Notas iniciais
Desculpem a demora para postar, eu estou sem tempo nenhum! Queria deixar os capítulos mais "arrumadinhos", rs (revisados direito, etc), mas como eu acho que não vai dar para fazer isso, eu vou postar as coisas do jeito que estão mesmo, só para a a história não ficar parada. ^^'> Por favor, perdoem os erros, e se acharem alguma coisa muito ruim, não deixem de avisar para que eu possa arrumar! Obrigada! :D

“Há muito tempo atrás, uma jovem dama de cabelos cacheados vivia sozinha em uma grande mansão. Era uma moça muito agradável, mas nunca deixou que lhe dissessem o que fazer, por isso tinha fama de ser difícil de lidar. Um dia, um rico rapaz mudou-se para a maior casa da região. O jovem promoveu festas e bailes, mas a moça raramente aparecia. Os dias se passaram e o rapaz tornou-se irrequieto: não podia acreditar que alguém se negasse a participar de suas reuniões. Não morava na maior casa? Não conhecia as pessoas mais importantes? Não era o mais admirado? Por isso um dia, depois de muito beber e já bastante irritado, resolveu perguntar diretamente à moça porque ela recusava-se a comparecer a suas festas. A jovem respondeu-lhe com estas palavras:

“Pouco me interessa esse seu desfile caro de aparências e falsos valores!”, dando-lhe as costas em seguida.

Muito se falou sobre essa resposta nos dias que se seguiram, e o jovem logo se tornou alvo de incontáveis brincadeiras e cochichos.

“Como ousam desrespeitar-me dessa maneira?”, pensava ele. Mas os bailes diminuíram, e o rapaz não saia mais de casa com tanta frequência. Se não tivesse se importado tanto com a ofensa, as conversas teriam parado em poucos dias. Entretanto, como sua imagem nunca tivesse nem sequer sido arranhada antes, toda a situação incomum deixou-o muito abalado. Quando começou a se fechar em casa, os mexericos aumentaram.

“Está bem certa, a mulher de cabelos cacheados”, diziam as senhoras, que semanas atrás haviam participado alegremente das reuniões do jovem rico: “aquilo tudo era uma grande farsa!”. E logo todos, que apesar de tudo mal o conheciam, começaram a compartilhar desse mesmo tipo de opinião. “Um menino mimado, querendo o mundo a seus pés!”, falavam. E antes que pudesse fazer alguma coisa o rapaz se viu completamente arruinado.

Que coisa frágil é a consideração dos seres humanos.”, disse o Contador de Histórias.

...

– Quem é o autor? – questionou Ada, colocando o livro ilustrado de volta em cima da mesa. A história continuava, mas a garota não estava com ânimo para seguir a leitura.

Holloway estava de costas, olhando para janela. Demorou alguns momentos para responder:

– Não tenho ideia.

– Não entendo porque estão demorando tanto... – queixou-se Veronique, cortando o assunto, enquanto girava de um lado para o outro o conteúdo escuro de uma taça que tinha em mãos. Depois levou o liquido a boca, e reclamou outra vez – Ora, o tempo não fez bem a essa bebida!

Ada havia concordado em esperar os colegas chegarem para ouvir o que Veronique e Holloway tinham a dizer, mas a jovem estava ficando bastante inquieta. Já havia se passado pelo menos uma hora desde que ela chegara, e ninguém havia aparecido. “Não há com que se preocupar”, respondia a mulher quando Ada sugeria que fossem procura-los, “Zimmerman está com eles, vão chegar em pouco tempo”. O dono da casa não dizia nada, mas também não parecia muito feliz, batendo apreensivamente os dedos na beirada da janela a todo o momento.

A construção por dentro era tão primorosa quanto no seu exterior. Candelabros brilhantes deixavam tudo com uma atmosfera amarelada e os tapetes suntuosos pareciam obras de arte deitadas no chão. Tudo estava muito limpo e bem conservado, e a única coisa que destoava do cenário eram algumas marcas retangulares no papel de parede, que indicavam que certos quadros haviam sido arrancados. Ada adoraria dar uma olhada no resto da casa, mas aparentemente, ninguém estava disposto a deixar a sala de estar, e ela não se sentiria confortável para pedir algo do tipo. Principalmente numa situação complicada como aquela.

