto seguro.
– Calma minha linda, é só uma tempestade, olhe para mim. – ergueu o queixo dela com delicadeza e sentiu um aperto ao ver aqueles olhos castanhos arregalados cheio de lágrimas, ver ela chorar é algo que deveria ser crime.
A atriz apenas conseguia pensar na última noite que vira sua mãe, embora uma lembrança bem antiga, era a que se manifestava em todas noites tempestuosas onde geralmente se refugiava com K que também sofria o mesmo. Foi na madrugada chuvosa cheia de raios que Ana falecera e tudo que Bianca se lembrava daquele dia era o barulho de raios, chuva e aquilo a apavorava de um modo inexplicável. Sua mãe fora lhe levada para longe onde não alcançaria por muito tempo.
Soluçou alto enquanto João secava as lágrimas dela querendo fazer algo que pudesse ajudar.
– Por favor, me abraça. Não me larga. – implorou com a voz falha colocando sua cabeça no peitoral dele enquanto o mesmo a apertava para si acariciando-a tentando pensar em algo que a acalmasse.
Não entendia muito bem o que estava acontecendo com a garota, mas sentia mais que nunca uma enorme vontade de a proteger, apertar em seus braços, queria que Bianca o enxergasse como um ponto de paz, assim como ela é para ele. Sentam no sofá, ela ainda encolhida abraçando-o enquanto o polegar dele secava as lágrimas que lhe escorriam no rosto.
– Psiu, passou, tá tudo bem Bianquinha. – ergueu o rosto dela cujo os olhos estavam brilhantes devido o choro. – Vamos arranjar algo para comer? Acho que Pedro e Karina não vão chegar tão cedo nessa chuva toda e nem deviam.
A atriz assentiu o rosto, ainda em silêncio, aproximou seu rosto fazendo que seus lábios se encostassem causando a costumeira faísca e o calor irradia ambos corpos. João segurava a cintura da garota com força enquanto ela apertava a nuca dele, entorpecida por dentro e com a respiração cada vez mais falha. Afastam-se ofegantes para recuperar o fôlego e olham-se nos olhos.
– Uau. Ei, isso quer dizer que estamos namorando? – murmura ele sorrindo surpreso, acariciando a face dela que retribuiu-lhe com um sorriso divertido.
– Nós não estamos namorando, mas isso não quer dizer que eu esteja te liberando você beijar outras bocas. – negou com a cabeça recebendo um olhar confuso do garoto em sua frente, não entendendo a situação, mas tão logo, a compreensão se instalou em sua face.
Ela é a Bianca, aquela menina-mulher, ultrarromântica ao extremo, claramente esperava um pedido de namoro digno, e bem, ele é o João, garoto totalmente apaixonado por ela que faria de tudo até mesmo pagar papel de ridículo (influências de Pedro e suas serenatas nada cativantes) desde que a mesma retribuísse seu sentimento.
– Hum, até parece, a única boca que eu quero é a sua. Sabe, acho sua boca tão linda Bianca. – roçou seu polegar no furinho do queixo dela.
– É? Bem, eu gosto de seus olhos, são encantadores João. – ela mordeu o lábio inferior logo abrindo um sorriso totalmente perdida naqueles olhos, como dito pela mesma, encantadores.
– Então não somos namorados, mas também não somos amigos.
– A gente precisa resolver tudo hoje?
– Você realmente gosta de mim? Tipo, de verdade, seu coração tá livre? – não resistiu em perguntar, João precisava sanar todas dúvidas, não se permitiria embarcar em uma “relação” cheia de incertezas, vindas da parte dela, é claro.
– Meu coração não tá livre. – a expressão dela não lhe mostrou mais nada e seus olhos castanhos fitaram-o como se aquelas palavras não fossem ferir ninguém, oras, ele pediu a verdade e tinha que aceitar.
