Viajantes do Apocalipse
5 Capítulo 3- Poder Obscuro Parte II
Kelda:
A noite foi agitada, quase não consegui dormir. As horas passavam e minha cabeça parecia que em algum momento iria explodir com tantos pensamentos. Por fim, consegui tirar um pequeno cochilo, que no fim não adiantou muita coisa. Quando o relógio despertou para acordar pra escola, parecia que tinha bebido a noite inteira e estava em um porre daqueles. Me levanto e vou direto ao banheiro. Ao passar em frente ao quarto de James, ele parece dormir tranquilamente. Ele nunca se preocupa com nada mesmo. Ouço o relógio cuco da cozinha bater cinco horas, o que quer dizer que estou dez minutos atrasada para sair, se quiser que Matt me acompanhe até a escola. Andar sozinha é arriscado demais nessa hora da manhã. Chego ao banheiro e me olho no espelho analisando as olheiras profundas dos ultimos dias passados. Vou precisar de uma maquiagem que diminua, pois não quero que acabem perguntando o por que delas. Volto ao quarto, me visto adequadamente e arrumo minha mochila pra sair. Ao passar na cozinha pego a comida desidratada pro almoço, como uma barra que equivale a uma refeição (sinceramente odeio isso, mas fazer o que) tomando uma caneca de Ersatzcafé e saio.Ando até a esquina olhando para os lados, observando cada movimento e cada coisa. Não quero ser surpreendida por um grupo de Ômegas, pois mesmo tendo poderes, um bando deles poderia me machucar. Quando chego, confiro o relógio do comunicador e vejo que faltam alguns minutos para as seis. Sinto um vento gelado bater e me arrepio tanto de medo quanto de frio. Observo o lado da rua de onde Matt sempre chega, mas nem sinal dele. Mais cinco minutos passam, e percebo alguma coisa por perto como se fosse uma sombra, mas quando olho pra trás não há nada e nem ninguém. É quando quando ouço uma voz vinda do além.– Oi baixinha! — levo um susto, mas logo um portal se abre e Matt sai dele rindo.– MAATT!! Você quase me matou de susto, seu doido! — digo com raiva enquanto o abraço.Matthew Orwell é meu segundo melhor amigo. Depois de Chad, ele é o cara com quem mais convivo. Nossa amizade já dura bastante tempo e começou de um jeito estranho... Há uns anos, eu estava cansada de ser sempre a gêmea boa e certinha. Queria ser a problemática pelo menos uma vez, pra ver se mamãe me dava a atenção que ela dava ao Jam. Ela sempre tinha certeza de que tudo que estivesse em minhas mãos, ela poderia ficar segura de que ocorreria bem. Ao contrário de Jam, que sempre se metia em enrascadas e ela tinha que vir do trabalho correndo pra resolver as bagunças dele. Foi quando resolvi sair escondida pra treinar meus poderes, desobedecendo a regra de nunca sair desacompanhada para longe. Disse a Jam que iria sair com Chad e já estava distante de casa, me sentindo "a mutante". É, eu realmente estava me achando. Me senti tanto que nem percebi a aproximação do grupo de Ômegas vindo em minha direção. Três garotos encapuzados e uma garota que me cercaram.– Passa a mochila, tampinha! — ordenou a menina. Eu não sabia controlar e muito menos usar a eletro perfeitamente na época, pois havia entrado no Colégio Elementar a alguns dias.– D-desculpe, eu não tenho nada pra voces aqui... — disse tremendo.– Acho melhor você não tentar bancar a corajosa, tampinha... -um dos garotos disse.Eles foram chegando cada vez mais perto, então me abaixei e já esperava pelos golpes. Estava em uma encrenca feia, mamãe iria me matar. Era pior até do que as coisas que Jam aprontava, pois ele nunca havia desobedecido a regra de segurança. Foi quando ouvi uma voz...– Por que não procuram alguém do tamanho de vocês? — Olhei por entre as pernas da garota, mas não havia ninguém a não ser uma sombra no chão... e aquela voz sombria vinda do além.Logo a sombra no chão se ergueu e um portal se abriu, surgindo um garoto. Com um simples movimento da mão, criou um círculo de energia negra que envolvia os que me cercavam e em um segundo, eles haviam sumido para outro lugar que não faço a mínima idéia até hoje. Continuei abaixada, pois nunca o tinha visto e não sabia qual era a dele. Ele chegou bem perto e parou.– Matthew Orwell, prazer em conhecê-la. Você é... — ele disse e me estendeu a mão para que eu me levantasse. Olhei para ele e em um instante o observei. Era um menino magrelo e alto. Usava óculos escuros e uma roupa preta engraçada. Tinha os cabelos loiros ondulados esvoaçados, um pouco compridos e que pareciam não ser penteados desde que ele havia nascido. Tive medo e me encolhi mais ainda. Ele se abaixou, tirou os óculos e pude ver seus olhos, violetas também, pousados nos meus. Ele pôs a mão em meu ombro,o que me fez sentir uma confiança imensa nele.– Não tenha medo, garota. Se eu quisesse, te deixaria a mercê daqueles brutamontes, mas não quero vê-la machucada. — ele disse — Pode ficar tranquila. Vou te ajudar com o que puder.– Kelda Martin. — disse me levantando e estendendo a mão pra ele, que deu um aperto caloroso e sorriu, colocando os óculos novamente.E desde esse dia nunca mais nos separamos. Ele se tornou minha parceria pra quase tudo. E lá estava ele, me assustando como sempre em plena seis da manhã.– E aí Kel, preparada pra mais um dia de aulas irritantes? — disse sarcasticamente enquanto começávamos a caminhar pela rua — Eu preferia passar o dia voando de prancha. Já sei tudo aquilo de cor e sei controlar minhas sombras muito bem.– Claro que estou preparada, Matt. E as aulas não são irritantes. Apesar que somente hoje gostaria de passar o dia voando em uma prancha para algum lugar bem distante. — abaixo o olhar, preocupada.
