Verschneit
10 O trinado do Diabo
– Você certamente foi consultado pela polícia a respeito do desaparecimento de um rapaz de nome Valentin – disse Sir Reinhardt ao anfitrião. Toda a cena de Veronique a respeito de sombras misteriosas e perigos invisíveis não havia provocado nada no homem além de um breve riso baixo. Mesmo o incidente do cocheiro foi tomado como o efeito do cansaço e do medo na cabeça de Ada, já que, como ela mesma havia contado, não havia encontrado carruagem nenhuma no local. Além disso, estava escuro e um mal entendido como aquele era bastante provável. Ada não insistiu nos protestos, já que, mesmo que o cocheiro estivesse realmente lá, não havia nada que pudesse ser feito por ele naquele momento.
Reinhardt então, assim que pôde, aproveitou o silêncio para direcionar-se a um assunto que considerava muito mais importante — e, apesar da curiosidade ou de qualquer outro sentimento que a pequena história da mulher pudesse ter causado em Ada ou Gideon, ambos também concordaram que encontrar Valentin era realmente um objetivo mais urgente.
– Evidentemente que não – foi a resposta seca de Holloway sobre o contato com a polícia. Reinhardt ainda esperou alguns instantes na esperança de que o homem fosse acrescentar mais alguma coisa, mas quando percebeu que aquele era o fim do diálogo, soltou um “Pfff” de desaprovação e voltou a recostar-se na cadeira.
– Esse Valentin é o rapaz que desapareceu com a dona da hospedaria há alguns dias, não é? – perguntou Veronique. Zimmerman havia se sentado e Alma pulara em seu colo. Ele acrescentou, dirigindo-se a Holloway:
– A mulher aparentemente saiu da floresta e retornou para a hospedaria, você sabe.
O anfitrião franziu as sobrancelhas:
– Isso é impossível – retrucou no mesmo instante, visivelmente descrente.
– Ora, o que quer dizer com “impossível”? – Sir Reinhardt interferiu energicamente outra vez, certo de que havia encontrado um ponto útil para discussão – Que diabos estão escondendo?
Holloway, que parecia ficar mais descontente a cada momento, finalmente explodiu com seu interrogador:
– Ora, está em minha casa! Porte-se como o convidado que é ou serei forçado a jogá-lo para fora!
Veronique estava prestes a interferir na discussão quando um som de madeira sendo derrubada impediu-a de começar. O barulho viera dos fundos da casa e fora alto o suficiente para ser ouvido por alguns bons metros de distância.
– O que é isso agora? — perguntou-se.
Para Ada pareceu que parte do teto havia cedido e vindo abaixo — o que até era de se esperar, uma vez que uma casa antiga como aquela não deveria suportar muito bem grandes tempestades como a que acontecera pela manhã. Apesar disso, a julgar pela sala em que estavam, o lugar era muito bem conservado, o que fez a jovem perguntar-se se o barulho não poderia ter sido causado por algum motivo diferente:
– Há mais alguém em casa? – perguntou ela à Holloway, mas foi completamente ignorada, o que a fez se arrepender de ter pensado em dizer qualquer coisa. Estava cansada, e embora soubesse que isso fosse bastante improvável de acontecer, seu maior desejo no momento ainda era voltar para casa o mais rápido possível.
Seus dedos e joelhos doíam e embora não estivesse com sono, já começava a sentir dores de cabeça. Seus pensamentos iam e vinham do mais variado tipo de coisa, passando pelo cocheiro, pela história de Veronique, pelo incêndio na hospedaria, pelo número de Zimmerman e a mansão de Holloway. Começava a achar que essas sombras (ou o que quer que fossem), deviam ser apenas fruto de sua imaginação presa as histórias locais – não era de se espantar que Veronique acreditasse nelas também, uma vez que esse tipo de conto era espalhado com frequência naquela região. Além disso, entrar e sair da floresta com certeza não eram mesmo coisas fáceis de serem feitas...
– Tudo bem com você? – Zimmerman perguntou. Ada levou alguns segundos para notar que ele havia falado com ela, já que em meio a suas conjecturas havia acabado por se desligar completamente do mundo do lado de fora. Alma tinha pulado para perto de seus pés e Holloway já havia desaparecido — provavelmente ido procurar pelo que havia provocado o barulho.
– Sim – respondeu ela, tentando parecer mais animada – Só estou um pouco cansada.
– Bem, isso é bastante compreensível – sorriu ele. Ada achou que o mágico parecia ser uma pessoa bastante fácil de lidar, o que não poderia ser dito de mais ninguém naquela sala, uma vez que naquele meio tempo Sir Reinhardt, Gideon e Veronique aparentemente já haviam se engajado em outra discussão:
– Você engole qualquer coisa que escuta, pelos céus! E ainda se chama de “professor”! – reclamava o nobre, aparentemente culpando Gideon por alguma coisa.
– Ora, estar aberto para ouvir não significa que esteja acreditando em tudo deliberadamente, Walter – retrucou o outro.
– Honestamente, acreditem no que quiserem — queixou-se Veronique – Mas poupem-nos desse comportamento infantil! Principalmente você, Sir! – disse, apontando para Reinhardt.
