Verschneit

8 Você pode correr


Ada respirou profundamente antes de tentar empurrar com o pé aquilo que tinha julgado ser uma raiz de árvore. Talvez a imagem de uma pessoa estendida ali tivesse sido apenas um truque de sua imaginação, por isso tinha que ter certeza. Tudo havia voltado a ficar escuro num segundo e era impossível dizer alguma coisa só de olhar, mas mesmo assim, o empurrão logo provou que aquilo não podia se tratar de um pedaço de árvore afinal de contas. Ada respirou fundo outra vez, então se abaixou para tentar identificar quem estava ali, e se estava vivo. Devia ser um dos donos das pegadas que estiveram seguindo. Quem mais poderia? Como que para respondê-la, uma nova rajada de vento movimentou as folhas rapidamente por alguns instantes.

Era o cocheiro. O mesmo que a levara por boa parte da trilha no começo do dia e o mesmo que Ada esperava encontrar na manhã seguinte. Estava completamente imóvel, mas Ada não pôde tirar mais nenhuma outra conclusão, já que a luz fraca não durou por muito tempo e tudo caiu em escuridão outra vez. Será que ele estava bem? A jovem tateou desajeitadamente o pescoço do homem para tentar sentir sua pulsação. Nada — sua pele estava fria como pedra.

Ada ainda passou mais algum tempo procurando em vão por sinais de vida, mas era óbvio que o cocheiro estava morto. Ele devia ter entrado na floresta durante a tempestade (certamente por culpa dos cavalos descontrolados) e sofrido um acidente, mais ou menos da mesma maneira como havia ocorrido com ela, Sir Reinhardt e o mordomo. Não havia outra explicação. Mas também não havia nem sinal da carruagem por ali.

“Céus”, suspirou Ada, ao mesmo tempo em que uma nova hipótese surgia vagarosamente em sua cabeça: e se alguma coisa tivesse assassinado o cocheiro? E se ele tivesse descido da carruagem por vontade própria e se perdido? Ada esperou por alguns minutos para tentar checar essa possibilidade, mas o vento não estava mais disposto a colaborar com sua investigação. A garota não saberia dizer se o cocheiro havia sido atacado por um animal feroz, caído da carruagem ou simplesmente desmaiado e congelado até a morte, porque não havia luz suficiente para que ela pudesse enxergar os ferimentos. E ela sentia que não devia mais ficar ali. Precisava encontrar Reinhardt e Gideon o quanto antes.

“Não há fantasmas nessa floresta”, disse para si mesma, e levantou-se silenciosamente.

Assim que se pôs de pé, seus olhos conseguiram captar um pouco de luz que vinha da sua direita, como se uma clareira estivesse aberta há uns bons metros de distância — o que fazia daquela a direção mais convidativa para se seguir. Ada caminhou para lá com muito cuidado, esforçando-se para distinguir qualquer som que parecesse ameaçador ou que pudesse revelar o caminho que Gideon e Reinhardt tomaram, mas não pôde escutar nada além dos próprios passos. O foco de luz foi tornando-se mais claro até que Ada finalmente chegou ao que havia julgado ser a clareira, mas que na realidade, era algo um pouco maior – um grande lago congelado, frio, silencioso e completamente vazio. “Para onde vocês foram?” perguntava-se a jovem enquanto tentava inutilmente se proteger do clima. Não nevava, mas o ar estava muito gelado.

Embora não gostasse da ideia de ficar parada naquele lugar, Ada imaginou que, levando em conta o tamanho do lago, era possível que os colegas acabassem chegando até ali de uma forma ou de outra. Mal havia decidido isso, ouviu o farfalhar de folhas na floresta, o que a fez mudar de ideia. Era um ruído baixo e leve, e parecia estar se aproximando. Ada fez o que pôde para se esconder o mais rápido possível atrás de uma árvore e ficar quieta — se fossem Gideon e Reinhardt ela conseguiria ver dali, e se fosse outra coisa, qualquer outra coisa, ela teria mais tempo para fugir.

