Viajantes Errantes
2 Chuva de peixes
Os três caminharam até anoitecer e não passaram por nenhum vilarejo.
— Vamos ACAMPAR! – gritou Meilin.
— ACAMPAR? Você diz... Dormir no chão? – perguntou Toya.
— Sim – respondeu Rumi. – Algum problema, Príncipe-Inútil?
— Sim! Primeiramente: PÁRA DE ME CHAMAR ASSIM! EU sou o seu mestre, EU mando em vocês. Segundamente: EU andei o dia inteiro A PÉ, o MÍNIMOque EU mereço é uma cama confortável e um banho quente!
— Primeiramente... – começou Rumi – Não existe “segundamente”.
— Dois – continuou Meilin –, para de gritar no meio das frases.
— E três – disse Rumi –, nós estamos te protegendo, você deveria beijar nossos pés como agradecimento.
— Agradecimento? – falou Toya, irônico. – Eu nem sei quem são vocês, e se vocês são boas mesmo. São só duas garotas FEIAS e pobres. Ladrazinhas!
— Rumi, nenhum dinheiro do mundo paga isso – disse Meilin. – EU VOU MATAR ESSE PRINCEPEZINHO MIMADO! AAAH!
Meilin se atirou em cima de Toya e começou a puxar seu cabelo.
- MEILIN! MEILIN, PARA! – gritou Rumi.
- Só depois que eu acabar com esse INÚTIL!
- INÚTIL? – o príncipe tomou o controle da situação e mordeu Meilin. – Vou te mostrar o inútil!
- Essas crianças... – suspirou Rumi, com ar de derrota. Pegou sua bazuca e atirou para cima, fazendo um estrondo. – PAREM, VOCÊS DOIS! MEILIN, vá pegar alguma lenha. E VOCÊ... Tem um lago ali atrás, nos favoreça com a sua ausência e vá tomar seu banho.
- Sim, senhora – disseram os dois, cabisbaixos, seguindo cada um para sua direção.
- Voltei – disse Meilin – Cadê o Inútil?
- No banho ainda... Parece uma garotinha.
- Será que ele é... Mulher? – pensou Meilin.
- Ele tem ombros largos e voz grossa, não é mulher.
- Será que é gay?
- Meilin! Pare de fazer suposições, ele é só um trabalho temporário. Não se apegue.
- Me apegar? Àquela coisa?
- Já está se apegando... – antes de terminar a frase, as duas ouvem Toya gritar. Não pensaram duas vezes: Meilin saiu correndo e gritando; Rumi pegou sua lança e foi atrás.
- AAH, ATAQUE SURPRESA! Rendam-se, seja quem for! – berrou Meilin.
- AAH, sai daqui sua pervertida ninfomaníaca!
- Quê?!
- Meilin! – gritou Rumi ao chegar – O que hou... AH! Você tá pelado, seu pervertido!
- DEVE SER PORQUE EU ESTOU NO BANHO, loucas!
- Mas por que você gritou? – perguntou Meilin.
Toya saiu da água se cobrindo com suas vestes. Meilin e Rumi desviaram o olhar, mas não conseguiram deixar de reparar em como o corpo de Toya era bem definido, e em seus cabelos bagunçados pingando água pelo chão. “Ele definitivamente é homem”, pensaram as duas.
- Alguma coisa roçou na minha perna. Era viscosa e comprida!
- Tipo... Um peixe – disse Rumi.
- Hum... Como é um peixe?
- Você nunca viu um peixe? – perguntou Meilin.
- Já vi, nunca toquei.
- Mimado – murmurou Rumi.
- Você tocará um agora! Pois eu pescarei! – disse Meilin.
- Essa não – suspirou Rumi.
— Você sabe pescar? – perguntou Toya, fingindo não estar admirado.
— Meilin arregaçou a manga, tirou os sapatos e entrou no lago, até a água alcançar seus joelhos.
— Observe a mestra – riu Meilin. – Rumi, me empresta a lança?
Rumi jogou a lança e Meilin a pegou, desajeitada. Ela se preparou como um índio, fechou os olhos e pareceu extremamente concentrada.
— Aye!
Meilin começou a gritar e espetar a água desesperadamente. Toya ficou em choque, e Rumi procurou algo na bolsa.
