Vestido Da Sorte
20 Sofá desconfortavel.
Notas iniciais
20. Sofá desconfortavel.
Acordei incomodada com os raios do sol tocando meu rosto através da fina cortina que enfeitava minha sala. Eu realmente precisava comprar cortinais melhores para aquele cômodo, porque desse jeito estava impossível de dormir na sala.
Antes que eu possa me mover para espreguiçar-me e, depois, levantar indo para a minha cama dormir sem o maldito sol me importunando, sinto uma respiração descompassada em meu pescoço e eu rapidamente recordo o que havia acontecido naquela madrugada.
Tomo o cuidado para não me mover muito rapidamente, porque não queria acordar Noah. O único problema era que além de seu rosto estar encaixado em meu pescoço, uma de suas mãos estavam sobre meu corpo me trazendo para perto dele — e consequentemente me impedindo de cair do sofá — além de uma de suas pernas estarem por cima das minhas. Ou seja, qualquer movimento faria com que eu caísse do sofá e o faria acordar. Por isso decidi ficar quieta por mais algum tempo, apenas aproveitando o calor do seu corpo sobre o meu.
Fechei os olhos e tentei ignorar o brilho do sol batendo direito em mim e assim que fecho os olhos lembro perfeitamente da madrugada e, como eu tinha certeza, não me arrependi nem um pouco. Havia sido como eu havia imaginado que seria — e para quem estava na seca há um mês, foi extremamente revigorante ter aquela experiência com Noah. E Cavalcanti havia feito com que eu desistisse da ideia de ir embora, mesmo eu sabendo que não teria coragem de voltar para Nova Iorque de qualquer jeito, Cavalcanti só reforçou os motivos para eu ficar.
– Bom dia. – Escuto a voz embargada de sono de Noah murmurar beijado meu pescoço logo em seguida e eu acabo sorrindo com aquilo, porque sua barba por fazer fazia cosquinhas.
– Bom dia. – Desejei de volta virando meu rosto e o olhando. – Dormiu bem?
– Seu sofá realmente não é o mais confortável do mundo. – Constatou e eu ri com aquilo. – Mas sobrevivi.
– Ótimo. – Afirmo sorrindo com aquilo. – E eu devo concordar, esse sofá é horrível para se dormir. Acho que vou ter que comprar um novo e que dê para dormir nele. – Observo pensando naquilo.
– Ou da próxima vez, podemos usar sua cama. – Murmura beijando minha boca rapidamente. – Ou a minha. – Conclui com um sussurro safado.
– A cama me parece um lugar melhor. – Observo retribuindo o seu sorriso.
Noah abre sua boca para falar alguma coisa, mas escuto uma música tocar e olho para o lado e encontro o celular de Cavalcanti sobre a mesinha — sabe-se lá como ela chegou naquele lugar — tocando Boulevard of Broken Dreams.
– Merda, merda, merda. – Escuto ele xingar erguendo seu corpo e puxando o celular da mesinha e atendo logo em seguida mau humorado.
Levanto do sofá para dar mais "privacidade", ou espaço para atender o telefone e comecei o processo de pegar as roupas do chão. Eu estava usando apenas minha calcinha e meu sutiã ambos de renda preta, porque eu não quis dormir nua no sofá. Juntei meu pijama que estava uma parte de cada lado da sala, abri a porta do quarto e joguei a roupa lá dentro. Depois eu pensava nelas. Recolhi as roupas de Noah e sem pensar duas vezes, andei até a máquina de lavar roupa e coloquei lá dentro, já que aquela coisa estava cheirando a vinho e eu não o deixaria colocar aquela roupa novamente no corpo naquele estado. Volto a sala e encontro com Noah olhando para o sofá com o celular já desligado.
– Está tudo bem?
– Mais ou menos. – Responde com um suspiro fazendo um movimento para eu me aproximar dele. – Minha irmã que havia me ligado.
Informação interessante, eu não sabia que Noah tinha uma irmã.
– Você tem uma irmã? – Pergunto aproximando-me dele como havia pedido.
– Na verdade, tenho mais de uma. – Respondeu dando de ombros.
– E o que ela queria? – Indago tomando o lugar no sofá ao seu lado.
– Queria dizer que eu estou deserdado, de fato, da família de meu pai.
– Hm, o que? – Pergunto sem entender nada. – Você foi deserdado pelo seu pai? Isso é possivel? Quer dizer, porque ele fez isso?
– Digamos que eu e meu pai não nos damos bem, brigamos, eu vim para cá e ele não gostou, por fim, após muitas brigas e ameaças, ele cumpriu a sua ameaça e eu estou oficialmente abandonando o nome Stewart para sempre.
