Verschneit
11 En passant
Haviam encontrado o jovem inconsciente perto dos limites do jardim, o trazido para um dos quartos centrais e o estirado na cama. Suas roupas estavam sujas e rasgadas (mais sujas e rasgadas que as de Ada, o que ela tinha julgado ser praticamente impossível) e sua respiração era tão fraca e baixa que ele poderia facilmente ter sido tido como morto. O barulho no telhado parara, e embora ninguém tivesse conseguido identificar a origem do som, não acharam que devessem continuar a procura naquele momento. Sir Reinhardt reconheceu o rapaz de imediato – era, de fato, seu primo Valentin, embora ninguém além dele pudesse confirmar aquilo, já que a única coisa que os dois pareciam ter em comum era a situação ruim de seus tornozelos.
– Parece ter caído de algum lugar... – comentou Gideon, tirando um par de óculos da bolsa que deixara em cima da escrivaninha para averiguar melhor – São marcas de batida, olhem só. O rapaz deve ter rolado de algum declive alto, ou algo do tipo...
– Acha que estava fugindo de alguma coisa? De algum bicho talvez...– questionou Sir Reinhardt – Há lobos nessa floresta? – perguntou dessa vez para Holloway, que estava encostado de braços cruzados na porta de entrada do quarto.
– Sim, mas não ficam nessa região – foi a resposta direta que recebeu.
– Bem, isso não impede de que tenham andando para cá – retrucou o nobre – Aliás, parece haver uma boa quantidade de malditos animais por aqui! Todo aquele barulho no telhado e nas portas, certamente eram morcegos ou coisa do gênero...
Ada estava sentindo-se bastante cansada, então sem que percebesse puxou a cadeira da escrivaninha e sentou-se para ouvir a conversa. Seu movimento entretanto, chamou a atenção das pessoas na sala, e Veronique sugeriu no mesmo instante:
– Vocês devem estar exaustos depois de tudo isso, acho que deviam descansar. Zimmerman e eu podemos ficar de olho no rapaz, embora eu duvide que seu estado vá mudar tão cedo. Amanhã pensaremos no que fazer, certo? – O mágico concordou com a cabeça, e todos os protestos do pequeno grupo acabaram por ser educadamente e rapidamente reprimidos. Holloway então pediu para que os três visitantes o seguissem e indicou quartos no andar de baixo para Reinhardt e Ada – o do nobre quase ao lado de onde haviam instalado Valentin, e o de Ada no lado oposto da casa — enquanto Gideon fora designado para uma suíte no andar de cima.
– Alguns quartos não são abertos há muito tempo – esclareceu o anfitrião – Não acho que seja uma boa ideia deixa-los em meio ao pó. Nessas condições, essa é a melhor divisão que posso fazer.
Mas ninguém vira muito problema naquilo, e Ada ficara até contente de ter o corredor vazio a sua volta – não era algo muito plausível no momento, mas, se tivesse oportunidade, tinha enorme interesse em dar uma olhada na decoração do lugar, o que podia ser facilitado pela ausência de pessoas ali, e além do mais, não se importaria de ter um tempo para pensar consigo mesma, longe de qualquer possível barulho. O corredor escuro daquela ala era bastante sóbrio e Ada ficou surpresa, quando a porta do quarto foi aberta, por encontrar uma disposição bastante feminina de móveis e papeis de parede, claros e alegres.
– Era o quarto de minha irmã – foi a explicação sucinta de Holloway. Ele acendeu o candelabro da entrada, e depois acrescentou – Há roupas no armário, sinta-se livre para usa-las se tiver vontade.
Ada agradeceu automaticamente já que ainda estava impressionada com o quarto, e quando finalmente deu por si a porta já havia sido fechada. “Tudo bem”, pensou. E embora a jovem estivesse certamente curiosa para abrir as gavetas das belas cômodas e observar os detalhes dos tapetes e dosséis, já havia há algum tempo sido vencida pelo cansaço do dia (que parecia haver a alcançado num único golpe), então decidiu trocar de roupa e dormir sem pensar em mais nada – o que foi feito muito rapidamente. Ada caiu num sono muito profundo e com certeza não teria acordado nem mesmo se “as estrelas estivessem se desprendendo e caindo do céu”, como sua tia costumava dizer.
