Vestido Da Sorte
14 Bônus do Noah
Notas iniciais
Bônus do Noah
– Esqueça Evangelina. – Digo pela milésima vez.
– Mas Noah, você não pode simplesmente se mudar sem mais nem menos. – Afirma cruzando os braços e batendo o pé no chão impaciente. – Você não pode me esquecer nessa casa como se fosse um brinquedo qualquer.
Eu a olho e reviro os olhos.
Evangelina sempre foi de drama, desde pequena e isso me irritava às vezes. Com ela tudo era intenso, extremo. Ou era sim, ou era não. Não tinha um talvez. E é claro que não aceitava um “não” com tamanha facilidade, ainda mais quando a vontade dela estava em jogo.
– Eva, não torne tudo mais difícil. – Peço suspirando e me aproximando dela. – Você sabe que eu não posso mais ficar nessa casa. – Lembro mais uma vez levado minhas mãos até seus brações e os descendo até encontrar sua mão e apertar. – Então não faça mais drama, não é tão fácil deixar essa vida.
– Eu não sou dramática. – Argumenta revirando os olhos e depois olha para mim. – Eu só não aceito que meu irmãozinho querido vá sair de casa. – Evangelina fala suspirando contraria. – Eu posso tentar falar com o papai, sei que ele não quer que você vá embora também.
– Evangelina. – Repreendo-a.
– Noah, você é muito chato! – Ela acusa-me ficando emburrada.
– Às vezes parece que a caçula é você e não eu. – Eu afirmo abrindo um sorriso. – E eu só estou me mudando de cidade, não para outro país e nem estou te abandonando.
– Mas tem que ser aquela cidade? – Eva questiona afastando-se de mim e me olhando seriamente. – Tantas cidades e você precisa escolher aquela? Justo ela?
Respiro fundo mais uma vez. Era sempre a mesma história nesses últimos dias.
Primeiro o fato de eu estar me mudando de cidade, já que meu querido pai me expulsou de casa depois que eu larguei a faculdade de medicina. Então veio a história da cidade que eu escolhi para viver, já não bastava o estresse da mudança, eu ainda tinha que fazer minha irmã entender o porquê da escolha de Seek.
– Já conversamos sobre isso Evangelina. – Eu a lembro dando as costas para minha irmã e indo fechar o porta malas, depois de ter conferido se todas as malas estavam ali. – Você vem?
– Eu posso não estar feliz com sua decisão, mas não deixaria de te levar para o aeroporto. – Ela afirma revirando os olhos enquanto eu jogava as chaves do carro e ela pegava com um movimento rápido. – Vamos lá maninho, vamos enfrentar esse trânsito miserável. – Evangelina diz dando a volta no carro e entrando no banco do motorista.
Evangelina era minha única irmã legítima, sendo dois anos mais velha. Eu tinha mais três irmãs, com idades de 15, 12 e 05 anos, mas não tinha tanto contato com elas, já que eram de casamentos diferentes e elas não moravam na casa com meu pai. Só nos encontrávamos em festas da família e poucas palavras eram trocadas, já que não havia assunto. Ao que parece o sangue do meu pai não era o suficiente para sermos “irmãos” de verdade.
Enfim, Evangelina não era muito parecida comigo. Enquanto eu havia herdado os cabelos castanhos de minha mãe, Eva tinha os cabelos ruivos iguais ao do meu pai. Seus olhos eram de verdes, que nem os da minha mãe. Sua pele antes era branca, mas como havia passado dois meses de férias na praia, ela estava morena. E é claro, tinha uma tatuagem em forma de estrelas que ocupavam boa parte de suas costas, mesmo eu não gostando de tatuagens, eu não poderia negar que aquelas eram bonitas.
Demoramos uma hora para chegarmos ao aeroporto, e tivemos a sorte do trânsito ter cooperado conosco aquele dia. Normalmente demorávamos duas horas, no mínimo para chegar aonde queríamos. Eva ficou o caminho inteiro tentando me convencer que eu não deveria ir embora e sim voltar com ela como se nada tivesse acontecido, mas eu estava decido e não mudaria de ideia tão fácil.