– Você ainda gosta do pela-saco. – não foi bem uma pergunta, mas uma afirmação, para João era lógico que ela nunca esqueceria dele, a maldição do primeiro amor que aquele lutador rogou à ela era no mínimo, enervante para o garoto.
– Não! – Bianca riu negando com a cabeça, se ele soubesse! – O que eu quero dizer, é que... Eu estou apaixonada por você, inteiramente apaixonada.
O que aconteceu a seguir, foi um garoto incrédulo, ele se sentia como se tudo fosse apenas um sonho, porque oras, a garota por quem ele é apaixonado por meses, estava enfim, retribuindo o sentimento dele. Mas se fosse um sonho, ele não gostaria de acordar.
– Então quer dizer que você é minha namorada. – retrucou sorridente sem esconder a alegria em ouvir aquelas palavras vindo dela.
Bianca revirou os olhos contendo o sorriso.
– Não enche palhaço, tá achando que é só me beijar que eu me rendo? – ela ergueu as sobrancelhas, desafiadora enquanto João retribui de mesma maneira, com seus olhos verdes intensos.
– Hum, sim, eu sou irresistível. – mordeu os lábios numa clara tentativa de tentar ser sensual.
– Bobo! Agora, vamos falar do fato que estou morta de fome e preciso comer algo. – fez uma careta manhosa enquanto esfregava a barriga evidenciando o que falou causando risadas do garoto que assentiu.
– Sim senhorita, vamos ver o que tem nessa casa, já que pelo visto Pedro e K não chegam hoje. – o Spinelli não conseguiu conter a malicia em suas palavras, fazendo que a “namorada” desconfiasse.
De fato, o plano do casal Perina era juntar João e Bianca, mas também tinha algo planejado dentro disso também, algo que envolveria, eles sozinhos na casa de Pedro, já que Delma havia viajado para São Paulo com Tomtom, deixando o filho mais velho – após muita persuasão é claro – com as chaves da casa.
– Como assim? A Karina vai passar a noite fora? – arregalou os olhos apavorada com a possibilidade de sua irmãzinha dormir fora com o namorado. Seu pai havia viajado, confiado nela, não poderia arriscar que aqueles dois fizessem algo inapropriado antes de ter a conversa com Karina.
– Não sei, mas nem me surpreendo se sim, né. – João deu os ombros, enquanto Bianca surtava por dentro, imaginando mil e umas possibilidades, sua irmã de 16 anos + namorado de 18 anos + sozinhos + hormônios, o resultado não seria bom.
– A gente tem que buscar minha irmãzinha agora! – exigiu com as feições firmes com sua decisão, provavelmente Karina ficaria extremamente brava com ela, mas precisava fazer isso.
João que estava vasculhando os armários em busca de algo comestível, apenas virou-se um tanto surpreso com a reação e ao mesmo tempo cético com o que ouvira.
– A gente como cara-pálida? Esqueceu que estamos presos? – franziu as sobrancelhas voltando à sua busca, achando um pacote de macarrão instantâneo.
– VAMOS DESCER PELO POSTE! – falou Bianca em um tom alto tentando chamar atenção do garoto que agora procurava mais ingredientes para fazer a comida.
– Bianca, calma. Não como se eles fossem fazer um crime né? Mais dia, menos dia, tanto faz, eles vão acabar fazendo sexo. – argumentou João ora olhando para a geladeira ora para a garota que corou com uso da palavra.
– A Karina tem 16 anos e o Pedro tem 18! Ela.. Ela é muito nova! – hesitou indo para cozinha, cada vez mais incerta se deveria estar indo atrás da irmã. Dando graças às forças superiores pela luz não ter acabado, pegou as talhares para arrumar a mesa.
– Tem gente que faz mais cedo ok? – rebateu o garoto coçando a nuca, um gesto já bem conhecido para ela, significando que ele tinha mais algo a falar.
– Quem, por exemplo? – indagou Bianca tentando não demostrar a curiosidade que se aflorara nela. Com o silêncio dele, já teve sua resposta, mas precisava sanar sua dúvida. – Espera, você..?
