- Tô com fome – reclamou Toya.

- Inútil, a vila é logo adiante. Que tal você deixar de ser inútil e arrumar sua própria comida – disse Rumi.

- Como? Nunca trabalhei antes.

- Quem falou em trabalhar? – riu Meilin. – É só roubar!

Eles chegaram ao topo de uma montanha e avistaram a vila.

— Roubar?! – exclamou Toya.

— Sim ué, é o que meus pais fazem – disse Meilin, orgulhosa. – Sou expert nisso!

— Aham – Rumi limpou a garganta. – Sim, eu sei! Mas vamos deixar ele aprender sozinho.

“Melhor não depender das técnicas de furto da Mei”, pensou Rumi.

— Boa sorte, príncipe inútil. Deixa eu te dar a base.

Rumi revirou os olhos.

— Primeiro: aproxime-se discretamente da vítima.

Toya escutava atentamente.

— Segundo: mescle-se com a multidão, se torne a sombra da vítima. E por último: roube-o sutilmente e suma na multidão.

— Acho que entendi!

— Ótimo – disse Rumi. – Vamos estar naquele bar te vigiando. Qualquer coisa, grite.

— Tá.

Toya saiu à procura de uma vítima, enquanto Rumi e Meilin tomavam a primeira dose.

— Ele é teimoso, mas às vezes parece um cachorrinho – disse Meilin.

— Não se apegue, Mei!

— RUMI! MEILIN... RUMI! SOCORRO!

— Mas já? – perguntou Meilin.

— Vamos Mei, temos um inútil para salvar!

“Esse principezinho vai me pagar uma garrafa de sakê”, pensou Rumi.

Meilin viu o príncipe correndo em círculos, fugindo de um samurai, segurando uma bolsinha de moedas.

— MEILIN, PEGA! – Toya jogou a bolsinha para ela.

— MEI! TOYA! – Rumi chegou com uma katana e começou a lutar com o samurai. – Quem é você? – perguntou, agressiva.

— Meu nome é Sota Minamoto, e seu amigo roubou o meu mestre.

— Ele não é meu amigo – Rumi parou. – É meu servo!

— SERVO? SERVO? – Toya ficou indignado. – EU SOU O SEU MESTRE, VOCÊ SERVE A MIM!

— CALE A BOCA, INÚTIL!

— Sim, senhora...

— Tenha um pouco de dignidade e devolva o dinheiro do meu mestre.

— Nem pensar, samurai.

Os dois voltaram a lutar. Meilin pensou em entrar na briga, mas viu um akita sentado e decidiu brincar com ele.

— Cachorrinho!

O akita rosnou inicialmente, mas assim que Meilin o encarou com olhos grandes e brilhantes, deu-lhe uma lambida na bochecha.

— Senta, fofinho – ordenou ela.

O cachorro sentou.

— Rola.

Ele hesitou, mas rolou.

— Finge de morto.

Ele fingiu. Sota, quando o viu, se desviou do ataque de Rumi e foi verificar o cachorro.

— Shin! Shin, você está bem?! – gritou Sota, passando a mão nele.

— Toya, vamos fugir – ordenou Rumi, e saiu correndo.

Como Toya estava comendo mosca, Meilin agarrou a gola dele e o carregou.

— Vem, totó! O que você tá esperando? – chamou Meilin.

O cachorro levantou e saiu correndo atrás deles.

— Shin! – gritou o samurai. – Shin! Volta! – Sota saiu correndo atrás do cachorro.

— Rumi, ele está nos seguindo – disse Toya.

— Mei, despista o cachorro!

— Não dá, ele acha que estamos brincando!

— Dá um jeito! – disse Rumi.

— Volta aqui! – gritou Sota.

— Argh, cansei.

Rumi parou, pegou bombas de fumaça e jogou a direção do cachorro.

— Despistamos? – perguntou Meilin.

— Acho que sim.

— É? Olhe de novo! – disse Toya. – Não aguento mais correr.

— Parem! – Sota continuava a gritar. – Eu só quero o meu cachorro!

