Vestido Da Sorte
19 Pior tipo de homem que existe.
Notas iniciais
19. Pior tipo de homem que existe.
Dizer que eu ia embora deixava as coisas mais fáceis de certa forma.
Eu tinha certeza de que queria ir embora. De que eu ia embora.
Mas se Noah pedisse que eu ficasse...
... eu ficaria.
É tão estranho como os nossos sentimentos mudam tão rapidamente que nossa mente não consegue acompanhar. E o que o seu corpo já sabe, sua mente recém está descobrindo. E isso estava acontecendo comigo e meu corpo sabia que eu era de Noah. A cada toque, a cada palavra, a cada gesto de Noah, meu corpo se sentia atraído por ele. Era como se Noah fosse um imã do qual me puxava para ele. Porém, minha mente estava relutando contra isso, lutava contra o sentimento, lutava com o coração. Porque ela sabia que Cavalcanti era problema, e ela tinha razão.
Noah Cavalcanti era o pior tipo de homem que podia existir.
Era pior até mesmo dos "bad boys", dos "cafajestes" e dos "não valem nada".
Noah era o tipo de homem que você não conhece. Que não sabe de nada sobre sua vida. Que não tem a menor ideia de quem ele seja e que se diverte com esse enigma que criou. Era o tipo de que você não poderia confiar completamente. Era o mais perigoso dos homens... e foi esse que conseguiu conquistar meu coração.
E eu tive a confirmação ao sentir seus olhos tocarem meu corpo com certa dor. Eu soube que eu já o amava mesmo sem tomar consciência disso, sem saber que eu o desejava mais do que um amante. Eu o desejava sem ao menos notar esse fato.
E eu me perguntava quando havia me apaixonado realmente por Noah.
Eu o olhei esperando sua reação, porém, ele continuava me olhando como se estivesse entendido errado o que eu havia dito, como se estivesse assimilando a minha fala e eu podia ver as engrenagens de sua mente funcionando.
– Como assim, você vai embora? – Pergunta por fim quebrando a distância entre nós e me obrigando a parar de andar. – Você vai para onde?
– Me ofereceram o emprego de volta. – Explico deixando as palavras morrerem no vento que batia levemente contra nós dois. – Eles querem que eu volte para a agência, e eu vou embora amanhã de tarde.
Cavalcanti me olhou daquele jeito. Daquele jeito que você olha para alguém quando quer dizer várias coisas, mas não consegue dizer nada. Daquele jeito que eu o olhava sempre, mesmo não sabendo o que falar. Daquela mesma forma que eu vivia o olhando a procura de alguma resposta, a procura das perguntas certas... a procura das palavras certas para dizer.
– E você aceitou, assim do nada? – Pergunta tentando manter seu tom neutro, mas ele não havia conseguido. – Você vai embora sem mais nem menos?
– Noah, porque eu continuaria nessa cidade? – Questiono abraçando meu próprio corpo e esperado sua resposta, porque eu queria mesmo saber. Eu queria que ele me desse um único motivo para continuar ali, eu queria que Noah dissesse para eu ficar.
– Sua família? Seus amigos? Seu emprego? – E com cada frase dita, diminuía a distância entre nós dois, até eu poder senti-lo perto o bastante que eu poderia toca-lo com apenas um gesto. Ele estava em minha frente e eu obriguei meus olhos erguerem-se para olhar nos seus tempestuosos. – Eu? – Termina murmurando essa última palavra como se fosse um segredo. Um segredo de nós dois.
– Noah, você não me quer na sua vida. – Digo mesmo sabendo que no fundo era uma grande mentira, digo sem ao mesmo me preocupar com o meu tom de voz.
– Como você tem tanta certeza? – Pergunta em tom sussurrado.
– Você não foi no casamento de Sophia, você nunca responde minhas perguntas, você sempre está com algum mistério e eu não consigo desvenda-lo nunca, mesmo eu tentando, eu nunca consigo entende-lo por completo. Você me engana, você mente para mim, você vira minha cabeça do avesso e me faz quere-lo de uma maneira insuportável e eu estava disposta, e estou disposta, a me entregar para você... mas mesmo assim, você continua sendo esse completo babaca que nunca diz nada de palpável, que continua com os seus joguinhos que já perderam a graça... você continua sendo o mesmo cara que eu conheci e tive medo de me aproximar. – Digo em um tom sussurrado, mas ainda sim, com convicção.
