James:

Não consegui dormir, me debati na cama a noite toda e quando consegui pegar no sono tive um pesadelo com um meteoro caindo na Terra. Minhas olheiras eram bem perceptíveis, então resolvi ficar de óculos escuros dentro de casa. Eu tinha na minha bolsa alguns biscoitos que a Beatriz fez naquele dia...E ainda estavam bons!

Kelda não está em casa, pois ela sempre sai cedo pra escola, aproveitando que o sol ainda não está tão violento quanto mais tarde. Resolvo fazer o mesmo, pego minhas coisas e saio um pouco... Mesmo não gostando do sol, que já está escaldante na hora.

Vou mais preparado, visto minha roupa especial pra se proteger dos raios, e que é como uma roupa de ninja...adoro vesti-la, me sinto o tal! Ao sair de casa, como de costume, olho atentamente ao meu redor pra no caso, não encontrar com nenhum "amiguinho" dos ômegas. Não vejo ninguém, então começo com uma corridinha básica.

Enquanto corro, me lembro das coisas que haviam acontecido do dia anterior. Logo depois que Kelda e eu saimos da casa de Rick,o episódio da prancha voadora, o que tinhamos conversado sobre mutantes e tudo mais,eu estava realmente chateado. Sim, eu sentia inveja da minha irmã por ela ter nascido com poderes extraordinários e eu ter ficado apenas com os olhos de outra cor. E ela ainda me veio com o sermão do tio do Peter Parker! Ah, tenha dó... Eu posso ser meio tonto de vez em quando, mas usaria sim, meus poderes com responsabilidade. Não sou tão babaca assim...

Mas ontem foi estranho, pois quando entrei em meu quarto, liguei o som bem alto e me joguei na cama, me perdi em pensamentos. Pensava sobre o quão a vida foi injusta comigo, sobre como adorava minha irmã e achava que ela era a melhor do mundo, mas que por ser mutante ela ganhava destaque em tudo e eu era somente o engraçadinho... Quando comecei a lembrar dessas coisas péssimas, foi então que aconteceu.

Todo o quarto ficou de um jeito estranho, parecia que eu estava no espaço com várias estrelas ao meu redor, como se estivesse dentro de uma outra dimensão. Parecia flutuar no ar. Então avancei um pouco pra frente em direção às estrelas e estendi meu braço pra tentar pegar uma delas,mas o que aconteceu é que quando tentei apanhá-la, apareceu um buraco e dele vi meu quarto...Sim, eu havia entrado em alguma outra dimensão. Então com as duas mãos tentei abrir aquela passagem, como se fosse papel, ela se abriu facilmente, e quando passei imediatamente se fechou sozinha, mas como logo ouvi minha irmã me chamar, o portal se abriu e me vi no meu quarto novamente, me sentindo estranho.

A pergunta agora era: Será que eu conseguiria fazer outra vez? Era o que eu iria tentar.

Vou até um galpão abandonado, onde eu costumo ir de vez em quando para pensar, deixo minha bolsa em um canto, e então tento me concentrar e mentalizar aquela dimensão outra vez. Tento várias e várias vezes, nada acontece, mas quando penso em desistir sinto algo estranho, e uma energia negra se expande ao meu redor. Nada como o dia anterior, agora vejo oscilar, do chão sai uma fumaça negra e formas estranhas, quando me vem uma ideia que se ontem consigo abrir a passagem pra dimensão com as mãos, talvez fosse da mesma forma. Com tudo acontecendo ao mesmo tempo, logo ouço um barulho vindo de dentro do galpão e ele tira a minha concentração.

– Quem está aí? — uma voz sombria masculina pergunta em alto e bom som.

Então vejo de trás de uma pilha de caixas sair uma sombra negra encapuzada.

– Quem é você? — pergunto. Enquanto ele se aproxima, me afasto vagarosamente em direção à saída.

– Alguém como você... — a voz continua.

– Como assim?

– Um mutante...só que mais forte, claro! — ele dá uma risada de desprezo.

– E como você pode ter tanta certeza disso?

Sua risada aumenta, quase chegando a gargalhadas.

– Muito fácil dizer...Você descobriu seus poderes a pouco tempo. Isso é visível!

– Isso é o que você me diz... — mantenho minha expressão transmitindo confiança.