Toya, Rumi e Meilin pararam de correr. O cachorro pulou em cima de Meilin e começou a lambê-la.

— Shin – disse Sota –, volta aqui!

Shin obedientemente foi até seu dono e ganhou um afago.

— Fodeu! – disse Meilin. – Uma carruagem! Vão prender a gente!

— É meu mestre! – disse Sota.

— Rápido! – disse Rumi. – Vamos fugir!

— Esperem! – gritou um senhor de dentro da carruagem.

A carruagem parou e o senhor desceu. Sota fez uma reverência e Meilin e Rumi fizeram o mesmo.

— Quem são vocês? – perguntou o senhor.

— Meu nome é Rumi e essa é Meilin, estamos a serviço do imperador.

— Do imperador? – perguntou Sota.

— Sim! – continuou Meilin. – Estamos protegendo o príncipe de assassinos e ao mesmo tempo ajudando-o a arrumar uma noiva para se casar, ter filhos e perpetuar a família no trono.

— Sei... Eu sou Kenta Takahino, chefe do vilarejo. Aceitam tomar um chá em minha casa?

— Bom, eu estou com fome – disse Toya.

— Não sei, pode ser uma cila... – começou Rumi.

— Rumi! – grita Meilin de dentro da carruagem. – Vamos! Comida grátis!

Rumi suspirou e finalmente foi.

Chegaram à casa do senhor. Meilin foi brincar com Shin e Sota, enquanto Rumi e o senhor conversavam, e Toya comia e boiava. Depois de uma breve conversa explicando tudo, Kenta os convidou para passar a noite lá.

— Muito obrigada, senhor – disse Rumi.

— Ah, não quero me separar do Shin – disse Meilin, triste.

— Você se apega muito fácil, Mei.

Kenta chamou os quatro para jantarem à mesa com ele.

— Vou viver aqui para sempre! – disse Meilin.

— Estamos em missão, Mei – repreendeu-a Rumi.

— Mas aqui tem comida e roupa lavada, e ainda tem o Shin...

— Sabe... – começou Kenta – Cachorros sentem as pessoas boas.

— O que você quer dizer com isso, senhor? – perguntou Sota.

— Sota, acho que não preciso mais dos seus serviços.

— Mas, senhor...

— Eu sei que você tem uma missão também, e tenho certeza que andando com eles você encontrará o que procura. E Shin ficará muito feliz também.

— Tem certeza?

Kenta assentiu com a cabeça.

— Senhorita Meilin, senhorita Rumi, me deem a honra da presença de vocês e deixem-me viajar com vocês!

— Ei, e eu? – protestou Toya. – Não vai perguntar se EU concordo, não?

— Perdão, senhor Toya! – desculpou-se Sota.

— Bom, você luta bem... – começou Rumi.

— E me chamou de SENHORITA – disse Meilin.

— Tem habilidades e corre rápido.

— E ainda tem o Shin! – acrescentou Meilin.

— TUDO BEM! – disse Toya – Mas você sabe roubar?

— Roubar é um crime sério e desonesto – disse Sota.

— Hum, fraco!

— Tudo bem – disse Rumi. – Nós damos um jeito!

— Bem-vindo ao grupo, irmãozão! – gritou Meilin.

— Obrigado.

Eles jantaram. Meilin e Toya disputaram para ver quem comia mais, e deu empate.

Riram e divertiram-se à beça. Toya finalmente se sentiu bem. Como ele nunca se divertia com amigos, sentiu que talvez não seria tão ruim viajar com eles.

— Senhor, há algo de errado? – perguntou Sota.

— Não, não é nada – disse Toya, disfarçando.

— Toya! Velho, você é muito mongol – reclamou Meilin.

— Eu? – perguntou, confuso.

— É! Cara, ninguém assalta uma pessoa com guarda-costas. – Meilin riu.

Quando Toya parou para pensar nisso, se sentiu estúpido.

— Pelo menos consegui um aliado! – retrucou.

— Aham, o Shin que começou a me seguir! – lembrou Meilin.

E eles começaram novamente a discutir.