Após eu ter feito o check-in e ter despachado minhas malas, fiquei aguardando no saguão com Eva meu voo sem chamado. Ela estava impaciente, olhando para todos os lados e eu não sabia o que fazer para convencê-la de que eu não estava cometendo um erro.
– Eva. – Chamo sua atenção. – Lembra quando éramos pequenos e você vivia dizendo que não iria se casar? – Pergunto sabendo que ela se lembrava disso.
Evangelina abre um sorriso e revira os olhos cruzando os braços.
– Claro que lembro.
– E o que aconteceu? – Pergunto arqueando uma sobrancelha. – Você ficou noiva e vai se casar em breve.
– Mas o que isso tem haver com você? – Questiona.
– É a mesma coisa, eu estou me mudando. – Tento esclarecer. – Não é o fim do mundo.
– Mas eu não vou me mudar de cidade em busca de uma loucura como você. – Argumenta, mas eu só balanço a cabeça. – Às vezes eu tenho certeza de que você é muito burro Noah Cavalcanti!
– Não me condene. Você mesma queria ir comigo que eu sei. – Falo cutucando ela e sorrindo. – Tenho certeza de que queria ir comigo para aquela casa mal assombrada.
– Nem morta! – Afirma revirando os olhos. – Eu preferia enfrentar as três esposas do nosso pai a voltar naquele lugar.
– Cuidado, isso pode se realizar. – Alerto com um sorriso nos lábios.
Quando ela falar mais alguma coisa, meu voo é chamado.
– Eu odeio despedidas. – Ela afirma me puxando para um abraço.
– Isso não é despedida, acha que vai se livrar de mim assim tão fácil?
– Idiota. – Murmura. – Cace fantasmas por mim.
– Pode deixar. – Eu afirmo me afastando dela. – Ligo quando chegar.
– É melhor, senão eu conto para o papai onde você está.
– Não se atreva. – Ameaço parando e olhando para ela. – Até mais.
– Boa viajem. – Deseja e eu começo a andar em direção ao avião.
***
– Um suco, por favor. – Peço para aeromoça que tinha acabado de parar ao meu lado.
Ela me alcança o de laranja, o único que tinha no carrinho e depois volta a caminhar.
Estava naquele avião há meia hora, e faltava pouco para eu chegar ao meu destino. Eu estava começando uma vida nova, uma vida do qual meu pai não apoia e minha irmã ainda não aceita. Eu realmente estava ferrado.
Havia muitas razões para eu ter escolhido Seek em vez das demais cidades. A principal dela é que tinha uma casa lá para mim, meu pai não tinha poder sobre ela e se tivesse teria mandado queima-la na primeira oportunidade. E a segunda razão foi que eu havia conseguido comprar uma loja de vinhos de um senhor que queria se aposentar então tudo estava perfeito para minha mudança.
Antes de eu decidir fazer etnologia, eu cursava veterinária já que meu pai possui uma fazenda e queria que eu tocasse os seus negócios, por eu ser o seu único filho entre as quatro mulheres. Mas, depois de um ano percebi que aquilo realmente não era para mim. Eu não queria cuidar de uma fazenda, não queria ser que nem o meu pai e nem seguir os seus sonhos. Queria ser expert de vinhos, queria fazer fortuna com isso.
Meu pai é um homem ocupado aparecendo em casa apenas na hora do jantar e a conversa o mínimo possível com as demais pessoas, depois se retira para seu escritório que passa dias e noites sem fim lá dentro.
Meu pai já foi casado quatro vezes, e eles sempre acabam quase pela mesma causa: Sua má vontade familiar; seu pouco tempo em casa. De suas quatro mulheres, três delas lhe renderam uma filha e do primeiro casamento, Eva e eu nascemos. Recentemente ficou noivo de uma mulher quase de sua idade, e temos quase certeza de que eles não vão durar mais do que dois meses. Nunca dura!
