Viajantes Errantes
3 O quase roubo
- Tô com fome – reclamou Toya.
- Inútil, a vila é logo adiante. Que tal você deixar de ser inútil e arrumar sua própria comida – disse Rumi.
- Como? Nunca trabalhei antes.
- Quem falou em trabalhar? – riu Meilin. – É só roubar!
Eles chegaram ao topo de uma montanha e avistaram a vila.
— Roubar?! – exclamou Toya.
— Sim ué, é o que meus pais fazem – disse Meilin, orgulhosa. – Sou expert nisso!
— Aham – Rumi limpou a garganta. – Sim, eu sei! Mas vamos deixar ele aprender sozinho.
“Melhor não depender das técnicas de furto da Mei”, pensou Rumi.
— Boa sorte, príncipe inútil. Deixa eu te dar a base.
Rumi revirou os olhos.
— Primeiro: aproxime-se discretamente da vítima.
Toya escutava atentamente.
— Segundo: mescle-se com a multidão, se torne a sombra da vítima. E por último: roube-o sutilmente e suma na multidão.
— Acho que entendi!
— Ótimo – disse Rumi. – Vamos estar naquele bar te vigiando. Qualquer coisa, grite.
— Tá.
Toya saiu à procura de uma vítima, enquanto Rumi e Meilin tomavam a primeira dose.
— Ele é teimoso, mas às vezes parece um cachorrinho – disse Meilin.
— Não se apegue, Mei!
— RUMI! MEILIN... RUMI! SOCORRO!
— Mas já? – perguntou Meilin.
— Vamos Mei, temos um inútil para salvar!
“Esse principezinho vai me pagar uma garrafa de sakê”, pensou Rumi.
Meilin viu o príncipe correndo em círculos, fugindo de um samurai, segurando uma bolsinha de moedas.
— MEILIN, PEGA! – Toya jogou a bolsinha para ela.
— MEI! TOYA! – Rumi chegou com uma katana e começou a lutar com o samurai. – Quem é você? – perguntou, agressiva.
— Meu nome é Sota Minamoto, e seu amigo roubou o meu mestre.
— Ele não é meu amigo – Rumi parou. – É meu servo!
— SERVO? SERVO? – Toya ficou indignado. – EU SOU O SEU MESTRE, VOCÊ SERVE A MIM!
— CALE A BOCA, INÚTIL!
— Sim, senhora...
— Tenha um pouco de dignidade e devolva o dinheiro do meu mestre.
— Nem pensar, samurai.
Os dois voltaram a lutar. Meilin pensou em entrar na briga, mas viu um akita sentado e decidiu brincar com ele.
— Cachorrinho!
O akita rosnou inicialmente, mas assim que Meilin o encarou com olhos grandes e brilhantes, deu-lhe uma lambida na bochecha.
— Senta, fofinho – ordenou ela.
O cachorro sentou.
— Rola.
Ele hesitou, mas rolou.
— Finge de morto.
Ele fingiu. Sota, quando o viu, se desviou do ataque de Rumi e foi verificar o cachorro.
— Shin! Shin, você está bem?! – gritou Sota, passando a mão nele.
— Toya, vamos fugir – ordenou Rumi, e saiu correndo.
Como Toya estava comendo mosca, Meilin agarrou a gola dele e o carregou.
— Vem, totó! O que você tá esperando? – chamou Meilin.
O cachorro levantou e saiu correndo atrás deles.
— Shin! – gritou o samurai. – Shin! Volta! – Sota saiu correndo atrás do cachorro.
— Rumi, ele está nos seguindo – disse Toya.
— Mei, despista o cachorro!
— Não dá, ele acha que estamos brincando!
— Dá um jeito! – disse Rumi.
— Volta aqui! – gritou Sota.
— Argh, cansei.
Rumi parou, pegou bombas de fumaça e jogou a direção do cachorro.
— Despistamos? – perguntou Meilin.
— Acho que sim.
— É? Olhe de novo! – disse Toya. – Não aguento mais correr.
— Parem! – Sota continuava a gritar. – Eu só quero o meu cachorro!