– Não me faça rir mais...Eu observei você, nem ao menos manipular a sombra sabe. — ele fala em tom de superioridade enquanto sai da sombra e vejo um garoto que deve ter a minha idade. — Muito fraco, nem dá graça lutar com você agora! — ele levanta o braço direito e com o dedo indicador faz um movimento circular — Como eu sou paciente, então vou esperar você aprender a usar seus poderes e quando chegar o momento certo,te enfrento — percebo que ele havia aberto uma passagem para uma dimensão — Até mais!

– Ei, não vá ain... — ele então é sugado para dentro do portal — da... Ele tem os mesmos poderes que eu... espera, olha o que eu acabei de dizer! Poderes! Tenho poderes!

Mas tudo aquilo está estranho demais, aquele cara esquisito...O que ele é? Será que ele era um Ômega?

Decido sair daquele galpão, tinha outros assuntos a tratar, então pego minhas coisas e vou enfrentar o sol,que agora está com os raios mais violentos, mas como não há outra escolha a não ser enfrenta-lo, coloco o capuz e saio. Pra minha sorte, a droga do galpão fica distante de casa, porém ainda tem a casa de Rick que não é tão longe e de qualquer forma preciso falar com ele.

Vou indo então rumo a casa dele, mas mesmo que seja apenas quinze minutos de caminhada, o sol castiga e tenho que parar um pouco (malditos antepassados e suas bombas!). Encontro uma árvore (ou o que sobrou dela) e me sento no chão no local onde a sombrinha mirrada se projeta. Tiro uma barra de alimentos, que é como se fosse uma barrinha de cereal, porém equivalente a uma refeição, sem falar nos sabores (que eram milhares). Minha irmã odeia issso, mas é incrível, sério. A NASA realmente sabe como criar refeições em barras. Depois que já estou pronto pra continuar me levanto, pego minha bolsa e...

– Olha só, um perdido no meio do nada — ouço uma voz atrás de mim . Me viro e vejo três caras altos e incrivelmente fortes. Um deles era careca e tinha uma cicatriz no rosto que o deixava ainda mais intimidador, parece ser o líder, os outros estão de capuz e com a luz do sol mal dá para ver as faces deles. Cada um tem uma espada elétrica na mão — armas padrão dos Ômegas.

O careca se aproxima um pouco mais.

– O que vocês querem? — uma pergunta idiota,essa minha.

– Esse território, é claro, mas primeiro vamos querer essa sua mochila aí,acredito que nela tenha coisas interessantes. — engulo em seco, eu até poderia dar conta de um Ômega de estatura média, mas estes caras estão em bando e parecem monstros. Cada um deve ter no mínimo uns dois metros de altura, os braços são gigantes... Resumindo, eu estou perdido.

Mas como sempre eu me faço de valentão...

– Aqui não tem nada pra vocês — mantenho os olhos fixos neles.

– É corajoso pra um tampinha insignificante — diz um que está com o capuz mais baixo.

– Pena que vai morrer — diz o outro de capuz, fazendo todos rirem.

Bom, eu estou ferrado, mal sei usar meus poderes...Então me vem na cabeça a voz da Beatriz em uma conversa que tivemos alguns dias atrás "Cara, tu mal sabe lutar! Não por mal que estou dizendo, mas você precisa ser mais independente. Você tem que estar preparado pro mundo...ele é cruel, você sabe...".

Mais uma vez lá vou eu fracassar na minha vida medíocre. Estou sozinho e ninguém pode me defender...Que pensamento idiota!Tenho que contar com os outros pra me defender. Estou cansado disso, e pelo menos uma vez quero arriscar e parar de fraquejar.Estou de cabeça baixa, então lentamente ergo os olhos e levanto a cabeça em direção ao careca,que muda sua expressão de repente.

– O que tem nos olhos dele... — pergunta um dos de capuz

– Estão completamente negros... E-ele é um mutante! — o outro encapuzado diz ao careca

– Isso não é problema, pois também sou — o careca então soca o chão fazendo-o rachar — Sou muito mais forte do que pensa, moleque.

– Perguntei alguma coisa? — digo inclinando a cabeça pro lado. O meu eu já não é o mesmo, sinto algo sombrio dentro de mim, que me deixa forte.