Ada suspirou e tentou concentrar-se em outra coisa que não envolvesse os colegas desaparecidos ou grandes casas antigas. Mesmo assim, acabou por lembrar-se da cena na entrada da mansão e, com os olhos, logo encontrou a arma que Veronique usara para acertar Holloway, presa à cintura da mulher. Era uma pistola de punho pintado com losangos pretos e brancos. Seria uma arma do circo? Ada não se lembrava de ter visto a mulher apresentar-se, mas era bem possível que aquilo fizesse parte de um número — alguma coisa parecida com o espetáculo de Zimmerman. Veronique provavelmente teria decidido usar a arma contra um perigo real porque que não possuía mais nenhum outro meio de defesa. Na verdade, não havia outra explicação. Ada suspirou outra vez. Gostaria que lhe contassem logo o que era tudo aquilo, mas seus pensamentos acabavam voltando para o paradeiro dos colegas. Mesmo que Zimmerman conhecesse a floresta, era claro que havia algo perigoso lá. Não devia ser ignorado daquela maneira.

– Não devemos sair para procura-los? – disse ela outra vez.

– Ora essa, está nevando de novo! – foi a resposta desconexa de Veronique, que se levantou da cadeira para ir olhar para o lado de fora. Ada franziu as sobrancelhas e ficou de pé também. Estava realmente nevando outra vez, mas não era nada parecido com o vendaval furioso da manhã. Os flocos de gelo estavam caindo quase que tranquilamente, reluzindo, hora ou outra, por causa da luz que vinha do lado de dentro da casa. Não fosse seu mau-humor, Ada teria achado a cena bonita. Estava reparando nos flocos reluzentes quando notou formas negras se aproximando.

– Ah, finalmente... – suspirou Holloway abandonando o posto em que estivera por todo aquele tempo e indo sentar-se em uma poltrona. Veronique também abriu um sorriso:

– Não disse que chegariam?

Alguns instantes depois a campainha tocava e a mulher abria a porta para receber Gideon, Reinhardt, Zimmerman e a gata Alma (que entrou velozmente na casa e foi aninhar-se perto da lareira). O grupo recém-chegado, entretanto, não podia ser mais diferente: as expressões de cada um eram as mais variadas. Gideon estava visivelmente maravilhado, seus olhos percorriam o lugar com a vivacidade de uma criança curiosa, e só deram com os anfitriões depois de analisarem praticamente tudo que podia ser visto. Sir Reinhardt, por sua vez, parecia ter se machucado e entrou na casa mancando e de cara fechada, reclamando de tantas coisas e tão rapidamente, que era quase impossível acompanhar seu raciocínio. Por fim, Zimmermam cruzou o pórtico, parecendo alegre enquanto ria de qualquer coisa – que poderia muito bem ser a própria situação em que se encontrava.

– Há quanto tempo! – disse o mágico quando deu com Holloway levantando-se da poltrona. Foi imediatamente até ele, abraçando-o antes que o outro pudesse reagir – Hahaha! Espero que esteja bem! – disse, assim como Veronique havia dito há uma hora.

– É um prazer revê-lo – respondeu Holloway gentilmente, embora ainda estivesse bastante sério. Mas Zimmerman não estava muito preocupado — na verdade, era exatamente o oposto:

– Vejo que esse lugar continua igual! – disse ele, girando o corpo para fazer um panorama da sala — Só algumas coisas estão faltando... — acrescentou.

Holloway não respondeu de imediato, mas por algum motivo pareceu bastante aborrecido com aquele comentário e Ada não teria se surpreendido se ele simplesmente tivesse dado as costas para Zimmerman e o deixado falando sozinho. Por sorte Veronique interferiu, mudando de assunto ao chamar a atenção para o ferimento de Reinhardt:

– O que houve com sua perna? – perguntou ela, se dirigindo ao nobre. Holloway usou o momento para mover-se para perto da lareira, de maneira tão silenciosa que Ada não teria notado se não tivesse estado prestando atenção desde o começo. Sir Reinhardt por sua vez, havia (sem consentimento) se estirado na cadeira da escrivaninha do canto da sala, e agora avaliava as condições do próprio tornozelo, virando a perna de um lado para outro. Ficou quase contente de terem finalmente lhe notado. Ia dar alguma resposta extensa sobre o que havia acontecido, quando Zimmerman também interrompeu:

– Houve um acidente – afirmou o mágico com bastante confiança, mas Gideon não pôde conter um risinho.

– Acidente?! – protestou Sir Reinhardt, visivelmente ultrajado – Se chama lançar alguém para longe de acidente! Com mil demônios!