– “Comportamento infantil”?! – repetiu Reinhardt visivelmente ultrajado, e só não se levantou da cadeira porque o tornozelo machucado o fez quase perder o equilíbrio, forçando-o a sentar-se outra vez — Não sou eu quem está espalhando histórias imaginárias quando o assunto é na verdade muito sério! – disse irritado.
Veronique provavelmente teria respondido alguma coisa bastante deselegante se um novo som alto vindo da parte direita da casa não tivesse feito a discussão encerrar-se instantaneamente.
– Ora... – disse ela para si mesma outra vez.
– Não acha que devíamos ajudar? – perguntou Ada. O barulho soava como se uma parte do teto estivesse realmente desmontando-se. Talvez o vento estivesse mais forte do que parecia estar do lado de fora e o forro estivesse cedendo.
– Não acho que... – Veronique ia responder, mas o som novamente interrompeu-a. Dessa vez, entretanto, parecia ter vindo da ala esquerda da mansão. Veronique suspirou:
– Certo, melhor darmos uma olhada...
...
Como já houvesse se passado uma hora e ninguém tivesse tido notícia de Sir Reinhardt e seus colegas, o mordomo decidira procura-los. Infelizmente não eram muitos os que estavam dispostos a entrar na floresta àquela hora da noite, principalmente depois do que havia acontecido na hospedaria. Algumas pessoas diziam que haviam visto fogo na floresta também, e Dona Carmem estava sendo bastante requisitada para contar suas histórias assombrosas, uma vez que todos pareciam concordar que havia algo de sobrenatural acontecendo ali.
– Há muito tempo atrás uma mansão pegou fogo perto do lago congelado – dizia ela – Eu não sei os detalhes, mas aparentemente seu dono amaldiçoou todos que viviam no lugar, vocês sabem, antes de ser consumido pelas chamas. Dizem que seu fantasma ainda ronda a floresta, e é por isso que não se deve entrar lá! Era o que minha mãe sempre dizia.
Alguns concordavam com frases do tipo: “Disseram-me que as árvores seguram a maldição!”, outros discordavam com coisas como: “Acreditam mesmo nisso? Estou certo de que há na floresta um lobo gigante ou algum animal selvagem! É muito mais provável!” ou “Não, não, eu mesmo já vi uma figura de gelo andando por lá! É um monstro, com toda a certeza!”, e outros se limitavam a dar de ombros para toda aquela especulação e conversavam diretamente com a polícia. Em todos os casos, a única coisa em que entravam em acordo era que Madame Dolores deveria dar seu depoimento assim que fosse possível. A mulher havia chegado muito mal e ainda estava inconsciente, sendo atendida por médicos num dos quartos da hospedaria. Dra. Margaret dissera que Dolores demoraria alguns dias para se recuperar, já que seu estado não era bom e ninguém sabia dizer exatamente qual era o problema — o que deixou todos ainda mais desassossegados. Mas é claro que ninguém queria entrar na floresta àquela hora, nem mesmo os policiais.
Michel na verdade não estava muito preocupado em entrar lá sozinho (uma vez que não dava nenhuma importância à esse tipo de conversa), mas achou que se mais pessoas ajudassem na busca, o pequeno grupo poderia ser encontrado mais rapidamente – o que o permitira voltar para casa de uma vez, já que já estava muito tarde e ele não era pago para fazer esse tipo de coisa. Por isso, dedicou alguma parte de seu tempo para convencer dois ou três oficiais de que deviam encontrar Sir Reinhardt e os outros o quanto antes. A busca, entretanto, não durou muito, já que assim que contornaram o lago e viram-se fora da floresta outra vez, os policiais recusaram-se a entrar lá novamente.
– Procuraremos pela manhã – disse o de óculos – Tivemos sorte de não termos encontrado nada no caminho!
Michel ainda entrou na floresta uma segunda vez, mas apenas para voltar alguns minutos depois dizendo haver encontrado uma carruagem tombada no meio da mata. Não havia sinal dos cavalos, dos passageiros ou do condutor. O mordomo também poderia jurar ter visto aquele carro passar por ele antes da tempestade, mas a notícia, em vez de fazer com que a investigação começasse imediatamente, surtiu um efeito paralisador nos oficiais.
– Temos que reportar para o comandante! – disse um deles.
– Alguém tem de ficar de guarda aqui na hospedaria – disse outra.
E a confusão geral era tão óbvia que Michel não pôde fazer muita coisa além de concordar com eles. Não demoraria a amanhecer e não havia muita coisa que pudesse ser feita naquele momento, então simplesmente alugou um quarto, e ignorando o murmurinho lá fora, dormiu com toda a tranquilidade do mundo. Sir Reinhardt sabia muito bem se virar sozinho.
...
