Viagem Ao Subterrâneo
7 O plano
Jorge sentia todo seu corpo doendo e a mente também. Acabará de dar um fim em Aragão e mesmo que esse tivesse matado o infectado que foi tão legal com ele era difícil pensar que agora era um assassino, mas no fundo sabia que se não tivesse feito isso era ele quem estaria morto. Quando destruísse a árvore vermelha estaria matando toda a cidade subterrânea, mas se isso não acontecesse à superfície seria dominada.
Os três seguiram pela rede de esgoto até chegarem ao fim, onde encontraram algumas frestas na parede rochosa, foram lá que descansaram e passaram o resto do dia e a noite também.
Se embaixo da plataforma do metrô já era difícil diferenciar o dia da noite, na rede de esgoto não se tinha nem um pouco de iluminação era ainda pior, a fogueira improvisada que tinham feito com a blusa de frio de Samuel, usando a chama do isqueiro já se tinha ido há muito tempo e deixou um cheiro quase que insuportável no lugar, se não fosse o cansaço nem teriam conseguido dormir, agora eles viam como a ideia tinha sido idiota. Quando acordaram permaneceram no breu.
– Agora mesmo que precisamos sair daqui! – Disse Jorge na tentativa de afastar a depressão de todos.
– Desista disso! Não adianta! Mesmo se destruíssemos a árvore por onde sairíamos? – Ana já tinha se recuperado bastante do tiro.
– Pelo mesmo jeito que entramos.
– Acha que já não tentamos fazer isso! – Samuel estava com a voz rouca, além disso, a falta de água já afetava a todos.
– Mas qual é o problema? – Perguntou Jorge.
– Quando você chegou aqui simplesmente caiu e encontrou a cidade subterrânea, chegar de volta à superfície é muito mais difícil o caminha é cheio de túneis e os servidores também ficam protegendo as entradas – Ana respondeu.
– Não agora! – Interrompeu Samuel – Eles estão muito ocupados em formar exércitos para lutar contra a superfície e tem a árvore também.
– Quando estava lá no palácio você me disse que tinha descoberto alguma coisa – Jorge lembrou que estavam falando sobre isso antes de chegar um homem gritando que estavam sendo atacados.
– Eles vão invadir a superfície na próxima semana e por isso haviam colocado um novo sistema de proteção na árvore...
– Já sabemos disso tudo – interrompeu Ana, mas Samuel continuou explicando.
– O novo sistema é que em cada ponta do retângulo onde a árvore nasceu foi colocado polos de eletricidade, quando alguém se aproximar deles automaticamente vai ser disparado um campo de choque.
– Você sugere que achemos esses pontos e os destruímos? – Jorge estava empolgado de novo.
– Sim, e depois usamos um servidor para nos guiar pelo túnel ou corremos o risco de sair sozinhos, é melhor do que ficar aqui!
– Mas como vamos fazer tudo isso? – Ana os trouxe de volta a realidade.
– Lá dentro do palácio tem uma sala com arsenal de guerra, se entrarmos lá podemos roubar algumas – O garoto sugeriu.
– Só que não tem como entrar lá de novo.
– Existe uma passagem que dá para o andar subterrâneo do palácio, entramos por lá!
– Então é isso já temos um plano! – Ana também estava empolgada.
– Mas antes temos que conseguir água e comida, além de roupas novas – Jorge disse.
– Vamos subir até a cidade! – Sugeriu Samuel.
Caminharam pelos túneis da rede de esgoto na procura de alguma passagem para cidade, o trajeto era cheio de subidas e decidas, o que dificultava muito, além do mais a chama do isqueiro já estava fraca assim como Ana que ainda tinha dificuldade em andar.
RE-91, era a mensagem que estava gravada na tampa circular que lacrava uma suposta saída. Jorge e Samuel seguraram um de cada lado e com dificuldade a ergueram. Passaram os três pelo portal. A passagem dava para um dava para um dos bueiros da rua principal.