Por ser sempre ocupado, nunca se interessa muito com a vida dos seus filhos, embora sempre que precisávamos de alguma coisa temos na mesma hora. Isso é um beneficio que eu não ouso reclamar, nem um pouco. Por exemplo, Eva queria um apartamento para morar com o seu noivo depois do casamento, meu pai foi lá e disse que ela poderia escolher qualquer que seria seu presente de casamento.
Enfim, assim que larguei veterinária não contei para o meu pai por não achar algo necessário e terminei minha faculdade de etnologia em paz. Até que meu pai descobriu o que eu tinha feito semana passada e disse que eu tinha uma semana para sair de casa e seguir minha vida... E então, a cá estou no avião indo para Seek.
Poderia ser pior, eu poderia ter engravido alguma ex-namorada ou não ter guardado algum dinheiro no banco. Ou não ter casa para morar, ou emprego. As possibilidades de “como poderia ser pior” são infinitas.
Tiro meu celular do bolso e checo as horas. Fazia uma hora que estava ali, e sentia um tédio imenso. O senhor de idade sentado ao meu lado estava dormindo, o que eu achei uma pena já que poderia ser interessante ele me contar suas histórias como sempre acontece. Mas como ele dormia, e não havia nenhuma moça para eu paquerar, ficaria no tédio por um bom tempo.
Nem as revistas que tinham no avião estavam me deixando animado.
Por fim, entro no bloco de notas do meu celular e memorizo mais uma vez o endereço da minha nova casa. Eu havia morado nela quando era menor, com minha mãe, minha irmã e meu pai. Eu tinha seis anos, mais ou menos, quando fui embora de lá.
Estar voltando era estranho, ainda mais depois da morte de minha mãe.
Ela teve câncer do pulmão e acabou falecendo quando eu tinha dez anos. Meus pais não estavam mais casados, mas nem por isso meu pai deixou de pagar tudo o que ele podia para curar minha mãe dando todo o suporte preciso. Mas tem coisas que o dinheiro não pode comprar, e minha mãe faleceu.
Evangelina é a que mais sente falta dela, ainda mais depois que ficou noiva. Ela fica resmungando pela casa toda desejando que nossa mãe estivesse ali para ajuda-la com tudo, mesmo tendo Raquel ao seu lado (sua melhor amiga).
Por fim, acabo pegando meus fones de ouvido e durmo o resto da viajem. Sou acordado pelo senhor ao meu lado assim que o voo pousa e saiu do avião sentindo o frio invadir minhas roupas despreparadas para aquele clima. O restante dos movimentos são mecânicos: Pegar a mala, entrar num táxi e ir para minha nova casa.
Assim que adentro a rua que um dia fora da minha infância, um clima nostálgico instaura-se em minha mente e eu afasto aquilo rapidamente. Não estava ali para remoer o passado, e sim para olhar o futuro!
Saiu do táxi após ter pagado e olho para os lados.
As casas continuavam as mesmas, com suas flores nas varandas e neve cobrindo tudo. Dou alguns passos em direção a porta da minha nova casa, quando escuto alguém falar comigo.
– Olá. – Retribuo para um menino que não parecia ter dez anos ainda.
– Oi, qual é o seu nome? – Pergunta abrindo um sorriso.
Eu fico um pouco surpreso com aquilo. Não havia chegado nem cinco minutos e uma criança já vinha falar comigo. É, acho que eu mudei realmente de cenários e tinha que me acostumar com aquilo.
– Sou Noah e você? – Respondo sentando-me nos degraus da escada para ficar em sua altura.
– Pode me chamar de Cris, todos me chamam de Cris. – Ele responde balançando o corpo para os lados. – Você vai morar ai agora Noah?
– Vou sim, e você? Onde mora?
