Vestido Da Sorte
1 Estou de férias.
Notas iniciais
Ele é um prólogo/capítulo, entende?
Boa Leitura!
1. Estou de férias.
O táxi estava indo rápido demais do previsto.
Não conseguia achar uma boa desculpa para meus pais por estar voltando para casa no meio da semana, em meio à temporada de caça da cidade, no inverno. Pode parecer besteira, mas na minha família voltar para casa nessa temporada significa duas coisas: (a) vou caçar (b) perdi o emprego.
E eu não poderia dizer que era a primeira opção por motivos óbvios: Eu não gostava de caçar. Sempre achei uma crueldade com o que fazem com os pobres bichos. Nunca entendi essa temporada de caça, mas meu pai sempre disse “acostume-se” e depois saia com sua espingarda. Acho que por esse motivo, eu era um pouco vegetariana.
Em todo o caso, seria pior se eu contasse que eu fui “demitida” da agência de modelos. Pode parecer inacreditável, mas fui demitida da agência para o qual eu trabalhava. Agora você se pergunta o porquê, e eu lhe respondo: Por dois quilos a mais do que as outras modelos!
Sim, por dois quilos a mais em meu corpo, fui expulsa da agência. E disseram que mesmo que eu consiga de novo meu corpo, era para procurar outra agência já que eu estava em sua “lista negra”. O mundo da moda é mesmo cruel!
Por esse motivo, aqui estou eu. Dentro de um táxi, na velha cidade de Seek – que fica entre o estado de Texas e Oklahoma. Provavelmente você nunca viu a cidade, mas acredite que ela está lá. É uma cidade grande, comparada com algumas, mas não gigante quanto Nova York, por exemplo.
Em todo o caso, quando o táxi para na frente de uma casa de dois andares, paredes de tijolos, jardim com plantas soterradas de neve e janelas amplas, meu coração para.
– Moça. – Ouço o taxista dizer. – Vai pagar em dinheiro a corrida?
– Oi? – Pergunto idiotamente. – Sim, sim. Claro. – Falo abrindo minha bolsa em busca da carteira. Pego o dinheiro certo e entrego ao motorista.
– Obrigado. – Ele agradece.
Desço do carro com minhas botas de salto tentando não escorregar no gelo do asfalto. Vou até o porta-malas do carro e tiro minha única mala contendo poucas coisas – já que basicamente, as roupas que eu usava tiveram que ficar com a agência. Fecho o porta-malas e vejo o táxi desaparecer da rua.
Respiro fundo e ando em direção à construção torcendo para que em menos de um minuto eu tenha uma resposta a mais do que “fui demitida” ou que eles não perguntassem o porquê deu estar ali e ficassem felizes por poder passar um tempo com sua segunda filha.
Reviro os olhos com esse pensamento. Conhecendo minha família, eles iam perguntar assim que eu colocasse os pés na maldita casa. Subo os três degraus e toco a campainha, já que eu havia perdido a chave.
Ouço barulho do lado de dentro da casa.
“Ótimo, uma festa”, penso revirando os olhos e apertando minha jaqueta.
– Já vou! – Escuto minha mãe gritar. Em menos de um minuto a porta se abre revelando os cabelos loiros de minha mãe e sua expressão de surpresa. – Madalene?
– Olá mamãe. – Digo com um sorriso. – Estava com saudades! – Emendo abraçando-a tentando evitar qualquer questionamento de sua parte.
– Eu também estava com saudades! – Ela diz retribuindo o abraço. – Você não avisou que chegaria, se eu soubesse teria preparado sua comida favorita.
– Eu quis fazer surpresa! – Digo, mas completando em minha mente “vai ser uma bela surpresa!”. – Espero que não esteja atrapalhando.
– E desde quando filha minha atrapalha? – Ela diz sorrindo. – Vamos, entre! Com esse seu vestido vai congelar! – Ela diz puxando minha mala para dentro de casa enquanto eu tirava meu casaco e o colocava no gancho no hall da casa. – Jared, Cris, olha quem chegou! – Minha mãe grita.
– Espero que seja a pizza, estou morrendo de fome. – Ouço Jared, meu pai, gritar de volta.
– Não meu bem, é a Madalene. – Minha mãe responde me puxando pelo corredor até a cozinha.
– Madalene? – Meu pai fala se virando para a porta. – Madalene!
– Oi pai. – Digo sorrido e indo abraça-lo.
Após o abraço, eu olho para as pessoas que estavam na sala. Meu pai, meu irmão mais novo, a tia Meg, o tio Jô, a prima Priscila e a prima Julieta. Todos estavam em volta da bancada e em cadeiras deixando pouco espaço na cozinha.
– Oi pessoal! – Digo por fim.
– Madalene. – Escuto Cris, meu irmão, vir em minha direção se jogando em cima de mim. Eu o pego no colo. – Você voltou para casa.
– Pode acreditar. – Digo o abraçando forte.