Ada não tinha muita habilidade para andar na neve e por mais que tivesse tentado não fazer barulho, sua disparada até a árvore havia sido bastante ruidosa. Assim, quando finalmente pôde escutar os sons do ambiente outra vez, percebeu que os passos tinham parado. “Bem, talvez a pessoa esteja com tanto medo quanto eu”, pensou ela, numa tentativa de manter-se calma. Ficou por alguns instantes tentando escutar alguma coisa, mas tudo estava em pleno silêncio outra vez. Talvez o que quer que fosse aquilo tivesse decidido ir embora, por isso, algum tempo depois, Ada decidiu arriscar olhar para o lago. Nada lá. Mas, ao voltar a cabeça para sua posição inicial, a jovem pôde finalmente descobrir o que havia provocado os ruídos.

Uma figura branca de olhos cor de ametista a encarava: Alma.

– Ah, é você... – Ada respirou profundamente para se recuperar do susto. Depois escorregou as costas na árvore e sentou-se – É você, haha! Não é a primeira vez que me assusto com um gato...

A gata continuou a encará-la por um tempo, mas como Ada ainda não estivesse muito disposta a levantar-se ou fazer qualquer tipo de movimento, o animal resolveu puxar as beiradas do vestido da jovem, comunicando-lhe que precisava de um pouco de atenção. Ada entendeu o recado e levantou-se, então a gata então pulou para frente (na direção contrária do lago) e parou, voltando a fixar os olhos na jovem.

– Você quer que eu lhe siga? – Ada perguntou baixinho. Parecia que sim. Mas ela questionava-se se seria sensato seguir um gato de volta para o meio da mata. Imaginava que se ficasse e esperasse ali, logo encontraria Reinhardt e Gideon outra vez, embora não pudesse ter completa certeza disso. Por outro lado, se Alma estava ali, talvez Zimmerman também estivesse, e, de qualquer forma, encontrar alguém parecia ser uma ótima ideia. A gata voltou até onde Ada estava estacada e depois se dirigiu outra vez para a floresta, parando no mesmo lugar de antes. “Venha de uma vez”, devia estar dizendo. Ada decidiu segui-la.

Assim que caminhou até onde a gata estava parada, Ada virou-se pra ter um último lampejo do lago, tentando memorizar sua localização para caso tivesse que voltar para lá — embora não achasse que seu senso de direção pudesse competir com o negrume da parte interna da floresta. Entretanto, para sua surpresa, identificou não só o lago, mas, a alguns passos de distância da árvore onde estivera encostada, uma daquelas sombras negras que vira pela tarde na trilha. A gata miou e imediatamente pulou mais adiante na direção contrária, mas Ada ainda estava bastante chocada para se mover. Quando a sombra desapareceu e reapareceu alguns metros mais próxima, Ada não teve mais dúvidas, e ambas, a jovem e a gata, puseram-se a correr pelo meio da floresta.

“O que foi isso?”, pensava repetidamente em meio a correria. A gata era muito leve e ágil, e Ada só não a perdia no meio da escuridão porque seu pelo branco brilhava um pouco mais do que o cinza escuro da neve. Não sabia se a sombra ainda estava a seguindo, mas não tinha a menor intenção de parar. “O que pode ser isso?!”, pensava, enquanto, com muita força de vontade e sorte, se desvencilhava das raízes e galhos, reequilibrando-se sempre que tropeçava. Já estava ficando sem fôlego e sem ter ideia nenhuma de onde estava ou para onde estavam indo, quando a gata decidiu parar. Ada, com o impulso da corrida, ainda andou alguns metros antes de conseguir frear completamente. Era um lugar tão negro e silencioso quanto qualquer outro, mas Alma parecia ter resolvido simplesmente ficar ali.

– Vai parar? – Ada sussurrou para gata – Não há nada aqui! E se aquela coisa nos alcançar?

Vendo que o animal não parecia reagir a nenhuma de suas reclamações, Ada sentou-se outra vez, sentindo-se esgotada. Por que tinha decidido seguir um gato? Aquele havia sido um longo dia de decisões erradas, e Ada estava começando a achar que iria pagar caro por elas. O que eram aquelas sombras? A encontrariam ali? O que teria acontecido com seus dois colegas? Alma estava sentada mais ou menos a sua frente, lambendo uma das patas tranquilamente, como se nada estivesse fora do normal. Ada suspirou outra vez:

– Bem, se não vai me ajudar, vou me virar sozinha – franziu as sobrancelhas para gata, que por sua vez não demonstrou nenhum tipo de reação em resposta – Ótimo!

