Os três caminharam até anoitecer e não passaram por nenhum vilarejo.

— Vamos ACAMPAR! – gritou Meilin.

— ACAMPAR? Você diz... Dormir no chão? – perguntou Toya.

— Sim – respondeu Rumi. – Algum problema, Príncipe-Inútil?

— Sim! Primeiramente: PÁRA DE ME CHAMAR ASSIM! EU sou o seu mestre, EU mando em vocês. Segundamente: EU andei o dia inteiro A PÉ, o MÍNIMOque EU mereço é uma cama confortável e um banho quente!

— Primeiramente... – começou Rumi – Não existe “segundamente”.

— Dois – continuou Meilin –, para de gritar no meio das frases.

— E três – disse Rumi –, nós estamos te protegendo, você deveria beijar nossos pés como agradecimento.

— Agradecimento? – falou Toya, irônico. – Eu nem sei quem são vocês, e se vocês são boas mesmo. São só duas garotas FEIAS e pobres. Ladrazinhas!

— Rumi, nenhum dinheiro do mundo paga isso – disse Meilin. – EU VOU MATAR ESSE PRINCEPEZINHO MIMADO! AAAH!

Meilin se atirou em cima de Toya e começou a puxar seu cabelo.

- MEILIN! MEILIN, PARA! – gritou Rumi.

- Só depois que eu acabar com esse INÚTIL!

- INÚTIL? – o príncipe tomou o controle da situação e mordeu Meilin. – Vou te mostrar o inútil!

- Essas crianças... – suspirou Rumi, com ar de derrota. Pegou sua bazuca e atirou para cima, fazendo um estrondo. – PAREM, VOCÊS DOIS! MEILIN, vá pegar alguma lenha. E VOCÊ... Tem um lago ali atrás, nos favoreça com a sua ausência e vá tomar seu banho.

- Sim, senhora – disseram os dois, cabisbaixos, seguindo cada um para sua direção.

- Voltei – disse Meilin – Cadê o Inútil?

- No banho ainda... Parece uma garotinha.

- Será que ele é... Mulher? – pensou Meilin.

- Ele tem ombros largos e voz grossa, não é mulher.

- Será que é gay?

- Meilin! Pare de fazer suposições, ele é só um trabalho temporário. Não se apegue.

- Me apegar? Àquela coisa?

- Já está se apegando... – antes de terminar a frase, as duas ouvem Toya gritar. Não pensaram duas vezes: Meilin saiu correndo e gritando; Rumi pegou sua lança e foi atrás.

- AAH, ATAQUE SURPRESA! Rendam-se, seja quem for! – berrou Meilin.

- AAH, sai daqui sua pervertida ninfomaníaca!

- Quê?!

- Meilin! – gritou Rumi ao chegar – O que hou... AH! Você tá pelado, seu pervertido!

- DEVE SER PORQUE EU ESTOU NO BANHO, loucas!

- Mas por que você gritou? – perguntou Meilin.

Toya saiu da água se cobrindo com suas vestes. Meilin e Rumi desviaram o olhar, mas não conseguiram deixar de reparar em como o corpo de Toya era bem definido, e em seus cabelos bagunçados pingando água pelo chão. “Ele definitivamente é homem”, pensaram as duas.

- Alguma coisa roçou na minha perna. Era viscosa e comprida!

- Tipo... Um peixe – disse Rumi.

- Hum... Como é um peixe?

- Você nunca viu um peixe? – perguntou Meilin.

- Já vi, nunca toquei.

- Mimado – murmurou Rumi.

- Você tocará um agora! Pois eu pescarei! – disse Meilin.

- Essa não – suspirou Rumi.

— Você sabe pescar? – perguntou Toya, fingindo não estar admirado.

— Meilin arregaçou a manga, tirou os sapatos e entrou no lago, até a água alcançar seus joelhos.

— Observe a mestra – riu Meilin. – Rumi, me empresta a lança?

Rumi jogou a lança e Meilin a pegou, desajeitada. Ela se preparou como um índio, fechou os olhos e pareceu extremamente concentrada.

— Aye!

Meilin começou a gritar e espetar a água desesperadamente. Toya ficou em choque, e Rumi procurou algo na bolsa.

— Peixe, peixe, PEIXE! Eu vou pegar um peixe! Vem aqui, peixinho! – gritava Meilin.

