Viagem Ao Subterrâneo
5 Missão de espionagem
A manhã estava escura como sempre. Ana foi a primeira a acordar, Jorge se pôs de pé um pouco depois, ainda não estava acostumado com o clima do subterrâneo. O café da manhã já estava pronto e os dois se puseram a comer. Samuel chegou logo em seguida, os três tinham combinado de se encontrarem de manhã na caverna para seguirem com o plano.
Os três se vestiram com as roupas dos servidores e trataram de fazer a cicatriz com a tinta, ninguém podia desconfiar que eles não estivessem infectados, pois seriam pegos na hora.
Saíram por volta do que seria o meio-dia, mas o local ainda continuava sombrio. Passaram pela plataforma do metrô e chegaram até a rua principal. Os uniformes tinham servidos direitinho em Samuel e Ana, já em Jorge ficou mais largo.
- Onde conseguiu essas roupas de servidores? – Perguntou Jorge.
- Digamos que tive que deixar alguns deles inconscientes.
- Mas eles não podem dar queixa? – Samuel falou num tom de “como isso é obvio”.
- Usei serventina, ficarão inconscientes por um longo tempo.
- Onde você conseguiu isso? – Samuel parecia preocupado agora.
- Fingi que estava doente e fui para aqueles postos de recuperação, então roubei um pouco da substância e escapei antes que eles achassem que eu era uma rejeitada, ou pior que eu ainda era humana.
- O que é essa serventina? – Jorge estava confuso.
- É como se fosse uma anestesia, ela é usada no processo de infecção, descobri isso com Kevin, se caso for usada em dose alta qualquer corpo fica inconsciente por dias.
- Você trouxe um pouco dela aí?
- Sim, podemos se precisarmos.
Caminharam por quinze minutos pela rua principal, o que teria levado menos temos se não tivessem que andar como os outros, que andavam como tartarugas, até avistaram a árvore vermelha, ela era imensa e a folhagem tinha cor tão intensa que lembrava sangue.
- Ei, vocês – Era Aragão que vinha todo nervosinho até os três – Não vão fazer a reverência? – Os garotos se entreolharam e acenaram com a cabeça.
- Estou precisando de mais homens na ala norte da cidade, aquelas pragas rejeitadas invadiram de novo um armazém!
E saiu logo em seguida pisando fundo.
Os três ignoraram as ordens de Aragão, afinal não eram servidores de verdade, e contornaram a árvore vermelha dando de cara com a principal entrada do palácio. O lugar era imenso, cheio de torres, realmente o aspecto lembrava uma catedral.
- Vamos nos separar! Se ficarmos os três juntos chamará muita atenção.
- Mas se nos perdermos lá dentro – Jorge estava impressionado pelo tamanho do palácio, isso porque via apenas do lado de fora, mas Ana estava certa que eles iriam chamar mais a atenção.
- Pois bem, você fica comigo então Jorge, Samuel vai pela direção oposta.
- Como farei para eu me comunicar com vocês?
- Nós nos encontramos daqui à uma hora na escadaria.
- Tudo bem, então vamos!
A entrada do castelo estava cercada por servidores, mas como os três vestiam uniformes foi fácil passar. Samuel seguiu pela ala esquerda e os outros dois subiram as escadas. Por dentro o palácio não seguia o estilo clássico, como por fora, parecia que estavam em uma daquelas bases de controle do governo que se via em filmes americanos, que passavam no futuro.
No andar de cima havia um grande salão com quatro portas que se abriam pelas extremidades da sala, no centro estava uma estátua de bronze de um homem alto e forte. Jorge e Ana chegaram mais perto para ler o que estava escrito na placa.
Primeiro Ministro da Cidade do Subterrâneo, desde 1998.
Logo atrás se via um quadro enorme com a pintura de uma mulher de meia idade, aparentemente forte e com uma expressão de autoridade, ela dava mais medo que o ministro. Chegaram perto para ler de quem se tratava.
Karidade, conselheira da cidade, governanta do palácio e primeira supervisora.
- Então essa é a tal Karidade! – Disse Ana.
- Pelo que Aragão falou, um pouco antes de eu fugir dele, é ela quem está cuidando do sistema de proteção da árvore.
- Precisamos achar a sala dela!
- Por que vocês querem achar a minha sala? – A mulher do quadro estava bem atrás deles.
Os dois jovens se viraram espantados, ela era igualzinha a do quadro, só que dava mais medo, mas não porque tinha cara de malvada, como de vilãs da tv, ela tinha cara de quem cumpria todas as regras e fazia com que todos cumprissem.
- Foi Aragão quem mandou vocês? – A voz dela era fina e delicada, mas ao mesmo tempo impunha autoridade.
- Sim... Foi ele – Dava para ver na voz de Jorge o quanto ele estava nervoso.
- Mas hoje não é dia de avaliação dos servidores. Não consigo entender a determinação de passar por cima das normas que Aragão tem, mas já que estão aqui vamos até minha sala.