Eu realmente havia me cansado de Noah e seus joguinhos. Eu apenas queria que tudo terminasse, e se para isso fosse preciso que eu fosse embora, que seja, eu iria embora.
– Madalene, eu disse que é complicado. – Afirmou passando uma de suas mãos pelo meu rosto e afastando uma das mechas do meu cabelo, enquanto sua outra mão estava segundo meu braço para certificar-se de que eu não iria sair correndo do nada. – Eu não posso te dar todas as respostas, tem coisas que você não entende... mas você não pode ir Madalene, você não me deixar.
– Você sabe da minha vida, você me viu chegar ao fundo do poço com meus pais, você viu eu renascer... e diz que não pode me contar nada? Cadê o justo? Eu contei para você o que não devia ter contado, eu chorei perto de você... eu... eu me entreguei a você e você não pode me responder nada?
– Madalene... – Começou a dizer e eu sabia que viria mais uma desculpa.
– Não Noah, não quero mais ouvir suas desculpas. – Afirmo elevando meu tom de voz e me soltando dele. – Eu não quero mais falar com você, eu não quero e não quero Cavalcanti. – Falo e tinha consciência de que estava soando como uma garota mimada, mas na verdade, eu era uma grande garota mimada e idiota. – E Noah, procure outra pessoa para escutar seus joguinhos e brincar com você, porque eu cansei. – Digo por fim virando-me e seguindo em frente, mesmo com Noah me chamando, eu não parei de andar, porque não queria fraquejar.
Mas senti lágrimas tocando meu rosto e me livrei delas com as costas de minha mão, e andei para até a minha casa ignorando tudo a minha volta. Eu queria chegar em casa e chorar, eu queria deitar na minha cama e dormir e foi o que fiz. Cheguei em meu apartamento e fui direto para minha cama deitando-me nela e adormecendo após chorar de frustação.
***
Era três horas da manhã quando escutei o interfone da minha casa tocar.
Tentei ignorar ao máximo o barulho, mas era impossível porque a pessoa que o tocava era insistente demais ou havia entalado seu dedo no interfone porque não tinha um segundo de paz sequer.
Levantei preguiçosamente e irritada por ter sido acordada e liberei o portão sem ao menos saber quem era. Eu sei, tolice! Mas eu estava com sono e estava torcendo para ser um dos demais inquilinos que haviam perdido as chaves, como acontecia de vez em quando.
Quando estava quase deitando em minha cama novamente, ouvi a campainha da minha porta tocar e amaldiçoei quem estivesse ali, naquela hora. Suspirei forte e obriguei minhas pernas voltarem até a sala e abri a porta dando de cara com Noah segurando a companhia sem largar por nenhum momento.
Assim que ele viu que eu havia aberto a porta, soltou a campainha e se lançou para dentro do meu apartamento cambaleando e quase caindo no chão. Fechei a porta e o olhei preocupada. Sua roupa estava suja, seu cabelo desgrenhado e ele possuía cheiro de bebida e em uma de suas mãos estava com uma garrafa de vinho quase no fim.
– Você está bêbado. – Constatei idiotamente.
– Eu? Imagina, eu estou muito bem. – Afirmou com um tom falso de estar e cada palavra demorou para sair de sua boca. – Nunca estive melhor em toda a minha vida.
– O que veio fazer aqui Cavalcanti? – Perguntei ignorando o fato de estar falando com um bêbado. – São três da manhã.
– Eu vim falar com você.
– Estou ouvindo.
– Você não pode ir embora. – Diz aproximando-me de mim e eu pude sentir o seu cheiro de vinho cada vez mais forte. – Você não pode voltar para Nova Iorque. – Afirma com convicção desta vez.
– Já falamos sobre isso...
– Não, você falou. – Diz silenciando-me com um dedo. – Você não me deixou falar, você apenas falou e falou. Você sempre faz isso... fala, fala e fala, e nunca deixa ninguém dizer mais nada... e a última palavra, desta vez, será minha. – Termina dando um gole em seu vinho e depois me olhando nos olhos.
– Estou ouvindo. – Repeti cruzando os braços.