– Wow! — ele para e entra em minha frente — Você preocupada? Tá passando mal? — ele põe a mão em minha testa.– Não...não estou! — digo me desviando e continuando a caminhada. — E vamos logo. Quanto mais cedo chegarmos, melhor. Posso sair e ir pra usina mais cedo.Continuamos andando e um silêncio constrangedor se forma entre nós. Com Matt funciona assim: Se você não quer contar algo pra ele, não é por isso que ele vai implorar que você conte.– Quais são seus horários hoje? — pergunto.– Humm..deixe-me ver. — ele pensa um pouco — O primeiro é Umbralogia, depois Biologia e Umbramática. Os dois ultimos horários são Fisica Aplicada e Prática. Você estará junto comigo em Bio e Fisica.– Ótimo! Meu último horário também é Prática. Me encontre próximo a cantina e te conto, tudo bem?– Ok. Estarei lá. Valeu pela confiança, Keldinha. — ele faz uma cara séria, mas segura o riso.– Aah, para com isso! — lhe dou um tapa no ombro enquanto caímos na risada.Quando chegamos a escola, a maioria dos alunos já está lá. Paramos no corredor das salas de aula e então me despeço de Matt, que vai para a sua aula específica. Olho pro lado e vejo Régine vindo em minha direção apressada e com uma expressão nada boa. Ela chega e se senta ao meu lado calada.– Oi Gine... — digo de mansinho, pois sei que uma explosão dela em momentos de raiva parece um vulcão em erupção — Tudo bem?– Kelda, me diga como pode estar tudo bem? — ela revirou os olhos. — Aquela notícia da sua mãe não é nada animadora! As pessoas farão de tudo pra se salvar e no fim muitas morrerão mesmo assim. Eu não quero morrer!O sinal de início da aula toca, e me levanto rindo. Régine Patterson é uma ótima amiga pra mim. A conheci no jardim de infância, quando ainda éramos apenas duas menininhas superdotadas. Na realidade, nos tornamos amigas por isso. Éramos as únicas com inteligência acima do normal na turma. Por fim, acabei desenvolvendo a eletrocinese e ela, a telecinese. Apesar de ser um pouco egoísta e ambiciosa, Gine, como eu a chamo, não é uma má pessoa, quando se é amiga dela.– Preciso ir, Gine... — digo e aceno — Te vejo mais tarde na usina.E saio em direção a aula de Eletroestática, a primeira do dia. Outra coisa sobre Gine. Sempre posso contar com ela quando preciso. Toda a organização para que eu conseguisse um emprego na usina onde trabalho hoje por algumas horas foi dela.As horas passam rápido, e eu não consigo pensar em outra coisa. Quem escolherei e como falarei com Matt sobre esse problema sem dar ideia de quem vou escolher primeiro. Na aula de Física Aplicada, que compartilhamos, o observo nervosa sem saber como vou resolver isso. Sempre contei meus dilemas pra ele, mas admito que esse será difícil de falar. O sinal toca e é hora da aula prática. Essa aula é opcional e podemos fugir dela se quisermos. Me levanto e vou até a cantina, mas quando chego lá, ele já me espera de braços cruzados.– Nossa, mas como demora! — ele ri.– Ha- ha- ha! Muito engraçado, sombrero. — digo o apelido que ele odeia somente para irritar — Mas você teve vantagem.– Sombrero não! — ele me olha sério — E aí, o que ia dizer?Então vejo que chegou o momento. Respiro fundo e vou em frente.– Matt...Jam e eu... — paro e respiro novamente — ...fomos escolhidos para entrarmos na nave que vai ser salva da destruição. — falo rápido e o encaro desesperada.Ele me olha assustado, olha para os lados temeroso e me manda abaixar.– Não fale isso alto! Por favor. — ele parece ter medo de alguma coisa ou alguém — Se souberem disso, não irão te deixar em paz. Vamos sair daqui.Ele rapidamente me envolve em uma sombra e logo estamos em um galpão abandonado. Olho tudo em volta um pouco assustada.– Não se assuste...Costumo vir aqui muitas vezes. É quase como se eu morasse aqui, tudo bem? — ele sorri. — Agora me conte. Não corremos riscos aqui.Conto tudo a ele, menos a parte que diz que Jam e eu fomos escolhidos por trapaça. Quando termino, ele está paralisado me observando.– Uau! — ele diz. — Me sinto muito mais leve e ao contrário do que pensei, Matt é muito calmo e em momento algum faz a pergunta que achei que faria.– Uau? Diz apenas isso? — digo rindo.– Olha... — ele abaixa o olhar e em seguida me encara — A decisão é sua. Escolha as pessoas que você mais gostar e considerar. Mas cuidado! As escolhas que parecem certas podem ser as mais perigosas.Sinto um frio na barriga ao ouvir aquela frase e meu coração acelera. Olho o relógio do comunicador e vejo que são quase meio dia.– Preciso ir.. — digo a ele — Tenho que estar na usina daqui a pouco. Depois conversamos mais.– Até mais Kelda. — ele acena e sorri.Saio do galpão deixando-o sozinho perdido em pensamentos. Eu também estou assim. Preciso fazer alguma coisa. Preciso escolher dez pessoas pra salvar na nave, mas não faço ideia de quem escolho. É... realmente estou perdida!
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