Viajantes Errantes

4 A noite na cidade portuária


O grupo de viajantes andava incansavelmente...

— Que merda! Alguém me mate! – gritou Toya, cansado.

— Quieto, príncipe inútil – resmungou Meilin. – A próxima vila é portuária, né?

— Sim, quem sabe você não os encontra – disse Rumi, com um sorriso.

— Encontrar quem? – perguntou Toya, curioso.

— Meus pais – riu Meilin.

Toya começou a imaginar como seriam os pais da Meilin. Ele certamente os admirava em sua imaginação: Meilin já era hiperativa nos dias atuais, quando era pequena devia ser muito pior. Se bem que ela disse que roubar era a especialidade deles.

— Senhoritas, senhor – chamou Sota, que estava mais à frente. – Chegamos.

— Chegamos? – Meilin saiu correndo em disparada até sumir de vista.

— Senhorita Meilin? – Sota saiu correndo atrás dela.

— Como são os pais da Meilin? – perguntou Toya a Rumi.

— Não sei... Eles estão de férias já faz um bom tempo. Vamos atrás deles.

Rumi e Toya foram até o porto. Lá, avistaram Meilin abraçada com uma figura de vestido, e Sota de pé, petrificado, ao lado dela.

— Quem... – começaram Rumi e Toya.

— Gente! Esse é o meu pai!

A figura em vestido de bolinhas era um homem de um metro e oitenta. Barbudo e peludo.

— Seu pai?! – perguntou Toya, pasmo.

— Sim! Ele faz minhas roupas!

— Você só tem tecido amarelo e vermelho? – perguntou Rumi.

— Não, são minhas cores favoritas – disse o pai.

— Aye! – gritou uma voz. – Será minha pequena maruja?!

— Pai! – disse ela abraçando o pirata.

— Outro? – perguntou Toya.

E então uma tripulação de piratas os cercava. Sota saiu do choque com um tapa de Rumi.

— Cumprimentem os pais da Meilin! Eles voltaram de Fiji! – ordenou Rumi.

— Pais! – Meilin saiu abraçando todos os piratas.

— Então gaivotinha – disse um pirata –, esse é o seu namorado?

O pirata apontou para Sota, que ainda não sabia como cumprimentá-los. Toya se sentiu irritado, mas não entendeu o porquê.

— Não – respondeu Meilin –, mas eu amo o cachorrinho dele. Vem cá, Shin!

— MEILIN! – falou uma voz grave do meio da multidão. Foi quando surgiu uma figura alta e forte, com roupas vermelhas e douradas, e cara de mau.

— Vixe – disse Toya.

— Papai capitão – Meilin correu em direção a ele e o abraçou. Os dois começaram a bater palmas, darem soquinhos e requebrarem como uma espécie de cumprimento especial. – Esses são meus papais. Papais, esses são Rumi, Sota e Toya, meus amigos – ela sorriu.

— Uns com tanto e outros com tão pouco – disse Sota, recuperado.

— Vamos todos beber! – gritou o pai capitão.

— Yo ho! – gritaram Meilin e seus pais.

— Tô adorando seus pais, Meilin – disse Rumi, emocionada.

A tripulação de pais piratas carregou Meilin e seus amigos para um bar, no qual renderam os donos e tomaram conta do lugar.

— Hoje é por nossa conta! – gritou o capitão. – Garçom, Rum para todos.

Meilin ficou com seus pais, sendo mimada e ouvindo histórias, enquanto Rumi, Toya e Sota sentaram em uma mesa um pouco mais longe. Algumas doses de Rum depois, todos já estavam meio alegres.

— Rumi! – gritou Meilin. – Olha, eu tô bebendo um parente seu. Rum e Rumi – depois disso Meilin riu freneticamente e capotou na mesa. Todos os piratas riram como se fosse um hábito.

— Ela é bem fraca para bebida... – disse Rumi. Os três continuaram a beber como se fosse a última vez. Até que Toya se levantou e cambaleou até o balcão.

— Aí cambada – disse ele, subindo. – Eu vou fazer um show.

Toya pegou uma garrafa e começou a cantar como se fosse um microfone. Os piratas foram à loucura. Não que eles estivessem realmente gostando, mas adoravam humilhação pública de bêbados.

