Kelda:

Saio andando apressadamente do galpão abandonado. Ao chegar na rua, coloco os óculos escuros e tiro a prancha da mochila. A energizo e subo, me preparando para voar. Vou subindo lentamente e controlo-a através da energia da mente concentrada em meus pés, uma tecnologia única que criei somente para a minha prancha. Já que a usina me deu para treinar os poderes, estou utilizando-a muito bem. Sobrevoo a cidade lentamente indo até a usina, que fica nos limites com a parte morta. A parte morta é onde ninguém nunca vai. São as ruínas da guerra que não foram retiradas e que possuem radiação muito grande. Dizem que os Ômegas moram lá, mas que vivem atrás de novos territórios e sobrevivem de roubos na cidade por causa da escassez de recursos que possui lá fora. Um vento quente sopra e estou com muito calor, além disso, meus pensamentos não param. Estou em um dilema enorme e a frase dita por Matt ecoa em minha mente constantemente: "As escolhas que parecem certas podem ser as mais perigosas". Realmente preciso pensar muito bem. E é por isso que quando terminar o período na usina, ao chegar em casa, tentarei pensar no que posso fazer pra resolver isso.

A tarde passa arrastando, mal consigo fazer minhas tarefas direito. O cargo que tenho na usina é muito bom, Gine o conseguiu pra mim e preciso somente analisar as amostras de energia usando a fisíca mental. A usina oferece empregos a pessoas com mutações para conseguir mão de obra mais inteligente e novas formas de gerar energia sustentável para não causar mais danos ao planeta. Por fim, a hora de ir embora chega e eu saio apressada, sem esperar por ninguém.

Energizo a prancha e vou indo pra casa quando o comunicador vibra. Olho a tela e nela aparece uma mensagem de um número desconhecido. Não faço a mínima ideia de quem seja e não está marcado como emergência, então decido esperar até chegar em casa para ler. Continuo sobrevoando, mas fecho os olhos e deixo minha mente vagar nos acontecimentos dos últimos dias. A prancha é programada e irá me levar para casa de qualquer jeito,e além disso, minha tecnologia adaptada não vai me deixar cair. Quando volto a realidade, a prancha está apitando que chegamos ao destino final, minha casa. Desço e entro no escuro. Acendo as luzes e vou à cozinha preparar um Ersatzcafé. Enquanto fica pronto, subo até o quarto e deixo a mochila lá. Ao passar pelo quarto de Jam, observo que ele está dormindo tranquilamente (como sempre), depreocupado. Jam realmente não se importa com nada, acho que nunca se importou...queria ser mais como ele. Aposto que já resolveu tudo isso em um piscar de olhos, enquanto eu estou aqui me remoendo tentando pensar em quem levarei. Os dias estão diminuindo e não consigo pensar no que fazer.

Desço novamente à cozinha e enquanto tomo o Ersatzcafé percebo que algumas folhas de inscrição não estão na impressora, o que significa que meu irmão já fez suas primeiras escolhas. Estou pensando nisso quando o comunicador solta um bip, me lembrando da mensagem desconhecida que não olhei. O pego e quando olho, duas mensagens recebidas que me deixam boquiaberta. A primeira: " Aô doidona! Tô chegando! EA" e a segunda " Colé doida! Vem abrir a porta pra mim, ou vou chutar essa parada toda aqui! EA". Minha mente se confunde por um instante.

– EA? Quem é EA? — penso alto.

Um soco na porta me responde. Ouço uma voz gritar.

– Colé Kelda! Vai me deixar na rua? É assim que recebe as amigas que não vê há muito tempo? Abre pra mim! — a voz não é desconhecida, mas não sei ainda quem é. Ando até a porta.

– Quem é? — pergunto ainda sem abrir.

– É a chapeuzinho vermelho trazendo doces! — a voz retruca ironicamente — É claro que sou eu, Kelda! Esqueceu de mim?

Abro a porta e vejo uma garota me observando. EA...Esther Adams!! Como pude me esquecer dela! Minha vizinha que tinha se mudado da cidade.

– THEER!!! — grito — Não acredito que está de volta! — a abraço.

