Kevin acabou de cuidar dos ferimentos de Ana enquanto ela dormia e Jorge andava de um lado para outro da caverna preocupado com Samuel, que ainda não havia voltado.

- A bala não fez muito estrago, afinal o que deu em vocês? O que estavam tentando fazer lá em cima?

- É um pouco complicado de explicar.

- Acho que deve ser mesmo, para Ana ter levado um tiro e Samuel estar perdido.

O garoto começou a contar tudo o que havia planejado com a amiga, desde a espionagem no palácio até a destruição da árvore. Jorge ficou com medo da reação de Kevin em saber que ele queria acabar com toda sua espécie, mas não tinha outro jeito.

- Então vocês planejaram tudo isso pelas minhas costas, nem mesmo perguntaram o que eu acharia disso tudo.

- Não sabíamos qual seria sua reação!

Kevin fitava Jorge, não com um olhar de raiva, mas sim o de quem foi traído.

- Não gosto de ter sido rejeitado pelos meus iguais, não era culpa minha ter herdado características que eles acham errado no ser humano, mas se a árvore for destruída todo o subterrâneo iria acabar e eu não teria lugar para viver.

- Mas você pode ir à superfície conosco e viver como um humano livre!

- Creio que não deve ser assim tão fácil.

- Mas é! Seu corpo é de quem tem por volta de uns dezenove anos, você pode começar a trabalhar ou estudar e quem sabe até grafitar, muitas pessoas ganham a vida fazendo isso profissionalmente.

- Talvez isso tudo que você planeje seja utópico demais para dar certo, mas como a Ana e você também são meus amigos então pode contar comigo.

Os dois se abraçaram e Jorge o levou até o lado de fora da caverna, era bom saber que poderia contar com mais um aliado. Antes que estivesse dentro da caverna novamente o garoto avistou Samuel de longe, vindo em sua direção.

- O que houve com vocês? — O menino estava ofegando.

- Não conseguimos as informações necessárias, fomos descobertos antes disso, e a Ana levou um tiro – Jorge respondeu.

- Um tiro! Mas ela já está bem?

- Sim, está descansando lá dentro.

- Precisamos agir rápido, descobri muitas coisas e umas dão medo.

- O que você descobriu?

Antes que Samuel pudesse responder um barulho forte seguido de um tremor sacudiu todo o túnel e fez com que os dois caíssem no chão. Puseram se de pé, mas outro barulho mais forte do que o de antes abalou toda a estrutura.

Um homem passou correndo entre os dois gritando:

- Estamos sendo atacados!

Os estrondos continuavam e pareciam cada vez mais perto de onde estavam. Samuel entrou na caverna para avisar Ana, mas foi impedido por Jorge.

- Ela está se recuperando!

- Mas estamos sofrendo uma invasão! Temos que sair daqui, rápido!

Jorge pegou a garota no colo e saiu com o outro garoto em busca de Kevin.

- Os assaltos nessa última semana foram intensos, a cidade resolveu tomar uma providência.

Os braços do garoto estavam doendo, mesmo que não tivessem andado muito, Ana era quase do mesmo tamanho dele e correr segurando alguém não é muito fácil. Kevin veio correndo em direção a eles, também queria encontrá-los.

- Eles fecharam os dois lados e estão tacando explosivos! – Disse Kevin ofegante.

- Como vamos sair daqui? – Samuel gritava tentando superar o som dos explosivos e da multidão de rejeitados que estavam desesperados correndo de um lado para o outro.

- Não sei, precisamos de ajuda! – Kevin respondeu.

Continuaram em disparada pelos túneis. Os braços de Jorge já estavam dormentes e achou melhor revezar com Samuel passando a garota para ele. Uma garota morena de olhos claros, que fugia dos ataques, veio até Kevin.

- Achei uma saída! – A garota gritou.

- Ótimo, Raquel, onde ela fica?

- Depois do túnel principal, ela vai dar pra rede de esgoto da cidade.

Um exército de servidores entrou no túnel principal, os ataques com explosivos e os tiros foram matando vários rejeitados. Jorge pensou que nunca viria uma cena como aquela, o fogo causado pelas armas deixava o lugar numa temperatura insuportável.

Raquel ia à frente conduzindo Jorge e os outros, sempre falando com Kevin, os dois deviam ser amigos há muito tempo, desde que foram inseridos em corpos humanos, foi o que Jorge deduziu e realmente estava certo.

Uma rajada de tiros veio em direção a eles, que tiveram que jogar entre as rochas para se proteger. Um casal de jovens rejeitados passou por eles, fugindo também, mas não tiveram sorte, os servidores atiraram nos dois, que caíram mortos no chão.