Toya, Rumi e Meilin pararam de correr. O cachorro pulou em cima de Meilin e começou a lambê-la.
— Shin – disse Sota –, volta aqui!
Shin obedientemente foi até seu dono e ganhou um afago.
— Fodeu! – disse Meilin. – Uma carruagem! Vão prender a gente!
— É meu mestre! – disse Sota.
— Rápido! – disse Rumi. – Vamos fugir!
— Esperem! – gritou um senhor de dentro da carruagem.
A carruagem parou e o senhor desceu. Sota fez uma reverência e Meilin e Rumi fizeram o mesmo.
— Quem são vocês? – perguntou o senhor.
— Meu nome é Rumi e essa é Meilin, estamos a serviço do imperador.
— Do imperador? – perguntou Sota.
— Sim! – continuou Meilin. – Estamos protegendo o príncipe de assassinos e ao mesmo tempo ajudando-o a arrumar uma noiva para se casar, ter filhos e perpetuar a família no trono.
— Sei... Eu sou Kenta Takahino, chefe do vilarejo. Aceitam tomar um chá em minha casa?
— Bom, eu estou com fome – disse Toya.
— Não sei, pode ser uma cila... – começou Rumi.
— Rumi! – grita Meilin de dentro da carruagem. – Vamos! Comida grátis!
Rumi suspirou e finalmente foi.
Chegaram à casa do senhor. Meilin foi brincar com Shin e Sota, enquanto Rumi e o senhor conversavam, e Toya comia e boiava. Depois de uma breve conversa explicando tudo, Kenta os convidou para passar a noite lá.
— Muito obrigada, senhor – disse Rumi.
— Ah, não quero me separar do Shin – disse Meilin, triste.
— Você se apega muito fácil, Mei.
Kenta chamou os quatro para jantarem à mesa com ele.
— Vou viver aqui para sempre! – disse Meilin.
— Estamos em missão, Mei – repreendeu-a Rumi.
— Mas aqui tem comida e roupa lavada, e ainda tem o Shin...
— Sabe... – começou Kenta – Cachorros sentem as pessoas boas.
— O que você quer dizer com isso, senhor? – perguntou Sota.
— Sota, acho que não preciso mais dos seus serviços.
— Mas, senhor...
— Eu sei que você tem uma missão também, e tenho certeza que andando com eles você encontrará o que procura. E Shin ficará muito feliz também.
— Tem certeza?
Kenta assentiu com a cabeça.
— Senhorita Meilin, senhorita Rumi, me deem a honra da presença de vocês e deixem-me viajar com vocês!
— Ei, e eu? – protestou Toya. – Não vai perguntar se EU concordo, não?
— Perdão, senhor Toya! – desculpou-se Sota.
— Bom, você luta bem... – começou Rumi.
— E me chamou de SENHORITA – disse Meilin.
— Tem habilidades e corre rápido.
— E ainda tem o Shin! – acrescentou Meilin.
— TUDO BEM! – disse Toya – Mas você sabe roubar?
— Roubar é um crime sério e desonesto – disse Sota.
— Hum, fraco!
— Tudo bem – disse Rumi. – Nós damos um jeito!
— Bem-vindo ao grupo, irmãozão! – gritou Meilin.
— Obrigado.
Eles jantaram. Meilin e Toya disputaram para ver quem comia mais, e deu empate.
Riram e divertiram-se à beça. Toya finalmente se sentiu bem. Como ele nunca se divertia com amigos, sentiu que talvez não seria tão ruim viajar com eles.
— Senhor, há algo de errado? – perguntou Sota.
— Não, não é nada – disse Toya, disfarçando.
— Toya! Velho, você é muito mongol – reclamou Meilin.
— Eu? – perguntou, confuso.
— É! Cara, ninguém assalta uma pessoa com guarda-costas. – Meilin riu.
Quando Toya parou para pensar nisso, se sentiu estúpido.
— Pelo menos consegui um aliado! – retrucou.
— Aham, o Shin que começou a me seguir! – lembrou Meilin.
E eles começaram novamente a discutir.
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