Esther morou ao lado de nossa casa durante quase toda a minha vida. Ela era uma garota nervosa e violenta desde criança, por isso quase não tinha amigos. O Jam morria de medo dela, assim como todos os outros garotos na escola primordial. Ela lutava todos os gêneros de luta que tinha, e com o seu poder de telecinese pra completar, a garota era quase invencível. Pra mim, ela era incrível! Era uma ótima amiga, e eu a seguia pra onde fosse. Dois anos atrás, ela teve que acompanhar seus pais para outro estado. Mas, para a minha surpresa, estava de volta, e agora com os cabelos tingidos de roxo, bem exóticos, como ela sempre foi, mas a cor verdadeira deles era preto. Seus olhos também eram pretos,contrastando com a sua pele muito branca.

– Não acredito que não se lembrou de mim! — ela diz, me dando um soco no ombro. — Logo a sua melhor amiga.

– Não é isso! — digo rindo e esfregando o lugar que ela bateu — Eu ia adivinhar que você iria aparecer do nada? Não pude ler as mensagens porque estava ocupada no trabalho.

– Você? Trabalhando? Você tá brincando, não é? — ela deu uma gargalhada.

– Ôu! Estou falando sério! Trabalho na usina de energia. Eu tenho poderes também,sabia? — olhei pra ela e ri.

– Grandes coisas... — ela disse. — Olha Kelda, só passei pra te informar da minha chegada. Preciso ir agora. Me visite, tá bom? Eu ainda moro na casa ao lado!

– É claro que vou, Ther! — a abraço, me despedindo — Eu vou sim. Quem não vai gostar muito da sua volta é o Jam. Ele ainda guarda o dia que você o ergueu à três metros de altura na memória. HAHAHAHA!! — eu dou uma gargalhada e ela também.

– É...muito bom esse dia! Mande beijos a ele. — ela diz rindo e sai.

Fecho a porta ainda sorrindo,mas é só acabar de fechá-la, pra todos os meus problemas voltarem. A frase dita por Matt, as fichas na impressora, os dias passando e nenhuma escolha feita. Sento no sofá e apoio a cabeça entre as mãos. Fico assim por um tempo, e quando volto a mim, levanto a cabeça e Jam está parado me observando com cara de bobo.

– Há quanto tempo está parado aí, feito bobo, me olhando? — pergunto.

– Humm...uns cinco minutos? — ele diz e sai andando. Me levanto e ponho as mãos na cabeça. — Jam, não consigo fazer isso! Escolher pessoas pra se salvar? Como a mamãe pode pensar que eu seria capaz?

– Kel, a gente precisa! Não é opção. É necessidade! — ele para em minha frente e parece desesperado em falar isso.

– Jam, me ajude. Por favor! — eu o abraço — Não sei o que faço...Você já escolheu alguém?

– Sim Kel. Eu já comecei a escolher. — ele suspira.

Me solto do abraço e dou voltas pela sala preocupada. Sinto que estou muito nervosa, pois quando isso acontece, todo o sistema elétrico da casa começa a entrar em pane, e as luzes já estão falhando. Em uma briga com Jam anos atrás, meu nervosismo fez toda a rua ficar sem eletricidade. Ele percebe isso e vem em minha direção apressado.

– Kelda! Kelda! — ele grita e me balança,depois abaixa o tom e fala mansamente — Acalme-se! Não pense nisso agora... Faça o seguinte. Elabore uma lista com nomes de pessoas importantes pra você. Depois as observe e veja aquelas que realmente merecem ser salvas. Isso vai te ajudar bastante. É a única solução que consigo pensar pra esse problema agora. Sente- se ali e pense, irmãzinha. — ele me guia até a mesa, pegando um papel e caneta no caminho — Agora pense. Eu preciso ir. Não se preocupe, Kel... Vai ficar tudo bem.

Observo enquanto ele sai. Há algo diferente no meu irmão que não consigo perceber o que é... Ele parecia querer me dizer algo com o olhar, ou havia algo nele, algo... sombrio! Vejo que ele não aparenta ser mais o meu irmão travesso, mas uma pessoa séria, mudada, completamente diferente do Jam que conheço. Quando ele mudou tanto? E a ideia dele... Até que tem ligação com o que Matt me disse sobre pensar em quem realmente gosto. Isso é estranho... Mas tenho uma lista pra pensar, e preciso manter o foco se quiser sair desse sufoco. Me concentro bastante e algumas horas depois, tenho cerca de vinte nomes. Dez pessoas deverão ser eliminadas...e decido começar isso assim que acordar no outro dia. Um "belo" dia...