– Uhum, por incrível que pareça, sim. – respondeu neutro abrindo um sorriso logo em seguida ao ver que tinha tudo para fazer um belo miojo de molho branco. – Vem, vamos cozinhar!
Com a mesa pronta, Bianca dirigiu-se para a cozinha recebendo beijos pelo pescoço enquanto tentava, inutilmente colocar o avental e em silêncio, preparou a água enquanto João acendia o fogão. A garota não conseguiu conter sua curiosidade por muito tempo.
– Como? Quando? Jade? Vicki? – torceu a cara ao pronunciar o nome da última, as duas nunca se bicaram, desde sempre e todos sabiam, inclusive João que negou rindo com o questionário da mesma.
– Foi com uma garota que eu meio que cheguei a me apaixonar numa viagem para Minas Gerais, onde meus avós moram, e ela também, enfim rolou. – respondeu sem dar detalhes, puxando Bianca pra perto de si fazendo que seus olhares se cruzassem.
– Você se apaixonou por ela? – não conseguiu sentir um certo ciúmes da garota que teve a chance de ser a primeira dele, era algo bobo sentir ciúmes de alguém do passado mas impossível de conter seu espírito ciumento.
– Não. Se apaixonar é diferente de estar apaixonado.
Um sorriso se abriu na face dela, reconhecendo a fala.
– Essa frase... Eu já li ela em algum lugar, mas.. Não lembro. – murmurou franzindo a testa tentando se lembrar. Tinha uma péssima mania de se esquecer do que lia, mas sempre se lembrava das frases mais marcantes e nunca do nome da obra. Típico de Bianca.
– É do seu livro, aquele que você estava lendo um mês atrás, “Apenas um dia”. – respondeu João retirando-a de seus pensamentos, que procuravam incansavelmente o nome do livro.
– E pelo visto, você leu e se inspirou no Willem. Tá explicado porque estou apaixonada por você. – brincou enchendo o rosto dele de beijinhos, algo que já se tornaria uma marca registrada de Bianca como forma de demostrar seu carinho por ele.
– Não, eu só peguei uma frase viu dona Bianca, não vai se acostumando que eu não sou esse holandês viu? – resmungou João reprimindo o sorriso com os beijos vindo dela.
– Eu sei, prefiro descendentes de italianos mesmo. Tipo um certo João Spinelli.
– Ah tipo exótico? – retrucou tentando inutilmente imitar a voz de uma senhora, muito bem conhecida para ambos, Dona Dalva, a maravilhosa que sempre debochava do mesmo. Bianca revirou os olhos rindo da imitação jocosa dele.
– Tipo lindo, de olhos verdes, magrelo, senso de humor ridículo e, com um sorriso que como você diria “mel dels” – contra rebateu desta vez tentando imitar a forma de falar do gamer, enquanto colocava o macarrão na água já aquecida.
– Não é assim que eu falo! Deixa eu te ensinar, e para dar realidade, por gentileza, vire de costas e ande para a sala. – o garoto apoiou-se no balcão da pia enquanto Bianca franzia a testa em um misto de confusão e desconfiança fez o que o mesmo pedira.
– Mel deeeeeeels. – exclamou João fazendo a típica cara de apreciação vendo o bunda da garota que usava aquele famoso shortinhos brancos que ele, aprovava é claro.
– Eu imito você melhor. – riu Bianca voltando para cozinha.
– Melhor que eu próprio? Sou o original mulher.
– Eu sou mulher, não se discute comigo, só aceita, beijos. Agora vamos comer! – exclamou nitidamente alegre ao ver que estava pronto o miojo.
Ambos foram para a mesa, devidamente preparada para os dois, quase parecendo aqueles típicos encontros faltando apenas as velas pra completar. Durante a janta, conversaram conhecendo um ao outro um pouco mais, inclusive, encantando-se ainda mais e logo em seguida, lavaram a louça, ela limpava e ele secava, uma bela dupla.