Sir Reinhart havia sido deixado na sala de entrada, já que com o tornozelo machucado o homem não seria de muita ajuda – e talvez um tempo sozinho ajudasse-o a acalmar os nervos. Alma ficou andando de um lado para o outro até finalmente voltar para perto do fogo e fechar os olhos. Um livro sem título estava abandonado em cima da mesa e o nobre resolveu pega-lo, mais pelo exercício de andar até lá que pelo interesse de saber o que estava escrito. Abriu-o automaticamente e passou os olhos pelas frases, mal absorvendo seus significados, já que sua cabeça estava bem longe dali. Levou alguns minutos para perceber que o primeiro conto era sobre algum rapaz rico que aparentemente havia sido arruinado por uma moça. O jovem havia trancado-se em casa e as pessoas do lugar estavam comentando seu desaparecimento.
“O rapaz, fechado dentro de sua própria casa, acabou por aprisionar-se também em seus próprios pensamentos", dizia o livro. "'Se não fosse por aquela mulher, nada disso teria acontecido!', pensava ele. O jovem passou dias e semanas andando sem rumo pela construção, e depois de um tempo assentou-se na biblioteca. Toda a região falava no assunto: “Acho que está maluco!” diziam alguns, “Acho que sempre esteve!” comentavam outros, e a mulher de cabelos cacheados começou a se sentir culpada pelo rumo que as coisas estavam tomando. “Não era isso que queria que acontecesse”, suspirava ela.
Certo dia, entretanto, um bilhete chegou a sua porta. Era um convite para uma reunião de despedida do jovem desesperado. O bilhete dizia: “Não há nada que me prenda a esse lugar, portanto partirei daqui a dois dias. Se estiver disposto(a) a comparecer, farei uma reunião final amanhã.”
O bilhete com certeza havia sido mandado para muitas pessoas, e a mulher achou que aquela fosse uma boa oportunidade para falar não só com o jovem, mas com todos os outros convidados sobre como tudo aquilo estava errado. No dia marcado, entretanto, a grande mansão estava praticamente vazia.
Quando os poucos convidados se sentaram à mesa, o rapaz levantou-se e bradou:
“Vocês tiraram-me a vida! Pagarão o mesmo preço, pois nosso último convidado é a Morte!”, e dizendo isso, lançou um livro antigo na mesa e pôs-se a ler seus versos num frenesi descontrolado.
“Pare com isso! Não seja tolo”, disse um dos convidados.
“Esse livro não vai nos fazer mal algum, está perdendo seu tempo”, disse outra.
“Por favor, não viemos aqui para julgá-lo”, disse o terceiro.
“Sinto muito!”, disse a mulher de cabelos cacheados “Mas não há necessidade para agir dessa maneira!”
O rapaz, ainda mais enfurecido pelo que diziam seus convidados do que pela ineficácia do livro, lançou o objeto para longe em desespero. “Não há mais nada a ser feito!”, gritou enfurecido. O livro, entretanto, havia acertado um candelabro e as chamas logo se espalharam pelo chão e subiram as cortinas. O fogo imparável não pode ser controlado até consumir praticamente toda a mansão.
O rapaz viu sua propriedade queimar até o amanhecer do dia seguinte, e depois entrou nas ruínas da casa para nunca mais ser visto.”, disse o Contador de Histórias.
...
Sir Reinhardt devolveu o livro, com um “hmpf” baixo. Não tinha o menor interesse naquele tipo de conto — principalmente agora, porque já estava saturado de ouvir histórias sobre coisas avessas à realidade. “Se já não me bastassem essas malditas lendas”, reclamou para si mesmo enquanto procurava um lugar perto da janela. A casa havia ficado bastante silenciosa, e os ruídos de madeira haviam parado completamente. O homem estava olhando para o fogo que aos poucos se esvaia de um dos lampiões da entrada, quando pensou ter visto alguma coisa do lado de fora. Uma pessoa? Aproximou-se mais do vidro para ter certeza, mas aparentemente não havia nada lá além do jardim coberto de neve. “Ora”, pensou, “essa situação toda está me fazendo mal”. Estava indo sentar-se outra vez quando Alma soltou um chiado alto e pulou para cima do sofá.
– Com mil demônios! – reclamou com o animal – Dê-me um tempo!
No instante seguinte ouviu alguma coisa chocar-se contra a porta da frente, o que o fez recuar com o susto. “Deve ser algum morcego”, pensou, mas ao mesmo tempo instintivamente procurou alguma coisa que pudesse usar como arma. Não demorou a encontrar um rifle, muito mais antigo do que o que o nobre tinha em sua própria casa, emoldurado na parede. O som de madeira dos fundos da casa ecoou mais uma vez, e Reinhardt puxou a arma da moldura, embora estivesse bastante ciente de que ela devia estar descarregada e, possivelmente, quebrada. Estava aproximando-se da janela novamente quando, do corredor da direita, Zimmerman apareceu.
– Que raios está acontecendo nesse lugar? – perguntou Reinhardt, ainda se recuperando do susto.
– Sir Reinhardt, estamos precisando de você – disse Zimmerman, muito sério, ignorando o apelo do outro.
– Ora, o que podem precisar de mim numa hora dessas? – retrucou. Não podia imaginar no que é que ele poderia contribuir numa situação como aquela.
– Você pode nos ajudar a reconhecer alguém.
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