Viagem Ao Subterrâneo
1 Pondo fogo na escola
Notas iniciais
Jorge evitava os olhares da turma que sentava logo atrás de sua fileira de poltronas encarando os slides feitos no PowerPoint, da palestra, onde estava escrito: Jovens Desaparecidos. Desde que uma garota do primeiro ano sumira nos aposentos da escola, a direção já havia feito pelo menos cinco reuniões como aquela no salão nobre.
O palestrante de meia-idade testava o microfone emitindo notas musicais como: Dó, ré, mi... O que ocasionava uma onda de risos na maioria dos alunos.
Uma bolinha feita de uma folha de papel amassado passou pelo garoto, e caiu no chão, próximo ao seu tênis encardido.
– Poxa, não consegui acertar no esquisito dos livros! – Os alunos que estavam junto com o menino que falara isso gargalhavam e repetiam o insulto.
– Se acha muito esperto me zoando, mas não consegue nem sair do primeiro ano.
Os amigos do garoto repetente agora riam dele.
– Vai deixar que ele fale assim com você, Tino! – Uma das garotas que estava com ele, gritava na expectativa de uma briga.
Tino deixou seus colegas e foi na direção de Jorge, mas quando o professor parou ao seu lado e sentou-se. Percebendo o risco de ver a palestra ser interrompida por uma luta livre entre alunos, fez com que Jorge saísse dali.
– Garoto, vá à sala de equipamentos eletrônicos e veja se encontra outro microfone.
A sala a qual o professor se referia, não só abrigava eletrônicos como todo tipo coisa, até mesmo produtos de limpeza, o lugar fedia mofo, mesmo que fosse um local espaçoso, na verdade era do tamanho de uma sala de aula, só que em vez de carteiras havia pilhas de caixas de papelão que tomavam conta do ambiente.
Enquanto procurava, Jorge ouviu o som da porta abrindo e se fechando. Era Tino que entrou na sala.
– Então o esquisito virou piadista! – O garoto disse isso para Jorge com um ar de deboche.
– Foi você que começou! — E se sentiu ridículo por ter respondido assim.
Antes que Jorge pudesse pensar em outra resposta Tino foi de encontro com ele, mas o menino conseguiu desviar e algumas caixas caíram em cima do agressor.
Junto das caixas uma lata de inseticida caiu rolando pelo chão indo parar nos pés de menino. Jorge se lembrou da aula que tinha tido sobre produtos industriais inflamáveis, lembrou também que estava com um isqueiro no bolso.
Tino se levantou e foi com um soco armado para cima de Jorge. Sem pensar no perigo, o menino pôs a chama na frente da saída do spray, e um jato de fogo azul incendiou a camisa do oponente.
Na tentativa de apagar o fogo, Tino fez com que ele se alastrasse pelas caixas de papelão e em poucos segundos a sala ficou em chamas. O garoto saiu correndo com a camisa toda queimada seguido de Jorge, mas foram para lados opostos da escola.
A fumaça já tinha ido pera o salão nobre, o que ocasionou um tumulto de alunos saindo em disparada para fora da escola. Jorge passou por baixo da arquibancada da quadra e se sentou entre dois latões e um monte de entulho. A escola tinha passado por uma reforma.
Sozinho pensou no que tinha feito, no máximo seria expulso. Sua mãe iria começar a chorar e reclamar de sua vida, algo que sempre fazia.
E agora? O que ia fazer?
Lembrou-se dos versos da canção de rock, que sempre dera forças para que ele nos momentos difíceis. Não era fácil ser o “esquisito dos livros”:
Living just to find emotion
Hiding somewhere in the night
Don't stop believin'
Hold on to the feelin'
“Vivendo apenas para encontrar emoções... Escondendo, em algum lugar pela noite... Não pare de acreditar. Agarre-se nesse sentimento.”
O garoto, de quinze anos, agarrou-se ao sentimento de força provocado pela música e pôs a enxugar o rosto, banindo as lágrimas que restavam.
Disposto a ir para casa enfrentar a mãe e seus ataques, deu meia volta e caiu num buraco fundo.
Quando digo fundo, quero dizer que ele tinha pelo menos uns cinco metros de profundidade. O impulso da queda fez com que Jorge ficasse tonto e com os músculos doloridos, ao chocar-se com chão.
Olhou para cima e a única coisa que pode ver da superfície era um círculo de luz. A primeira reação foi pegar o celular, mas ele estava sem área, tentou gritar, só que seria impossível alguém escutá-lo devido ao barulho que todos faziam por causa do incêndio.
Com a chama do isqueiro, viu que tinha um túnel a sua frente e seguiu por ele, na expectativa de que ele desse para alguma saída na superfície.
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