Viajantes - O Príncipe de Âmbar [HIATUS]
24 Capítulo XXIII
Notas iniciais
– E você?
Elliot não entendeu a pergunta.
– Eu o quê? — perguntou ele.
– Quando você começou? — reformulou Dean. — Sabe, a Viajar e a tudo o mais?
Elliot olhou para o alto, pensativo.
– Hm... acho que faz uns três anos agora. Eu tinha doze anos, estava quase fazendo treze. — Conforme falava, as lembranças começaram a fluir com mais facilidade. — Eu tinha acabado de roubar algumas frutas da feira e a dona do estande estava uma fera atrás de mim. E do nada apareceu uma garota, dizendo 'por aqui!' e entrando em um dos becos. Nós nos encolhemos contra a parede e a mulher passou reto pela gente. Foi divertido. Ficamos rindo um tempão. Quer dizer, depois que conseguimos respirar.
– Por que você estava roubando frutas? — interrompeu Dean. — Você... era pobre ou algo assim?
– Não, nada disso — respondeu Elliot. — Eu e minha mãe estávamos muito bem, embora meu pai já tivesse se separado da mamãe e casado de novo com outra mulher. Ela não ligava muito para isso, na verdade. E eu também não. Ela fazia uns bicos. Não era nada muito seguro ou estável, mas dava para viver e não era muito desgastante. Na verdade, não sei bem por que eu roubava as frutas. Acho que pelo mesmo motivo que a Katherine organiza festas em torno da fogueira e ela e Ty provocam guerras de comida.
– E esse motivo seria...?
– Para agitar a cidade, é claro. — respondeu Elliot, como quem diz uma coisa óbvia. — Para acabar com a monotonia. Sabe, o Povo do Leste e o Povo do Norte podem ser muito diferentes, mas isso é uma coisa que eles têm em comum; eles levam uma vida muito mansa. Cada um do seu jeito, eles já se acomodaram em seus respectivos estilos de vida. Claro, isso é uma coisa boa, mas também tem um lado ruim. Acabar com isso foi uma das primeiras coisas que Katherine fez ao chegar aqui: com Ty, desandou a criar festas, festivais e comemorações no Reino do Leste, e comigo, trouxe o caos para a antes tranquila Cidade da Fronteira. Reinos distintos, povos distintos, meios distintos, mas um mesmo fim.
Ele parou para tomar fôlego.
– Depois do incidente com a moça da feira, acabamos ficando amigos. Foi com ela que aprendi tudo sobre o que somos e o que fazemos... e podemos fazer. Foi ela quem identificou e me apresentou ao Aiden, meu Protetor. Um ano depois acabei resolvendo tentar fazer também... sabe, o que ela fazia na época. Sair por aí e procurar aventuras. Mas eu não sou tão bom como ela. Acho que ninguém é.
Dean ouviu o relato com atenção.
– E os outros? — perguntou. — O Shira, o Ty...?
– Bom, o Shira era o sobrinho do dono da biblioteca. — disse ele. — Katherine adorava ler e estava sempre procurando aprender alguma coisa nova, então passamos a frequentar esse lugar. O povo daqui não gosta de ler, então Shira ficou curioso em relação a nós. Com o tempo e a repetição, acabamos ficando amigos.
– Ele também vive aventuras, como vocês? — indagou o garoto.
Elliot apressou-se em negar com a cabeça.
– Não, não! O Shira não é um Viajante — esclareceu ele. — E, mesmo que fosse, ele é gentil demais. Se entrasse no meio do caos, acabaria sobrando para ele. O maior sonho da vida dele é cuidar e herdar essa livraria. E se é o sonho dele, é o nosso sonho, também.
–... Que bonito — comentou Dean. Normalmente, ele acharia graça de uma frase assim, mas naquele caso, não. Ele realmente achava bonito aquele pensamento.
Elliot percebeu.
– Olha. — disse. — Está vendo aquela estante?