– Madalene Gregory... você não pode ir embora! – Repetiu. – Você não pode simplesmente ir embora e me deixar sozinho, você não pode largar tudo o que conquistou e voltar para aquele lugar. Você não pensou em como Sophia irá lidar com isso? Ou o que sua família irá dizer? – Pergunta, e eu abro a boca para falar, mas Noah recomeça seu discurso. – Gregory, você não pode chegar na cidade, entrar na minha vida, me fazer ama-la e depois ir embora como se não fosse nada. Você não me deixar a ver navios, você não pode simplesmente me conquistar e dizer adeus... – Seu tom de voz foi ficando cada vez mais baixo. – Você não pode me fazer deseja-la e depois ir embora, você simplesmente não pode me deixar.
Eu o olhei e sustentei o seu olhar que não era mais uma tempestade. Ele era claro, era limpo, era sincero. Eu o sustentei o máximo que pude e li sua alma. Eu, pela primeira vez, consegui ver como Noah realmente era com aquele olhar sem sua barreira de sempre. Eu pude vislumbrar Cavalcanti como nunca havia feito antes.
– Você só está dizendo isso, porque está bêbado. – Digo em voz baixa.
– Você sabe que não é verdade.
– E o que você quer que eu faça agora? – Questiono ainda o olhando.
– Quero que seja minha... apenas minha. – Completou aproximando sua boca da minha, e quando ia me beijar, eu o empurrei para longe.
– Você devia passar a noite aqui em casa, não quero que saia nesse estado. – Digo mudando de assunto rapidamente, porque por mais que eu quisesse me entregar a Noah, eu não queria que estivesse bêbado. Eu não o queria daquele jeito. Eu o queria sóbrio. – Vou pegar um travesseiro e cobertor, pode ficar no sofá.
E fujo de sua presença entrando no meu quarto e fechando a porta. Solto minha respiração e ando até o armário para pegar as coisas para Cavalcanti passar a noite. Fico alguns minutos com a cabeça encostada na porta pensando no que ele havia me dito. Noah havia se declarado para mim, ele havia afirmado que não queria que eu fosse embora. Kim havia dito que eu iria conseguir todas as respostas deles quando ele estivesse totalmente bêbado e de fato isso aconteceu.
Eu só não estava preparada para ouvi-las.
Se isso faz sentido.
Desencostei do armário e sai do quarto entrando na sala e me deparando com Noah saindo do banheiro com a cabeça molhada e sem a garrafa de vinho em suas mãos. Coloco o que havia pego em cima do sofá e fico o olhando enquanto movimentava para perto de mim. Ele havia tirado da camisa e colocado em uma parte qualquer do chão. E eu odiava pensar naquilo, mas ele estava sexy daquele jeito.
– Desculpe por aparecer essa hora... – Começa a dizer, mas eu o corto.
– Não tem importância, foi bom ter vindo para cá e não ficado sozinho na rua.
– Certo. – Diz e o silêncio constrangedor instaurou-se entre nós dois por cerca de três minutos, mas ele o quebrou e eu agradeci por isso. – Você deve estar cansada, devia ir dormir, amanhã você tem uma viajem para fazer.
– Ah, claro, eu estou indo. – Balbucio dando meia volta. – A viajem, tinha me esquecido dela. – Murmuro abrindo a porta do meu quarto. – Boa noite Noah.
– Boa noite Mada. – E é a última coisa que ele me fala, porque logo depois eu fecho a porta do meu quarto e o silêncio volta reinar.
Faço o percurso até minha cama e sento-me nela olhando para o escuro. Eu não estava a fim de dormir, na verdade, não dormiria nem se quisesse. As palavras de Noah estavam rodando minha mente, elas estavam me fazendo reviver os últimos minutos e me fazendo ficar arrependida pelo que eu fiz.
Não sei quanto tempo demorei em minha briga interna, mas logo eu estava levantando de minha cama e abrindo a porta em um estrondo. Encontrei Noah sentado no sofá olhando para o nada e com o meu movimento, seu corpo virou-se e ele me olhou com aquela expressão de esperança. Fiz o contorno do sofá e parei na sua frente com uma coragem que nem sequer eu sabia que tinha.
– Não me faça me arrepender disso. – Pedi antes de invadir o seu espaço e tomar o lugar em seu colo roubando-lhe um beijo cheio de desejo e fui correspondida de imediato sentindo o seu gosto de vinho invadir minha boca e eu não me importei com aquilo, tudo o que eu queria era passar a noite com Noah e não me arrepender daquilo na manhã seguinte.
E algo me dizia que eu não iria me arrepender.
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