O palácio parecia uma base tecnológica até chegarem à sala da mulher, ela era inteira decorada com estilo dos castelos da era absolutista, na Europa. A supervisora chefe sentou-se e pediu para que os dois fizessem o mesmo.
- Nós estamos um pouco em falta de servidores, a grande maioria está no projeto de proteção da árvore, ou seja, não estamos com tempo para testes físicos, ainda mais com esses rejeitados invadindo a cidade, mas se estão aqui é porque já sabem usar as armas de combate. Não é mesmo?
- Sim, passamos nisso! – Ana falou antes que Jorge tentasse dizer alguma coisa, dava para ver que ele estava nervoso, pois a mulher não parava de encara-lo.
- Muito bem, preciso saber a nota de vocês deixe- me diga o número.
- O meu é 324589-2 – Ana disse isso olhando os números que estavam na manga do uniforme, e Jorge fez o mesmo.
- É o meu... É 356890-2!
Enquanto diziam os números a mulher digitava num computador.
- Hum, a nota de vocês são altas, 324589-2 fez oito, já você 356890-2 fez 9, vou coloca-los na proteção da árvore.
- O que temos de fazer?
- Bem, estamos com um novo projeto para protegê-la, pois ela pode ficar vulnerável agora que pretendemos invadir a superfície.
Jorge olhou para Ana em choque, a garota também estava aflita com o que a mulher havia dito.
- Algum problema com vocês?
- Não, é que... Estamos felizes por servir em algo tão importante.
- Realmente é muito importante, mas vamos falar sobre o que se trata o novo projeto de proteção.
Os três foram para o centro da sala e com um estralo de palmas Karidade fez com que as cortinas se fechassem, um holograma da árvore vermelha surgiu no meio da sala.
- Como vocês sabem essa árvore é nossa maior riqueza, ela que nos fornece energia para manter a cidade e sem ela estaríamos afundados, pois rochas iriam desabar por todos os lados. O novo sistema de proteção desenvolvido por mim é uma maneira de protegê-la e nos proteger também, aqui do lado foram estalado sensores que capitam o movimento de seres desconhecidos, ou seja, que não possuem esses números, e disparam choques que podem matar qualquer coisa e desse lado... O que está acontecendo com sua cicatriz?
Ana pôs a mão na marca de tinta e sentiu um molhado nos dedos, a pintura estava derretendo.
- Humanos! – Karidade começou a gritar e acionou um alarme que movimentou todo o palácio.
A mulher tirou do blazer que vestia uma arma que Jorge nunca tinha visto e apontou para eles. Não tinham por onde escapar, mas uma ideia súbita veio na mente do garoto. Jorge pegou Ana pelo braço e pulou pela janela que estava aberta, mas antes que saíssem da sala Karidade acertou um tiro na garota.
Os dois caíram do segundo andar do palácio e deram nos galhos da árvore vermelha. Ana estava despejando sangue e mal conseguia se erguer, mas Jorge a pegou no colo e saiu em disparada pela grama que também era vermelha, e que lembrava um mar de sangue.
- Não, pare agora! – A garota gritou para o menino.
- Vamos ser pegos! – Disse Jorge
- Não se lembra dos censores que a Karidade falou.
- Mas estamos com os números na roupa.
Os dois passaram pelo campo de eletricidade sem nenhum problema.
Na caverna de Ana, Jorge despejou-a em cima do coxão, a garota gemia de dor e ainda estava com febre.
- Você não tem nenhum medicamento aqui? – Perguntou o garoto.
- Não, procure o Kevin.
- Mas onde vou acha-lo?
- AHHHHH! Não consigo suportar essa dor!
Jorge saiu correndo na procura de Kevin, mas o local dos rejeitados era cheio de túneis. O garoto continuou em disparada gritando pelo nome de Kevin, mas não o encontrava, até trombou com um cara, era ele.
- A Ana está morrendo, você precisa ajuda-la!
- Morrendo? O que houve com ela?
- Ela levou um tiro!
- Espere aqui vou buscar alguns medicamentos.
Não demorou muito Kevin voltou com uma caixa e ambos partiram a toda velocidade para caverna. Ana ainda gemia de dor e estava perdendo muito sangue.
- Calma! Precisa tirar a bala.
Kevin tirou de dentro de Ana uma bala de madeira e jogou para que Jorge a pegasse.
- É uma estaca envenenada, ela faz com que todo o sangue do corpo seja jorrado para fora.
- Como faz para inibir o efeito?
- Com esse frasco aí na caixa!
Jorge pegou o medicamento e entregou para o rapaz, que despejou no ferimento de Ana, em seguida fez um curativo. O sangue parou de vazar.
- Valeu a pena ter assaltado uma farmácia.
Antes de fechar os olhos e apagar, Ana pronunciou o nome de Samuel, até então Jorge não tinha se lembrado do garoto, estava muito preocupado com Ana, mas agora sentia um aperto no coração, ele não podia ter deixado o garoto para trás.
Teriam pegado Samuel?
Ele ainda estaria vivo?
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