A jovem pôs-se de pé, bateu a neve do casaco e fez, numa última tentativa de comunicação, um gesto para a gata segui-la, mas o animal continuou a ignorá-la por completo. “Droga”, pensou. A sombra iria acabar chegando ali, e embora ela não tivesse certeza sobre o que exatamente era aquilo, não duvidava que representasse perigo. Teria a sombra matado o cocheiro? Ada olhou para Alma outra vez.

– Não vou deixar você aqui – disse, enquanto içava o gato do chão. Alma por sua vez, pareceu bastante ultrajada com aquela intromissão em seu descanso, e começou a golpear as mãos de Ada com as unhas – Não faça isso, estou tentando te ajudar – a jovem sussurrou, e pôs-se a andar firmemente, se esforçando para ignorar dos ataques do bicho.

“Pelo menos não está fazendo muito barulho” pensou Ada, já que o silêncio continuava, mais ou menos, inabalado (embora os chiados do animal estivessem impedindo a jovem de ouvir os arredores mais próximos). De qualquer forma, mal havia concluído seu pensamento quando a gata deu um miado alto e cravou as unhas com tanta força nas mãos da jovem que Ada foi forçada a soltá-la.

– Volte aqui! – disse, mas Alma já havia saltado e corrido na direção contrária. Ada seguiu-a instintivamente, correndo para frente para tentar alcança-la. Esse primeiro impulso foi o suficiente para impedi-la de ser capaz de desviar da forma escura que surgiu a sua frente segundos depois. Ada bateu no que quer que fosse aquilo, e recuou, quase caindo para trás.

– Ei! – alguém reclamou.

Com a cabeça ainda girando, Ada tentou em vão identificar quem ou o que estava ali. Estava muito escuro e tudo que ela podia ver com alguma clareza era Alma, parecendo totalmente tranquila (muito diferente do pequeno demônio que havia se tornado instantes atrás), sentada aos pés da forma indistinguível na escuridão. A jovem estava prestes a, corajosamente, perguntar quem estava ali, quando a própria pessoa se manifestou:

– Como chegou aqui? – uma voz surpresa, mas bastante séria perguntou. Ada não a reconheceu, o que a deixou preocupada.

– Quem é você? – a jovem perguntou de volta automaticamente.

Não houve resposta. O pesado silêncio recaiu por alguns instantes antes de uma luz amarelada acender nas mãos do homem (agora um homem claramente visível) que segurava uma lanterna antiga. Ele repetiu com mais firmeza:

– Como chegou aqui? — vestia uma blusa de gola alta muito antiquada e seus olhos brilhavam com a chama da lanterna – olhos de cores diferentes. Notando que Ada parecia estar tão surpresa quanto ele, e talvez percebendo que também não estivesse contribuindo muito para começar algum tipo de comunicação, suspirou e disse finalmente:

– Certo. Perdoe-me, meu nome é Ezra Holloway – e fez um cumprimento com a cabeça.

– Sou Ada Elliot – disse ela, ao perceber que ele parecia estar esperando alguma resposta. O homem pareceu ficar satisfeito:

– É um prazer conhece-la – disse formalmente, embora sua afirmação fosse bastante questionável — Entretanto, devo informar-lhe, Srta. Elliot, de que você não deveria estar aqui de forma nenhuma. Não sei como entrou, mas... – o que quer que fosse concluir em seguida teve de ser interrompido quando ele finalmente percebeu a presença da gata próxima a seus pés – Ah, entendo... – suspirou, e Alma se levantou e correu para o meio da floresta outra vez, desaparecendo em meio as árvores.

– Sabe onde está? – perguntou ele para Ada, então.

– Não exatamente – a garota respondeu com sinceridade.

– Está dentro de minha propriedade – falou com alguma frieza – Mas parece que teve problemas, e eu não posso permitir que fique aqui, então gostaria de pedir que me acompanhasse até a casa principal.

– Não faria objeção a segui-lo Sr., mas ainda preciso encontrar as outras pessoas que se perderam na floresta — Ada respondeu da melhor maneira que pôde, ainda bastante confusa. Alguém morava dentro daquela floresta?

Holloway pareceu ter dito alguma coisa como “nem todos estão perdidos”, mas a conversa foi interrompida por um som bastante inesperado vindo da distância: o estampido de uma arma de fogo. Instantes depois, um segundo tiro foi ouvido, dessa vez bem mais próximo, o que fez o homem virar-se para a direção do som, iluminando algumas árvores de galhos escuros.