– Seu nome é Noah Cavalcanti Stewart? – Pergunto e percebo o quão não-sonoro seu nome ficava com o último nome.
– Tecnicamente, sim. Mas eu não uso o nome Stewart. – Responde e eu fico o olhando e pensando naquilo.
Noah havia um segundo sobrenome e eu havia descoberto recém agora. Ele havia mais de uma irmã, brigas com seu pai e agora tinha sido deserdado? Só faltava eu descobrir que na verdade Noah era uma mulher e que sua cantora favorita é a Shakira.
– Noah Cavalcanti Stewart, você terá que me contar muita coisa! – Afirmo em tom sério. – Porque se vamos nos pegar como noite passada, quero pelo menos saber quem é o meu parceiro.
– Acho que é justo. – Ponderou fazendo uma careta enquanto pensava. – Mas a história é grande, então, prepara-se.
– Eu não vou embora daqui tão cedo. – Conclui ajeitando-me melhor no sofá.
E Noah começa sua história. Conta-me desde a morte de sua mãe, os problemas com o seu pai e sobre suas irmãs; o porque dele ter escolhido Seek para morar, e o porque de seu pai o deserdar; contou o porque dele ter se tornado vendedor de vinhos e o porque. Enfim, Noah abriu sua vida para mim e eu fiquei o escutando sem falar nada, apenas assimilando tudo o que ele me dizia e tentando encaixar cada palavra no seu devido lugar para que no fim eu tivesse um quebra-cabeça solucionado e um desenho formado de Noah. Quando Cavalcanti terminou de falar, ele me olhou e eu fiquei em silêncio por um bom tempo.
– Hm, eu te contei minha vida e você não vai falar nada? – Quebra o silêncio.
– Eu tenho algumas perguntas. – Digo ajeitando no sofá e ficando sentada nas minhas próprias pernas. – Primeiro, então é você aquele garoto idiota que estudou comigo na primeira série?
– Eu não era idiota. – Defendeu-se.
– Você era um completo idiota, você pintou minhas tranças! – Aleguei apontando o meu dedo para Noah. – Você as deixou azul, e não venha dizer que foi um acidente, porque não foi.
– Ok madame, peço desculpas por pintar suas lindas tranças. – Desculpa-se com um sorriso divertido no rosto. – Próxima pergunta, por favor.
– Porque você não apareceu no casamento? Eu te convidei, fiquei que nem idiota na festa te esperando e você nem ao mesmo mandou uma mensagem, isso não foi legal, nem um pouco legal.
– Isso foi porque meu pai havia me ligado mais cedo e exigido que eu fosse para a cidade grande, porque ele queria acertar algumas coisas e eu não pude simplesmente dizer não para o Senhor Stewart. – Contou e eu fiquei o olhando com uma sobrancelha erguida. – Tá, eu sei, foi mal, eu devia ter ligado, mandando mensagem ou feito algum sinal de fumaça para te avisar, mas não deu. – Falou suspirando por fim. – Me desculpa, ok?
– Talvez eu te desculpa. – Digo. – Mas que isso não se repita mais.
E era melhor não se repetir mesmo, porque eu não já não havia gostado de ser largada daquele jeito por Noah e se acontecesse pela segunda vez seria uma puta sacanagem comigo. Mas eu o entendia, esse lance da família. Eu, mais do que ninguém, sabia como era ter problemas com os pais e a grande necessidade de obedece-los pelo menos uma vez de vez enquanto. Por isso não o culpava totalmente, mas não custava nada ter avisado que não iria aparecer no casamento.
– Sim senhorita!
– Qual é o seu problema com o meu irmão? – Pergunto mudando de assunto e indo a uma das perguntas que eu sempre quis saber a resposta. Era nítido que Max não ia com a cara de Noah e eu ambicionava essa resposta.
– Na verdade eu não sei direito. – Respondeu e eu levantei minhas duas sobrancelhas sem acreditar nele. – Sério Mada, eu não faço a menor ideia porque ele não gosta de mim, talvez seja porque eu estar pegando a irmã dele, ou porque eu sou... bem, eu. – Respondeu e eu fiquei o olhando sem acreditar. – Ou talvez porque eu tenha ganho dele em um jogo uma vez quando sua mãe me chamou para jantar e Max ficou me devendo 100 dólares e teve que me pagar.
E então eu assenti.