Exaustos, decidiram ir dormir.
– Boa noite linda, dorme bem. – João se despediu deixando a garota na frente da porta do quarto dela.
– Boa noite... – sorriu vendo ele se afastando pelo corredor. – João? – chamou-o hesitante e de imediato o garoto se virou curioso. – Você pode ficar aqui comigo essa noite? É que, geralmente eu tenho a Karina mas... – colocou uma mecha por trás da orelha, nitidamente nervosa e sem graça em fazer o pedido e João só conseguiu pensar o quão adorável ela ficava assim.
– Seria uma honra senhorita. Até prometo manter minhas mãos comportadas. – aceitou teatralmente fazendo a garota rir desmanchando todo seu nervosismo e juntos adentraram no quarto.
Deitaram-se na cama dela, ambos com o coração acelerado, nervosos mas quaisquer clima que pudesse acontecer ali foi quebrado com o som do trovão retumbando ao longe, aterrorizante o suficiente para que Bianca quisesse se enfiar de baixo das cobertas como se elas pudessem lhe proteger de todo mal.
Antes que as lágrimas pudessem vir à torna, João a puxou para si fazendo que ela se agarrasse nele que acariciou seus cabelos com ternura. Bianca não sabia se foi a paz que ele lhe trazia, o carinho, a segurança que sentia, mas conseguiu adormecer mesmo com o barulho da chuva furiosa lá fora.
ENQUANTO ISSO
Pedro abriu a porta aos tropeços, revezando-se entre em beijar a namorada e colocar a chave na maçaneta para entrar em casa. Riram juntos com a falta de jeito do garoto tentando acender a luz e Karina abraçou-o do nada ao ouvir o barulho ensurdecedor de um trovão.
– Ei, a esquentadinha se apavora com o barulho de um raio é? – brincou o guitarrista recebendo um nocaute fraco da namorada claramente indignada.
– Eu só não gosto de raios, deixa de ser ridículo. – revirou os olhos azuis evitando em encarar-o.
Percebendo que a garota não gostara do brincadeira, puxou-a segurando pela cintura começando depositar beijos pelo pescoço da mesma que se manteve impassível embora internamente estivesse gostando. Karina suspira rendida e vira o corpo puxando o namorado para um beijo, como sempre intensos e antes que pudessem raciocinar estavam indo para o quarto de Pedro, onde caíram juntos na cama.
– K... Eu.. Você.. – murmurou o garoto em meio ao beijo, mais quente que o costume.
– Ei, não se preocupa, eu quero. – afirmou a loira corando logo em seguida, mas totalmente decidida, nunca fora boa em definir seus sentimentos mas sabia que aquele garoto mexia com ela de uma forma tão maravilhosa, tão boa, que só poderia ser nada menos que... amor.
E Karina queria se entregar à aquele amor.
– Eu também quero. – assentiu Pedro com uma expressão culpada que fez a garota recuar, preocupada.
– Mas? – hesitou, com medo de ouvir a resposta.
Ele não sabia se deveria dizer a verdade, sobre tudo, sobre a demo, o dinheiro. Como explicaria à ela que foi pago pela própria irmã dela para a namorar? Como dizer à garota que ele amava que a história deles começou por dinheiro? Estava tão mortalmente arrependido que se pudesse voltar ao tempo, voltaria apenas para fazer certo.
– Não posso. – afastou-se levantando da cama, tentando controlar suas emoções à flor da pele.
Não podia fazer isso com ela. Fazê-la se entregar para ele daquela maneira, Karina merecia o melhor e era isso que ele daria para ela, se depois de contar tudo, tivesse mais uma chance.
– Pedro?
– Por favor, me promete que você não vai me odiar. – suplicou apavorado com a ideia de a perder por completo.