– Se não tivesse o puxado para trás, iria acabar caindo ladeira a baixo! – tentou explicar Zimmerman, também um pouco ofendido.

– Isso porque você indicou o caminho errado! – Sir Reinhardt retrucou, levantando-se da cadeira – Aliás, como é que alguém pode enxergar alguma coisa usando esses óculos escuros à noite? É absurdo!

Gideon estava se divertindo com a cena, mas achou justo abandonar sua inspeção visual da sala para interferir:

– Ora Walter, você sabe que não foi proposital e no fim nós chegamos muito bem – ele deu de ombros.

– Você chegou “muito bem”, desgraçado – praguejou Sir Reinhardt, mas depois respirou fundo e voltou a sentar-se. Era verdade que estava tendo um dia bastante difícil – Mas afinal de contas, do que exatamente estávamos todos fugindo? – perguntou por fim.

Sir Reinhardt lançara a pergunta quase que casualmente, o que era bastante compreensível, já que aquela era uma questão que ele, Gideon e Ada, com certeza tinham tido em mente por um bom tempo. Mas, por algum motivo, pareceu subitamente inadequada. O silêncio que se seguiu a ela mostrou-se invencível. Nenhum dos três poderia quebra-lo mesmo que estivessem dispostos a isso. Era muito claro que havia alguma coisa escurecendo os pensamentos de todos ali — Holloway estava de costas para a sala olhando para a lareira, praticamente imóvel. Veronique parecia hipnotizada pelo vidro da taça que resgatara da mesa. Zimmerman encostara na janela, de braços cruzados, olhando para qualquer coisa do lado de fora. E Gideon, Sir Reinhart e Ada tornaram-se ainda mais apreensivos por conta dessa estranha ausência de movimento. Que estariam todos pensando?

Ada quase se assustou quando Veronique colocou o copo de volta na mesa:

– O que viram no caminho para cá? – perguntou ela. Seu costumeiro ar provocador havia desvanecido e ela soava quase abatida.

Ada levou alguns segundos para por os pensamentos em ordem, já que a pergunta fora tão inesperada quanto o silêncio de instantes atrás. Nesse meio tempo, Gideon já havia respondido:

– Formas negras, bastante indistinguíveis, como sombras. Poderiam ser qualquer coisa, mas tinham certa aparência humana...

– Pareceram mesmo sombras humanas para mim – concordou Ada, lembrando-se da figura que vira perto do lago. Não tinha certeza sobre as outras, mas também não duvidava que, ou eram a mesma coisa, ou pertenciam a mesma espécie de “coisa”.

– Ah, compreendo... – foi a resposta de Veronique, já com o rosto menos sombrio, como se a inconveniente nuvem negra sobre sua cabeça estivesse se dissipando – Acho que talvez as coisas não estejam tão ruins. Vejam bem, as sombras que vocês viram antes de chegar aqui não são nada além do que vocês mesmos concluíram: sombras. São reflexos de coisas que não existem mais. Podem ser moldadas por seus pensamentos se der atenção demais a elas, mas não podem causar-lhe nenhum dano físico.

“Às vezes acabam atraindo pessoas para o centro da floresta, o que é o verdadeiro problema. Sabem, entrar nesse lugar é uma tarefa bastante difícil. Por mais que vocês acreditem que desaparecimentos sejam muito comuns, não têm nem ideia de como, na verdade, são raros se comparados as possibilidades reais. Mas é claro que entrar não é impossível. Sair é que é.”

“Algumas dessas sombras rondam o centro da floresta, mas a maioria fica circundando as extremidades. Apesar disso, o número delas aqui aparentemente aumentou bastante, o que me deixa preocupada.”

– E por que as sombras ficam nesse lugar? — perguntou Ada, concordando consigo mesma de que só lutaria com a veracidade da história depois que a tivesse ouvido por inteiro.

“Como eu disse, são como reflexos. É natural que fiquem perto do que produziu sua imagem. No que quero chegar, entretanto, é ao seguinte: nem tudo nessa floresta se resume a espectros do passado. Há coisas aqui que representam verdadeiro perigo”, dissera Veronique.

“Então está dizendo que as histórias sobre fantasmas estavam certas?” questionara Ada.

“Não há fantasmas aqui” interrompera Holloway.

“O que há então?” insistira Ada.

“A própria Morte” o silêncio respondera.