Os três garotos levaram o maior susto. Cartazes com a foto de Jorge estavam espalhados por toda a cidade, desde os prédios e o comércio até as os postes que emitiam aquela luz laranjada que substituía a luz do sol. A legenda estampada em letras garrafais O ASSASSINO DE ARAGÃO fez com que o garoto ficasse com mais raiva do que remorso. No ataque ao subterrâneo da estação Aragão matou dezenas de rejeitados com tiros que saíram somente de sua arma. Ele era o assassino e não Jorge!
– Temos que te esconder! – Disse Samuel.
Ambos puxaram o garoto até um beco entre dois prédios, onde ficavam algumas caçambas de lixo. Era incrível como mesmo infectados as características humanas ainda permaneciam, Jorge pensou.
– Fique aqui, deixe com a gente, pegamos roupas e tudo que precisamos e voltamos depois para te buscar – Disse Samuel para o garoto.
– Mas e se aparecer alguém aqui? Acho melhor ir com vocês.
– Não seja teimoso – Ana bravejou – Se for conosco só irá ser pego e aí adeus plano de fuga.
– Está bem fico aqui!
Jorge ficou sentado olhando para cima, já fazia mais de uma semana que não via o céu, sempre que erguia a visão apenas conseguia ver uma imensidão de rochas e depois a escuridão. Passaram trinta minutos até que Samuel e Ana retornassem com um saco e uma garrafa de água para o garoto beber, que tomou todo o seu conteúdo de uma só vez, estava com muita sede.
No saco havia uma blusa de frio, um jeans novo e também um par de tênis, e Jorge viu que os seus já estava cheio de buracos, um saco de batatas, que o garoto já foi abrindo. Os seus amigos já estavam de roupas novas.
– Coma! Temos que organizar bem rápido o que nós vamos fazer – Disse Ana com seu ar de liderança.
Enquanto trocava de roupa, Samuel e Ana planejavam o que iriam fazer.
– A maior parte dos servidores chegam de manhã, se fomos de madrugada, distraímos o guarda e entramos pela passagem que leva ao andar de baixo – Samuel traçava o plano.
– Mas como faremos pra sair de lá? – Disse Jorge já trocado.
– Já estaremos com as armas na mão, usamos algumas delas para deixar os servidores inconscientes.
Continuaram escondidos no beco durante o dia todo, pois era muito arriscado transitarem pela cidade com todos aqueles cartazes pregados. Comeram todo o suprimento que tinham conseguido e quando a noite caiu abandonaram o esconderijo e seguiram em direção ao palácio.
A cada quadra por qual passavam eles eram obrigados a se esconder, pois a vigilância dos servidores tinha aumentado. Chegaram pelos fundos do palácio e Samuel avistou a passagem a qual tinha descoberto.
O número de servidores em torno do palácio era abundante, seria bem difícil passar por eles. Os três esperaram que a madrugada chegasse, mas os homens uniformizados não saíram do local.
– Devem ter reforçado a proteção, depois que invadimos aquele dia ficaram preocupados se caso tentaríamos entrar de novo.
– Droga, como não pensei nisso antes! – Disse Samuel fechando o rosto com as mãos.
– É preciso distraí-los com alguma coisa – Sugeriu Jorge.
– Sim, mas como? – Disse Ana que estava se recuperando bem rápido do tiro que recebera de Aragão.
– Você ainda está com o seu isqueiro Jorge? – Samuel tinha cara de quem estava tendo uma ideia.
– Sim.
– Então faremos o seguinte, Ana, como ainda está se recuperando vai ser mais difícil pra você invadir o palácio.
– É, mas o que eu faço então? Fico esperando alguém vir aqui me matar?
– Não, pegue o isqueiro de Jorge e tire sua blusa de frio, coloque fogo nela e jogue na direção da árvore e depois se esconda. Isso vai distraí-los.
Ana deu a volta no castelo e fez o que Samuel havia lhe pedido, tirou a blusa e atacou fogo, em seguida arremessou na árvore, mas caiu bem longe, mesmo assim conseguiu chamar a atenção dos servidores que abandonaram os seus postos para ver o que estava acontecendo.