Jorge avistou de trás da rocha que estava o supervisor Aragão, ele ia junto com os servidores atirando e matando, até que viu Samuel, que estava com Ana nos braços, e ordenou para seus homens atirassem.

- Veja se não é um daqueles servidores falsos, os outros dois devem estar por perto!

O garoto conseguiu desviar dos tiros, mesmo tendo Ana nos braços, que já abrirá os olhos.

- O que está acontecendo? – Disse a garota com a voz fraca.

- Um ataque! Invadiram os túneis!

O local onde se escondiam já havia sido descoberto, e todos saíram em disparada entre a multidão e o fogo que só aumentava. Jorge gostava de estudar guerras e revoltas na história, era sua matéria favorita, mas nunca tinha se imaginado no meio de uma.

Aragão vinha atrás com seus homens, perseguindo os rejeitados, um dos servidores apareceu bem na frente de Jorge e apontou a arma na sua cara, mas Samuel foi mais rápido e bateu na cabeça do homem com uma pedra, que caiu inconsciente no chão, Jorge recolheu a arma dele.

O supervisor avistou novamente os garotos, e reuniu seus homens para os encurralarem.

- Vou ensinar vocês a nos fazerem de bobos! – A maldade era explicita nos olhos de Aragão.

Jorge deu dois tiros, mas nenhum pegou nele, pelo contrário agora Aragão tinha Kevin em suas mãos, que tentava se afastar do supervisor a ponta pés, mas não adiantou muito, com um empurrão o homem o pôs no chão e com a arma apontada na cabeça do rapaz deu tiro certeiro. O corpo do rejeitado caiu sem vida no chão.

Naquele instante um sentimento tão grade de revolta cresceu dentro de Jorge que o tiro que ele deu com a arma acertou em cheio Aragão que caiu morto, em seguida saíram em disparada, menos Raquel que correu até o corpo de Kevin, mas foi impedida com outro tiro antes de chegar até ele, e seu corpo morto ficou ali estendido, a poucos metros do de seu amigo.

As lágrimas jorraram dos olhos do nosso herói e de seus amigos subterrâneos, mas continuaram correndo, mesmo com as pernas bambas. Por um instante todo o barulho da multidão desesperada, das labaredas de fogo e dos tiros, ficou nulo nos ouvidos de Jorge, sua mente tinha parado, por mais que fosse recente a amizade que tinha estabelecido com Kevin, a dor em seu peito era muito forte.

Samuel estava com falta de ar, por carregar Ana, a garota nem mais chorava, o choque foi tão grande que nem as lágrimas conseguiam sair. Jorge avistou uma grade sobre o chão, que estava escrito rede de esgoto, era uma passagem para fora do túnel.

As grades eram largas e não foi difícil passar, ao menos para Ana que mesmo com a ajuda dos amigos teve que se esforçar bastante. O lugar era tão escuro que não viram o barranco que estava sob eles e caíram de maduro no chão, cerca de uns seis ou sete metros, os ossos de todos ficaram doloridos, até os da garota que caiu em cima de Samuel.

Ficaram ali estendidos por uns vinte minutos, o peso da morte de Kevin impedia que eles se levantassem.

- Quando cai aqui ele foi o primeiro que me estendeu a mão, ele me salvou de ser capturada, e agora que precisava de mim eu estava incapacitada.

- Não foi culpa sua Ana, se eu tivesse conseguido acertar o tiro antes... – Lamentou Jorge.

- Parem com isso! Não foi culpa de ninguém, aliás, foi culpa de Aragão, que agora também está morto – Samuel sentia dores em todas as juntas devido ao tombo.

- Ele sabia que eu e você éramos humanos – Disse Jorge para Ana.

- Tudo que eu queria era voltar para casa – A garota imaginou-se de volta a escola e com a vida de antes, ruim, mas onde ninguém que ela gostava morria com tiros.

- Eu queria ter minha irmãzinha de volta! – Disse Samuel.

Jorge também pensou em estar de volta à superfície. Os sonhos tomaram conta dos três, mas o estrondo que ouviram de cima fez com que se levantassem e seguissem o caminho.

Ana se pôs de pé com a ajuda dos dois garotos e apoiada neles pôs se arrastar. Com uma das mãos Jorge erguia a chama isqueiro, que o salvou de Tino na superfície, e abriu caminho na escuridão. Seguiram pela rede de esgoto, acompanhando a leve barulho das águas sujas se movimentando.