Cris é caçula da família. Ele tem apenas sete anos, uma inteligência admirável e bochechas extremamente “apertáveis”. Logo minhas primas vieram me dar oi também, Julieta e Priscila são irmãs gêmeas e tem 17 anos. Meus tios Meg e Jô vieram me cumprimentar também. Minha mãe acabou trazendo uma cadeira para eu sentar, e logo todos estavam fazendo perguntas.
– Como é Nova York? – Priscila pergunta rapidamente.
– Como é passar o ano novo lá? – Sua irmã emenda.
– Porque está usando um vestido nesse frio? – Meu irmãozinho pergunta.
– Veio para a temporada de caça? – Meu tio pergunta animado.
– Está com fome querida? – Minha tia pergunta pegando um pratinho de salgadinho e colocando na mesa a minha frente.
– O que faz aqui? – Meu pai pergunta por fim.
Eu fico um pouco desesperada com as perguntas, mas acabo respondendo todas. Tentando falar pouco, mas de forma satisfatória.
– Nova York é perfeita, o ano novo é sem comparação, o melhor do mundo. Estou usando o vestido porque gosto dele, e não estou com frio. Tio, eu não gosto de caçar. E não estou com fome agora tia, comi no avião. – Olho para meu pai pensando na desculpa e acabo falando a primeira coisa que vem em minha mente. – Estou de férias. – Sorriu para mostrar que não estou mentindo. – Enfim, estou de férias e pensei em passar com vocês esses dias.
– Eu não sabia que modelos tiravam férias. – Julieta responde.
– Todo mundo tira férias. – Replico. – Então, posso ficar em casa? – Pergunto olhando para minha mãe.
– É claro que sim. – Ela responde animada. – Vai ser bom ter você aqui conosco.
– Vai ser ótimo! – Meu pai diz sorrindo. – Porque não leva sua mala para o quarto e depois desce para comermos a demorada pizza?
– Meu quarto não está sendo usado? – Pergunto surpresa.
– Oh, não. Antes sim, mas agora ele está do jeito que você deixou. – Minha mãe fala. – Vá trocar essa roupa antes que pegue pneumonia.
– Tudo bem. – Digo levantando-me e saindo da cozinha.
Vou até minha mala e minha bolsa, e as levo para o terceiro quarto à esquerda subindo as escadas. Ao encontrar percorro os olhos por tudo e percebo que ainda era meu quarto, embora algumas coisas estiverem mudadas. Não havia mais pôsteres de artistas nas paredes, minha mesa estava organizada, minha cama feita de uma forma que eu nunca soube fazer e meu espelho estava totalmente limpo. Mesmo assim, ainda o quarto em que cresci, fugi pela janela, que tive bons e maus momentos nele.
Respiro fundo, entro no quarto, deixo minha mala e minha bolsa perto da cama. Ando até os espelhos em frente a minha cama – elas eram as portas do guarda-roupa embutido na parede. Olho meu reflexo. Já não era mesma de quando sai dessa cidade. Meus cabelos que antes eram loiros e longos, agora eram castanhos e iam até os ombros. Minhas roupas já não eram mais aquelas de “menininhas”, no momento eu estava usando um vestido preto com a saia um pouco rodada, botas de cano alto que iam até os meus joelhos. Um colar estava em meu pescoço e anéis em meus dedos.
– Tivemos que arrumar algumas coisas em seu quarto, mas ele continua o mesmo. – Minha mãe diz entrando no quarto. – Estou feliz que esteja em casa.
– Senti saudades daqui. – Comento verdadeiramente. – Em Nova York tudo é rápido e temos que estar sempre na mesma velocidade, é bom ter sossego.
– Estou feliz que tenha escolhido passar suas férias aqui na cidade em vez de sair pelo mundo com seu namorado. – Minha mãe comenta com um sorriso. – Deveria trocar de roupa, está ficando frio. – Ela conclui. – Bem, estamos te esperando lá em baixo.
– Estou bem com a roupa, e já estou indo. – Digo vendo minha mãe sair para voltar à cozinha.
Olho-me no espelho de novo. Eu não havia contato para ninguém que não namorava mais, que não era mais modelo e que não estava de férias. Aguentei sem chorar quando fui “demitida”, não hesitei em contar uma mentira, porém, quando Frederick havia me dispensado, não pude controlar minhas lágrimas.
Eu nunca o amei de verdade, e sei que ele nunca me amou. Porém, ver que ele havia me dispensado por não ser mais a “modelo gostosa do interior”, como ele me apresentava aos seus amigos, mostrava que eu não pertencia mais aquele mundo do glamour, foi quando realmente a ficha caiu.
Afastei qualquer pensamento negativo da minha cabeça, já que era vida nova. Não tinha um plano certo para seguir – além do mais eu sempre fui péssima em planos – mas como não havia nada certo ao que fazer, decidi que amanhã seria um bom dia para recomeçar minha vida.
Notas finais
Ah, gostam de capítulos grandes (3 mil palavras acima) ou pequenos (entre 2 mil e 3 mil palavras)?
O próximo está pronto, então... Devo postar?
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