– Nessa casa. – Cris fala apontando para a casa ao lado da minha.
– Somos vizinhos então. – Observo olhando para a casa por um tempo. – Qual é o seu sobrenome mesmo?
– Gregory. – Responde sem dar muita atenção. – Você trouxe muitas malas. – Diz inclinando seu corpo para olhar melhor. – Nem quando minha irmã vem me visitar traz tantas malas assim.
– É porque eu estou me mudando, aposto que ela só vem para ficar alguns dias com você. – Explico olhando para a quantidade de malas. – Mas devo concordar, são muitas mesmo.
– Madalene diz que quando ela trouxer muitas malas é porque a vida dela acabou. – Cris comenta dando de ombros. – Mas eu não sei o que ela quer dizer.
Nem eu fazia ideia do que ele estava falando.
“Gregory.”, pensei. Aquele sobrenome não era estranho, eu conhecia de algum lugar. Ainda mais esse nome: Madalene. Eu também já havia ouvido em algum lugar, só não lembrava aonde, nem quando e se tinha ouvido realmente.
– Cristiano Gregory! – Escuto uma mulher gritar da outra casa caminhando em direção da criança. – Quantas vezes vou ter que dizer para não falar com estranhos?
– Ele é o Noah mãe, nosso novo vizinho! – Cris fala correndo até sua mãe e pegando sua mãe começando a puxa-la em minha direção. Levanto da escada e tiro o gelo de minhas roupas. – Ele é legal, e olha o tanto de mala que ele trouxe!
– Olá. – Cumprimento a senhora assim que ela fica em minha frente.
– Prazer... Noah? – Cumprimenta-me ao mesmo tempo em que impedia Cris de sair de perto dela. – Acabou de se mudar?
– Cinco minutos na vizinhança. – Informo colocando minhas mãos no bolso do casaco.
– Desculpe meu filho, ele é um menino muito curioso. – Ela afirma puxando o garoto para sua frente e o impedindo de fazer qualquer outra coisa além de ficar parado. – A propósito, sou Sarah Gregory.
– Cris parece ser bem legal, não é amigão? – Digo bagunçando o cabelo dele.
– Vai ficar muito tempo na vizinhança?
– Pretendo viver aqui por um longo tempo. – Respondo.
Não era do tipo que respondia as coisas com facilidade, nem contava minha vida, mas uma coisa que eu aprendi é que sempre se deve responder aos vizinhos para não haver mal entendidos no futuro. Mas também não se deve exagerar nas informações.
– Ótimo, porque não janta conosco amanhã de noite? – Sarah convida. – Tenho certeza de que meu marido irá adorar te conhecer, e Cris gosta da ideia, não é?
– Sim! – Cris diz empurrando os braços da mãe para o lado e fugindo dela. – Você vai jantar lá em casa, não é?
– Com toda a certeza. – Afirmo abrindo um sorriso brincalhão.
– Então está combinado Noah... Qual seu sobrenome mesmo?
– Cavalcanti. – Respondo olhando para Sarah.
– Certo, nos vemos amanhã. – Ela diz dando um rápido aceno e depois indo em direção ao seu filho. – Cristiano, você não vai fugir do banho mais uma vez!
Eu fico olhando por mais alguns segundos os dois, antes de abrir a porta e colocar todas as malas para dentro de casa. Fecho e tranco a porta.
Olho em volta, aquilo estava precisando de uma faxina urgentemente. Devia ter poeira acumulada de mais de dez anos, já que depois que nos mudamos ninguém havia voltado para aquela casa. Dou uma rápida passada e tiro os lençóis que cobriam os móveis deixados, eles pareciam todos bem conservados e por hora, tudo estava ótimo!
Subo as escadas e abro todas as janelas possíveis. Apoio meus braços na mureta da sacada e olho para frente imaginando no que eu havia me metido e se eu encontraria o que procurava nessa cidade, além de desvendar alguns enigmas do passado.
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