Ele se irrita com o que eu lhe digo, e não pensa duas vezes em vir pra cima de mim. Tiro um bastão da lateral da minha mochila enquanto me esquivo dele e aperto o botão que o faz aumentar(Rick e seus presentes feitos por ele mesmo, que são de extraordinária utilidade). O bastão agora tem quase o meu tamanho,então avanço na direção do gigante. O grandalhão tenta me socar, mas desvio com precisão e logo em seguida lhe dou um golpe certeiro na boca do estômago. Ele grita de furor e raiva e continua a tentar me golpear inutilmente. Um encapuzado tenta saltar sobre mim, e enquanto o acerto com o bastão, acabo me distraindo do careca. Quando me viro novamente, vejo seu punho já próximo ao meu rosto. Fecho os olhos e já imagino o golpe,mas no ultimo instante tento reduzir o impacto com as mãos. Ao fazer isso, uma pequena passagem se abre em minha frente fazendo com que sua mão não me atinja. Ao passar a mão pelo portal, ele se fecha em um piscar de olhos cortando metade do seu braço fora. Ele cai agonizante no chão enquanto grita os piores palavrões possíveis para mim. Olho assustado para os outros dois que assistiam, que agora estão com olhos arregalados,e sinto uma segurança e poder que nunca senti antes.

– Agora é a vez de vocês — digo e eles mesmo com medo, avançam.

Eles correm em minha direção e quando estão a uma pequena distãncia um grande portal se abre e ambos são engolidos para dentro, para alguma dimensão que não sei. Ainda olho para o outro, ainda agonizante e ensanguentado no chão, quando uma pequena pontada de dor vem em minha cabeça, e sinto como se houvesse acabado de acordar de um sonho louco.

– O que foi que eu fiz? — digo quase sussurrando.

O cara me encara assustado,quando resolvo sair de lá. Saio correndo, ainda abismado com o que havia acabado de fazer.

Mais a frente vejo a casa de Rick, e ele estava por coincidência na porta observando alguma coisa e viu minha chegada.

– Ei cara, não imaginava ver você por aqui, ainda mais com esse sol infernal. — disse Rick — O que aconteceu com você? Não me diga que...

Ainda estava em choque, e ele me leva pra dentro.

– Senta aí cara. — Rick me guia até a sala e me senta no sofá. Estou acostumado a ir ali e conheço a casa como a palma da mão, mas estou tão confuso que mal consigo respirar — O que aconteceu, cara? Foram os Ômegas?

– Também. — consigo dizer. Com a mão direita faço um movimento circular e na mesma hora um portal se abre. Meus olhos estão vidrados ainda. — Consegue ver?

Rick fica assustado, e não sabe o que dizer. Fecho o portal. — Cara, você...

– Também tenho poderes, pois é. Que louco, não? — consigo sair do estado de choque e o encaro — Descobri isso ontem... Encontrei três caras do Ômega aqui pertinho, dois cairam em um portal e arranquei o braço do outro... Eu me senti tão forte, tão... — Rick me dá um soco na cara. — AAI!

– MANINHO, PARA com ISSO, esse não é você! — ele gesticula e grita.

Estou caído no chão com a mão no rosto, agora já de volta ao meu estado natural completamente. Encaro o chão, enquanto lágrimas começam a escorrer em meus olhos. Sinto um sentimento ruim no meu interior... sinto nojo de mim mesmo, pois sei que se Rick não me acordasse por completo, logo iria me sentir bem por ter feito tudo aquilo. Que instinto assassino era aquele? Nunca havia sentido isso antes! Sinto vergonha de olhar nos olhos de Rick.

– Umbracinese... Esse é o seu poder. — disse Rick quebrando o silêncio — Você manipula as sombras, pode abrir portais dimensionais... Mas não pode se deixar levar,pois é um poder muito perigoso.

– Eu sei... percebi. — digo ainda de cabeça baixa — Vim para te avisar...Kelda e eu... Nós... fomos sorteados...

– Como isso? — ele então desmorona no sofá — Nem sei o que dizer.

– Quero que você venha com a gente — crio coragem e olho pra ele, seus olhos se enchem d'água.

Ele então me abraça, posso sentir que está aliviado... ou agradecido.

– Cara, muito obrigado... Sério!

– Você é meu melhor amigo, não podia deixá-lo na mão!

Rick é o meu primeiro escolhido para embarcar na nave, mas não posso contar que conseguimos por trapaça. Eu ainda estou com muita vergonha de mim mesmo para conseguir dizer mais alguma coisa.

– Esqueci o formulário em casa, amanhã trago pra você. Agora preciso ir pra casa. — ele olha pra mim e se toca que não estou bem o suficiente pra conversar. Noto pela sua expressão que ele não sabe como me agradecer.

Resolvo me despedir e volto pra casa, e a única coisa que eu queria era me trancar no quarto e esquecer um pouco do mundo.