Com o dedo, ele indicou um móvel abarrotado, cheio de livros de aspecto envelhecido e mal-cuidado, como se tivessem ficado sob uma tempestade. Era uma das mais próximas da escada que dava para o andar de cima, perto dos fundos.
– Todos aqueles livros, foi a Katherine quem trouxe. — disse ele. — Apenas Viajantes conseguem ler todos, mas ela o está ajudando a traduzir. Em breve, pessoas desse Domo vão poder saber de coisas muito além dessa realidade, e tudo graças a ela. Alguns sonhos podem até parecer mais ou menos importantes para quem vê de fora, mas todo sonho é digno de perseguido com unhas e dentes. É nisso que acreditamos.
Surpreso com a quantidade imensa de volumes, que ocupavam cada centímetro vago das prateleiras, Dean se aproximou da estante.
Foi quando ele percebeu que podia ler.
A Teoria de Cinco-Três... A Arte da Cura... Fatos e Mistérios da Evolução... Os Princípios da Alquimia... Teoria de Controle e Manipulação Básica...
Deslizando o dedo suavemente pelas brochuras ornamentadas, ele observou fascinado a amplitude da variedade de assuntos e pautas. Os temas variavam do cultivo de plantas à cura de todo o tipo de males, da ciência à magia, do possível ao impossível.
Os livros de cinco anos de Viagens e aventuras inacreditáveis...
De súbito, algo lhe ocorreu.
– Elliot... qual é o seu sonho?
Elliot não estava preparado para a pergunta, e teve que pensar para responder.
– Puxa... acho que raramente alguém me faz essa pergunta — disse ele, pensativo. — Acho que, se eu tivesse que escolher um, seria ser um herói. Daqueles heróis de guerra que aparecem no último segundo com a solução de todos os problemas. E poder provar a minha lealdade a Kath.
O último acréscimo foi o que deixou Dean curioso. Devagar, ele sentou-se ao lado dele.
– 'Provar sua lealdade'? O que quer dizer?
– Ah, não sei exatamente — disse Elliot, sentando-se no chão com as pernas cruzadas. — Eu só queria provar a ela que sou digno de ficar ao seu lado nas batalhas. De lutar ao lado dela. Provar que ela acertou quando me escolheu naquele dia. É, eu acho que é isso... Provar para ela que sou merecedor da confiança que depositou em mim. Esse é o meu maior sonho.
.
– Que ótimo, Dean!
Ao chegar na livraria e ouvir a notícia que Dean havia aprendido a ler, Katherine ficou radiante. Sem pensar, a garota pulara em sua direção e o abraçara com força, levantando-o do chão.
– Eu sabia que você conseguiria! — disse ela, sorrindo.
– Me... solta...!
Quando Kath soltou-o, Dean tentou recuperar o fôlego. Ele não imaginava que Katherine fosse capaz de tirá-lo do chão, ainda mais sendo tão menor do que ele. Meio tímido, ele sorriu de volta.
– Eu não posso dizer que estou surpresa — comentou ela, ainda alegre. — Talvez ensinar parte das regras gramaticais e chamar a atenção para a repetição de termos seja um método funcional para nós, mas é de conhecimento geral que, às vezes, uma coisa pode acontecer quando menos se espera.
No resto da tarde, Dean foi liberado de qualquer treino para que pudesse ficar a sós e se divertir com os livros da livraria de Henric, que até agora pareciam nada mais do que um monte de estranhos — mas belos — símbolos desconhecidos.
E que, agora, ele finalmente poderia ler. E nada se igualava à sensação.
Rodeado de livros, folheando seu primeiro exemplar, Dean parou para pensar em como era engraçado ele estar ali, aos quinze anos de idade, comemorando o fato de ter aprendido a ler.
E, se tudo der certo, percebeu, em breve eu provavelmente vou comemorar de novo.
Pela primeira vez, Dean ficou curioso quanto ao que Katherine pretendia lhe ensinar. Por causa de sua dificuldade com a leitura, os treinos práticos acabaram sendo adiados, mas ele estava ansioso para começar.
E, com esse pensamento, ele afundou-se nos livros, em busca de uma resposta para a nova pergunta que Katherine lhe fizera e que agora reverberava em sua mente.