— Essa é a mestra? – perguntou Toya.

— Meilin! Vem cá – chamou Rumi.

Meilin parou e voltou saltitando. Rumi tirou uma granada e a jogou no lago.

— Protejam-se.

Em poucos segundos, o lago explodiu e dezenas de peixes saíram voando e se debatendo. Alguns tiveram a sorte de cair de volta no lago, enquanto outros, infelizmente para eles, iriam virar janta.

— PEIXE! HOHOHO – Meilin correu e começou a atingi-los com a lança. Toya chegou perto de um timidamente, como uma criança curiosa, e passou o dedo de leve nas escamas.

— Eca...

— Inútil! – chamou Rumi. – Recolha os peixes, vou acender a fogueira.

— Nós vamos comer isso? – perguntou Toya.

— Agradeça por ter algo para comer! – disse Rumi.

— Seu nome vai ser Jim, o seu vai ser Lee... Você tem cara de fêmea, mas vai ser Han!

— Que patética! Eles estão MORTOS! – caçoou Toya. – Você vai comê-los, sabia?

— Eu amo brincar com a comida!

— Sinceramente – Toya virou-se para Rumi -, como você aguenta?

— Longa história. Somos mais parecidas do que parece.

— Duvido muito.

— O que você ainda está fazendo parado? – perguntou Rumi.

— Eu não vou encostar nisso!

— Não vai? Tem certeza?

Toya olhou para Rumi com medo da expressão dela. A franja tampava seus olhos e ela segurava uma shuriken entre os dedos.

— Estou indo, mestra!

Ele pegou os peixes enquanto Rumi acendeu a fogueira. Meilin arrumou os galhos para espetar os peixes e assou no fogo. Elas comeram felizes, mas Toya hesitou. Porém, depois da primeira mordida, comeu satisfeito.

— Então – começou Toya -, como vocês se conheceram?

Rumi e Meilin terminaram de comer.

— Era uma vez – contou Meilin – uma vila.

— E nessa vila viviam dois velhinhos ricos, mal-humorados, que se odiavam, e eram vizinhos – continuou Rumi.

— Então, um dia, o vizinho A jogou uma pedra no jardim do vizinho B que, irritado, contratou um assassino...

— Eu, no caso – disse Rumi.

— O vizinho A, quando ficou sabendo, contratou uma adorável guarda-costas – Meilin riu –: euzinha!

— E então, quando entrei na casa para matar o velhinho A...

— Deu de cara comigo! – interrompeu Meilin.

— Aí lutamos – disse Rumi.

— E lutamos – disse Meilin.

— E destruímos a casa.

— E lutamos.

— Mas aí, fiquei impressionada com as habilidades de Meilin.

— E eu achei incrível o arsenal de armas da Rumi!

— Aí começamos a conversar.

— E viramos best friends!

Elas riram. Toya escutava pasmo.

— E os velhinhos? – perguntou.

— Pois é! O vizinho B era muito impaciente e foi lá verificar! – exclamou Meilin.

— E eles começaram a discutir – resmungou Rumi.

— E aí nós descobrimos que a briga deles era por causa de algo inútil.

— Então Meilin me falou que estava com fome.

— Eu estava morrendo de fome!

— Aí fomos comer sushi – disse Rumi.

— E estamos juntas desde então.

Toya estava em choque.

— Vocês são estranhas!

— Foi amizade à primeira luta! – disse Meilin. – E você? Como virou príncipe?

Rumi revirou os olhos ao ouvir a pergunta de Meilin

— Bom, meu pai era rei, e teve um caso com a minha mãe, que era alemã. Eu nasci, minha mãe morreu e meu pai casou-se com a atual Imperatriz, que considero minha mãe!

— Ah, então você nasceu assim? Que legal! – disse Meilin.

— Sim! – falou Toya.

“Não sei quem é mais retardado”, pensou Rumi.

— Crianças, vamos dormir, amanhã chegaremos a um vilarejo! – disse ela.

— E vamos procurar uma noiva para o Inútil! – exclamou Meilin.

— Uma noiva... – Toya suspirou. – Vai ser beeem difícil.

— A gente meio que percebeu...

— Boa noite, gente – disse Meilin.

— Boa noite, Mei. – disse Rumi.