Max começa a odiar as pessoas após um jogo no qual ele perdeu, principalmente quando se tem dinheiro envolvido. Isso é t]ao a cara de meu irmão! Porque Max sempre foi e sempre será um péssimo perdedor, e um jogador pior ainda. Quando jogávamos em casa, Max ficava sem falar comigo por uma semana quando eu ganhava dele, ou me acusava de ter roubado no jogo. Então não duvidei nem um pouco quando Noah falou que meu irmão não gostava dele por causa da perda do jogo, ainda mais com o dinheiro envolvido.
– Isso faz sentido. – Afirmei balançando a cabeça minimamente. – Max é um péssimo perdedor e um jogador pior ainda. – Comento dando de ombros. – E tenho mais uma pergunta.
– Você é cheia de perguntas, meu Deus Mada!
– Você que é um mistério ambulante. – Acuso.
– Ok, pergunte.
– Porque você decidiu me contar tudo isso? Tipo, responder minhas perguntas, contar sobre sua mãe e seu pai, porque decidiu se abrir comigo? – Indago desejando ouvir sua resposta, porque eu queria ouvir de sua boca o que ele havia me dito ontem enquanto estava bêbado.
Eu queria ter certeza de que havia sido real.
Noah me olha por um tempo e eu o encaro de volta com os pensamentos a todo vapor, com a pulsação acelerada e o coração querendo sair do meu peito. Com o seu olhar eu sentia suar frio, sentia me perdendo em seu olhar e me sentia uma completa tonta por gostar do cara misterioso que se mostrou alguém que eu não imaginava que fosse, e nem por isso, eu deixei de gostar dele. Na verdade, tudo fazia com que eu gostasse de Noah cada vez mais, porque ele parecia alguém normal, alguém com problemas e isso me conquistou mais. Noah não parecia mais aquele cara inabalável de antes, na verdade, começou a parecer um homem normal e não o Mister Mistério da vida.
– Porque Madalene Gregory... – Começou e parou de falar aproximando-se de mim. – Porque eu estou apaixonado por você.
E eu senti meu coração sair do meu corpo e voltar em uma fração de segundos com aquela frase. Ontem a noite eu havia ouvido, mas Noah estava bêbado e eu irritada. Hoje tudo estava diferente, a situação estava diferente e aquelas palavras acabaram com últimas barreiras que eu tinha contra me envolver, elas acabaram com todos os meus argumentos para ir embora.
– E eu também estou apaixonada por você Noah Cavalcanti. – E ele me beijou com desejo. Mas não aquele desejo de ontem, um desejo mais contido. E seu beijo não foi desesperador, foi calmo e suave. Da maneira certa e na medida certa. – Eu tenho mais uma pergunta. – Suspirei quando nos separamos.
– E qual é ela?
– Como você parou os barulhos daquela casa? Tinha fantasmas mesmo? – Pergunto referindo-me a casa de sua falecida mãe e do pequeno boato de casa mal assombrada.
– Era apenas algumas portas quebradas e janelas mal fechadas. – Noah responde rindo com aquilo. – Pelo menos eu não achei nenhum fantasma quando cheguei lá e olha que eu procurei.
– Você é um caçador de fantasmas então?
– Com toda a certeza. – Responde com um sorriso e eu faço o mesmo.
– Pois eu sou uma caçadora de vampiros.
– Vampiros estão com nada, fantasmas são os melhores para se caçar.
– Humph. Vampiros são muito melhores do que esses lençóis brancos flutuantes. – Afirmo revirando os olhos com a preferencia de Noah. – E eu estou com fome.
– Eu também estou, o que tem para comer?
– Deve ter água só, eu nunca como no meu apartamento. – Respondo levantando do sofá. – Mas acho que deve ter sobrado alguma coisa, acho que tem pizza no congelador.
– Pizza no café da manhã é ótimo.
– Com toda a certeza! – Concordei e andei até a cozinha e com Noah ao meu encalço. Abro a geladeira e encontro metade de uma pizza abandonada e tiro da geladeira colocando em cima da bancada. – Acho que dá para comer ainda.
– Você é a pior dona de casa que existe Mada, nem comida tem. – Observou e eu revirei os olhos.
– Diz isso porque sabe cozinha, aposto que se não soubesse viveria que nem eu. – Comento pegando os pedaços de pizzas, coloco em um prato e levo até o micro-ondas e determino o tempo.
– Mas teria comida em casa. – Comenta e eu reviro os olhos.
O micro-ondas avisa que a comida estava aquecida no mesmo instante em que a campainha toca. Olho para Noah rapidamente e vejo o que ele estava usando, ele me devolve o mesmo olhar e vejo que nenhum dos dois estava apto para abrir aquela porta, mas mesmo assim, ando até ela e vejo quem era a pessoa que parecia que havia colado seu dedo na campainha.
– É a minha mãe. – Murmuro surpresa.
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