Com a passagem liberada os dois garotos correram até ela. Jorge teve dificuldade em empurrar a porta, mas com a ajuda de Samuel conseguiu passar. Um lance de escada surgiu aos seus pés, após passarem pela entrada a fecharam a porta como estava antes.
– Essas escadas vão dar pra onde? – Sussurrou Jorge parando Samuel pelo braço.
– Não sei, mas temos que seguir.
Chegaram ao fim da escada e se depararam com um pequeno salão cheio de objetos. Jorge se lembrou da sala em que pôs fogo antes de cair no subterrâneo, era come ela, só que um pouco maior e mais organizada.
– Vem por aqui! – Disse Samuel.
O garoto seguiu por onde amigo o conduzia. No trajeto deram de cara com um servidor, mas Jorge foi mais esperto e entrou numa salinha puxando Samuel. O cômodo era muito pequeno e tinha alguns esfregões e baldes.
– Essa foi por pouco! – Sussurrou Jorge com falta de ar pelo susto.
– Realmente foi por pouco!
– Mas temos que continuar! Você lembra o caminha para sala onde estão as armas?
– Acho que sim.
– Então vamos!
Logo que o servidor saiu do corredor os dois jovens abandonaram a salinha e retomaram o caminho. Após transitarem pelos corredores do andar inferior do palácio deram em um corredor cheio de portas.
– É aquela ali! – Disse Samuel apontando para uma das entradas.
– Espere! – Gritou Jorge para parar o amigo – Não é um pouco estranho que não tenha nem um servidor a protegendo.
– Eles devem estar todos protegendo a árvore.
Jorge foi na frente e abriu a porta, estava escuro lá dentro, assim que entraram voltaram a fechá-la e acenderam a luz. Ambos sentiram as pernas bambas pelo susto que levaram. Dois servidores estavam lá dentro à espera dos meninos.
– Acharam que iam nos passar a perna, não sabem que existem câmaras por todo o prédio – Falou um dos homens de uniforme.
Os dois garotos se sentiram idiotas por não terem pensado nisso antes.
Um dos servidores apontou a arma que tinha presa ao bolso e apontou para Jorge e disparou, mas o garoto foi mais rápido e se escondeu entre as caixas, mas Samuel não teve muita sorte, o outro servidor o agarrou pela camiseta.
Bem a frente de Jorge estava uma espécie de martelo, que o garoto atirou na cabeça do homem que com dor teve soltar Samuel. Os dois garotos se dispuseram a correr entre as prateleiras, mas os dois servidores eram bem rápidos.
Jorge tropeçou numa caixa cheia de bolinhas de borracha e teve a ideia de usa-las contra seus perseguidores. O garoto despejou todo o conteúdo no chão e os servidores na tentativa de agarra-los nem perceberam e caíram de maduro no chão.
Samuel já tinha enchido toda uma caixa com equipamentos, inclusive com uma arma que nunca tinha visto, mas estava escrito disparador de bombas, ele achou que talvez fosse útil na destruição da árvore.
Antes que pudessem escapar a porta abriu com tudo, provocando um estrondo, era Karidade e mais dois servidores.
– Vejam só quem voltou! – Disse a mulher vendo dois de seus homens se levantando do chão – Esses não prestam nem para cuidar de uns humanos.
Jorge sentiu que tudo estava perdido, mas viu que uma fumaça negra vinha surgindo no ar e em poucos segundos dominou tudo. Samuel agarrou o garoto pelos braços e arrastou-o para fora, a fumaça tinha tomado conta de todo o prédio. Os servidores ficaram dispersados tentando por as mãos neles, Karidade conseguiu pegar Jorge pelo braço, mas o garoto fez tanta força que a derrubou no chão.
Quando perceberam já estavam fora do palácio correndo com a caixa de armamentos pela rua principal.
– Foi você quem fez aquilo? – Perguntou Jorge ofegante.
– Sim. Achei umas esferas com o nome de fumaceiro e logo pensei que causaria aquilo e então derrubei todos que consegui.
– Agora só precisamos encontrar a Ana! Finalmente poderemos colocar nosso plano em prática!
Os dois garotos olharam um para o outro com a expressão de esperança.
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