A jovem acordou no dia seguinte com o som das janelas de madeira rangendo. Ainda estava muito frio e o vento de lá de fora podia ser ouvido mesmo de dentro do quarto. Sentia-se bem melhor, mas não tinha ideia de quanto tempo havia dormido, ou se qualquer coisa importante havia acontecido durante a noite. Empurrou então as cortinas para encontrar um céu muito escuro e tempestuoso, o que dificultou sua tarefa de adivinhar as horas – aparentemente o clima dera poucos momentos de trégua desde o dia anterior. Deu então uma olhada mais calma no quarto, e como se já não estivesse suficientemente surpresa com a aparente idade dos móveis, descobriu um baú ainda mais velho, colocado num canto escuro da sala. “Olhe só!”, pensou ela, “isso deve ter mais de trezentos anos!”. Era definitivamente um item muito interessante. Ainda estava tentando convencer-se de que não deveria mexer no que não lhe pertencia quando, da janela, um gato cinzento pulou para dentro no quarto.
– Ora, outro gato – Ada resmungou para si mesma, estava começando a associar gatos com problemas. O animal encarou-a de maneira um tanto quanto familiar, e depois se deitou no tapete e enrolou-se perto da lareira apagada. “ Parece estar confortável”, pensou ela, e decidiu não importuna-lo. Na verdade, era melhor que ela saísse do quarto de uma vez, já que podia muito bem ter passado do meio-dia e ela não tinha ideia do que estava acontecendo do lado de fora.
No momento em que se viu no corredor, Ada por pouco não deu de encontro com Zimmerman, que vinha carregando uma bandeja de prata com xícaras e um bule em uma das mãos, de maneira bastante imprudente. Bons reflexos adquiridos no circo (como Ada julgou) o salvaram de uma possível catástrofe com as porcelanas.
– Bom dia, Srta. Elliot! – riu ele, reequilibrando a bandeja – Estamos com problemas com o café da manhã, mas pelo menos nosso convidado parece ter melhorado um pouco desde ontem, embora ainda esteja inconsciente. Estava indo justamente levar o chá para o quarto dele, mas há outro bule na sala de estar e algumas frutas secas, se estiver com fome – avisou ele – Holloway e Veronique saíram para dar uma olhada nos arredores do jardim, e aquele professor está dando voltas e mais voltas na mansão, anotando coisas em uma caderneta! – disse isso imitando, mais ou menos, Gideon em sua suposta observação, e apesar de Ada não poder desgrudar os olhos da bandeja, que parecia prestes a cair a qualquer momento, não pôde deixar de achar a cena engraçada — Mas não vão demorar, creio eu, já que o clima não está muito bom... – concluiu ele, dando de ombros e sorrindo.
Ada agradeceu-o e rumou para a sala de estar, onde pôde entender o que o mágico havia dito com “problemas com o café da manhã”. As frutas estavam bastante machucadas, como se houvessem sido colhidas há pouco tempo e o chá era simplesmente terrível. Não podia queixar-se, é claro, já que tinha sorte de estar sob um teto, mas também não pôde deixar de sentir-se surpresa. Não era algo que esperava numa casa aparentemente tão rica como aquela.
Ainda não havia terminado o chá quando ouviu alguém dizer alguma coisa em voz alta, vinda do corredor de Valentin.
– Alguém faça o favor de vir até aqui! – ouviu com clareza o segundo chamado, e dirigiu-se rapidamente para lá. Quando abriu a porta do quarto deu com Reinhardt arrumando os travesseiros do rapaz que, contrariando as previsões de Veronique, parecia estar se mexendo e balbuciando alguma coisa. O nobre explicou que Valentin havia começado a respirar mal alguns instantes atrás, e agora estava dizendo coisas inteligíveis. Disse que achava que seria bom levantar a cabeça do jovem com mais almofadas para ajuda-lo a respirar, e no instante seguinte Zimmerman chegava trazendo-as. Ada tentou ajudar a levantar com cuidado a cabeça do rapaz e, assim que o tocou, percebeu que estava ardendo em febre:
– Precisamos de um médico – falou seriamente – Não podemos deixa-lo assim por mais tempo!