– Pedro, eu nunca te odiaria. – murmurou a garota, agora assustada com o que poderia vir.
– Céus, eu te amo Karina. – soltou Pedro segurando o rosto dela com as duas mãos vendo aqueles olhos azuis da cor do céu brilharem intensamente com as palavras ditas e antes que ela pudesse retribuir, ele começou a falar. – Eu não posso mais te esconder isso. Há uns meses atrás, minha banda estava precisando de dinheiro para fazer uma demo, e cara, eu estava tão louco por isso que não percebi as consequências do acordo que eu fiz, com sua irmã. A Bianca é a patrocinadora secreta.
– Que acordo? – institivamente Karina recuou afastando-se do namorado, sentindo uma estranha sensação de nó na garganta e isso significava que viriam coisas nada boas.
– Ela... Ela me pegou para te conquistar. 3.000 mil reais, para correr atrás de ti, fazer qualquer loucura desde que te conquistasse. Serenata, apanhar no ringue, roubar autofalante do vendedor de pamanha. Mas, você acabou me encantando, seu jeito de esquentadinha, sua paixão no ringue. Eu sou louco, perdidamente apaixonado por você Karina! – segurou o braço da garota que encarava-o de modo impassível.
Não sabia definir o que sentia naquele momento. Mágoa. Raiva. Vontade de bater naquele garoto, em gritar com ele, xingar a si mesma por ter caído. Mas nada lhe doeu mais do que saber que sua irmã, sua própria irmã, pagou para seu namorado – ex namorado agora – para que ele tomasse a atitude, a conquistasse. Tudo isso por dinheiro.
– Não me toca! – desvencilhou-se reprimindo o choro e antes que ele pudesse impedir, saiu correndo para fora do quarto, sendo obviamente seguida pelo guitarrista que chegou na porta da saída antes dela.
– Por favor, não vá. Por favor Karina, me perdoa. – implorou Pedro com os olhos marejados recebendo um olhar de puro ódio vindo da garota.
– Se você realmente falou a verdade que é apaixonado por mim, tenha a dignidade de sair de frente dessa porta e me deixe ir embora.
– Karina.. – chamou-a enquanto ela descia pelas escadas totalmente nervosa.
Assim que saiu do local, não conseguiu conter as lágrimas e os soluços. Tremeu ao sentir a água gelada da chuva lhe encharcando enquanto andava até o prédio em que morava, cada vez mais próximo. As lágrimas escorriam sobre seu rosto mal sendo notadas devido à chuva incessante, a garota parou em frente encarando por um breve momento o poste que um dia viu Pedro descendo totalmente apavorado e sentiu uma enorme vontade de quebrar aquele maldito pedaço de metal.
Subiu as escadas, totalmente molhada pela chuva e abriu a porta do apartamento. Não sabia o que fazer a seguir, queria pegar as chaves da academia e passar a noite lá, não tinha a mínima vontade de olhar para a cara da irmã, sabia que não conseguiria controlar seu gênio nervoso e a atacaria. Ódio era pouco para definir o que sentia naquele momento. Era a mais profunda decepção.
Andou em silêncio pelo apartamento e entrou no quarto, deparando-se com uma cena um tanto inusitada.
João e Bianca dormindo agarradinhos.
Não conseguiu sentir a satisfação de seu plano ter sido um sucesso e suspirou decidida em pegar as chaves da academia. Definitivamente não estava no clima de presenciar cena de casal naquele dia. Abriu a gaveta do criado mudo da mais velha retirando de lá, as chaves que tanto procurava e meio de sua busca, encontrou uma foto. Bianca a segurava no colo, eram bem mais novas, ela com um ano e a irmã com quatro anos, certamente foi tirada no seu primeiro aniversário.
Ver aquilo doeu ainda mais a cicatriz recém aberta em seu peito. Largou a foto, e totalmente irritada fechou a porta do apartamento com força indo em direção à academia. Aquela seria uma longa noite para o saco de pancadas.
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