– Perfeito! – reclamou para si mesmo, e depois dirigiu-se à Ada, parecendo bastante impaciente – Srta. Elliot será que você poderia me acompanhar?

Ada não teve tempo de responder, já que o próximo tiro estourou numa copa próxima, e no instante seguinte o homem já puxava-a pelo braço, forçando-a a correr outra vez. “O que é tudo isso agora?”, pensava enquanto via um novo tiro apagar a lanterna das mãos do seu guia. Outros três ou quatro estampidos foram ouvidos antes que ela e Holloway finalmente tivessem atingido uma área aberta. Área que, para sua surpresa, não se parecia em nada com qualquer coisa que ela pudesse ter imaginado haver dentro da floresta: estavam em um gigantesco jardim de árvores espaçadas, que se assemelhava a um grande tabuleiro branco, contrastando enormemente com o aparente caos da floresta de que acabavam de sair. Logo em seguida havia uma enorme mansão parcialmente iluminada — como se alguém realmente morasse ali, tranquilamente, no meio de toda aquela confusão.

Aquilo era impossível.

Mas Ada não pôde observar o cenário por muito tempo, já que ainda estava tendo de lidar com outra coisa também bastante impossível naquele momento: os tiros inexplicáveis. Pouco depois de os dois fugitivos pisarem no campo aberto, o atirador apareceu, agora com a visão do seu alvo totalmente desobstruída. Um projétil passou rasante pelo ombro de Ada, quase a atingido, e por pouco não acertou as costas de Holloway – que só escapou por que decidiu subitamente mudar de direção naquele momento. Seu próximo movimento foi igualmente improvável: o homem simplesmente parou de correr, dando um passo para frente de Ada antes de ser atingido por uma bala bem no meio dos olhos. O sangue pingou no gelo e ele recuou alguns passos sem soltar o lampião apagado. Depois voltou a cabeça para o lugar com bastante naturalidade, e retirou a bala do ferimento, que se tornava negro rapidamente. Nesse meio tempo o perseguidor pôde chegar bem mais perto, revelando não ser ninguém além da mulher do circo, Veronique.

– Há quanto tempo... – disse Holloway, sem se esforçar para ser cortês, atirando a bala no chão.

– Queria ter certeza de quem se tratava – Veronique sorriu um meio-sorriso – Com todas aquelas coisas rondando esse lugar, achei que você não estivesse mais aqui. Mas, aparentemente, nada muda demais. Espero que esteja bem.

Holloway deu de ombros, mas disse sério:

– Precisa melhorar sua pontaria. Podia ter acertado a garota — estava se referindo a Ada, que por sua vez, estava tão atordoada que mal podia formar uma frase coerente. A mulher do circo tinha estado atirando contra eles?

Veronique não pareceu perceber a confusão mental da jovem, então, assim que olhou para ela, desatou a falar:

– Ah, sim, Srta. Elliot! – disse como quem dá uma bronca em uma criança, suas sobrancelhas franzidas numa quase cômica expressão de decepção – Zimmerman e seus dois amigos estiveram te procurando por um bom tempo! Mas que ideia ingênua foi essa que vocês tiveram! Seguir pessoas para dentro dessa floresta depois de tudo que aconteceu? Você teve muita sorte, não achei que Ezra ainda vivesse nesse lugar, é a única pessoa que... – mas então interrompeu-se e suspirou – Bem, mas se você já está aqui, significa que Alma voltou e eles não demorarão a chegar. Podemos conversar depois... Que acha de irmos para dentro? – a última parte foi dirigida ao homem.

Holloway deu de ombros:

– Bem, era isso que estava tentando fazer antes de você começar a atirar – Ada olhou para ele outra vez e notou que não havia mais absolutamente nada no lugar onde fora atingido pelo tiro. Estava completamente curado. Mas ninguém parecia estar achando aquilo algo muito impressionante. Quando os dois voltaram-se para entrar na mansão e Ada não se mexeu, ainda muito presa nos próprios pensamentos para fazer alguma coisa, Holloway ofereceu a mão:

– Precisa de ajuda? — perguntou

– Não, obrigada, estou bem – respondeu Ada suspirando e limpando na beirada interna do casaco o sangue do machucado que Alma fizera em seus dedos. Era provável que já tivesse se dado conta de que nunca estivera tão mal em toda sua vida.

Notas finais
Tentei arrumar, mas estou tendo dificuldades com esse capítulo, rs. Por favor, avisem se encontrarem algum erro :)