— Peixe, peixe, PEIXE! Eu vou pegar um peixe! Vem aqui, peixinho! – gritava Meilin.
— Essa é a mestra? – perguntou Toya.
— Meilin! Vem cá – chamou Rumi.
Meilin parou e voltou saltitando. Rumi tirou uma granada e a jogou no lago.
— Protejam-se.
Em poucos segundos, o lago explodiu e dezenas de peixes saíram voando e se debatendo. Alguns tiveram a sorte de cair de volta no lago, enquanto outros, infelizmente para eles, iriam virar janta.
— PEIXE! HOHOHO – Meilin correu e começou a atingi-los com a lança. Toya chegou perto de um timidamente, como uma criança curiosa, e passou o dedo de leve nas escamas.
— Eca...
— Inútil! – chamou Rumi. – Recolha os peixes, vou acender a fogueira.
— Nós vamos comer isso? – perguntou Toya.
— Agradeça por ter algo para comer! – disse Rumi.
— Seu nome vai ser Jim, o seu vai ser Lee... Você tem cara de fêmea, mas vai ser Han!
— Que patética! Eles estão MORTOS! – caçoou Toya. – Você vai comê-los, sabia?
— Eu amo brincar com a comida!
— Sinceramente – Toya virou-se para Rumi -, como você aguenta?
— Longa história. Somos mais parecidas do que parece.
— Duvido muito.
— O que você ainda está fazendo parado? – perguntou Rumi.
— Eu não vou encostar nisso!
— Não vai? Tem certeza?
Toya olhou para Rumi com medo da expressão dela. A franja tampava seus olhos e ela segurava uma shuriken entre os dedos.
— Estou indo, mestra!
Ele pegou os peixes enquanto Rumi acendeu a fogueira. Meilin arrumou os galhos para espetar os peixes e assou no fogo. Elas comeram felizes, mas Toya hesitou. Porém, depois da primeira mordida, comeu satisfeito.
— Então – começou Toya -, como vocês se conheceram?
Rumi e Meilin terminaram de comer.
— Era uma vez – contou Meilin – uma vila.
— E nessa vila viviam dois velhinhos ricos, mal-humorados, que se odiavam, e eram vizinhos – continuou Rumi.
— Então, um dia, o vizinho A jogou uma pedra no jardim do vizinho B que, irritado, contratou um assassino...
— Eu, no caso – disse Rumi.
— O vizinho A, quando ficou sabendo, contratou uma adorável guarda-costas – Meilin riu –: euzinha!
— E então, quando entrei na casa para matar o velhinho A...
— Deu de cara comigo! – interrompeu Meilin.
— Aí lutamos – disse Rumi.
— E lutamos – disse Meilin.
— E destruímos a casa.
— E lutamos.
— Mas aí, fiquei impressionada com as habilidades de Meilin.
— E eu achei incrível o arsenal de armas da Rumi!
— Aí começamos a conversar.
— E viramos best friends!
Elas riram. Toya escutava pasmo.
— E os velhinhos? – perguntou.
— Pois é! O vizinho B era muito impaciente e foi lá verificar! – exclamou Meilin.
— E eles começaram a discutir – resmungou Rumi.
— E aí nós descobrimos que a briga deles era por causa de algo inútil.
— Então Meilin me falou que estava com fome.
— Eu estava morrendo de fome!
— Aí fomos comer sushi – disse Rumi.
— E estamos juntas desde então.
Toya estava em choque.
— Vocês são estranhas!
— Foi amizade à primeira luta! – disse Meilin. – E você? Como virou príncipe?
Rumi revirou os olhos ao ouvir a pergunta de Meilin
— Bom, meu pai era rei, e teve um caso com a minha mãe, que era alemã. Eu nasci, minha mãe morreu e meu pai casou-se com a atual Imperatriz, que considero minha mãe!
— Ah, então você nasceu assim? Que legal! – disse Meilin.
— Sim! – falou Toya.
“Não sei quem é mais retardado”, pensou Rumi.
— Crianças, vamos dormir, amanhã chegaremos a um vilarejo! – disse ela.
— E vamos procurar uma noiva para o Inútil! – exclamou Meilin.
— Uma noiva... – Toya suspirou. – Vai ser beeem difícil.
— A gente meio que percebeu...
— Boa noite, gente – disse Meilin.
— Boa noite, Mei. – disse Rumi.
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