– Tem toda a razão! – concordou Reinhardt, e Zimmerman parecia prestes a dizer algo também quando foi silenciado pelo próprio Valentin, que começou a revirar-se na cama, resmungando coisas sem significado num tom cada vez mais alto, até que, por algum motivo, as palavras desconexas começaram a apresentar algum sentido.
– Na vila... – sua voz ia ficando fraca a medida que falava, o som passava cortando por sua garganta e se interrompia a todo momento – ainda está lá...
Depois disso o rapaz se calou, sua respiração acalmou-se, e Valentin tornou-se praticamente imóvel. Todos estavam bastante chocados com aquele movimento inesperado, e só começaram a dar conta de si mesmos outra vez quando a fraca respiração do rapaz voltou a ficar constante. Ada por algum motivo lembrou-se do cocheiro na noite anterior, e sentiu um pouco de mal estar.
– Temos que encontrar um médico, e falar com a polícia – insistiu ela. Reinhardt assentiu, mas desabou-se na cadeira que instalara ao lado da cama para recompor-se. Zimmerman, entretanto suspirou:
– Temo que isso não seja possível – disse ele tristemente – Não conseguiremos sair daqui a tempo. Já vi isso antes, e infelizmente, posso imaginar como termina.
– Ora, o que está dizendo?! – inflamou-se Sir Reinhardt – Não sei o que há com vocês, mas não serei parado por histórias, sejam elas quais forem! Dê-me a bengala! – a última parte foi dirigida a Ada, mas como a garota tivesse reagido ao seu comando apenas levantando as sobrancelhas em uma expressão de surpresa, Reinhardt acrescentou ainda mais irritado – Com mil demônios, irei eu mesmo buscar um médico! – levantou-se da cadeira e mancou alguns passos para chegar ao objeto que procurava. Ada pegou a bengala no instante em que o homem ia alcança-la.
– Ora, até parece que vai conseguir chegar a algum lugar desse jeito! – disse ela, também séria, já dirigindo-se à saída do quarto – Eu mesma vou...
– Srta. Elliot! Espere! – Zimmerman interrompeu, fazendo-a virar-se outra vez – Estou dizendo, não há como sair! É mais sensato ficar e esperar, tenho certeza que pensaremos em alguma coisa! Sair só vai piorar a situação!
Ada encarou-o. Por mais difícil que pudesse parecer, sair não podia ser impossível! Além disso, ficar parada ali não resolveria coisa alguma. Zimmerman pareceu perceber o motivo do descontentamento da garota antes mesmo que ela dissesse alguma coisa, então suspirou e acrescentou:
– Bem, certo... – deu de ombros — Se é assim, irei com você.
Ada assentiu, embora não tivesse compreendido essa rápida mudança de opinião, e Sir Reinhardt ainda disse alguma coisa sobre acompanha-los — mas como todos estavam certos que com algum repouso seu tornozelo voltaria ao normal, e, como ainda precisavam de alguém para ficar de olho em Valentin — não demoraram a convencê-lo a ficar. Reinhardt também deveria avisar os outros para, caso Ada e Zimmerman não voltassem até o anoitecer, que fossem procura-los. A jovem então calçou suas botas e recolocou o casaco emprestado, e logo que ela e o mágico saíram da mansão, deram de encontro com o dono original do agasalho, subindo os degraus da entrada:
– Onde pensam que vão com um clima desses? – perguntou Gideon de bom humor, embora estivesse tendo alguma dificuldade para impedir que seus cadernos de anotações se abrissem e as folhas voassem com o vento. Quando foi avisado do estado de Valentin, ofereceu-se para seguir para a cidade com eles, aparentemente ignorando o próprio comentário sobre o tempo ruim. – Conheço uma ótima médica em Blanche! Estudamos na mesma universidade, vocês sabem, posso leva-los até lá. — disse.
Dessa forma os três entraram em acordo e saíram apressadamente pela mata. Do outro lado da floresta, nos arredores de Blanche, Madame Dolores expirava devido a uma febre súbita. Não havia dito uma única palavra que favorecesse os jornalistas ou que ajudasse a investigação da polícia.
Fale com o autor