O que você gostaria de aprender?
.
– Katherine.
A garota, até poucos instantes atrás absorta em uma das novas aquisições de Henric, ergueu os olhos para Dean. Ele nunca deixava de se surpreender com a profundidade de seu olhar, mesmo quando toda a sua expressão se mostrava supérflua.
– Sim? — disse ela. — O que foi, Dean?
– É que... — ele sentiu o rosto esquentar. — Eu estava lendo alguns livros e... vi algumas coisas interessantes...
Katherine não disse nada, mas seu olhar incentivou-o a continuar.
– Eu... queria saber se existe magia.
As últimas palavras saíram de uma vez só, numa torrente. Imediatamente ele sentiu o rosto ficar vermelho como um pimentão.
Ele já era grande demais para acreditar em magia. E, por mais que ele já tivesse visto muita coisa inacreditável naquele Domo, ainda não sabia se devia acreditar em algo como a 'magia' que conhecia das histórias de seu mundo.
Mas Katherine não pensava assim.
– Mas é claro! — disse ela, sorrindo. — Todos os tipos de magia.
A resposta surpreendeu ele.
– 'Tipos'? O que são os 'tipos' de magia? — perguntou.
– Bom, a magia é uma coisa vaga — respondeu ela. — Se eu estivesse no seu lugar, acho que poderia até pensar que tudo de bonito que você viu nesse mundo já é uma forma de magia. Mas o que nós chamamos de Magia é algo bem mais técnico e definido. Espere um pouco.
Ela gesticulou que ele sentasse ao seu lado e, por sua vez, ficou de pé e desapareceu no labirinto de estantes. Quando tornou a aparecer, trazia uma pilha de livros nos braços, o primeiro deles já aberto. Ela já explicava até mesmo antes de se sentar.
– Pelo que me lembro de seu mundo, você já deve ter aprendido que o mundo é feito de energias, certo? — disse ela. — Energia térmica, energia mecânica, energia sonora. Dezenas e dezenas de energias que não podem ser destruídas, mas apenas transformadas.
Na verdade, seu mundo ainda estava muito longe de conhecer 'dezenas e dezenas' de energias diferentes, mas Dean não disse nada.
– O que vocês não sabem é que essas não são as únicas coisas que podem ser classificadas como 'energias' — continuou a garota, indicando alguns parágrafos do livro aberto em seu colo. — Todos os elementos existentes no mundo, natural ou não, emitem diferentes tipos de energias, diferentes tipos de vibrações. Pode-se até dizer que a energia é a assinatura de cada elemento. O que nós temos por magia é a manipulação dessas energias, que pode ser classificada segundo os vários aspectos de sua execução.
Ela colocou o livro no colo do garoto e abriu o segundo da própria pilha. Dean, fascinado com as anotações que ela indicara com o dedo, nem cogitou fechá-lo.
– Algumas pessoas costumam classificá-los entre 'manipulação de elementos primários' e 'manipulação de elementos secundários'. Há divergências sobre isso, mas a maioria das sociedades que pesquisei em minhas Viagens parece concordar em colocar os elementos primários como sendo Terra, Água, Fogo, Ar, Luz e Trevas. Já nós, os Viajantes, concordamos em acrescentar um sétimo elemento à lista: a Consciência.
– Por que a consciência? — perguntou Dean, ainda com os olhos presos nas linhas artísticas e belas ilustrações do volume em suas mãos, mas prestando total atenção à explicação.
– A consciência é um dos maiores mistérios da existência. — respondeu Kath. — Em seu mundo, é o que vocês julgam diferir nós de todas as outras espécies animais. É claro, isso é um erro preconceituoso, já que todos os seres vivos possuem consciência. Mas dá para usar como base para entender o contexto geral. Sentir, estar ciente da própria existência, planejar para o futuro... O mais incrível é o fato de que ninguém faz a menor ideia do que exatamente é a Consciência. Nós acreditamos que, mas do que respirar ou reagir, é ela que faz de nós seres vivos.
