Versos Noturnos
37 A fala que me falta
Sempre fui de pouca fala,
Mas de muitas letras.
Elas rondam minha cabeça,
Embaralhando-se em diferentes pensamentos
Que querem ocupar um mesmo espaço,
Num mesmo instante.
Algumas vezes juntam-se em amarras bem apertadas,
Tentando dar sentido às emoções,
Ou então se libertam delas,
Buscando conforto na desordem causada.
Às vezes o entendimento machuca.
Se tento dar som às palavras,
Vazão aos sentimentos,
Trava-me a língua,
Cora-me a cara,
E obrigo-me a desviar o olhar,
Sabendo que ele poderia dizer o que não consegui.
Mas tudo se torna mais simples
Se me é permitido escrever.
Meu coração vai parar em minhas mãos,
Sendo traduzido em movimentos suaves.
E sem precisar de borracha para corrigir-me,
(pois sou incorrigível)
Vou largando coisas há muito guardadas
Num pedaço de papel,
Esperando que o tempo não apague
O que já foi escrito,
Mas que me ajude a continuar a história.
Uma história que eu queria que fosse minha realidade,
Mas que só está no papel.
Pois me falta a coragem para buscar a felicidade.
Faltam-me razões para tornar dinâmico o que parecia estático,
Transformando tudo em um filme colorido,
Com falas criadas,
Sentimentos recíprocos,
Finais felizes e um para sempre que dure
Mesmo depois dos créditos finais.
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