Viagem Ao Subterrâneo

2 O portal para o subterrâneo


Durante quinze minutos Jorge continuou rastejando pela passagem, se submetendo a pedregulhos e raízes que abriam ferimentos em sua pele, conforme prosseguia ficava mais cansado e com falta de ar, até que caiu novamente, indo parar em outro túnel bem maior que o de antes.

Nesse até conseguiu ficar de pé, e prosseguiu com a iluminação do isqueiro. Avistou no teto algumas manchas negras, erguendo a chama viu que se tratava de morcegos, muitos deles, e continuou andando a passos leves com medo de provoca-los. Não sabia que tipo de mal os morcegos causavam, mas também não queria descobrir.

Após um tempo caminhando encontrou uma fresta entre duas rochas, que emitia uma luz alaranjada. Pôs a se enfiar entre a passagem apertada, e se machucou ainda mais se esfregando entre as pedras.

Viu que estava em uma espécie de precipício, e quando olhou para cima não foi o céu azul que avistou, e sim placas de rochas, mas a surpresa foi ainda maior quando olhou para baixo.

Uma cidade com construções imensas de rochas esculpidas. Jorge não acreditava no que via. Naquele vácuo de ar no subsolo toda uma sociedade habitava uma grande metrópole.

O garoto ficou durante algum tempo impressionado, admirando o lugar fantástico a qual tinha descoberto, pode observar as ruas, as moradias calcárias e notou o quanto os habitantes eram organizados, não se via becos ou bairros construídos às pressas, ocasionando tumultos de entulho como na sua cidade, aquela era uma versão melhor do que tinha na superfície. O barulho emitido pelas grandes metrópoles, ali era equilibrado.

Não se via congestionamento, também não possuía carros nas ruas. Jorge estava efusivo, mas ao mesmo tempo sentia sede e fome, e não avistava nem água e muito menos comida.

Pensou que Indo para a cidade poderia encontrar de comer e beber, mas não tinha a mínima ideia de como descer até lá. Lembrou que o túnel a qual estava seguindo não tinha terminado e era cheio de decidas, talvez se continuasse por ele chegaria lá embaixo.

Passou pele fresta e se ralou de novo, além de sujo e maltrapilho tinha o rosto e braços arranhados, parecia até um garoto mendigo naquelas condições. Continuou seguindo pelo caminho que estava e pisou em falso, caindo de costas em uma pedra. O grito que soltou foi tão alto que acordou os morcegos, dezenas deles fora em direção a Jorge, que desesperado continuou gritando.

- Sai, sai, sai! – Os morcegos iam de encontro ao garoto enquanto ele gritava.

Demorou um pouco até que conseguiu se libertar dos bichos, mas encontrou outros pelo caminho, como aranhas, cobras, lagartos..., mas enfim conseguiu chegar ao fim do túnel.

De cima as construções rochosas pareciam enormes, mas agora que as via de baixo, Jorge ficou impressionado com o tamanho, elas eram gigantescas, maiores que as da superfície.

Seguiu caminhando pelas ruas e notou o quanto as pessoas eram limpas e tinham uma estatura ereta, nem pareciam humanos e sim robôs de filme que se passam no futuro. Todos olhavam de forma estranha para o garoto. Jorge sentiu vergonha, pensando que era por causa de seu estado.

Dois homens uniformizados vieram ao seu encontro, ambos agarram Jorge pelo braço, esse que tentou a todo custo se soltar, mas os homens eram fortes demais, para ele.

- Solta! Me larga! – Jorge gritava enquanto os dois homens conversavam entre eles, como se o garoto nem estivesse ali.

- Por onde esse humano escapou? — Um deles disse.

- Não sei, é melhor o levarmos até Aragão, ele saberá onde colocá-lo!

O menino continuou se debatendo para que o soltasse, agora estava com medo. Quem era Aragão? Jorge foi arrastado até uma plataforma de metrô, muito movimentado. O lugar era imenso, porém era bem mais organizado que e o de sua cidade. Devia ser por isso que não havia carros nas ruas – Pensou o garoto.

Os três passaram por uma porta de vidro que se abriu sozinha quando se aproximaram. Um homem ruivo, meio baixo e gordo, veio em direção a eles.

- Senhor supervisor, achamos esse humano andando pelas ruas – um dos homens de uniforme pôs diante do seu superior, e largou o braço de Jorge.

Até então o garoto não tinha percebido, mas todos eles tinham uma cicatriz no pescoço formando um x. O supervisor agarrou Jorge e procurou pelo seu pescoço uma daquelas marcas.

- Ele ainda não foi infectado, Levem-no até Karidade.

- Mas senhor Aragão, a senhora Karidade está cuidando do novo sistema se proteção da árvore.

- Então o prenda, até que ela possa cuidar dele! – E olhou para Jorge com ar de desdém – Não tenho tempo para isso!

O garoto aproveitou a brecha que teve e saiu correndo pela plataforma se enfiando entre a multidão. As pessoas não corriam como ele, elas marchavam como soldados, os dois homens que tinham segurado Jorge tentavam alcança-lo, mas ele foi mais esperto e conseguiu entrar em umas das passagens pro metrô, que se fechou assim que os homens se aproximavam para pegá-lo.

Assim que as portas se abriram, dezenas de homens uniformizados vieram na direção do menino, que se enfiou debaixo dos trilhos. Jorge sentiu que algo o segurava pelo braço, mas o local onde estava era bem escuro.

- Vem comigo! – Era a voz de uma menina.

Jorge tentou se afastar dela e sair correndo, mas a garota o apertava forte, não deixando que ele escapasse.

- Não vou te fazer nada, também não fui infectada!

- Como posso confiar em você?

- Coloque a mão no meu pescoço – a menina conduziu a os dedos do garoto até o lugar onde devia estar à cicatriz, mas ele sentiu que não tinha nenhuma cicatriz.

- Tem um lugar lá em cima que é seguro, é onde ficam os rejeitados.

Os dois garotos deram as mãos e saíram caminhando ao lado dos trilhos.