– Faz sentido. — concordou Dean, absorvendo cada palavra. — Então, os elementos secundários são os que surgem da fusão dos elementos primários?
– Exatamente! — sorriu Kath. — Você está aprendendo rápido.
Vendo que ele ainda estava imerso no primeiro livro que o entregara, a garota fechou o segundo e colocou no chão a seu lado.
– Também podemos classificar a magia de acordo com a sua execução. — continuou ela, pegando um terceiro volume e mostrando-o uma estranha tabela de reações químicas, escritas em uma forma de linguagem que a ele parecia extremamente incomum. Dean dirigiu os olhos para o que ela lhe mostrava. — Nesse caso, costumamos classificá-la como Invocação, Manipulação ou Metamorfose. Invocação é conseguir invocar o elemento sem ajuda ou material-base. Manipulação é manipular a forma, as características, esse tipo de coisa. Metamorfose é a capacidade de transformar um elemento em outro. É o que vocês chamam de Alquimia.
Alquimia. Foi só então que ele percebeu que o livro que ela tinha em mãos era o livro que ele vira na estante próxima à escada, Os Princípios da Alquimia. Era engraçado que algo tão complicado pudesse ser chamado de 'Princípio', que ele não sabia exatamente o que significava, mas julgava ser algo como 'característica-base'. E se aquela era a base, ele não queria nem ver o resto.
– E, por último, também podemos classificá-la segundo a sua origem. Nesse caso, costumamos classificá-la em Magia Áurea e Magia Recorrente, sendo a segunda a mais fácil de executar.
– O que são elas? — perguntou Dean.
– A Magia Áurea é aquela que é executada usando como fonte a própria energia daquele que a executa. Ou seja, a Aura da pessoa. — respondeu a garota. — A intensidade, forma e até forma de execução variam de uma forma imensurável. Predisposição genética, gostos e preferências, convivência, experiências, traumas, acontecimentos marcantes... tudo isso são fatores importantes que modificam a Aura da pessoa. A Aura não é um elemento constante e sempre pode mudar a esfera de atuação depois de algum acontecimento específico ou até mesmo variar de acordo com seu humor na hora. Por causa disso, a energia Áurea de cada pessoa é única, e não pode ser imitada. E, consequentemente, a Magia também não.
– Você disse que essa era a mais difícil — comentou Dean, erguendo os olhos para a garota. — Por quê?
– Por vários motivos — respondeu ela. — Primeiramente, a inconstância é um fator que pode atrapalhar muito na hora de manipular a Aura. E, é claro, para algumas pessoas essa talvez não seja uma arma confiável na hora da luta, já que pode falhar a qualquer momento dependendo do humor da batalha. Se você perder a fé em si mesmo, é bem capaz de não conseguir executá-la. E depois há o fato de que você vai estar usando a própria energia para lutar. Depois de um tempo, vai começar a ficar fraco, lento e perder o foco. E, se usar demais, as consequências podem ser permanentes. Mas desde que a use dentro de um limite seguro, não haverá problemas. E, é claro, também há a necessidade de saber invocar essa energia de dentro de você no instante que for necessário. Isso você só aprende com a prática.
– E a outra? — indagou o garoto. — A Magia Recorrente?
– Essa é mais fácil por vários motivos. — disse ela. — Primeiramente, a Magia Recorrente é aquela executada usando como base as energias já presentes no ambiente — ou seja, que são recorrentes nele. Por exemplo, pegar uma pequena faísca e torná-la maior na forma de chamas. Assim, você não gasta energia própria e consegue manter a vitalidade por mais tempo, além de ser bem mais fácil de se manipular. Ainda mais quando você tem o consentimento da sua fonte primária.
Dean estranhou a palavra.
– 'Consentimento'? — repetiu. — Como assim? O que quer dizer?
Katherine abriu a boca para responder, mas então, ao lhe ocorreu. Devagar, ela olhou-o fundo nos olhos, e sorriu.
– Prefere que eu explique... ou que eu lhe mostre?
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