— Patético! – disse Rumi. – Fica nesse estado tão fácil.

— Rumi... – começou Sota. Rumi ficou surpresa por ele não chamá-la de senhorita.

— Fala – disse Rumi. Sota, que estava olhando para baixo, riu maleficamente.

— Vai comigo ali atrás? Quero te mostrar uma coisa.

Rumi achou esquisito, mas foi. Enquanto isso, Meilin acordou. Quando viu Toya cantando e dançando em cima do balcão, achou divertido e resolveu se unir a ele. Os dois pulavam ridiculamente e os pais de Meilin amavam o show.

— Acho que a Mei acordou – falou Rumi quando ouviu uma gritaria vinda do estabelecimento.

— Depois vamos lá – disse Sota. – Isto é mais importante.

— O que foi, Sota? Algum problema?

— Na verdade... – Sota se aproximou de Rumi até a encurralar contra a parede.

— Sota, o que você está fazendo?

— Rumi, você é tão bonitinha, não precisa ficar com medo. Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer com você.

— SOTA! Sota, para! Você tá fora de si.

— Eu tô perfeitamente bem, agora vem cá – e puxou Rumi para si, beijando-lhe o pescoço. – Viu? Você está arrepiada, também me quer.

— NÃO! NÃO! – gritou Rumi. – Sota, afaste-se de mim!

— Não!

— Você vai se arrepender, seu tarado mental – Rumi tirou dois punhais dos bolsos e começou a atacar Sota, que se esquivava cambaleando.

— MORRA SEU PERVERTIDO SEM VERGONHA DE UMA FIGA!

Enquanto isso, dentro do bar, Toya e Meilin continuavam a cantar alegremente, agora num dueto romântico.

— Nossa menininha está crescendo! – falou o capitão.

— Parece que foi ontem que ela apareceu no nosso navio como uma gatinha sem dono – disse o pai costureiro.

— Ela já tá até andando com rapazes – disse o pai cozinheiro.

— Mei – gritou o capitão –, seus pais te amam!

— Rumi! – Meilin gritou para a amiga que acabava de voltar para o estabelecimento. Rumi acenou, sentou e começou a assistir o show. – Essa é pra você!

Mei voltou a cantar junto a Toya, que estava no marasmo.

— Ei, não tinha mais um? – perguntou o capitão.

— Sim, senhor, ele está ali! – gritou o pai pirata costureiro.

Shin estava de vestido e entretia alguns piratas fazendo truques.

— Não, acho que era mais alto.

— Aye, senhor! Aquele ali? – outro pirata apontou para o cavalo de carga. Os piratas haviam o colocado para dentro.

— Hum – pensou o capitão –, talvez.

— Estão falando do Sota? – perguntou Rumi.

— Sim, esse sujeito aí – soluçou o capitão. – O namorado da Meilin!

Rumi fez cara de vítima e começou:

— Capitão, nem te conto! Ele é ter-rí-vel!

O capitão e mais alguns piratas se aproximaram e ficaram juntinhos com olhos brilhantes como garotas fofoqueiras prontas pro babado.

— Conte-nos, querida – disse o capitão.

— Tipo assim! Euzinha estava lá, né, bem quietinha e boazinha – Rumi fazia uma voz ‘fofa’ –, aí ele me pediu pra ir lá fora...

— Lá fora? – perguntaram os piratas.

— Sim! Lá fora. Eu achei estranho, mas pensei que ele estava com algum problema.

— Claro, todos temos – disse o capitão, querendo saber mais.

— Só que descobri que ele é muito mau! Ele me agarrou! – Rumi fingiu que chorava.

— Pobrezinha – disse o pirata costureiro.

— Maldito! Te agarrando estando prometido a Meilin!

A indignação entre os piratas foi crescendo. Rumi encarnou uma personagem frágil e inocente.

Todos os piratas foram para fora, deixando Toya e Meilin sem plateia. Shin foi na frente, encontrou Sota amarrado. Usando seus dentes, o libertou.

Sota, que estava inconsciente, acordou já recuperado. Sua primeira visão foi a de um bando de piratas encarando-o de forma ameaçadora. Rumi ria maleficamente lá dentro enquanto assistia o show de Toya e Meilin.